
























 A Frana, em meados do sc. XVII  governada por Ana da ustria, viva de Lus XIII, e por seu ministro todo-poderoso, o Cardeal Mazarino. O pas, arrasado pela
Guerra dos Trinta Anos, atravessa momentos difceis, enquanto aguarda a maioridade de Lus XIV. A hostilidade surda entre catlicos e protestantes explode ao menor
pretexto. Os nobres conspiram, fazem e desfazem alianas, cobiando favores e privilgios. Nos povoados e aldeias, os camponeses vivem sobressaltados, ora atacados 
por bandoleiros, ora intimidados pelos coletores de impostos extorsivos.
 Bem longe da corte, na aldeola de Monteloup, Anglica, a filha predileta do bom e rstico Baro Armando de Sanc, vive no castelo em runas da famlia. Solta pelos 
campos, para os aldees  uma linda fada, a quem o futuro no preocupa. Para a famlia, por sua beleza excepcional, um trunfo a ser explorado.
  O pai a casa com o temvel Joffrey de Peyrac, conde de Toulouse, o homem mais poderoso do sul da Frana, mais rico e mais nobre que o prprio rei. Anglica no 
o conhece, mas dizem que  um feiticeiro, que tem pacto com o Demnio. Um bruxo visado pela Inquisio...
"Voc foi feita para amar ' suspira o trovador. "Seu corpo sedutor levar os homens  loucura!"

Anglica ia se casar.
  Um mistrio cercava a fortuna de seu futuro marido, o temvel Joffrey de Peyrac, conde de Toulouse. Tanto fausto, tanto esplendor ela no imaginara nem nos devaneios 
mais delirantes de mocinha pobre do interior. Naquele momento, parecia-lhe estar vivendo um sonho ameaador, em que se prenunciava um destino terrvel. O seu destino.
  Ainda h pouco, ela dera adeus ao velho castelo da famlia, aos amores da juventude,  suave existncia como Marquesa dos Anjos, doce ninfa dos pntanos e florestas 
de sua terra natal, Monteloup. Agora estava  merc daquele estranho que todos diziam ser um verdadeiro monstro, desfigurado e manco, um mago encantador de mulheres, 
acusado pela Inquisio de ter pacto com o Demnio.
  Em sua ingenuidade, Anglica no podia prever que o futuro lhe reservava uma existncia excepcional. Ela era uma dessas pessoas marcadas pela sorte: a quem os 
deuses dariam tudo, mas de quem tambm pediriam muito em troca...

Os Amores de Anglica
Anne e Serge Colon

Os Amores de Anglica
ANNE E SERGE GOLON


Ttulo: Os Amores de Anglica
Autor: ANNE E SERGE GOLON
Ttulo original: --
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1989
Gnero: Romance Histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida


MARQUESA DOS ANJOS (1645)

CAPITULO I

A infncia de Anglica no castelo campestre

 - Bab - perguntou Anglica -, para que Gil de Retz matava tantas crianas?
 - Para o Demnio, filhinha. Gil de Retz, o papo de Mache-coul, queria ser o senhor mais poderoso de seu tempo. Em seu castelo havia somente retortas, frascos e 
panelas repletos de caldos vermelhos e vapores espantosos. O Diabo pedia que lhe oferecessem em sacrifcio o corao de uma criaturinha. Assim tiveram incio os 
crimes. E as mes aterrorizadas apontavam com o dedo o negro torreo de Machecoul, rodeado de corvos, tantos eram os cadveres de crianas inocentes que havia em 
seus calabouos.
 - E ele comia todas? - perguntou, com voz trmula, Made-lon, a pequenina irm de Anglica.
-        No todas. No teria podido - respondeu a ama.
Curvada sobre o caldeiro em que o toucinho e a couve ferviam lentamente, mexeu a sopa alguns instantes em silncio.
 Hortnsia, Anglica e Madelon, as trs filhas do Baro de Sanc de Monteloup, de colher em punho junto a suas scudelas, esperaram ansiosamente o prosseguimento 
da histria.
 -        Havia algo pior que com-las - continuou por fim a ama, com voz amarga. - Primeiro fazia levar  sua presena o pobrezinho ou a pobrezinha, que, tremendo 
de medo, gritava por sua me. O senhor, deitado em seu leito, rejubilava-se com o pavor da criaturinha. Depois, mandava pendur-la na parede, em uma espcie de forca 
que lhe ia apertando o peito e o pescoo, estrangulando-a, embora no o bastante para mat-la. A criana estrebuchava como um frango pendurado, seus gritos se extinguiam, 
os olhos esbugalhavam-se e ela se tornava azul. Na grande sala no se ouviam se no os risos dos homens cruis e os gemidos da pequena vtima. Ento, Gil de Retz 
mandava dependur-la, punha-a sentada sobre os joelhos e apoiava ao peito a fronte do pobre anjinho. Falava-lhe com doura. "No foi nada", dizia. "S queramos 
divertir-nos, mas j terminou." Iam dar-lhe doces, teria um formoso leito com colcho de penas, uma roupa de seda como a de um pajenzinho. A criana se tranqilizava. 
Um brilho de alegria cintilava em seus olhos cheios de lgrimas. Ento o senhor, subitamente, enterrava-lhe a adaga no pescoo. O mais espantoso, porm, era quando 
raptavam moas novas.
-        Que lhes fazia? - perguntou Hortnsia.
 Foi a que interveio o velho Guilherme, que, sentado a um canto, junto ao fogo, picava um pedao de fumo. Resmungou com sua barba amarelada:
 -        Cale-se, velha louca! At mesmo a mim, que sou um guerreiro, voc me agita o corao com suas histrias fantsticas.
A rude Fantina Lozier retrucou-lhe com vivacidade:
 - Histrias fantsticas!... V-se logo que voc no nasceu no Poitou, Guilherme Ltzen. Basta caminhar um pouco em direo a Nantes e logo encontrar o castelo 
maldito de Machecoul. J faz dois sculos que se cometeram os crimes e, no entanto, as pessoas que passam pelas redondezas ainda se benzem. Mas voc no  desta 
terra e nada sabe de seus antepassados.
- Belos antepassados, se todos forem como o seu Gil de Retz!

 - Gil de Retz foi to grande no mal que nenhuma terra alm do Poitou pode orgulhar-se de ter tido um criminoso como ele. E quando morreu, julgado e condenado em 
Nantes, mas batendo no peito, confessando sua culpa e pedindo perdo a Deus, todas as mes cujos filhos ele havia torturado e comido puseram luto por ele.
- Isso, sim,  que  grandioso! - exclamou o velho.
 - Assim somos ns, do Poitou. Grandes no mal, grandes no perdo!
 Carrancuda, a ama disps as panelas sobre a mesa e abraou com ardor o pequeno Dionsio.
 -         verdade - disse - que fui pouco  escola, mas sei distinguir entre uma histria para espantar o sono e uma narrativa dos tempos antigos. Gil de Retz 
foi um homem que existiu de verdade. Sua alma talvez ainda erre por perto de Machecoul, mas seu corpo apodreceu nesta nossa terra. Por isso no se pode falar dele 
frivolamente, como das fadas e dos duendes que passeiam entre as grandes pedras dos campos. Tambm no  conveniente troar demasiado de tais espritos malignos...
 - E dos fantasmas, minha b, pode-se troar? - perguntou Anglica;
 -  melhor no troar, querida. Os fantasmas no so maus, mas a maioria deles so tristes e desconfiados, e para que aumentar com zombarias os tormentos desses 
infelizes?
- Por que chora a velha senhora que aparece no castelo?
 - Quem pode saber? A ltima vez que me encontrei com ela, h seis anos, entre a antiga sala da guarda e o grande corredor, pareceu-me que j no chorava, talvez 
graas s preces que o av de vocs mandou rezar por sua alma na capela.
- Eu ouvi seus passos na torre - afirmou Nanette, a criada.
 - Devia ser um rato. A velha dama de Monteloup  discreta e no quer fazer mal a ningum. Talvez tenha sido cega, pois sempre estende a mo para a frente como se 
procurasse tatear. Ou ento procura alguma coisa. s vezes aproxima-se das crianas adormecidas e passa-lhes a mo no rosto.
A voz de Fantina tornava-se lgubre.
- Quem sabe se no procura alguma criana morta?
 - Boa mulher, voc tem o esprito mais macabro que a vista de um ossrio - voltou a protestar pai Guilherme. - E possvel que seu senhor de Retz, do qual tanto 
se orgulha de ser conterrnea, a dois sculos de distncia, seja um grande homem e que a senhora de Monteloup seja muito respeitvel, mas afirmo-lhe que no fica 
bem perturbar estas crianas, j to assustadas que se esquecem de comer.
 - Voc se faz agora sensvel, grosseiro soldado, assecla do Demnio! Quantos ventres de criaturas como essas no ter atravessado com sua lana quando servia o 
imperador da ustria nos campos da Alemanha, da Alscia e da Picardia? Quantas palhoas no incendiou, fechando a porta para torrar l dentro a famlia toda? Nunca 
enforcou nenhum aldeo? Foram tantos que at se gastaram os ramos das rvores! E as mulheres e as moas, no as violou at mat-las de vergonha?
 - Como todo mundo, como todo mundo, boa mulher. Essa e a vida do soldado. Isso  a guerra. Mas a vida dessas crianas que aqui vemos  feita de brincadeiras e de 
histrias alegres.
 - -        At o dia em que passarem pelo povoado os soldados e os bandidos, como nuvens de gafanhotos. Ento, a vida das crianas se converter na vida do soldado, 
da guerra, da misria e do medo...
 Amargurada, a ama destampava uma grande panela de barro cheia de pat de lebre, e passava manteiga em fatias de po que distribua em volta, sem esquecer o velho 
Guilherme.  - Esta que lhes fala... eu, Fantina Lozier... escutem-me, filhas...
 Hortnsia, Anglica e Madelon, que haviam aproveitado a discusso para esvaziar suas escudelas, levantaram de novo a cabea, e Gontran, seu irmo de dez anos, saiu 
do canto escuro em que estava amuado e aproximou-se da mesa. Havia chegado a hora da guerra e dos saques, da soldadesca e dos bandidos, tudo confundido no mesmo 
claro vermelho dos incndios, no retinir das espadas, nos gritos lancinantes das mulheres...
 - Guilherme Ltzen, voc conhece meu filho, que  carroceiro do nosso amo, o Baro de Sanc de Monteloup, aqui mesmo, neste castelo?
- Conheo.  um belo rapaz.
 - Pois tudo o que posso dizer de seu pai  que fazia parte dos exrcitos do Sr. Cardeal de Richelieu, quando este se dirigia para La Rochelle a fim de exterminar 
os protestantes. Eu no era huguenote, e sempre rezara  Virgem Santssima para conservar a castidade at o casamento. Mas, depois que as tropas do nosso cristianssimo 
Rei Lus XIII passaram pela regio, o mnimo que posso dizer  que havia deixado de ser donzela. E dei a meu filho o nome de Joo Couraa, em memria de todos aqueles 
demnios, um dos quais  seu pai, cujas couraas cheias de cravos rasgaram a nica camisa que eu possua naquele tempo... E quanto aos saqueadores e bandidos que 
a fome atirou tantas vezes nos caminhos, poderia manter vocs acordados a noite inteira contando o que me fizeram entre a palha do celeiro, enquanto queimavam os 
ps de meu homem no fogo da lareira para faz-lo confessar onde guardava as economias.  eu supunha, pelo cheiro, que assavam o porco.
 Ao record-lo, a grande Fantina ps-se a rir; depois bebeu gua de p de ma para refrescar a lngua, que havia secado de tanto ela falar.
 Assim, a vida de Anglica de Sanc de Monteloup teve incio sob o signo do Ogro, dos fantasmas e dos saqueadores.
 A ama tinha nas veias um pouco daquele sangue mouro que os rabes levaram, pelo sculo XI, at os umbrais do Poitou. Anglica mamara aquele leite de paixo e de 
sonhos em que se concentrava o antigo esprito de sua provncia, terra de pntanos e de bosques, aberta como um golfo aos tpidos ventos do oceano.
 Assimilara confusamente um mundo de dramas e de histrias de fadas. Tinha tomado gosto por ele e adquirido uma espcie de imunidade contra o medo. Olhava com pena 
para sua irm mais nova, Madelon, que tremia, ou para a mais velha, Hortnsia, muito reservada, e que, no entanto, morria de desejo de perguntar  ama o que lhe 
haviam feito os bandidos entre a palha do celeiro.
 Anglica, aos oito anos, adivinhava muito bem o que havia sucedido no palheiro. Quantas vezes no havia levado a vaca ao touro ou a cabra ao bode? E seu amigo, 
o pastorzinho Nicolau, explicara-lhe que, para ter filhos, os homens e as mulheres faziam o mesmo. Fora assim que a ama tivera Joo Couraa. Mas o que intrigava 
Anglica era que, ao falar de tais coisas, a ama adotava, s vezes, uma entonao lnguida e de xtase, e outras a do horror mais sincero.
 Mas no era necessrio procurar compreender a ama, seus silncios, seus arroubos de clera. Era suficiente que estivesse ali, grandalhona, sempre em movimento, 
com seus braos robustos, seu regao amplo formado pela saia de fusto, e que nele acolhesse as crianas como passarinhos, para entoar-lhes uma cantiga de ninar 
ou falar-lhes de Gil de Retz.
 Mais simples era o velho Guilherme Ltzen, que falava com uma voz lenta de acento spero. Diziam que era suo ou alemo. H quinze anos o haviam visto chegar, 
coxeando e descalo, pela estrada romana que vai de Angers at St. Jean d'Angly. Entrou no Castelo de Monteloup e pediu uma escudela de leite. E ali ficou como 
criado para tudo: ferreiro, carpinteiro, correio do Baro de Sanc, que o mandava levar suas cartas aos amigos e o encarregava de receber o agente fazendrio quando 
vinha cobrar os impostos. O velho Guilherme escutava-o com muita calma e respondia-lhe no seu dialeto de montanhs suo ou tirols, e aquele funcionrio acabava 
indo embora desacoroado.
 Tinha vindo dos campos de batalha do norte ou do leste? E por que motivo aquele mercenrio estrangeiro parecia proceder da Bretanha quando o encontraram? Tudo quanto 
sabiam dele era que havia estado em Ltzen sob as ordens do Condottiere Wallenstein e que havia tido a honra de atravessar a pana do gordo e magnfico rei da Sucia, 
Gustavo Adolfo, quando este, perdido na neblina, no decorrer da batalha, esbarrou com os lanceiros austracos.
 No sto em que habitava viam-se brilhar ao sol, entre as teias de aranha, sua velha armadura e seu capacete, no qual continuava bebendo seu vinho quente e, s 
vezes, tomava a sopa. Sua imensa lana, trs vezes mais alta que ele, servia-lhe para "sacudir as nogueiras no tempo da colheita.
 Mas, acima de tudo, Anglica invejava-lhe o pequeno picador de fumo. Era de concha marchetada, e Guilherme chamava-o sua grivoise, segundo o hbito dos militares 
alemes a servio da Frana, que recebiam a alcunha de grivois.
 Na vasta cozinha do castelo, aps o anoitecer, as portas que davam para fora no paravam de se abrir e fechar; e por elas entravam, com um forte cheiro de estrume, 
criados, criadas e o carroceiro Joo Couraa, to trigueiro como sua me.
 Tambm apareciam os ces, os dois lebrus Marte e Manjerona e os basss enlameados at os olhos.
 Do interior do castelo, as portas davam acesso  graciosa Nanette, que se exercitava como aia, esperando aprender boas maneiras para deixar seus amos pobres e ir 
servir em casa do Sr. Marqus du Plessis de Bellire, a pequena distncia de Monteloup. Iam e vinham tambm os dois criadinhos, a grenha sobre os olhos, carregando 
lenha para a sala grande e gua para os quartos. Depois aparecia a baronesa. Tinha o rosto suave, desgastado pelo ar do campo e pelos numerosos partos. Trajava-se 
de sarja cinza e capuz de l negra, porque a atmosfera da sala grande, onde sempre estava com o sogro e as duas cunhadas, era mais mida que a da cozinha.
 Perguntava se logo estaria pronta a tisana do senhor baro e se o beb tinha mamado sem problemas. De passagem, acariciava as faces de Anglica, meio adormecida, 
e cujos longos cabelos de ouro escuro se estendiam sobre a mesa e brilhavam ao claro da lareira.
-  hora de dormir, filhinhas. Pulquria vos levar para a cama.
 E Pulquria, uma das velhas tias, se apresentava sempre dcil. Assumira por vontade o papel de governanta de suas pequenas sobrinhas, pois no havia encontrado 
marido nem convento que a quisesse receber sem dote, e, como fazia algo til em vez de passar o dia gemendo e bordando tapearia, tratavam-na com certo desprezo 
e com menos ateno que  outra tia, a gorda Joana.
 Pulquria reunia as sobrinhas. As amas agasalhariam as menores, e Gontran, o menino sem preceptor, iria, quando bem o quisesse, deitar-se em sua enxerga no ltimo 
andar.
 Acompanhando a magra solteirona, Hortnsia, Anglica e Madelon chegavam  sala do castelo, onde a lareira e trs velas no dissipavam inteiramente o amontoado de 
sombras acumulado pelos sculos sob as altas abbadas medievais. Estendidos pelas paredes, alguns tapetes tentavam proteg-las da umidade, mas eram to velhos e 
estavam to bichados que mal se distinguiam, nas cenas que representavam, os olhos espantados das lvidas personagens que pareciam vigiar atentamente com ar severo.
 As meninas faziam uma reverncia ao senhor seu av. Estava este sentado em frente ao fogo, com seu casaco negro guarnecido de peles quase sem plos. Mas suas brancas 
mos, apoiadas no cas-to da bengala, eram mos de rei. Cobria-se com um grande chapu de feltro negro, e sua barba, quadrada como a do finado Rei Henrique IV, descansava 
sobre uma pequena gola pregueada, que parecia a Hortnsia, embora ela se abstivesse de diz-lo, completamente fora de moda.
 Outra reverncia a tia Joana, cujos lbios mal-humorados no se dignavam sorrir, e logo subiam a grande escada de pedra, mida como uma gruta. Os quartos de dormir 
eram gelados no inverno, mas frescos no vero. No entravam neles seno para meter-se na cama. Aquela em que dormiam as trs meninas reinava como um monumento no 
canto de um aposento devastado, cujos mveis tinham sido vendidos no decurso das ltimas geraes. As lajes do piso, cobertas de palha durante o inverno, estavam 
quebradas em muitos lugares. Para dar acesso ao leito havia um escabelo de trs degraus. Depois de vestirem a camisola e a touca de dormir e de se haverem ajoelhado 
para dar graas a Deus pelos benefcios recebidos, as trs mocinhas de Sanc de Monteloup subiam para seus colches de boa pluma e se enrodilhavam entre as cobertas 
esburacadas. Anglica procurava imediatamente o furo do lenol correspondente ao do cobertor e por ele passava o p cor-de-rosa, mexendo os dedos para fazer rir 
Madelon.
 A pequena tremia como um coelho ao recordar as histrias que a ama contara. Hortnsia tambm, mas no dizia nada porque era a mais velha. Somente Anglica saboreava 
com prazer exaltado aquele temor. A vida era feita de mistrios e de descobertas. Ouviam-se os ratos roendo o madeirame e as corujas revoando nos telhados das duas 
torres, soltando pios agudos. Os lebrus ganiam nos ptios e um mulo da pradaria vinha coar-se contra a muralha.
 As vezes, nas noites de nevada, ouviam-se os uivos dos lobos que desciam da selvagem floresta de Monteloup em busca de lugares habitados. Tambm chegavam ao castelo, 
desde as primeiras noites da primavera, as cantigas dos aldees, que davam alguma festa ao luar...
 Uma das muralhas do Castelo de Monteloup deitava para os pntanos. Era a parte mais antiga, construda por um antigo senhor de Ridou de Sanc, companheiro de Du 
Guesclin no sculo XII. Era flanqueada por duas grossas torres, com caminhos de ronda cobertos de madeira, e quando Anglica subia at l com Gontran ou Dionsio 
divertiam-se cuspindo nos balestreiros por onde os soldados da Idade Mdia haviam despejado baldes de azeite fervendo sobre os assaltantes. As muralhas surgiam de 
um pequeno promontrio de calcrio, alm do qual comeavam os pntanos. Nos velhos tempos dos primeiros homens, o mar chegava at ali. Ao retirar-se, deixou um aranhol 
de rios, canais e lagoas, que agora estavam cobertos por uma trama de ervas e salgueiros, domnio das enguias e das rs, no qual os aldees no circulavam seno 
em canoas. As aldeias e as choas isoladas eram construdas sobre as ilhas do antigo golfo. Havendo percorrido aquela provncia das guas, o Sr. Duque de Ia Trmoille, 
que em certo vero foi hspede do Marqus du Plessis e tinha a mania do exotismo, deu-lhe o nome de Veneza Verde.
 A vasta plancie lquida, o pntano doce, estendia-se desde Niort e Fontenay-le-Comte at o oceano. Juntava-se um pouco antes de Marans, de Chaill e mesmo de Luon 
com os pntanos amargos, isto , as terras ainda salgadas. Depois j era a verdadeira praia, com sua alva barreira de sal precioso, disputado avidamente por guardas 
alfandegrios e contrabandistas.
 Se a ama no costumava contar as histrias dos agentes aduaneiros em sua luta com os contrabandistas de sal, as quais apaixonavam todo o pntano, era porque tinha 
nascido em terra firme e jactava-se de desprezar as pessoas que viviam com os ps dentro da gua, e que, alm do mais, eram protestantes.
 Pelo lado da terra o Castelo de Monteloup apresentava uma fachada mais moderna, com inmeras janelas. Somente uma velha ponte levadia, de correntes enferrujadas, 
e ocupada por galinhas e perus, separava a entrada principal da pradaria em que pastavam os muares. A direita havia o pombal senhorial, com sua cobertura de telhas 
redondas, e uma das fazendas cultivadas por um meeiro. As outras ficavam para alm do fosso. Mais adiante via-se o campanrio da aldeia de Monteloup.
 Depois comeava a floresta espessa de carvalhos e castanheiros. Essa mata podia conduzir, sem a menor clareira, at o norte da Gtine e do Bocage vendeano, e quase 
at o Loire e o Anjou, a quem se dispusesse a atravess-la de lado a lado sem medo dos lobos e salteadores.
 O bosque de Nieul, o mais prximo, pertencia ao senhor do Plessis. Os habitantes de Monteloup a faziam pastar os seus porcos e estavam sempre envolvidos em disputa 
com o administrador do marqus, um tal Molines, de mos rapaces. Tambm andavam por ali alguns fabricantes de tamancos, carvoeiros e uma bruxa, a velha Melusina. 
Esta, no inverno, por vezes saa do bosque e se aproximava para beber uma escudela de leite nas casas do povoado, em troca de algumas plantas medicinais.
 Seguindo-lhe o exemplo, Anglica recolhia flores e razes, punha-as para secar, fervia-as, triturava-as e metia-as em saquinhos num esconderijo que s o velho Guilherme 
conhecia. Pulquria esganiava-se horas inteiras chamando-a, e ela no aparecia.
 As vezes Pulquria chorava, quando pensava em Anglica. Via nela o malogro no apenas do que pensava ser uma educao tradicional, mas tambm de sua raa e nobreza, 
que iam perdendo toda a dignidade por causa da pobreza e da misria.
 Ao romper da aurora, a menina escapulia, cabelos ao vento, vestida com uma camisa, um ralo corpete e uma saia desbotada, e seus ps, midos como os de uma princesa, 
eram duros como cornos, porque escondia o seu calado na primeira moita que aparecesse, para correr mais depressa. Se a chamavam, voltava um pouco o rosto redondo 
e dourado pelo sol, no qual cintilavam dois olhos verde-azulados, da mesma cor de uma planta que cresce nos pntanos e tem o seu nome.
- Deveriam mand-la para um convento - gemia Pulquria.
 Mas o Baro de Sanc, taciturno e rodo de preocupaes, encolhia os ombros. Como poderia mandar para o convento sua segunda filha, quando no podia mandar nem 
a maior, pois tinha somente quatro mil libras de renda por ano e precisava dar quinhentas para a educao de seus dois filhos mais velhos nos agos-tinianos de Poitiers?
 Para o lado dos pntanos, Anglica tinha um amigo: Valentim, o filho do moleiro.
 Do lado dos bosques, seu amigo era Nicolau, um dos sete filhos de um lavrador e que j era pastor a servio do Sr. de Sanc.
 Com Valentim andava de barco, percorrendo os canais margeados de miostis, hortels e anglicas. Valentim colhia braadas dessa planta alta, espessa e de cheiro 
esquisito, e ia logo vend-la aos monges da abadia de Nieul, que fabricavam com suas razes e flores um licor medicinal, e doces com os talos. Em troca, os monges 
lhe davam escapulrios e teros, de que se servia para lan-los  cabea dos meninos das aldeias protestantes, que fugiam em algazarra como se o prprio Demnio 
lhes tivesse cuspido no rosto. Seu pai, moleiro, deplorava aquelas faanhas. Embora catlico, vangloriava-se de ser tolerante. E que necessidade tinha o filho de 
comerciar braadas de anglicas quando recebia como herana o posto de moleiro e no precisava seno instalar-se no cmodo moinho, edificado sobre pilotis  beira 
da gua?
 Mas Valentim era um rapaz difcil de se compreender. Corado, hercleo j aos doze anos, mais silencioso que uma carpa, tinha o olhar vago, e as pessoas que invejavam 
o moleiro diziam que era meio idiota.
 Nicolau, o pastor, tagarela e gabolas, levava Anglica a recolher cogumelos, amoras e mirtilos. Ia com ela tambm apanhar castanhas. No bosque, fazia para a pequena 
flautas com ramos de ave-leira, que tornava ocos.
 Os dois rapazes sentiam reciprocamente cimes mortais dos favores de Anglica. J era to bonita que os aldees a olhavam como viva personificao das fadas que 
habitavam o grande dlmen do campo feiticeiro.
Ela alimentava idias de grandeza.
- Sou marquesa - declarava a quantos quisessem ouvi-la.
- Ah, sim? E por qu?
- Porque me casei com um marqus - respondia.
O "marqus" era tanto Valentim como Nicolau ou qualquer um dos vadios, to inofensivos como passarinhos, que levava atrs de si pelos prados e bosques.
Dizia tambm com muita graa:
- Sou Anglica; conduzo  guerra os meus anjinhos.
Da proveio seu apelido: a Marquesinha dos Anjos.
 No incio do vero de 1648, quando Anglica completou onze anos, a ama Fantina ps-se a esperar os soldados e saqueadores. A regio, contudo, parecia em paz, mas 
a ama, que adivinhava tantas coisas, "farejava" os bandidos no calor daquele estio sufocante. Vivia com o rosto voltado para o norte, na direo da estrada real, 
como se o vento carregado de poeira lhes houvesse trazido o odor.
 Bastavam-lhe muito poucos indcios para saber o que se passava a distncia, no somente na regio, mas em toda a provncia e at em Paris.
 Depois de haver comprado ao mascate da Auvergne um pouco de cera e algumas fitas, era capaz de informar o senhor baro acerca das novidades mais importantes que 
se relacionassem com a vida do reino da Frana.
 Ia ser criado um novo imposto; estava sendo travada uma batalha em Flandres; a rainha-me j no sabia o que inventar para arranjar dinheiro a fim de satisfazer 
os prncipes ambiciosos. Ela mesma, a soberana, enfrentava as suas dificuldades, e o rei de cachos louros usava calas demasiado curtas, bem como seu irmozinho, 
a quem chamavam Petit Monskur, visto que seu tio, Monsieur, irmo do Rei Lus XIII, era vivo ainda.
 Entretanto, o Cardeal Mazarino acumula bibels e quadros da Itlia. A rainha o ama. O Parlamento de Paris no est satisfeito. Ouve o clamor dos pobres, camponeses, 
arruinados pelas guerras e pelos impostos. Em suas carruagens, paramentados com trajes magnficos, forrados de arminho, os senhores do Parlamento se transportam 
ao Palcio do Louvre, onde vive o reizinho, agarrado com uma das mos  saia negra de sua me espanhola e com a outra  batina vermelha do Cardeal Mazarino, o italiano.
 Explicam queles figures, que no sonham seno com poder e riquezas, que o povo no pode pagar mais, que os burgueses j no podem comerciar, que todos esto cansados 
de pagar tributos ate sobre o mais nfimo dos seus bens. Ser que no se vai pagar, em breve, at sobre a escudela em que se come? A rainha-me no esta contente. 
Nem o Sr. Mazarino. Ento os grandes senhores conduzem o reizinho ao seu trono no Parlamento. Com voz bem timbrada, embora vacilando um pouco ao repetir a lio 
que lhe fora ensinada, responde quelas graves personagens que  preciso dinheiro para os exrcitos, para a paz que se vai firmar muito em breve. Falou o rei. O 
Parlamento curva-se. Vai-se criar novo imposto. Os intendentes das provncias vo pr em ao os seus coletores. Os coletores vo ameaar. A boa gente vai suplicar, 
chorar, empunhar suas foices para matar os recebedores, vai lanar-se aos caminhos para juntar-se s tropas dispersas, viro os bandidos... Ouvindo a ama, ningum 
poderia crer que aquele bufarinheiro embrutecido houvesse podido contar-lhe tantas coisas. Atribuem  imaginao o que era adivinhao. Uma palavra, uma sombra, 
a passagem de um mendigo demasiado atrevido, de um mercador inquieto, punham-na no caminho da verdade. Pressentia os bandidos no calor violento daquele belo vero 
de 1648 e, como ela, Anglica os esperava...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 CAPTULO II
 
 Os saqueadores
 
 Naquela tarde, Anglica tinha resolvido ir apanhar caranguejos com o pastor Nicolau.
 Galopara, sem aviso prvio, para a cabana dos Merlot, pais de Nicolau. A aldeola em que habitavam, de trs ou quatro casebres, estava situada na orla da grande 
floresta de Nieul. As terras que cultivavam pertenciam, contudo, ao Baro de Sanc.
 Reconhecendo a filha do amo, a camponesa levantou a tampa do caldeiro sobre o fogo e ps na sopa um pedao de toucinho para melhorar seu sabor.
 Anglica ps sobre a mesa uma ave, que acabara de torcer o pescoo no ptio do castelo. No era a primeira vez que se fazia convidar daquela maneira em casa de 
um ou outro campons, e nunca deixava de oferecer um presentinho, pois os casteles eram quase os nicos que possuam, na regio, pombal e galinheiro, por direito 
senhorial.
 O homem sentado perto do fogo comia po preto. Francina, a filha mais velha, aproximou-se de Anglica e beijou-a. Tinha dois anos mais que ela, mas, encarregada, 
havia muito, de cuidar dos menores e de trabalhar no campo, no podia ir pescar caranguejos nem buscar cogumelos, como seu vagabundo irmo Nicolau. Era amvel e 
polida, tinha belas faces rosadas e frescas, e a Sra. de Sanc desejava t-la como aia em substituio a Nanette, que a desconcertava com sua insolncia.
Depois de comerem, Nicolau levou Anglica.
- Venha ao estbulo, vamos buscar a lanterna.
Saram. A noite estava muito escura porque a tempestade ameaava ainda. Anglica recordou mais tarde que tinha virado o rosto em direo  estrada romana que passava 
a meia lgua dali e que lhe parecera ouvir um vago rumor. O bosque ainda estava mais escuro.
 - No tenha medo dos lobos - disse Nicolau. - No vero no vm at aqui.
- No tenho medo.
 Chegaram logo ao regato e colocaram os cestos com uma isca de toucinho no fundo da gua. Puxavam-nos de quando em quando, escorrendo gua e carregados de caranguejos 
azuis, que a luz havia atrado, e os despejavam numa cesta que tinham trazido para esse fim. Anglica no pensava que os guardas do Castelo do Plessis poderiam surpreend-los 
e que se armaria um escndalo ao descobrir-se que uma das filhas do Baro de Sanc andava pescando furtivamente  noite com um valdevinos.
De repente ela se levantou, e Nicolau fez o mesmo.
- No ouviu nada?
- Ouvi. Gritaram.
 Os dois jovens ficaram imveis um instante e depois voltaram a seus cestos. Mas estavam preocupados e logo tornaram a abandonar a pescaria.
- Desta vez ouo bem. Gritam l embaixo.
-  do lado da aldeia.
 Rapidamente Nicolau recolheu os apetrechos de pesca e ps a cesta s costas. Anglica pegou a lanterna. Voltaram caminhando sem rudo por uma trilha coberta de 
musgo. Quando se aproximavam da beira do bosque, imobilizaram-se subitamente. Um claro vermelho penetrava por entre as rvores e iluminava os troncos.
- No ... que est amanhecendo? - murmurou Anglica.
- No.  fogo!
 - Meu Deus! Vamos ver se no  a sua casa que se est incendiando. Vamos depressa!
Mas ele a deteve.
-        Espere! Gritam demais para um incndio. Deve ser outra coisa.
Avanaram devagarinho at as primeiras rvores. Adiante, um grande prado em declive descia at a primeira casa, que era a dos Merlot, e quinhentas varas mais longe 
agrupavam-se,  beira do caminho, as outras trs casinhas. Uma delas era a que ardia. As chamas que saam do teto iluminavam uma multido movimentada de homens que 
gritavam e corriam, entravam nas cabanas e delas saam carregados de presuntos ou puxando vacas e asnos. Vinham da estrada romana e corriam pela ruazinha vazia, 
como um rio caudaloso e negro. A onda eriada de paus e lanas passou por cima da granja dos Merlot, submergiu-a e continuou em direo de Monteloup. Nicolau ouviu 
sua me gritar. Soou um tiro de arma de fogo. Era o pai Merlot, que tivera tempo de despendurar seu velho mosquete e carreg-lo. Mas pouco depois o arrastaram at 
o quintal, como um saco, e o mataram a pauladas.
 Anglica viu uma mulher em camisa, que atravessava o ptio de uma das casinhas e procurava fugir; gritava e soluava. Vrios homens a perseguiam. A mulher tentava 
chegar ao bosque. Anglica e Nicolau retrocederam e, de mos dadas, fugiram tropeando nos espinheiros.
 Quando voltaram, fascinados a contragosto pelo incndio e por aquele alarido uniforme que se elevava no meio da noite, viram que os perseguidores haviam alcanado 
a mulher e a arrastavam pela pradaria.
-         Paulina - cochichou Nicolau.
 Apertados um contra o outro, por trs do tronco de um enorme carvalho, contemplavam arquejantes, com olhos esbugalhados, o horrvel espetculo.
-        Levaram nosso asno e nosso porco - disse ainda Nicolau.
Chegou a aurora, fazendo esmaecer os fulgores do incndio, que j se extinguia. Os bandidos no tinham incendiado as outras casinhas. A maior parte deles no se 
havia detido naquele povoado sem importncia. Os homens haviam seguido para Monteloup. Os que se haviam encarregado de saquear as quatro casas j abandonavam o teatro 
de suas proezas. Viam-se suas roupas esfarrapadas, suas caras magras e sombreadas pelas barbas. Alguns usavam grandes chapus de plumas, e um deles uma espcie de 
capacete que podia faz-lo passar por militar. Mas a maior parte ia vestida com roupa sem forma nem cor. Envoltos na neblina da madrugada que subia dos pntanos, 
chamavam uns aos outros. J no eram mais de quinze. Um pouco alm da casa dos Merlot fizeram alto para verificar o botim. Por seus gestos e modo de discutir via-se 
que o achavam escasso: alguns lenos e lenis encontrados nos bas, panelas, pes, queijos. Um deles mordia um presunto. Os animais roubados iam na frente. Os ltimos 
saqueadores reuniram em dois ou trs embrulhos os pobres objetos recolhidos e afastaram-se sem ao menos voltar a cabea.
 Anglica e Nicolau tardaram a abandonar o refgio das rvores. J o sol brilhava e fazia cintilar o orvalho dos prados, quando se arriscaram a descer at o lugarejo 
agora estranhamente silencioso.
 Ao se aproximarem da granja dos Merlot, ouviram um choro de criana.
 -         meu irmozinho - cochichou Nicolau. - Ele, pelo menos, no morreu.
 Receando a presena de algum bandido retardatrio, entraram silenciosamente no quintal. Iam de mos dadas e detinham-se quase a cada passo. Deram primeiro com o 
pai Merlot, o nariz enterrado no estreo. Nicolau inclinou-se e procurou levantar a cabea de seu pai.
-        Responda, papai, o senhor est morto?
Levantou-se.
 -        Creio que est morto. Olhe como est branco, ele que era to corado.
 Na casinhola, o garotinho se esganiava. Sentado sobre o leito revolto, agitava as mozinhas, assustado. Nicolau correu para ele e tomou-o nos braos.
-        Graas, Virgem Santa! O garoto no tem nada.
 Anglica, com os olhos arregalados, olhava para Francina. A moa achava-se estendida no solo, branca, com os olhos cerrados. Tinha a saia levantada at o ventre 
e o sangue lhe corria entre as pernas.
 -        Nicolau - murmurou Anglica com voz estrangulada -, que... que lhe fizeram?
 Nicolau olhou e uma terrvel expresso envelheceu-lhe o semblante. Voltou os olhos para a porta e rosnou:
-        Malditos, malditos!
Com gesto brusco entregou o menino a Anglica.
-        Segure-o.
 Ajoelhou-se perto da irm e desceu pudicamente a saia estraalhada.
-        Francina, sou eu, Nicolau. Responda, voc est morta?
Vinham lamentos do estbulo prximo. Apareceu a me, gemendo e curvada.
-         voc, filho? Ah! meus pobres filhos, meus pobres filhos! Que desgraa! Levaram o asno e o porco, e nossa pequena economia de escudos. Bem que eu dizia 
ao meu homem que era preciso enterr-los!
- Di muito, mame?
 - A mim pouco importa, filho. Sou mulher, j passei por outras. Mas minha Francina, a pobrezinha, que  to sensvel, so capazes de t-la assassinado.
Acalentava a filha ns braos robustos de camponesa e chorava.
-        Onde esto os outros? - perguntou Nicolau.
 Depois de prolongada busca terminaram por encontrar as trs crianas, um menino e duas meninas, na ucha, onde se haviam escondido enquanto os salteadores, aps 
roubarem o po, se entretinham em violar sua me e sua irm.
 Um vizinho veio saber notcias. Reuniram-se os infortunados habitantes do lugar para fazer a avaliao de suas desditas. Tinham de chorar somente dois mortos: o 
pai Merlot e um velho que tambm procurara usar seu mosquete. Os outros camponeses tinham sido amarrados a cadeiras, depois de terem sido esbordoados sem crueldade 
excessiva. No haviam degolado nenhuma criana, e um dos meeiros tinha conseguido abrir a porta do estbulo para soltar suas vacas, que fugiram e sem dvida seriam 
encontradas. Mas quanto tecido e quanta roupa foram roubados! Quantos vasos de estanho, que enfeitavam a lareira, haviam desaparecido! E os queijos, e os presuntos, 
e at aquele dinheiro, to escasso, to contado!
Paulina continuava chorando e gritando.
- Seis se aproveitaram de mim!
 - Cale-se! - disse brutalmente o pai. - Sei quem voc , e, como gosta de esconder-se com os rapazes nos matos, acho at que aproveitou. No entanto, a nossa vaca 
estava prenhe! Terei mais dificuldade para ach-la do que voc para encontrar um amante!
 - Precisamos sair daqui - disse a me Merlot, que continuava com Francina desmaiada nos braos. - Talvez venham outros por a.
 - Vamos para o bosque com os animais que sobraram. J fizemos isso quando passaram os exrcitos de Richelieu.
- Vamos para Monteloup.
-        Para Monteloup! Com certeza eles j esto l.
--Vamos para o castelo - disse um.
Todos aprovaram incontinenti.
O instinto ancestral arrastava-os para a casa senhorial, em busca da proteo do amo, que, no decorrer dos sculos, tinha estendido sobre seus trabalhos a sombra 
de suas muralhas e de seu torreo.
 Anglica, que apertava a criana entre os braos, sentiu que o corao se lhe estreitava em um remorso indefinido.
 "Nosso pobre castelo", pensava, "est desmoronando. Como podemos agora proteger estes infelizes? Quem sabe se os bandidos no tero ido at l? E no seria o velho 
Guilherme com a sua lana quem poderia impedi-los de entrar."
 -        Vamos - disse em voz alta -, vamos para o castelo. Mas no precisamos ir pela estrada real, nem pelos atalhos dos campos. Se os bandidos estiverem emboscados 
neles, no poderemos aproximar-nos da entrada. Tudo o que podemos fazer  descer at os pntanos esgotados e chegar ao castelo pelo grande fosso. H uma portinha 
que nunca se usa, mas eu sei como se abre.
 No acrescentou que aquela portinhola meio escondida pelos escombros de um subterrneo lhe tinha servido para fugir do castelo mais de uma vez, e que num dos calabouos 
que os atuais bares de Sanc no conheciam bem estava o esconderijo em que preparava plantas e filtros, como a bruxa Melusina.
 Os aldees escutaram-na, confiantes. Alguns somente agora observavam sua presena, mas estavam to acostumados a considerar Anglica como uma encarnao das fadas 
que sua apario no mais negro de sua infelicidade no lhes causou grande assombro.
 Uma das mulheres tirou-lhe dos braos o garoto. E Anglica, livre de sua carga, conduziu o grupinho por um grande rodeio atravs dos pntanos, sob o sol escaldante, 
ao longo do promontrio abrupto que antigamente havia dominado aquele golfo do Poitou, invadido pelas guas marinhas. Com o rosto sujo de p e lama, animava os camponeses.
 F-los entrar pela estreita abertura da poterna abandonada. No fresco ambiente dos subterrneos reniu-os e deu-lhes nimo, mas a obscuridade fez as crianas chorarem.
 -        Calma, calma - soou, tranqilizando-as, a voz de Anglica.- Logo estaremos na cozinha, e bab Fantina nos servir a sopa. 
A evocao da ama Fantina animou a todos.
 Seguindo a filha do Baro de Sanc,-os camponeses, gemendo I e tropeando, subiram as escadas meio desmoronadas e atravessaram as salas cheias de destroos, das 
quais fugiam os ratos. Anglica orientava-os sem vacilao. Era seu domnio.
Quando chegaram ao grande vestbulo, rudos de vozes os inquietaram um momento. Mas Anglica, tal como os aldees, no se atrevia a supor que o castelo houvesse 
sido atacado. Ao se aproximarem da cozinha, o cheiro da sopa e do vinho quente se tornou mais pronunciado. Com certeza havia muita gente por ali, mas no eram bandidos, 
pois o tom das conversas era baixo, comedido e at triste. Outros camponeses da aldeia e das fazendas vizinhas tinham vindo colocar-se sob a proteo das velhas 
muralhas em runas.
 Quando apareceram os recm-chegados, elevou-se um grito geral de pavor, pois foram tomados por bandoleiros, mas, ao ver Anglica, a ama correu ao seu encontro e 
apertou-a nos braos.
 -        Meu tesouro! Voc est viva! Graas, Senhor! Santa Radegunda! Santo Hilrio! Obrigada!
 Pela primeira vez Anglica no respondeu ao ardoroso abrao. Acabava de guiar "sua" gente atravs dos pntanos. Horas inteiras havia tido atrs de si aquele rebanho 
lastimoso. J no era uma criana! Quase com violncia, desprendeu-se de entre os braos de Fantina Lozier.
-        D-lhes de comer - disse.
 Mais tarde, como em sonho, viu sua me, que, com os olhos cheios de lgrimas, lhe acariciava as faces.
-        Filha, quanta inquietao voc nos causou!
 Pulquria, consumida como uma vela, com sua acne inflamada pelas lgrimas, aproximou-se tambm, assim como seu pai e seu av... Parecia a Anglica muito divertido 
aquele desfile de fantoches. Bebera um caneco de vinho quente e estava completamente embriagada, imersa num doce torpor. A seu redor as pessoas trocavam comentrios 
sobre as peripcias da trgica noite: a invaso do povoado, as primeiras casas incendiadas, como haviam lanado o sndico pela janela do primeiro andar, que ele 
estava to orgulhoso de haver construdo havia pouco.
 Aqueles hereges haviam ainda invadido a pequena igreja, roubado os vasos sagrados e amarrado o cura com a criada sobre o prprio altar! Gente possessa do Demnio! 
Seno, como teriam podido inventar semelhantes coisas?
 Diante de Anglica uma velha acalentava nos braos sua neta, linda adolescente que tinha o rosto inchado de tanto chorar. A av abanava a cabea e repetia sem cessar, 
num misto de surpresa e horror:
-        O que fizeram com ela! O que fizeram com ela!  incrvel!...
No falavam seno de mulheres violentadas, de homens espancados, de vacas e cabras roubadas. O sacristo havia segurado seu burro pelo rabo, enquanto os bandoleiros 
o puxavam pelas orelhas.' E quem gritava mais alto era o pobre animal!
 Mas muitos haviam conseguido fugir. Uns para os bosques, outros para os pntanos, a maior parte para o castelo. Havia lugar bastante para acolher o gado custosamente 
posto a salvo. Infelizmente, sua fuga tinha atrado na mesma direo alguns salteadores e, apesar do mosquete do Sr. de Sanc, as coisas teriam podido acabar mal 
se ao velho Guilherme no houvesse ocorrido logo uma idia genial. Puxando as correntes enferrujadas da ponte levadia, tinha conseguido levant-la.
 Como lobos cruis mas medrosos, os bandidos tinham retrocedido diante do pobre fosso de gua podre.
 Deu-se ento um estranho espetculo. Viu-se o velho Guilherme junto  poterna, dizendo improprios em seu idioma, agitar o punho para as sombras onde desapareciam 
vultos andrajosos. De repente, um dos fugitivos parou e se ps a retrucar. Houve entre eles um spero dilogo, no meio da noite avermelhada pelo incndio, naquela 
lngua tudesca que fazia tremer.
 Ningum soube ao certo o que Guilherme e seu compatriota disseram. O certo  que os bandidos no voltaram e ao amanhecer se haviam distanciado da aldeia. Todos 
consideravam Guilherme um heri, todos repousavam  sua sombra militar.
 O incidente demonstrava, em todo caso, que o bando, embora parecesse composto de mendigos camponeses ou de miserveis das cidades, tambm tinha soldados vindos 
do norte, dispersados em virtude do tratado de paz de Vestflia. Havia de tudo naqueles exrcitos que os prncipes recrutavam para pr a servio do rei: vales, 
italianos, flamengos, lorenses, espanhis, alemes, todo um mundo que os pacficos habitantes do Poitou no podiam sequer; imaginar. Alguns chegaram a afirmar que 
entre os bandidos havia at um polaco, um daqueles selvagens que o Condottiere Joo de Werth levara em outra poca para a Picardia, a fim de degolar crianas de 
peito. Tinham-no visto. De rosto amarelo, usava um gorro de pele e possua, sem dvida, grande virilidade, porque, ao terminar a jornada, todas as mulheres afirmavam 
ter sido suas vtimas.
 Reedificaram-se as casas incendiadas da aldeola, o que no foi grande tarefa. Barro misturado com palha e canios formavam paredes bastante slidas. Recolheram 
as messes que no foram saqueadas e a colheita foi boa, o que consolou a muitos. S duas mocinhas, uma delas Francina, no puderam recuperar-se das violncias sofridas. 
Tiveram grande febre e morreram.
 Dizia-se que de Niort haviam enviado alguns soldados  procura do bando, que parecia estar isolado e sem a menor disciplina.
 Assim, a incurso dos bandidos pelas terras dos bares de Sanc no alterou grandemente a vida rotineira do castelo. Ouviu-se o av resmungar mais amide, recordando 
as infelicidades que havia trazido consigo a morte do bom Rei Henrique IV e a insubordinao dos protestantes.
 -        Essas pessoas encarnam o esprito de destruio de um reino. Uma vez censurei o Sr. de Richelieu por mostrar-se to duro, mas vejo que no o foi quanto 
devia.
 Anglica e Gontran, que naquele dia eram os nicos ouvintes da profisso de f de seu av, olharam-se com ar conivente. O honesto ancio estava completamente fora 
da realidade!
 Todos os netos adoravam o velho baro, mas raramente aceitavam suas idias caducas.
O menino, que j ia completar doze anos, atreveu-se a observar:
 - Esses bandoleiros, vov, no eram huguenotes. Eram catlicos, mas desertores de exrcitos famintos, e estrangeiros a quem no haviam pago o soldo, conforme dizem, 
e tambm aldees dos campos de batalha.
 - Ento, no precisavam vir at aqui. Alm disso, voc no conseguir convencer-me de que os protestantes no os ajudam. No meu tempo, o exrcito pagava mal s 
tropas, no nego, mas pagava pontualmente. Creia no que eu digo: toda esta desordem tem inspirao estrangeira, talvez inglesa ou holandesa. Entendem-se e agrupam-se, 
tanto mais que o Edito de Nantes foi demasiado indulgente para com eles, deixando-lhes no s o direito de professar o seu credo, mas ainda a igualdade de direitos 
cvicos...
 - Vov - perguntou subitamente Anglica -, que direito  esse que deixaram aos protestantes?
 - Voc  muito jovem para compreender, filhinha - disse o velho baro, e acrescentou: - Os direitos cvicos representam algo que no se pode tirar a ningum sem 
que se perca a honra.
-        Ento, no  dinheiro - disse a menina.
O velho gentil-homem felicitou-a:
-        Muito bem, Anglica. Na verdade, voc compreende as coisas bem demais para a sua idade.
Mas parecia a Anglica que o assunto exigia mais explicaes.
 - De maneira que, embora os bandidos nos saqueiem completamente e nos deixem nus, deixam-nos, contudo, nossos direitos cvicos?
- Exatamente, minha filha - respondeu seu irmo.
 Mas havia ironia em sua voz, e Anglica perguntou a si mesma se ele no estaria troando.
 Gontran era um rapaz de quem nunca se sabia o que pensar. Falava pouco e vivia muito s. Como no podia ter preceptor nem ir ao colgio, devia contentar-se, para 
seus estudos, com os rudimentos intelectuais que lhe ministravam o mestre-escola e o cura da aldeia. Freqentemente se retirava para sua gua-furtada a fim de triturar 
cochinilhas ou amassar argilas de cores diferentes para com elas executar estranhas composies, a que dava o nome de "quadros" ou "pinturas".
 Embora muito descuidado com a sua pessoa, como todas as crianas de Sanc, costumava reprovar Anglica por viver feito uma selvagem e no saber honrar a sua linhagem.
 -        Voc no  to tola como parece - disse-lhe nesse dia,  guisa de cumprimento.
 
 
 
 
 
 
 CAPTULO III
 
 Os arrecadadores de impostos - A volta dos irmos estudantes
 
 Aps algum tempo, o velho nobre dirigiu a ateno para o ptio, de onde chegavam interpelaes e gritos misturados com ca-carejos de galinhas assustadas. Depois 
ouviu-se o rudo de um galope e, afinal, exclamaes mais violentas, nas quais se reconheciam os acentos de Guilherme. Era uma bela tarde de outono, e os demais 
moradores do castelo deviam estar ausentes.
 -        No tenham medo, meus filhos - dizia o av. - Esto afugentando algum mendigo.
Mas j Anglica havia descido a escada aos pulos e gritava:
-        Esto atacando Guilherme, querem maltrat-lo!
Coxeando, o baro foi buscar um sabre enferrujado, e Gontran voltou armado de um chicote, dos que se utilizam para bater nos ces. Chegaram at a porta e viram o 
velho servidor empunhando a lana e Anglica a seu lado.
 O adversrio no estava muito longe. Achava-se fora de seu alcance, do outro lado da ponte levadia, mas ainda o defrontava. Era um moo de aspecto famulento e 
parecia furioso. Procurava, ao mesmo tempo, retomar o porte afetado e oficial.
 Gontran baixou o chicote e puxou seu av para o interior da casa, cochichando:
-        E o cobrador de impostos. J o afugentaram vrias vezes...
O funcionrio hostilizado continuava a retroceder lentamente, mas sem dar as costas, e adquiria novo nimo ante a hesitao dos reforos. Parou a distncia respeitosa 
e, tirando do bolso um rolo de papel bastante amassado pela rixa, ps-se a desenrol-lo carinhosamente, suspirando. Depois, fazendo contores, comeou a ler a intimao 
segundo a qual o Baro de Sanc devia pagar sem demora a quantia de oitocentas e setenta e cinco libras, dezenove soldos e onze dinheiros, correspondente a impostos 
de meeiros atrasados, dzimos das rendas do senhor e imposto real, taxas pela cobertura de guas, "direitos de p" pelos rebanhos que transitaram pela estrada real 
e multa pelo atraso nos pagamentos. O velho nobre ficou vermelho de clera.
 - Por acaso voc pensa, patife, que um gentil-homem vai pagar s por ouvir esse aranzel do fisco, como se fosse um vilo qualquer? - gritou, exaltado.
 - O senhor sabe de sobra que o seu filho pagou at agora regularmente os tributos anuais - disse o homem, curvando a espinha. - Voltarei, pois, quando ele estiver 
aqui. Mas eu o previno: se amanh,  mesma hora, pela quarta vez, no estiver aqui e no pagar, mando-lhe uma citao, e seu castelo e seus mveis sero vendidos 
por dvidas ao Tesouro Real.
- Fora daqui, lacaio dos usurrios do Estado!
 - Senhor baro, advirto-o de que sou um servidor juramentado da lei e que posso ser designado agente executivo.
 - Para a execuo  preciso um julgamento - fulminou o velho fidalgo.
 - Os senhores tero o julgamento facilmente, acredite, se no pagarem...
 - Como quer que paguemos se no temos com qu? - exclamou Gontran, vendo que o baro se perturbava. - J que o senhor  oficial de justia, venha certificar-se 
de que os saqueadores nos levaram um garanho, duas jumentas e quatro vacas, e que a maior parte do que reclama como dvida procede dos impostos dos meeiros de meu 
pai. Desejou at pagar por eles, pois esses pobres camponeses no podiam faz-lo, mas ele mesmo nada deve. Alm disso, por terem sido atacados pelos bandidos, nossos 
aldees sofreram ainda mais que ns, e no  hoje, precisamente depois deste saque, que meu pai est em situao de pagar essas contas...
 Aquela linguagem razovel apaziguou o agente do fisco muito mais que as injrias do velho cavaleiro.
 Lanando olhares prudentes para o lado em que se encontrava Guilherme, aproximou-se um pouco e, em tom mais brando e quase compassivo, embora firme, explicou que 
ele no podia seno receber e transmitir as ordens da intendncia fiscal. A seu ver, o nico meio capaz de retardar o embargo seria o baro dirigir um pedido ao 
intendente geral do fisco, por intermdio do intendente provincial de Poitiers.
 - Aqui entre ns - acrescentou o oficial de justia, provocando com isso uma careta de repugnncia no velho senhor -, entre ns, digo ao senhor que nem mesmo meus 
chefes imediatos, como o procurador e o inspetor de arrecadaes, sero capazes de lhes dar derrogao ou dispensa. No entanto, como so da nobreza, certamente conhecem 
as pessoas importantes. Ento, devem agir dessa maneira,  um conselho de amigo.
 - No serei eu que me orgulharei de cit-lo como amigo! - observou em tom acerbo o Baro de Ridou.
 - Digo-lhe isto para que o senhor repita ao seu filho. A misria  geral, podem crer. Pensam que me diverte andar por a causando a todos a impresso de um fantasma 
e levando bordoada como se fosse um co sarnento? Bem, boa tarde a todos vocs, e esqueamos o incidente.
 Enfiou na cabea o chapu, e foi-se a capengar, observando com pena que a manga de seu dlm se tinha rasgado na briga.
 Em sentido oposto, afastou-se, tambm claudicando, o velho baro. Acompanharam-no Gontran e Anglica, ambos silenciosos.
 O velho Guilherme, praguejando contra inimigos imaginrios, devolveu sua antiga lana ao depsito de relquias histricas.
 De volta ao salo, o av ps-se a andar de um lado para outro, e durante muito tempo seus netos no ousaram falar. Mas, na penumbra do anoitecer, ergueu-se a voz 
da menina.
 -        Diz-me, vov, se os bandidos nos deixaram os direitos cvicos, esse bom homem agourento no os levou agora?
-        Vai para junto de tua me! - disse o ancio com voz trmula.
Tornou a sentar-se em sua grande e velha poltrona estofada e no mais falou. Depois de fazer uma reverncia, os netos se retiraram.
 Quando Armando de Sanc soube da recepo que tinham feito ao arrecadador de impostos, suspirou e cocou demoradamente a grisalha mosca que usava,  maneira de Lus 
XIII.
 Anglica amava com afeio um tanto protetora aquele pai bondoso e tranqilo, cujas dificuldades cotidianas lhe haviam cavado rugas profundas na fronte queimada 
pelo sol.
 Para criar sua numerosa prole, aquele filho de fidalgo pobre tivera de renunciar a todos os prazeres da sua condio social. Raramente viajava e at deixara de 
caar, ao contrrio dos fidalgotes vizinhos, no mais ricos do que ele, que se consolavam de sua misria empregando boa parte da vida a perseguir lebres e javalis.
 Armando de Sanc dedicava todo o seu tempo ao trato de suas minguadas culturas. No se vestia muito melhor que seus camponeses e, tanto quanto eles, exalava forte 
odor de estreo e de cavalos. Amava seus filhos, que o distraam, e orgulhava-se deles. Representavam sua melhor razo de viver. Para ele, o mais importante no mundo 
eram seus filhos. Depois, os seus muares. Durante algum tempo o gentil-homem sonhara estabelecer pequena criao dessas bestas de carga, menos delicadas que os cavalos 
e mais resistentes que os asnos.
 Mas agora os bandidos haviam levado seu melhor garanho e duas jumentas. Era um desastre, e ele quase se dispunha a vender os muares restantes e um pedao de terra 
que reservava para aquele fim.
 No dia seguinte_ao da visita do agente fiscal, o Baro Armando aparou cuidadosamente uma pena de ganso e acomodou-se ante a escrivaninha a fim de redigir uma splica 
ao rei, para que o isentasse dos impostos anuais. Expunha naquela carta sua pobreza de gentil-homem.
 Primeiro, desculpava-se de no poder apresentar seno nove filhos vivos, mas outros nasceriam, sem dvida, porque "tanto ele como sua mulher ainda eram jovens e 
os tinham de boa vontade".
 Acrescentou que sustentava um pai invlido, sem penso, que tinha alcanado o posto de coronel sob Lus XIII. Que ele prprio tinha sido capito e indicado para 
posto mais elevado, mas tivera de abandonar o servio do rei porque seu soldo de oficial de artilharia, mil e setecentas libras por ano, "no lhe proporcionava meios 
para manter-se no servio". Tambm salientou que sustentava duas irms idosas, as quais "no puderam encontrar marido nem entrar para um convento por falta de dote, 
e no podiam seno consumir-se em tarefas humildes"; que tinha quatro criados, entre eles um velho militar sem penso, necessrio ao seu servio. Os dois filhos 
mais velhos estavam no colgio e custava-lhe quinhentas libras somente a sua educao. Tambm era mister enviar para o convento uma das filhas, mas exigiam trezentas 
libras. Terminava dizendo que pagava havia anos os impostos de seus meeiros para conserv-los na terra, e que por isso tudo se encontrava em dbito para com o fisco, 
que lhe reclamava oitocentas e setenta e cinco libras, dezenove soldos e onze dinheiros s para aquele ano. Seu rendimento total alcanava apenas quatro mil libras 
por ano, tendo de alimentar dezenove pessoas e conservar sua posio de gentil-homem, num momento em que, por cmulo da infelicidade, os bandidos tinham saqueado 
e incendiado suas terras, matando alguns de seus meeiros e deixando os sobreviventes na maior penria. Pedia,-para concluir, confiante na bondade real, perdo para 
os impostos reclamados e uma ajuda ou adiantamento de pelo menos mil libras, e solicitava "como graa do rei" que, se fosse preparada alguma expedio  Amrica 
ou s ndias, empregasse como alferes seu "cavaleiro", seu primognito, que estudava lgica com os agostinianos, aos quais, acrescentava, devia um ano de penso. 
Aceitaria, por sua parte, qualquer cargo compatvel com sua condio de nobre, para poder manter sua gente, porque suas terras, ainda que as vendesse, no lhe permitiriam...
 Aps secar com areia to extensa missiva, que lhe tinha custado algumas horas de trabalho, Armando de Sanc escreveu ainda umas palavras dirigidas a seu protetor 
e primo, o Sr. Marqus du Plessis de Bellire, a quem incumbia de encaminhar sua petio ao prprio rei ou  rainha-me, acrescentando recomendaes capazes de a 
fazer aceitar favoravelmente.
Terminava com esta gentileza:
 "Desejo, senhor, tornar a v-lo brevemente e achar ocasio, nesta provncia, de vos ser til; seja oferecendo-lhe belas mulas de carga, seja ofertando-lhe frutas, 
castanhas, queijos e boies de coalhada para a sua mesa".
 Algumas semanas depois, o pobre Baro Armando de Sanc acrescentaria novo dissabor  sua extensa lista.
 Uma noite, em que se anunciavam as primeiras geadas, ouviu-se o galope de um cavalo na estrada, e logo depois na ponte levadia, que tinha recuperado seus adornos 
de perus.
 Latiram os ces no ptio. Anglica, que tia Pulquria conseguira reter em seu quarto, para obrig-la a fazer um trabalho de agulha, precipitou-se para a janela.
 Avistou um cavalo do qual se apeavam dois ginetes altos e magros, vestidos de negro, enquanto uma mula carregada de malas aparecia na trilha, conduzida por um pequeno 
campons.
 -        Titia! Hortnsia! - gritou. - Venham ver. Acho que so nossos irmos Josselino e Raimundo.
 As duas meninas e a velha demoiselle desceram apressadamente e chegaram ao salo no momento em que os estudantes saudavam o av e a tia Joana. Acudiram os domsticos 
de todos os lados. Alguns foram buscar o baro no campo e a baronesa na horta.
Os adolescentes respondiam secamente s ruidosas boas-vindas.
 Tinham quinze e dezesseis anos, mas freqentemente os supunham gmeos, porque tinham a mesma estatura e eram muito parecidos. Possuam ambos a mesma tez mate, os 
olhos pardos e os cabelos negros e rgidos, que lhes caam sobre o colarinho branco, amarrotado  sujo do uniforme. Somente se distinguiam pela expresso. Nas feies 
de Josselino havia mais franqueza; nas de Raimundo, mais reserva.
 Enquanto respondiam por monosslabos s perguntas do av, a ama, felicssima, estendia sobre a mesa uma bela toalha e trazia terrinas de pat, po, manteiga e uma 
panelada das primeiras castanhas. Brilharam os olhos dos adolescentes. Sem mais espera, sentaram-se  mesa e comeram com tal sofreguido e incivilidade que encheram 
Anglica de espanto.
 Notou esta, contudo, que eles estavam magros e plidos e suas roupas de sarja preta, pudas nos joelhos e nos cotovelos.
 Baixavam os olhos quando falavam. Nenhum deles parecia reconhec-la e, contudo, ela recordava que antigamente havia ajudado Josselino a desaninhar passarinhos, 
como agora Dionsio a ajudava.
 Raimundo trazia pendurado ao cinto um chifre oco. Ela perguntou-lhe o que era.
-  para a tinta - respondeu com arrogncia.
- Eu joguei fora o meu - disse Josselino.
 O pai e a me chegaram empunhando tochas. O baro, no obstante sua alegria, estava um tanto inquieto.
 - Por que motivo esto aqui, meus rapazes? No vero no vieram. No  curioso que lhes dem frias no incio do inverno?
 - No viemos no vero porque no tnhamos um nquel para alugar um cavalo, nem mesmo para tomar a diligncia que vai de Poitiers a Niort - explicou Raimundo.
 - E se agora estamos aqui - continuou Josselino -, no  porque estejamos mais ricos...-        ...mas porque os padres nos puseram no olho da rua - concluiu Raimundo.
Houve um silncio contrafeito.
 - Por So Dionsio! - exclamou o av. - Que falha cometeram, senhores, para lhes fazerem to grande afronta?
 - Nenhuma. E que j faz dois anos que os agostinianos deixaram de receber a nossa penso. Deram-nos a entender que outros estudantes, cujos pais eram mais generosos, 
precisavam dos nossos lugares...
 O Baro Armando ps-se a caminhar de um lado para outro, o que era indcio de grande agitao interior.
 -        Mas isso no  possvel. Se no fizeram nada de mau, os padres no podem p-los na rua sem mais nem menos. Vocs so gentis-homens! E os padres sabem disso!
Josselino, o mais velho, tomou um ar malicioso.
 -         verdade, eles o sabem de sobra, e posso repetir-lhes as palavras que o administrador nos deu como proviso de viagem. Disse que os nobres eram os piores 
pagadores, e que, se no tinham dinheiro, podiam dispensar o latim e as cincias.
O velho baro ergueu altivamente o busto.
 -        Custa-me crer que diga a verdade. Lembre-se de que a Igreja e a nobreza formam um todo e que os estudantes representam a futura flor do Estado. Os bons 
padres o sabem melhor que ningum!
 Foi Raimundo, o segundo, que estava destinado ao sacerdcio, quem replicou, sem tirar os olhos do cho:
 - Os padres ensinaram-nos que Deus teria os seus eleitos, e talvez no nos tenha julgado dignos...
 - Feche o seu armazm de bobagens, Raimundo! - interveio o irmo. - Asseguro-lhe que no  o momento de o abrir. Se quer ser monge mendicante, v. Mas eu sou o 
primognito e estou de acordo com o nosso av: a Igreja deve-nos considerao, a ns, os nobres! Agora, se prefere os filhos dos burgueses e negociantes, bom proveito 
lhe faam. Ter escolhido sua perdio e afundar!
Os dois bares protestaram a uma voz:
-        Josselino, voc no tem o direito de blasfemar dessa maneira!
 -        No estou blasfemando. Limito-me a consignar o que vejo. Na aula de lgica, da qual eu era o mais jovem e o segundo entre trinta alunos, h exatamente 
vinte e cinco filhos de burgueses e funcionrios que pagam pontualmente, e cinco gentis-homens dos quais somente dois no se atrasam... Armando de Sanc procurou 
consolar-se:
 - H, ento, mais dois filhos de nobres que mandaram embora com vocs?
 - Nem tanto assim. Os outros pais que no pagam so pessoas altamente colocadas e os agostinianos tm medo deles.
 - Probo-lhe de falar assim dos seus educadores - disse o Baro Armando, enquanto seu velho pai resmungava como para si mesmo:
 - Felizmente o rei morreu e no pode tomar conhecimento de semelhantes coisas!
 - Sim, felizmente, vov - disse Josselino em tom de mofa. - E foi at um bravo monge que assassinou Henrique IV.
 - Cale-se, Josselino! - disse prontamente Anglica. - As palavras no so o seu forte e voc parece um sapo quando fala. Alm disso, quem morreu assassinado por 
um monge no foi Henrique IV, mas Henrique III.
 O adolescente olhou com surpresa para a menina de cabelos anelados, que o apostrofava calmamente.
 - Ah, falou a r, a princesa dos brejos! "Marquesa dos Anjos"... E pensar, maninha, que at me esqueci de cumpriment-la!
- Por que me chama de r?
 - Porque me chamou de sapo. Alm disso, voc no continua gostando de desaparecer entre a erva e os canios dos pntanos? Ou acaso se tornou formalista e orgulhosa 
como Hortnsia?
- Creio que no - disse Anglica modestamente.
 Sua interveno acalmara um pouco o ambiente. Os dois irmos tinham acabado de comer e a ama estava tirando a mesa.
 Mesmo assim, a atmosfera continuava carregada. Confusamente, cada qual procurava uma soluo para esse novo golpe da adversidade.
 Em meio ao silncio, ouviu-se berrar o caula. A me, as tias e at Gontran valeram-se do pretexto para "ir ver". Mas Anglica ficou entre os dois bares e seus 
irmos recm-vindos da cidade em to triste situao.
 Indagava a si mesma se desta vez iam perder a honra. Tinha grande desejo de pergunt-lo, mas no se atrevia. Seus irmos inspiravam-lhe algo que se parecia vagamente 
com uma piedade desdenhosa.
 O velho Ltzen, que estava ausente no momento em que chegaram os dois jovens, voltou trazendo mais tochas em homenagem aos viajantes. Derramou um pouco de cera 
ao beijar canhestramente o mais velho. O segundo evitou com algum desdm a rude carcia de boas-vindas.
 Mas, sem se perturbar, o velho soldado no vacilou em proclamar seu ponto de vista:
 - J era tempo de voltarem ao lar. Em primeiro lugar, de que lhes serve remoer o latim e quase no saber escrever sua prpria lngua? Quando Fantina me disse que 
os jovens senhores voltavam definitivamente, disse logo para comigo que o Sr. Josselino podia afinal ir para o mar...
 - Sargento Ltzen, ser necessrio recordar-lhe a antiga disciplina? - interrompeu bruscamente o velho baro.
 Guilherme no insistiu e manteve-se calado. Anglica ficou surpreendida com o tom arrogante e alterado de seu av. Este virou-se para o primognito:
 - Espero, Josselino, que voc tenha esquecido seus planos de criana de se tornar navegante.
 - Por que haveria de esquec-los, vov? Ao contrrio, parece-me que agora  que no h outra soluo para mim.
 - Enquanto eu viver, voc no ser marinheiro. Qualquer coisa, mas no isso! - E o ancio bateu com a bengala nas lajes rachadas do piso.
 Josselino parecia aterrado pela brusca teimosia de seu av a respeito de um projeto que acariciava no fundo do corao e que o havia ajudado a tolerar sem grande 
ressentimento a expulso de que fora vtima.
 "Acabaram-se os padres-nossos e as recitaes de latim", havia pensado. "Agora j sou um homem e embarcarei em um navio do rei."
Armando de Sanc procurou intervir.
 -        Meu pai - disse -, por que essa intransigncia? Talvez fosse uma soluo to boa quanto qualquer outra. Digo-lhe, alis, que, na splica por mim endereada 
ao rei h pouco, pedi-lhe, entre outras coisas, que facilitasse o embarque eventual de meu primognito em um corsrio ou navio de guerra.
Mas o velho baro agitava-se com raiva. Nunca Anglica o vira to encolerizado, nem sequer no dia da discusso com o arrecadador de impostos.
 - No gosto das pessoas que sentem os ps arderem no cho de seus avs. Para alm dos mares nunca encontram montes nem maravilhas, mas selvagens inteiramente nus, 
com os braos tatuados. O primognito de um nobre deve servir nos exrcitos do rei. Isso  tudo.
 - Com muito prazer servirei ao rei, mas no mar - retrucou o moo.
 - Josselino tem dezesseis anos. J  tempo, afinal, de que escolha seu destino - disse seu pai, com alguma hesitao.
 Uma expresso de dor anuviou a face encarquilhada que a curta barba branca emoldurava. O velho ergueu a mo.
 -  verdade que outros, na famlia, escolheram seu destino. Causar-me- uma decepo voc tambm, meu filho? - acrescentou, em tom de grande tristeza.
 - Longe de mim a idia de trazer-lhe  memria recordaes dolorosas, meu pai - escusou-se o Baro Armando. - Eu nunca pensei em exilar-me e no encontro palavras 
para exprimir o meu apego s nossas terras do Poitou. Mas lembro-me de quo dura e precria era a minha situao no exrcito. Ainda sendo nobre, no se consegue 
chegar aos postos superiores sem dinheiro. Estava crivado de dvidas e, s vezes, para manter-me, tive de vender tudo o que possua: o cavalo, a tenda, as armas; 
cheguei a alugar meu prprio criado. Recorda-se o senhor de todas as boas terras que teve de transformar em dinheiro para manter-me no servio? 
 Anglica seguia a conversao com muito interesse. Jamais vira marinheiros, mas era de uma regio aonde chegam, pelos vales do  Svre e da Vende, os grandes chamados 
do oceano. Na costa de La Rochelle a Nantes, pelos Sables d'01onne, sabia haver barcos de pescadores que partiam para terras longnquas, onde encontravam homens 
vermelhos como o fogo ou listrados como filhotes de javali. Contava-se at que um marinheiro breto, para o lado de Saint-Malo, havia desembarcado na Frana selvagens 
em cuja cabea cresciam penas como as dos pssaros.
 Ah! se ela fosse homem, no teria pedido o conselho de seu av! Teria j partido, levando para o Novo Mundo todos os seus anjinhos.
No dia seguinte de manh, Anglica, que estava no ptio, viu que um pequeno campons entregava ao baro um papel amarrotado.
 -         o Intendente Molines; pede-me que passe por sua casa. Creio que no estarei de volta para o almoo - disse o baro, mandando por acenos que o palafreneiro 
arreasse o cavalo.
 A Sra. de Sanc, que, com um chapu de palha colocado sobre o leno que lhe cobria a cabea, se preparava para ir  horta, contraiu os lbios.
 -        No so estranhos - suspirou - os tempos em que vivemos? Tolerar que um vizinho plebeu, um intendente huguenote, se permita ingenuamente convoc-lo, a 
voc, que  um descendente autntico de Filipe Augusto? Pergunto-me que honestos negcios pode ter de tratar um nobre gentil-homem com o administrador de um castelo 
vizinho. Com certeza trata-se novamente de muares...
 O baro no respondeu e sua mulher afastou-se, abanando a cabea.
 Anglica, durante aquela cena, entrara na cozinha, onde sabia que se encontravam seus sapatos e seu manto. Depois juntou-se ao pai, na estrebaria.
 -        Posso acompanh-lo, pai? - perguntou com seu mais gracioso sorriso.
 O baro no pde resistir e f-la montar atravessada na sela. Anglica era sua filha predileta. Achava-a muito bonita e s vezes sonhava que ela se casaria com 
um duque.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 CAPTULO IV
 
 Estranho oferecimento ao pai de Anglica
 
 Aquele dia outonal estava claro, e a floresta muito prxima, ainda no despojada de suas folhas, estendia para o cu azul suas ramagens cor de ferrugem.
 Ao passar em frente  grade do Castelo do Plessis-Bellire, Anglica curvou-se, procurando enxergar, no fim da alia de castanheiros, a branca viso do encantador 
edifcio que se refletia no flago como uma nuvem de sonho. Tudo estava em silncio, e o castelo, em estilo renascentista, que os donos haviam abandonado para morar 
na corte, parecia dormir no mistrio de seu parque e de seus jardins. As coras do bosque de Nieul, que lhe ficava prximo, pastavam nas alamedas desertas.
 A habitao do administrador Molines ficava meia lgua alm, em uma das entradas do parque. Belo pavilho de tijolos vermelhos, coberto de ardsia azul, parecia, 
em sua solidez burguesa, o guardio prudente de uma construo leve, cuja graa italiana continuava assombrando os habitantes da regio, acostumados aos castelos 
medievais.
 O administrador era a imagem viva de sua casa. Austero e ricao, cnscio de seus direitos e de seu papel, era quem de fato parecia o proprietrio daquele vasto 
domnio do Plessis, cujo dono estava perpetuamente fora. Uma ou outra vez, no outono para as caadas ou na primavera para colher os lrios-do-vale, uma nuvem de 
senhores e senhoras descia sobre o Plessis, com seus coches, seus cavalos, seus lebrus e seus msicos. Durante alguns dias havia uma srie de festas e diverses 
que enlouqueciam um pouco os fidalgotes da vizinhana, convidados para alvo de zombarias. Depois, toda aquela gente regressava a Paris e a manso recaa em seu silncio 
sob a gide do severo intendente.
 Ao rudo dos cascos do cavalo, Molines avanou pelo ptio de sua casa e inclinou-se vrias vezes com uma flexibilidade que no lhe exigia esforo, pois fazia parte 
de suas funes. Anglica, que sabia como era duro e arrogante aquele homem, no apreciava aquela excessiva cortesia, mas o Baro Armando no disfarava o seu contentamento.
 - Esta manh tinha tempo de sobra e no achei conveniente faz-lo esperar, Sr. Molines.
 - Agradeo-lhe, senhor baro. Receava que lhe tivesse parecido descorts o convite por intermdio de um criado.
 - No me ofendi. Sei que o senhor evita vir a minha residncia por causa de meu pai, que insiste em consider-lo um perigoso huguenote.
 - O senhor baro tem o esprito muito arguto. Realmente, no queria causar desgostos ao Sr. de Ridou, nem  senhora baronesa, que  muito devota. Prefiro, pois, 
falar-lhe em minha casa e espero que o senhor me d a honra de partilhar de nossa mesa, bem como sua filhinha.
 - J no sou uma criana - disse Anglica com vivacidade. - Tenho dez anos e meio, e em nossa casa vieram depois de mim Madelon, Dionsio, Maria Ins, Alberto e 
o beb que acaba de nascer.
 - Peo  Srta. Anglica que me desculpe. Ser a mais velha exige, com efeito, juzo e maturidade de esprito. Muito feliz eu seria se minha pequena Berta freqentasse 
a sua casa, porque, ai de mim! As religiosas de seu convento me afirmam que  uma cabea de avel, donde no sair grande coisa.
 - O senhor exagera, Sr. Molines - protestou cortesmente o Baro Armando.
 "Desta vez sou da mesma opinio de Molines", pensou Anglica, que detestava a filha do intendente, pequena trigueira e sonsa.
 Em relao ao intendente, seus sentimentos eram mais indecisos. Embora o achasse desagradvel, sentia por ele certa admirao, baseada sem dvida no aspecto confortvel 
de sua pessoa e de sua casa. As roupas do intendente, sempre escuras, eram de belo pano, e deviam ser dadas ou vendidas antes que nelas se percebesse o menor sinal 
de desgaste. Usava sapatos com fivela e taco bastante alto, segundo a nova moda.
 Em sua casa comia-se maravilhosamente. O narizinho de Anglica estremeceu quando penetraram na primeira sala, lajeada e reluzente de limpeza, que dava para a cozinha. 
A Sra. Molines mergulhou em suas saias, numa reverncia profunda, e em seguida voltou aos seus bolos.
 O intendente conduziu seus convidados a um pequeno gabinete, para onde mandou trazer gua fresca e uma garrafa de vinho.
 -        Gosto muito deste vinho - disse ele, aps erguer o copo. -  produto de uma colina que esteve muito tempo inculta. Graas a cuidados especiais, pude vindim-la 
no outono passado. Os vinhos do Poitou no se comparam com os do Loire, mas so excelentes.
Depois de uma pequena pausa, acrescentou:
 - No seria demais repetir-lhe, senhor, quanto estou feliz por haver atendido pessoalmente ao meu chamado. Para mim, isso  sinal de que o negcio em que estou 
pensando tem probabilidades de realizar-se.
- Em suma, o senhor fez comigo uma experincia.
 - Rogo ao senhor baro que no me leve a mal. No sou homem de elevada educao, pois recebi apenas uma instruo de aldeia. Mas confesso-lhe que o orgulho de alguns 
nobres nunca me pareceu indcio de inteligncia. E para tratar de negcios, por modestos que sejam,  preciso inteligncia.
 O gentil-homem campons recostou-se na poltrona estofada e passou a observar com curiosidade o intendente. Estava um tanto ansioso pelo que pudesse propor-lhe aquele 
vizinho cuja reputao no era das melhores.
 Era tido por muito rico. No princpio, tinha-se mostrado duro com os camponeses e com os rendeiros, mas nos ltimos anos esforava-se por ser amvel at com os 
aldees mais pobres.
 Pouco se sabia acerca das causas de tal mudana e de to inslita bondade. Os camponeses desconfiavam, mas, como agora se mostrava tratvel a respeito das contribuies 
que o castelo exigia em nome do rei e do marqus, olhavam-no com respeito.
 Os maliciosos insinuavam que ele procedia assim para encher de dvidas o seu amo sempre ausente. Quanto  marquesa e seu filho Filipe, no se interessavam pelas 
terras mais que o prprio marqus. 
 - Se o que dizem  verdade, o senhor est simplesmente a ponto de tomar por sua conta todo o domnio do Plessis - disse Armando de Sanc um tanto brutalmente.
 - Pura calnia, senhor baro. No s me empenho em servir com lealdade o senhor marqus, como no vejo nenhuma vantagem em semelhante aquisio. Para acalmar seus 
escrpulos, confiar Ihe-ei, embora no traia nenhum segredo, que esta propriedade j est h muito hipotecada!
- No me proponha que a compre. No tenho meios para tanto...
 - Longe de mim tal pensamento, senhor baro... Um pouco de vinho?
 Anglica, a quem a conversa no interessava, escapou silenciosamente do gabinete e voltou para a grande sala, onde a Sra. Molines se ocupava em enrolar a massa 
de uma enorme torta. Sorriu para a menina e estendeu-lhe uma caixa que exalava delicioso aroma.
 -        Tome, querida, coma isto. E anglica confeitada. Tem o seu nome. Preparo-a eu mesma com o belo acar branco. E melhor que a dos padres da abadia, que 
a fazem com acar mascavo. Como querem que os pasteleiros de Paris apreciem esse condimento, se perdeu todo o seu sabor por ser fervido grosseiramente nos enormes 
caldeires mal lavados de suas sopas e morcelas?
 Ouvindo-a com ateno, Anglica mordia com prazer os finos talos, pegajosos e verdes. Ento era naquilo que se convertiam, depois de cortadas, aquelas grandes e 
fortes plantas do brejo, cujo aroma, no estado natural, era to pronunciado!
 Olhava em redor com admirao. Os mveis rebrilhavam. A um canto havia um relgio, essa inveno que seu av dizia ser obra do Diabo. Para v-lo melhor e ouvir 
seu rudo, aproximou-se do gabinete onde estavam conversando os dois homens. Ouviu seu pai, que dizia:
 - Por So Dionsio, Molines, o senhor me desconcerta! Contam muitas coisas a seu respeito, mas, afinal, todo mundo est de acordo em reconhecer no senhor uma forte 
personalidade e um esprito penetrante. E agora, por seus lbios, fico sabendo que cultiva as mais incrveis utopias.
 - Em que lhe parece to pouco razovel o que acabo de expor, senhor baro?
 - Veja bem. O senhor sabe que me interesso por muares e que consegui por cruzamento uma belssima raa, e me prope que intensifique a criao, ficando o senhor 
encarregado de dar escoamento ao produto. Tudo isso est muito bem. Mas no o entendo e quando pensa em um contrato de longa durao com... a Espanha. Meu amigo... 
estamos em guerra com a Espanha!
- A guerra no durar sempre, senhor baro.
 - Assim o esperamos. Mas no se pode fundar um compromisso sobre uma esperana desse gnero.
O intendente esboou um sorriso que o nobre arruinado no percebeu. Este continuou com veemncia:
 -        Como quer comerciar com uma nao que est em guerra conosco? Em primeiro lugar, est proibido, e muito justamente, porque a Espanha  um pas inimigo. 
Alm disso, as fronteiras esto fechadas e as comunicaes e as portagens vigiadas. Quero acreditar que fornecer muares ao inimigo no seja to grave como fornecer-lhe 
armas, principalmente porque as hostilidades no se desenrolam aqui, mas em territrio estrangeiro. Para concluir: tenho muito poucos animais para que valha a pena 
comerciar com eles. Custaria muito caro e vrios anos de trabalho. Meus recursos no me permitem essa experincia.
 Por amor-prprio no acrescentou que estava prestes a liquidar seu plantei.
 -        O senhor baro me far a fineza de considerar a circunstncia de que j possui quatro garanhes excepcionais e que lhe seria muito mais fcil que a mim 
conseguir muitos outros entre os nobres das redondezas. Quanto s jumentas, podem-se encontrar centenas delas a dez ou vinte libras por cabea. Um pequeno trabalho 
adicional de drenagem dos pntanos pode melhorar os pastos, por que as suas mulas de tiro so muito rsticas. Creio que com vinte mil libras poderamos levar a srio 
este negcio, que comearia a dar resultados daqui a trs ou quatro anos.
O pobre baro parecia tomado de vertigem.
 -        Por So Dionsio, o senhor v as coisas com excessivo otimismo! Vinte mil libras! Acredita serem to preciosos meus pobres muares de que todo mundo se 
ri abertamente? Vinte mil libras! No ser certamente o senhor quem me adiantar essa quantia.
-        E por que no? - disse calmamente Molines.
O baro encarou-o com espanto.
 - Seria uma loucura da sua parte, Molines! Apresso-me em dizer-lhe que no tenho nenhum fiador.
 - Contentar-me-ei com um simples contrato de sociedade em partes iguais e uma hipoteca sobre a criao, mas o faramos a ttulo privado e secreto em Paris.
 - Se o senhor quer saber, receio no ter os meios necessrios, e por muito tempo, para ir  capital.  primeira vista, sua proposta me parece perturbadora e arriscada, 
e gostaria de consultar previamente alguns amigos...
- Nesse caso, senhor baro, nada feito. Porque a chave do nosso xito est no segredo absoluto. Sem isto, nada h que fazer.
 - Mas no posso atirar-me, sem pedir conselhos, a um negcio que, alm do mais, me parece contrrio aos interesses do meu prprio pas!
- Que  tambm o meu, senhor baro...
- Ningum o diria, Molines!
 - Ento no falemos mais nisto, senhor baro. Vejo agora que me enganei. Diante dos seus excepcionais resultados, supus que o senhor fosse o nico capaz de estabelecer 
um grande plantei, e sob seu nome, nestas terras.
O baro sentiu-se justamente lisonjeado.
- Essa no  a questo...
 - Ento, permita-me o senhor baro observar-lhe quo prxima se acha essa questo da que o preocupa, isto , o cuidado de instalar condignamente sua numerosa famlia...
 - Mereceria uma chicotada, Molines, porque estes so assuntos que no lhe dizem respeito!
 - Seja como deseja, senhor baro. Entretanto, embora meus recursos sejam mais modestos do que alguns pensam, tinha cogitado de acrescentar imediatamente - a ttulo 
de adiantamento sobre nosso futuro negcio, naturalmente - um emprstimo de soma igual: vinte mil libras, que lhe permitiriam dedicar-se a sua propriedade sem cuidados 
excessivamente fatigantes acerca de seus filhos. Sei por experincia prpria que os trabalhos no caminham muito rpido quando se tem o esprito distrado pela inquietao.
- E quando o fisco o aperta - disse o baro, um tanto agitado.
 - Para que esses emprstimos entre ns no paream suspeitos, penso que no teramos nenhum interesse em divulgar nosso acordo. Insisto em que, qualquer que seja 
sua deciso, no repita a ningum nossa conversa.
 - Entendo-o perfeitamente. Mas deve compreender que minha mulher deve ser sabedora da proposta que o senhor acaba de fazer-me. Trata-se do futuro de nossos dez 
filhos.
 - Desculpe-me o senhor baro por lhe fazer essa indiscreta pergunta, mas ser a senhora baronesa capaz de silenciar? Nunca ouvi dizer que uma mulher soubesse guardar 
um segredo.
 - Minha mulher tem fama de falar pouco. Alm do mais, no temos relaes com ningum. Se eu lhe pedir, no falar.
Nesse momento o intendente viu a ponta do nariz de Anglica, que, apoiada na ombreira da porta, os escutava sem procurar esconder-se. O baro, voltando-se, viu-a 
tambm e franziu o sobrolho.
- Venha aqui, Anglica - disse secamente. - Creio que voc est comeando a adquirir o mau hbito de escutar atrs das portas. Aparece sempre nos momentos inoportunos 
e no se percebe a sua chegada. Essas maneiras so deplorveis.
Molines fixava na pequena um olhar penetrante, mas no parecia to contrariado quanto o baro.
- Os camponeses dizem que  uma fada - comentou sorrindo. Ela se aproximou sem se alterar.
- Voc ouviu nossa conversa? - perguntou o baro.

 - Ouvi, meu pai! Molines disse que Josselino poderia ir para o exrcito e Hortensia para o convento, se o senhor produzisse muitos muares.
 - Voc tem uma curiosa maneira de sintetizar as coisas. Agora, escute-me. Vai prometer-me no contar esta histria a ningum.
Anglica levantou para eles seus olhos verdes.
- Posso prometer... Mas que  que ganho? O administrador sufocou o riso.
- Anglica! - exclamou o pai com assombro e decepo. Molines foi quem respondeu:
 -        Comece por provar-nos sua discrio, Srta. Anglica. Se, como espero, se realizar a nossa sociedade com o senhor baro seu pai, ser necessrio esperar 
que o negcio prospere sem dificuldade, para o que  preciso que no se divulgue nada de nossos projetos. Ento, como recompensa, dar-lhe-emos um marido...
Anglica fez um muxoxo, pareceu refletir, e disse:
-        Est bem. Prometo.
 Em seguida retirou-se. Na cozinha, a Sra. Molines, afastando as criadas, colocou ela mesma no forno sua torta coberta de creme e cerejas.
- Sra. Molines, vamos comer logo? - perguntou Anglica.
 - Ainda no, querida. Se voc est com muita fome, eu lhe darei uma fatia de po com manteiga.
 - No  isso, mas eu queria saber se tenho tempo para ir correndo at o Plessis.
 - Claro que sim. Mandarei um garoto cham-la quando a mesa estiver posta.
 Anglica saiu correndo, e, numa curva da primeira alia, tirou os sapatos e escondeu-os debaixo de uma pedra, para apanh-los na volta. Depois, correu de novo, 
mais rpida que uma gazela. O bosque recendia a cogumelos e musgo, e uma chuva recente havia deixado poas aqui e acol. Anglica transpunha-as de um salto.
 Estava feliz. O Sr. Molines havia-lhe prometido um marido. No tinha certeza de ser um presente importante. Que faria com ele?... Em todo caso, se fosse to agradvel 
como Nicolau, seria um companheiro sempre disponvel para ir pescar caranguejos.
 Viu aparecer no fim da alia o perfil do castelo, sobressaindo em branco puro sobre o esmalte azul do cu. Certamente, o Castelo do Plessis-Bellire era uma casa 
de conto de fadas, pois nenhum outro se lhe assemelhava na regio. Todas as moradias nobres das redondezas eram como Monteloup, cinzentas, cheias de musgos, compactas. 
Aqui, no sculo anterior, um artista italiano havia multiplicado janelas, trapeiras e prticos. Uma ponte levadia em miniatura atravessava os fossos cheios de nenfares. 
As torrinhas dos ngulos eram apenas adornos. Todavia, as linhas do edifcio eram simples. Nada existia de pesado naqueles arcos, naquelas abbadas flexveis, mas 
uma graa natural de plantas ou guirlandas. S, em cima do prtico principal, um escudo com uma quimera que estirava a lngua flamgera recordava a decorao mais 
rebuscada da Idade Mdia.
 Anglica, com surpreendente destreza, subiu at o terrao e, agarrando-se aos ornamentos das janelas e balces, chegou at o primeiro andar, onde uma biqueira lhe 
oferecia cmodo apoio. Colou ento o rosto ao vidro da janela. Amide tinha vindo quele mesmo lugar e no se cansava de impressionar-se com o mistrio daquele aposento 
fechado, em cuja penumbra se via brilhar a prata e o marfim de tantos objetos artsticos colocados sobre mveis marchetados, as cores vivas, ruivas e azuis, dos 
tapetes novos, a magnificncia dos quadros ao longo das paredes.
No fundo havia uma alcova cujo leito estava coberto com uma colcha adamascada. As cortinas brilhavam com seus fios de ouro,
que lhe davam peso, misturados em sua trama. Sobre a chamin atraa os olhares um grande quadro que enchia Anglica de admirao. Um mundo, de que tinha apenas a 
prescincia, havia vindo encerrar-se naquele quadro: era o mundo dos habitantes do Olimpo, com sua graa paga e livre. Ali se via um deus e uma deusa unirem-se num 
abrao sob o olhar de um fauno barbudo, simbolizando seus corpos magnficos, como o prprio castelo, a graa dos Campos Elsios na vizinhana da floresta selvagem.
A emoo dominava Anglica at oprimi-la levemente.
 "Todas essas coisas", pensava, "gostaria de toc-las, acarici-las. Quisera que algum dia fossem minhas..."

















































CAPITULO V

Casamento na aldeia - Novo plantel de muares

Em maio naquela regio, os rapazes, com uma espiga verde no chapu, e as moas, engalanadas com flores de linho, vo danar  volta dos dlmens, essas grandes mesas 
de pedra que a pr-histria erigiu nos campos.
 Ao regressarem, dispersam-se um pouco, aos pares, pelos prados e nas sombras da mata recendente a lrio-do-vale.
 Em junho o pai Saulier casou a filha e houve uma grande festa. Era o nico arrendatrio do Baro de Sanc, que, afora aquele, no empregava seno meeiros. O homem, 
que era tambm o dono da taberna da aldeia, desfrutava boa situao financeira.
 A pequena igreja romana foi adornada de flores e crios grossos como punhos. O prprio senhor baro conduziu a nubente ao altar.
 O banquete, que durou vrias horas, abundava em morcelas, chourios, salsichas e queijos. Bebeu-se vinho. Aps a refeio vieram todas as mulheres casadas do povoado, 
como de praxe, ofertar seus presentes  noiva. Esta j estava em sua nova casa, sentada em um banco diante de uma grande mesa sobre a qual se amontoavam lenis, 
baixelas, caldeires de cobre e de estanho. Seu rosto redondo, um tanto bovino, brilhava de prazer sob uma enorme grinalda de margaridas.
 A Sra. de Sanc envergonhava-se de no levar seno um modesto presente: alguns pratos de bela faiana que guardava para essas ocasies. Anglica lembrou-se de que 
em Sanc comia em escude-las, como os camponeses. E sentiu-se ferida por aquele ilogismo. As pessoas eram esquisitas! Podia apostar que tambm a recm-casada jamais 
utilizaria aqueles pratos; guard-los-ia cuidadosamente em uma arca e continuaria comendo em sua escudela. E no Plessis havia tantos objetos maravilhosos que seus 
donos abandonavam como em uma tumba!...
 Anglica entristeceu-se e beijou a recm-casada sem qualquer efuso. Entrementes, os jovens reuniam-se junto ao grande leito conjugal e soltavam piadas.
 - Ah! minha linda, com a cara que tm voc e seu marido, certamente o chaudaut vos calhar bem ao amanhecer! - disse um deles.
 - Mame - perguntou Anglica ao sair -, que  esse chaudaut de que falam em todos os casamentos?
 - E um costume de camponeses, como levar presentes ou danar - respondeu evasiva a baronesa. A explicao no satisfez a menina, que prometeu a si mesma assistir 
ao chaudaut.
 Na praa da aldeia no se tinham iniciado ainda as danas embaixo do grande olmeiro. Os homens permaneciam em redor das mesas armadas ao ar livre, sobre cavaletes.
 Anglica ouviu os soluos de sua irm mais velha, que pedia para voltar ao castelo, pois se envergonhava de seu vestido simples e cerzido.
 -        Ora essa! - exclamou Anglica. - Voc complica demais a sua vida, pobre mana! Queixo-me eu do meu vestido, apesar de apertado e muito curto para mim? S 
os sapatos me incomodam deveras. Mas trouxe os tamancos embrulhados e os calarei para danar  vontade. Estou disposta a me divertir!
 Hortnsia insistiu, queixando-se do calor e garantindo que se sentia mal. A Sra. de Sanc aproximou-se do marido, que estava sentado entre os figures da terra, 
e avisou-o de que se retirava, mas deixava Anglica a seus cuidados. A menina ficou um momento junto de seu pai. Tinha comido muito e sentia-se sonolenta.
 Em torno dele estavam o cura, o sndico, o mestre-escola, que s vezes fazia o papel de chantre, o cirurgio, o barbeiro e o sinei-ro, e alguns lavradores que 
possuam charruas puxadas por bois e empregavam vrios manobradores, formando assim uma pequena "aristocracia de aldeia. Tambm fazia parte do grupo Artmio Callot, 
agrimensor do burgo vizinho e nomeado provisoriamente para ajudar na drenagem do pntano prximo, o qual figurava como sbio e estrangeiro, embora fosse, na realidade, 
do Limousin. Finalmente, ali se encontrava tambm o pai da noiva, Paulo Saulier, criador de gado grosso e mido.
 Esse corpulento campons do Poitou era o mais importante dos pequenos pecuaristas do lugar, e, embora o Baro Armando de Sanc fosse o "dono" das terras, seu rendeiro 
era certamente mais rico do que ele.
 Anglica olhava para o pai, cujo semblante se mantinha carregado, e adivinhava sem esforo o que lhe ia no ntimo.
 "Eis aqui", devia pensar com melancolia, "outro sinal da decadncia dos nobres."
 Houve um rebulio na praa, em torno do olmeiro, e apareceram dois homens, que, transportando debaixo do brao uns sacos brancos j muito inflados, subiram a uns 
toneis. Eram os gaitei-ros. Um tocador de flauta se juntou a eles.
 -        Vamos danar! - exclamou Anglica, e precipitou-se para a casa do sndico, onde havia escondido seus tamancos.
 Seu pai viu-a voltar pulando e batendo palmas segundo o ritmo das baladas e rondas que se comearia a danar dali a pouco. Saltavam-lhe sobre os ombros os seus 
cabelos de ouro escuro. Talvez porque trajava um vestido curto e apertado demais, sentiu logo que ela se havia desenvolvido nos ltimos meses. Ela, que fora sempre 
to franzina, parecia ter agora doze anos. Seus ombros tinham-se alargado e seu peito punha leves salincias na sarja puda do vestido. O sangue jovem avermelhava-lhe 
as faces, e seus lbios entreabertos e midos sorriam, deixando aparecer os dentinhos perfeitos.
 Como a maior parte das moas da aldeia, tinha posto na abertura de seu corpete um grande ramo de prmulas amarelas e lilases. Os homens que ali estavam tambm se 
surpreenderam ante sua apario cheia de louania e frescura.
 -        Sua filha est ficando uma bela moa - disse papai Saulier com sorriso obsequioso e lanando um olhar malicioso a seus vizinhos.
O orgulho do baro tingiu-se de inquietude.
 "J  muito crescida para misturar-se com esses rsticos", pensou prontamente. "A ela, mais do que a Hortnsia,  que teria de mandar para o convento..."
 Anglica, sem prestar ateno aos olhares de que era alvo e aos pensamentos que ia despertando, misturava-se alegremente com os rapazes e as moas que vinham de 
todos os lados em grupos ou aos pares.
 Quase esbarrou num mocinho a quem no reconheceu logo, to ricamente vestido estava.
 -        Valentim, meu Deus! - exclamou, empregando o pato da terra, que falava correntemente. - Que elegante voc est, meu caro!
 O filho do moleiro envergava uma roupa talhada certamente na cidade, de tecido cinza to bom que as abas da sobrecasaca pareciam engomadas. Esta e o colete eram 
adornados com vrias fileiras de botezinhos dourados e cintilantes. Trazia fivelas de metal nos sapatos e no chapu de feltro, e ligas de cetim azul com rose-tas. 
O rapaz, que aos catorze anos j tinha um fsico de Hrcules, parecia extremamente desajeitado na grotesca farpeia, mas seu rosto vermelho resplandecia de satisfao. 
Anglica, que passara vrios meses sem v-lo por causa da viagem que ele havia feito  cidade com o pai, percebeu que mal lhe chegava ao ombro e sentiu-se meio atemorizada. 
Para esvanecer o susto, puxou-o pela mo.
- Venha danar - disse-lhe.
 - No, no! - protestou o moo. - No quero estragar meu traje novo. Vou beber com os homens - acrescentou com suficincia, dirigindo-se para o grupo das pessoas 
importantes, entre as quais acabava de sentar-se seu pai.
 - Venha danar! - exclamou um moo, tomando Anglica pela cintura.
 Era Nicolau. Seus olhos escuros como castanhas maduras brilhavam de alegria.
  Colocaram-se frente a frente e comearam a bater com os ps no cho, ao compasso do som agudo das gaitas e da flauta. Aquelas danas, que poderiam ter parecido 
pesadas e montonas, tinham um sentido rtmico instintivo que lhes dava uma harmonia extraordinria. Apesar das gaitas e da flauta, o instrumento principal era precisamente 
o barulho surdo dos tamancos que golpeavam o solo em unssono, e as figuras complicadas que os danarinos executavam no momento preciso acrescentavam graa  perfeio 
do bailado campestre.
 Comeava a anoitecer. A frescura do fim de tarde era um refrigrio para as frontes suarentas. Completamente entregue  dana, Anglica sentia-se feliz, liberta 
de seus pensamentos. Seus pares se sucediam, e nos olhos brilhantes e risonhos daqueles moos lia algo que a excitava um pouco.  A poeira subia em um leve tom pastel, 
colorido pelo sol poente. O flautista tinha as bochechas como duas bolas, e os olhos saltavam-lhe das rbitas  fora de soprar em seu instrumento. Foi necessrio 
suspender a dana para que se aproximassem das mesas, a fim de molharem a garganta.
 -        Em que est pensando, meu pai? - perguntou Anglica, que foi sentar-se junto ao baro, cuja fronte no se desfranzia.
 Estava afogueada e esbaforida. O baro quase se sentiu ofendido ao v-la despreocupada e feliz, quando ele se inquietava a ponto de no poder desfrutar a festa 
como de outras vezes.
 - Nos impostos! - respondeu, olhando com ar sombrio para um dos figures que tinha  sua frente, e que outro no era seno o agente fazendrio Corne, que tantas 
vezes fora expulso do castelo. Anglica protestou:
 - No  bom pensar nisso quando todos se divertem. Pensam acaso eles, pensam nossos aldees? No entanto, so os que mais pagam. No  verdade, Sr. Corne? - gritou 
para o outro lado da mesa. - No  certo que num dia como hoje ningum deve pensar nas contribuies, nem mesmo o senhor?
 Isso fez rir estrondosamente aos circunstantes. Comearam a cantar, e o pai Saulier entoou o estribilho do Coletor Pilhante, que o Sr. Corne se dignou escutar com 
sorriso benevolente. Mas depressa chegaria a vez das canes menos inocentes a que do lugar todas as bodas. E Armando de Sanc, cada vez mais inquieto pelas maneiras 
de sua filha, que bebia trago aps trago, resolveu retirar-se.
 Disse a Anglica que o acompanhasse para despedir-se dos presentes e voltar com ele ao castelo. Raimundo e os mais novos, acompanhados pela ama, havia tempo tinham 
regressado a casa. Somente o primognito Josselino  que no tivera pressa, entretido com uma das jovens mais bonitas do lugar. O baro absteve-se de cham-lo  
ordem. Estava satisfeito ao ver que o magro e plido colegial recobrava, nos braos da me Natureza, idias e cores mais sadias. Com a idade do rapaz havia muito 
que ele prprio j tinha estendido sobre o feno uma robusta pastora da povoao vizinha. Quem sabe! Talvez isso viesse prend-lo  terra.
 Na certeza de que Anglica o seguia, o castelo comeou a distribuir adeuses aos que ficavam.
 Mas sua filha tinha outros projetos. Desde algum tempo procurava um meio de assistir  cerimnia do chaudaut, quando despontasse o sol. Por isso, aproveitando um 
remoinho de gente, escapuliu para fora do tumulto e, com os tamancos na mo, ps-se a correr para o extremo da aldeia, cujas casas estavam todas vazias, desertadas 
at pelas avs. Viu a escada de um celeiro, subiu por ela rapidamente e estendeu-se no feno macio e fragrante.
O vinho e o cansao faziam-na bocejar.
  "Vou dormir", pensou. "Quando despertar, ser exatamente a hora, e assistirei ao chaudaut."
Uniram-se-lhe as plpebras e ela mergulhou em profundo sono.
   Acordou com uma agradvel sensao de bem-estar e de prazer.
A sombra do celeiro continuava densa e quente. Ainda era noite, e ouvia-se a distncia o vozear dos camponeses ainda em festa. 
Anglica no compreendia bem o que lhe estava acontecendo. Sentia o corpo invadido por uma grande doura e tinha desejos de se espreguiar e gemer. De repente sentiu 
o contato de uma mo que lhe alisava o peito, descia-lhe pelo corpo e lhe afagava as pernas. Um hlito curto e quente lhe queimava a face. Seus dedos apalparam um 
tecido grosso.
-         voc, Valentim? - sussurrou.
Ele no respondeu, mas aproximou-se mais.
 Os vapores do vinho e a vertigem da escurido toldavam o pensamento de Anglica. No tinha medo. Reconhecia Valentim por sua respirao pesada, por seu cheiro, 
at por suas mos, cortadas, lamide, pelos canios e ervas do pntano e cuja aspereza a fazia estremecer.
  -        J no receia estragar a roupa? - murmurou com uma ingenuidade no isenta de inconsciente malcia.
Valentim grunhiu, e sua fronte veio agasalhar-se no pescoo gracioso da menina.
   - Voc cheira bem - suspirou. - Cheira como a flor da anglica.
Procurou beij-la, mas a ela no agradou sua boca mida que a ia buscando, e o repeliu. Ele a agarrou com mais violncia e deitou-se sobre ela. Aquela brutalidade 
sbita, acordando Anglica de todo, devolveu-lhe a conscincia. Debateu-se, procurou pr-se de p. Mas ele a segurava pela cintura, arquejando. Ento, furiosa, bateu-lhe 
no rosto com os punhos cerrados, gritando: - Solte-me, vilo, solte-me!
 Soltou-a, por fim, e ela se deixou deslizar pelo feno, e desceu a escada do celeiro. Estava com raiva e tinha pena, sem saber porqu... Ali fora, gritos e luzes 
enchiam a noite e se aproximavam.
"A farandola!"
 Dando-se as mos, moas e rapazes passaram junto dela. Anglica deixou-se arrastar pela onda. A farandola entrava pelas ruelas, saltava as barreiras, atravessava 
os campos, na meia-luz do amanhecer. Todos, brios de vinho e de sidra, tropeavam constantemente, caam, levantavam-se rindo. Voltaram  praa. Mesas e bancos estavam 
por terra; a farandola passou por sobre eles. As tochas iam-se apagando.
- O chaudaut, o chaudau - clamavam as vozes agora. Bateram  porta do sndico, que tinha ido deitar-se.
- Acorde, burgus! Vamos reconfortar os recm-casados! Anglica, que tinha conseguido, a cotoveladas, desembaraar-se da cadeia humana, viu chegar ento um curioso 
cortejo.
 Na frente marchavam dois personagens cmicos, cobertos de ouropeis e guizos,  moda dos antigos bobos reais. Em seguida vinham dois rapazes trazendo um pau sobre 
os ombros, do qual pendia enorme caldeiro. Seus companheiros os rodeavam, levando jarras de vinho e copos. Todos os moradores da aldeia que ainda podiam manter-se 
de p caminhavam atrs, formando um grupo assaz numeroso.
Sem mais cerimnias, entraram na cabana dos recm-casados.
 Pareceram a Anglica muito simpticos, deitados um ao lado do outro em seu grande leito. A noiva estava ruborizada. Beberam, contudo, sem protestar, o vinho quente 
misturado com drogas aromticas que lhes serviram. Mas um dos assistentes, mais embriagado que os outros, quis levantar os lenis que os cobria. O marido deu-lhe 
um murro. Seguiu-se uma luta em cujo decurso se ouviam os gritos da pobre noiva, que se agarrava s cobertas. Empurrada por aqueles corpos suarentos, asfixiada pelos 
odores camponeses de vinho e de peles mal lavadas, pouco faltou para que Anglica tombasse ao solo e a pisoteassem. Nicolau foi quem a retirou daquela posio crtica 
e a levou para fora.
  - Ufa! - suspirou, quando, afinal, se encontrou ao ar livre. - No  muito agradvel seu costume do chaudaut. Diga-me, Nicolau, por que levam vinho quente aos 
noivos?
- Ora essa! Para reanim-los depois da sua noite de npcias.
- Mas  assim to cansativa?
- Assim dizem... - e ps-se a rir.
 Reluziam-lhe os olhos. Os anis de seus cabelos negros caam-lhe sobre a fronte morena. Ela viu que ele estava to bbado como os demais. De sbito estendeu as 
mos para ela e se aproximou cambaleando.
 -        Anglica, sabe que voc fica linda quando fala assim? Voc  to bonita, Anglica!...
 Lanou-lhe os braos ao pescoo. Ela desprendeu-se dele sem uma palavra e afastou-se.
 Erguia-se o sol sobre a devastada praa da aldeia. Decididamente, a festa terminara. Anglica ia a caminho do castelo com passo incerto, meditando com amargura.
  Depois de Valentim, tambm Nicolau se havia permitido modos estranhos. Acabava de perder os dois ao mesmo tempo. Parecia-lhe que sua infncia tinha morrido, e 
sentia mpetos de chorar ante a idia de que no voltaria mais aos pntanos ou ao bosque com seus companheiros habituais.
 Foi assim que o Baro de Sanc e o velho Guilherme, que haviam sado  sua procura, a encontraram, caminhando para eles com andar inseguro, com o vestido roto e 
os cabelos cheios de feno.
- Mein Gott! - exclamou Guilherme, parando, consternado.
- De onde vem voc, Anglica? - disse severamente o castelo.
 Mas, ao ver que ela no se encontrava em condies de responder, o velho soldado a tomou nos braos e a carregou para o castelo.  Preocupado, Armando de Sanc disse 
consigo mesmo que haveria de encontrar um meio de enviar, sem demora, sua segunda filha para o convento.







CAPITULO VI

Chegada do primo nobre de Paris

Num dia de inverno em que Anglica estava  janela contemplando a chuva, viu com espanto que muitos cavaleiros e algumas caleas sacudidas pelas irregularidades 
do terreno entravam no lamacento caminho que conduzia  ponte levadia. Lacaios de libre com guarnies amarelas precediam os coches e um carro que parecia cheio 
de bagagens, aias e criados.
 J os postilhes saltavam do alto de suas selas para guiar os cavalos atravs da estreita entrada. Os lacaios, que iam na traseira da primeira carruagem, apearam-se 
e abriram as portinholas, em cuja madeira envernizada se viam armas de cores vermelho e ouro.
 Anglica voou sobre os degraus da torre e chegou  escada externa a tempo de ver tropear no estreo do ptio um magnfico senhor, cujo chapu emplumado caiu por 
terra. Uma forte basto-nada nas costas de um lacaio e uma torrente de insultos acompanharam o incidente.
 Saltando de pedra em pedra na ponta de seus elegantes sapatos, o senhor afinal conseguiu chegar  sala de entrada, onde Anglica e alguns de seus irmos pequenos 
o observavam.
 Estava acompanhado por um jovem de uns quinze anos, vestido com igual esmero.
 -        Por So Dionsio, onde est meu primo? - exclamou o recm-chegado olhando em torno.
Viu Anglica e exclamou:
 -        Por Santo Hilrio!  o retrato de minha prima de Sanc, quando a conheci em Poitiers no dia de seu casamento. Permita que lhe d um beijo, garota, pois 
sou seu velho tio.
   Levantou-a nos braos e beijou-a cordialmente. Quando tornou a p-la no cho, Anglica espirrou duas vezes, to violento era o perfume de que estavam impregnadas 
as roupas do cavaleiro.
   Limpou a ponta do nariz com a manga; ao faz-lo, lembrou-se  repentinamente de que a tia Pulquria teria ralhado com ela, mas no se ruborizou, porque no sabia 
envergonhar-se nem desconcertar-se.
   Fez uma reverncia amvel ao visitante, em quem acabava de reconhecer o Marqus du Plessis de Bellire. Depois avanou para dar um beijo em seu primo Filipe.
Este recuou um passo e olhou horrorizado para o marqus.
- Meu pai, sou obrigado a beijar esta... esta... jovem?
   - Claro que sim, fedelho, aproveite enquanto  tempo! - exclamou o nobre senhor, soltando uma gargalhada.
   O rapaz osculou de m vontade as faces redondas de Anglica; depois tirou do seu gibo um leno bordado e perfumado e o agitou em torno de seu rosto, como se 
espantasse moscas.
 O Baro Armando, enlameado at os joelhos, no tardou a chegar.
   - Sr. Marqus du Plessis, que agradvel surpresa! Por que no me enviou um correio para prevenir-me da sua chegada?
   - Para dizer a verdade, meu primo, tinha inteno de seguir diretamente para minha casa do Plessis, mas no nos faltaram transtornos na viagem: tivemos um eixo 
partido nas proximidades de E Neuchaut, o que nos fez perder tempo. Caa a tarde e estvamos gelados. Como passvamos perto de sua casa, ocorreu-me pedir-lhes hospitalidade, 
sem mais cerimnias. Trouxemos nossas camas e nossos guarda-roupas, que os criados instalaro nos aposentos que achar por bem indicar-lhes. E com isso teremos o 
prazer de conversar sem mais demora. Filipe, sade seu primo de Sanc e todo o grupo encantador de seus herdeiros. Assim intimado, o belo adolescente adiantou-se 
com ar resignado e inclinou profundamente a cabea loura em uma saudao um tanto exagerada, dado o aspecto rstico daquele a quem se dirigia.
Depois, documente, foi beijar as faces gorduchas e sujas dos seus parentes mais jovens, feito o qu, tornou a puxar o leno de renda e aspirou-lhe o perfume com 
gesto altaneiro.
 -        Meu filho  um comediante da corte, que no est acostumado ao campo - declarou o marqus. - No serve seno para dedilhar a guitarra. Tinha-o posto como 
pajem a servio do Sr. de Mazarino, mas receio que ali aprenda o modo de amar  italiana. No acha que ele parece uma bonita menina? Sabe em que consiste a maneira 
de amar  italiana?
- No - disse ingenuamente o baro.
 - Explicar-lhe-ei qualquer dia, longe desses ouvidos inocentes. Mas morre-se de frio em seu vestbulo, meu caro. Poderia saudar minha encantadora prima?
 O baro disse supor que as damas, ao ver as carruagens, se tivessem precipitado para os seus aposentos a fim de vestir-se, mas que seu pai, o velho baro, ficaria 
feliz em v-lo.
 Anglica notou o desdenhoso relance de seu primo ao entrar no salo malcuidado e escuro. Filipe du Plessis tinha olhos de um azul muito claro, mas to frio como 
o ao. O mesmo olhar que havia observado os tapetes desbotados, o fogo na lareira e at o av com sua gola plissada fora de moda dirigiu-se para a porta; as sobrancelhas 
louras do jovem alaram-se, enquanto um sorriso meio trocista se desenhava em seus lbios.
 Entrou a Sra. de Sanc, acompanhada de Hortnsia e das duas tias. Tinham-se arrumado, certamente, com seus melhores atavios, mas estes deviam parecer ridculos 
ao jovem, porque tapou a boca com o leno para disfarar o riso.
 Anglica, que no lhe tirava os olhos de cima, teve mpeto de marcar-lhe o rosto com as suas unhas. No era bem mais ridculo ele, com todas as suas rendas, com 
as suas ondas de fitas sobre os ombros e as mangas abertas desde as axilas at os punhos a fim de mostrar o fino tecido da camisa?
 Seu pai, mais simples, inclinava-se ante as damas, varrendo os ladrilhos com a bela pluma encrespada de seu chapu.
 -        Minha prima, desculpe meus modestos trajes. Venho pedir-lhe hospitalidade por uma noite. Apresento-lhe o meu cavaleiro, Filipe. Cresceu muito desde que 
voc o viu pela ltima vez, mas no est mais agradvel no trato do que quando menino. Vou comprar-lhe brevemente o posto de coronel. No exrcito ele estar muito 
bem. Os pajens da corte j no tm nenhuma disciplina.
A tia Pulquria, sempre cordial, props:
 - Tomaria alguma coisa... Aguap ou coalhada? Vejo que vieram de longe.
 - Obrigado. Tomaramos com prazer um dedo de vinho misturado com gua fresca.
 - J no temos vinho - disse o Baro Armando -, mas mandaremos busc-lo em casa do cura.
 O marqus sentou-se e, brincando com seu basto de bano adornado com uma roseta de cetim, contou que chegava de Saint-Germain. Disse que os caminhos eram umas 
fossas e tornou a pedir desculpas por sua modesta vestimenta.
"Como seriam se estivessem vestidos com luxo?", pensou Anglica.
 O av, irritado com tantas escusas pela indumentria, tocou com a ponta de sua bengala os canhes das botas do visitante.
 - A julgar pelas rendas de suas botas e por seus bacalhaus, acha-se bem esquecido o edito que o senhor cardeal baixou em 1633 para proibir todos os enfeites suprfluos.
 - Oh! - suspirou o marqus -, no de todo! A regente  pobre e austera. Alguns de ns nos arruinamos para manter um pouco de originalidade nessa corte devota. O 
Sr. de Mazarino tem o gosto da ostentao, mas usa batina. Traz os dedos cheios de diamantes, mas atira seus dardos contra alguns pedacinhos de fitas que os prncipes 
prendem ao gibo. Nisso ele imita o seu antecessor, o Sr. de Richelieu. Os canos das botas... sim...
 Cruzou os ps e examinou-os com a mesma ateno com que Armando examinava seus muares.
 -        Creio que esta moda das rendas nas botas vai cessar um dia destes. Alguns jovens senhores chegam a us-las to largas como as arandelas das tochas, e so 
to difceis de conservar armadas que  preciso andar com as pernas abertas. Quando uma moda chega a ser terrvel, desaparece por si mesma. No  esse o seu parecer, 
querida prima? - perguntou, voltando-se para Hortnsia, que enrubesceu de satisfao.
 Hortnsia respondeu com uma ousadia e uma espontaneidade que ningum teria esperado daquela frgil liblula.
 - Oh, meu primo, creio que a moda, enquanto no desaparece, sempre tem razo! Contudo, acerca deste detalhe no posso dar-lhe minha opinio, porque nunca vi botas 
como as suas... Certamente, o senhor  o mais moderno dos nossos parentes.
 - Felicito-me, senhorita, por ver que a distncia a que se acha sua provncia no a impede de levar a palma em matria de esprito e etiqueta; porque, se voc me 
achar moderno, deve saber que nos meus tempos uma senhorita nunca teria sido a primeira a cumprimentar um cavalheiro... Mas assim so as coisas na nova gerao... 
e no  desagradvel, muito ao contrrio. Como se chama?
- Hortnsia.
 - Hortnsia, voc precisa ir a Paris e freqentar as alcovas em que se renem nossas elegantes e nossas "preciosas". Filipe, meu filho, tome cuidado; talvez encontre 
uma forte oponente em nossas boas terras do Poitou.
 - Pela espada do Bearns! - exclamou o velho baro. - Creio que sei um pouco de ingls, arranho o alemo e estudei minha prpria lngua, o francs; mas devo reconhecer, 
marqus, que no compreendo absolutamente nada do que acabou de dizer a estas damas.
 - Estas damas compreenderam, e isso  o principal quando se fala de rendas - disse alegremente o gentil-homem. - E meus sapatos, que lhes parecem?
 - Por que so to grandes e tm o bico quadrado? - perguntou Madelon.
 - Por qu? Ningum  capaz de diz-lo, priminha. Mas esto de acordo com a moda. E  uma moda til! Noutro dia, o Sr. de Rochefort, aproveitando-se de que o Sr. 
de Conde falava ardorosamente, fincou um prego no bico de cada um de seus sapatos. Quando o prncipe quis andar, ficou pregado no cho. Se os bicos fossem menores, 
os cravos ter-lhe-iam atravessado os ps.
 - No se inventou o calado para que as pessoas se divirtam pregando os ps alheios - grunhiu o av. - Tudo isso  ridculo.
 - Vocs sabiam que o rei est em Saint-Germain? - perguntou o marqus.
 - No - disse Armando de Sanc. - Por que essa notcia lhe parece extraordinria?
- Ora, meu caro, por causa da Fronda.
 O palavrrio divertia as senhoras e as crianas, mas os dois bares, acostumados  simplicidade camponesa, perguntavam-se se seu prolixo parente no estava troando 
deles, como tinha por hbito.
- A Fronda? Que  isso?
  - Ento no sabe, meu primo? O que na corte chamamos de "Fronda"  simplesmente a rebelio do Parlamento de Paris contra o rei. J ouviu alguma vez semelhante 
coisa? H vrios meses que estes senhores de barrete quadrado esto em luta contra a regente e seu cardeal italiano... Questes de impostos que nem sequer afetaram 
seus privilgios. Mas arvoram-se em protetores do povo. E a esto eles fazendo acusaes e mais acusaes. E sobe a mostarda ao nariz da regente. Pelo menos voc 
ouviu falar das agitaes que se produziram em abril passado...
- Vagamente.
 - Aconteceu por causa da priso do parlamentar Broussel. A regente mandou prend-lo uma manh em que ele tinha tomado um purgante. Amotinando-se a populaa aos 
gritos de uma criada, Comminges, o coronel dos guardas, no pde esperar que Broussel se vestisse, e levou-o de roupo. Foi com dificuldade que conseguiu efetuar 
a priso que lhe haviam ordenado. Contou-me depois que aquela cavalgada entre os amotinados o teria divertido muitssimo se se tratasse de uma linda moa e no de 
um velho desconsolado que no sabia o que se passava. O caso  que a ral, decepcionada, entregou-se a levantar barricadas nas ruas.  uma brincadeira que o povo 
adora fazer para espairecer a clera.
 - E a rainha e o reizinho? - perguntou com ansiedade a tia Pulquria, que era sentimental.
 - Que lhes direi? A rainha recebeu com grande altivez esses senhores do Parlamento, mas cedeu prontamente. Depois inimizaram-se e reconciliaram-se vrias vezes. 
Todavia, acreditem-me, nesses ltimos meses Paris me produzia a impresso de um caldeiro de bruxas, fervente de paixes.  uma cidade agradvel, mas oculta em seus 
recnditos um nmero incalculvel de miserveis e de bandidos dos quais no seria possvel algum livrar-se seno queimando-os aos montes como sevandijas. E isso 
sem falar dos panfletistas e dos poetastros, cuja pena fere mais que o ferro da abelha. Paris est inundada de papis que repetem em verso e em prosa: "Abaixo Mazarino, 
abaixo Mazarino!" Tanto assim que j so denominados "mazarinadas". A rainha os acha at na cama, e nada  mais apropriado para tirar o sono do que esses papeizinhos 
que parecem to inocentes. Comeou, pois, o drama. Os senhores do Parlamento previam-no h muito tempo; receavam que a rainha retirasse de Paris o reizinho e acorriam 
trs vezes por noite em grande nmero, para pedir que lhes deixassem contemplar o formoso menino adormecido; na realidade, era para verificarem se ainda se encontrava 
ali. Mas a espanhola e o italiano so astutos. No Dia de Reis bebemos e nos divertimos na corte com muita alegria, e comemos, sem segunda inteno, o bolo tradicional. 
Pela meia-noite, enquanto, com alguns amigos, pretendia percorrer as tabernas, deram-me ordem de reunir meus criados e carruagens e dirigir-me para uma das portas 
de Paris. Dali, para Saint-Germain. L encontrei a rainha com seus dois filhos, suas damas de honor e seus pajens, toda essa brilhante gente deitada sobre palha, 
no velho castelo, exposto a correntes de ar. O Sr. de Mazarino tambm chegou. Desde ento, Paris est sitiada pelo Prncipe de Conde, que se colocou  testa dos 
exrcitos do rei. O Parlamento, na capital, continua agitando o estandarte da insurreio, mas est muito enfastiado. O coadjutor de Paris, o Prncipe de Gondi, 
Cardeal de Retz, que desejava ocupar o posto de Mazarino, tambm est do lado dos rebeldes. Quanto a mim, segui o Sr. de Conde.
 - Muito me agrada o que diz - suspirou o velho baro. - Nunca, nos tempos de Henrique IV, se teria visto tamanha desordem. Parlamentares e prncipes em rebelio 
contra o rei da Frana! Eis, a, mais uma vez, a influncia das idias do outro lado do canal. No dizem que tambm o Parlamento ingls desfraldou a bandeira da 
sedio contra seu rei, e que chegou a prend-lo?
 - Puseram sua cabea no cepo. Sua Majestade Carlos I foi executado em Londres no ms passado.
- Que horror! - exclamaram aterrados todos os presentes.
 - Como podem supor, a notcia no tranqilizou ningum na corte da Frana, onde, alm disso, se encontra a desconsolada viva do rei da Inglaterra, com seus dois 
filhinhos. Por isso foi decidido agir com dureza e intransigncia contra Paris. Acabam precisamente de enviar-me como adjunto do Sr. de Saint-Maur para levantar 
exrcitos no Poitou e lev-los ao Sr. de Turenne, que  o mais valente cabo de guerra a servio do rei. Mal seria se em minhas terras e nas suas, querido primo, 
no recrutasse ao menos um regimento para oferec-lo a meu filho. Envie, pois, seus man-dries e indesejveis aos meus sargentos, baro. Convert-los-emos em drages.
 -  preciso falar outra vez de guerra? - disse lentamente o baro. - Seria lcito esperar que as coisas se arranjassem. No se acaba de firmar, no ltimo outono, 
um tratado em Vestflia, que consagra a derrota da ustria e da Alemanha?... Pensvamos poder respirar um pouco. E ainda me parece que nossa regio no  demasiado 
digna de lstima, se a compararmos com os campos da Picardia e de Flandres, onde ainda esto os espanhis e onde, faz trinta anos...
- Os habitantes de l j esto acostumados - disse irrefletidamente o marqus. - A guerra, meu caro,  um mal necessrio, e me parece uma heresia reclamar uma paz 
que Deus no quis para ns, pobres pecadores. O importante  ser dos que fazem a guerra e no dos que a sofrem... Pelo que me toca, sempre escolherei a primeira 
frmula,  qual me d direito a minha linhagem. O lamentvel, neste assunto,  que minha mulher ficou em Paris... Do outro lado, sim, com o Parlamento. No penso, 
contudo, que tenha um amante entre esses graves e doutos magistrados sem nenhum brilho. Mas acredite que as damas morrem por conspirar e que a Fronda as encanta. 
Agruparam-se em torno da filha de Gasto d'Orlans, irmo do Rei Lus XIII. Trazem faixas azuis cruzadas sobre o peito e at espadins com talabarte de renda. Tudo 
isso  muito bonito, mas no posso deixar de inquietar-me pela marquesa...
- Pode receber um golpe srio - gemeu Pulquria.
 - No  isso que eu temo. Considero-a exaltada, mas  prudente. Minhas preocupaes so de outra ordem e, se houvesse golpes, seriam para mim. Compreendem-me? As 
separaes desse gnero so fatais para um esposo a quem no agrada dividir suas coisas. Quanto a mim...
 Interrompeu-se e tossiu violentamente, porque o moo de cava-laria, elevado  posio de camareiro, acabava de deitar na lareira, para avivar o fogo, enorme feixe 
de palha mida. No meio das nuvens de fumo que se despreendiam, no se ouviram durante alguns instantes seno acessos de tosse.
 -        Com mil demnios, meu primo! - exclamou o marqus quando conseguiu recuperar o flego. - Compreendo sua nsia de querer respirar um pouco. Seu tonto criado 
mereceria uma boa sova.
 Levava o caso para a brincadeira, e pareceu simptico a Anglica, apesar da sua condescendncia. Sua tagarelice a havia apaixonado. Dir-se-ia que o velho castelo 
adormecido acabava de despertar e abrir suas pesadas portas para outro mundo cheio de vida.
 Mas, em troca, o filho se tornava cada vez mais retrado. Empertigado em sua cadeira, com seus caracis dourados graciosamente cados sobre a ampla gola de renda, 
lanava olhares horrorizados sobre Josselino e Gontran, que, percebendo a impresso que lhe causavam, exageravam suas maneiras rsticas, metendo os dedos no nariz 
e cocando a cabea.
  Esse modo de proceder perturbava claramente Anglica e causava-lhe um mal-estar bem prximo da nusea. Fazia algum tempo que j no se sentia bem. Doa-lhe o ventre, 
e Pulquria havia-lhe proibido comer cenouras cruas, como era seu costume. Mas naquela noite, aps as muitas emoes e distraes que haviam trazido consigo os extraordinrios 
visitantes, tinha a impresso de estar a ponto de cair doente. De modo que no dizia nada e ficou sentada, muito quieta. Cada vez que olhava para seu primo Filipe 
du Plessis, algo desconhecido apertava-lhe a garganta, e no compreendia se era aborrecimento ou admirao. Jamais havia visto rapaz to belo.
 Os cabelos dele caam-lhe sobre a testa em franja sedosa e eram de ouro to brilhante que, perto deles, os seus lhe pareciam escuros. Tinha as feies perfeitas. 
Seu traje, de fino tecido cinza, guar-necido de rendas e fitas azuis, combinava bem com sua tez branca e rosada. Na verdade, tom-lo-iam por uma moa, se no fosse 
a dureza de seu olhar, que no tinha nada de feminino.
 Por causa do jovem, a tertlia e a refeio foram um suplcio para Anglica. Cada falha dos criados, cada descuido era sublinhado com um olhar ou um sorriso trocista 
do adolescente.
 Joo. Couraa, que fazia as vezes de mordomo, trazia os pratos com o guardanapo sobre o ombro. O marqus soltou uma gargalhada e disse que essa moda do guardanapo 
ao ombro no se usava seno a servio do rei e dos prncipes de sangue, e que se sentia lisonjeado pela honra que queriam prestar-lhe, mas que se daria por satisfeito 
se fosse servido mais simplesmente, isto , com o guardanapo enrolado no antebrao. Cheio de boa vontade, o carroceiro enrodilhou o pano no muito limpo em seu brao 
peludo, mas sua falta de traquejo e seus suspiros no fizeram seno aumentar a hilaridade do marqus, a cujas risadas prontamente fizeram coro as do filho.
 -        Eis aqui um homem que, parece-me, serviria mais para drago que para criado - disse o marqus, olhando para Joo Couraa. - No lhe parece, meu rapaz?
 Bastante acanhado, o carroceiro respondeu com um grunhido de urso, que no fazia honra  loquacidade de sua me. A toalha, recm-tirada de um armrio mido, fumegava 
ao calor dos pratos de sopa. Um dos criados, por excesso de zelo, no parava de espevitar as velas, e apagou-as vrias vezes.
 Finalmente, por cmulo do azar, o rapaz que tinham mandado buscar vinho na casa do cura voltou dizendo, enquanto cocava a cabea, que o sacerdote havia ido a uma 
aldeia prxima exorcisar os ratos e que sua criada, a Maria Joana, no tinha querido dar nem um barrilzinho.
-        No se preocupe com esse detalhe, minha prima - interveio galantemente o Marqus du Plessis -, beberemos aguap de ma, e, se o senhor meu filho no gostar, 
no beber nada. Mas, em compensao, dem-me algumas informaes sobre o que acabo de ouvir. Entendo bastante a linguagem da regio, que falei nos meus tempos de 
criana, mas no compreendo o que diz este pobre moo. O cura foi exorcisar os ratos!... Que histria  essa?
 -        Nada tem de estranho, meu primo. H j algum tempo que as pessoas de uma aldeia vizinha se queixam de uma invaso de ratos que lhes comem os gros nos 
celeiros. O cura teve de ir l para levar gua benta e rezar as preces costumeiras, a fim de que os espritos malignos que moram nesses animais se afastem e cessem 
de ser prejudiciais.
 O marqus olhou estupefato para Armando de Sanc e, recostando-se na cadeira, comeou a rir.
 - Nunca ouvi dizer coisa mais divertida. Preciso escrev-lo  Sra. de Beaufort. De modo que, para destruir os ratos, borrifam-nos com gua benta?
 - Onde est a graa? Todo mal  obra dos espritos malignos que penetram nos animais para prejudicar os seres humanos. No ano passado, as lagartas invadiram um 
dos meus campos, e eu mesmo as fiz exorcisar.
- E elas foram embora?
- Foram, ao fim de dois ou trs dias.
- Quando j no tinham nada para comer.
 A Sra. de Sanc, que tinha por norma que uma mulher deve calar-se humildemente, no pde deixar de tomar a palavra para defender sua f, que suspeitou estar sendo 
atacada.
 - No vejo por que, meu primo, certas prticas sagradas no possam ter influncia sobre os animais daninhos. O prprio Nosso Senhor no fez entrar os demnios numa 
vara de porcos, segundo conta o Evangelho? Nosso cura pe muito empenho nessa espcie de oraes.
- E quanto lhe pagam por exorcismo?
-        Muito pouco, e est sempre pronto a vir quando chamado.
Desta vez, Anglica surpreendeu o olhar de cumplicidade que o Marqus du Plessis trocava com seu filho. "Esta pobre gente", parecia dizer, " de uma ingenuidade 
incrvel."
 -        Devo falar ao Sr. Vicente desses costumes campesinos - disse o marqus. - Vai consider-los uma enfermidade, o pobre homem, ele que fundou uma ordem especialmente 
encarregada de evangelizar o clero rural. Seus missionrios tm por patrono So Lzaro, e so chamados lazaristas. Vo em grupos de trs, pelos campos, fazer prdicas 
e ensinar aos curas de nossas aldeias que no devem comear a missa pelo Pater, nem dormir com a criada.  uma obra bastante inesperada, mas o Sr. Vicente  partidrio 
da reforma da Igreja pela Igreja.
 - Eis uma palavra de que no gosto! - exclamou o velho baro. - Reforma, sempre reforma! Suas palavras tm uma ressonncia huguenote, meu primo. Receio que entre 
a reforma e a traio ao rei no haja seno um passo. E quanto a esse Sr. Vicente, por mais eclesistico que seja, pelo que compreendi e pelo que tenho ouvido dizer 
dele, seus modos de agir tm algo de hertico, e Roma faria bem em desconfiar.
 - O que no impediu que Sua Majestade, o Rei Lus XIII, no momento de morrer, quisesse p-lo  testa do Conselho de Conscincia.
- E que vem a ser isso?
Com dedo hbil, o marqus bojou as mangas da camisa.
 - Como explicar-lhes?  uma coisa enorme. A conscincia do reino! O Sr. Vicente de Paulo  a conscincia do reino, isso  tudo. V a rainha quase todos os dias 
e  recebido por todos os prncipes. Apesar disso,  um homem simples e sorridente. Acha que a misria pode curar-se, e que os grandes deste mundo devem ajudar a 
reduzi-la.
 - Utopia! - interrompeu rudemente a tia Joana. - A misria, como o senhor mesmo dizia h pouco a respeito da guerra,  um mal que Deus quis para castigar o pecado 
original. Levantar-se contra ela eqivale a revoltar-se contra a disciplina divina!
 - O Sr. Vicente lhe responderia, minha cara, que "voc"  responsvel pelos males que nos cercam. E a mandaria, sem mais rodeios, levar remdios e alimentos aos 
mais pobres de seus camponeses, fazendo-a observar que, se os acha, segundo sua expresso, "demasiado grosseiros e terrestres", no precisa seno olhar o reverso 
da medalha para ver o rosto sofredor de Cristo. Encontrou, assim, esse homem um meio de recrutar para suas falanges caritativas quase todas as altas personalidades 
do reino. Este que aqui vem - acrescentou o marqus com ar compungido -, quando estava em Paris, s vezes ia dois dias por semana ao Htel-Dieu servir a sopa aos 
doentes.
- Voc me deixa cada vez mais assombrado! - exclamou o velho baro, agitadssimo. - Decididamente, os nobres de sua espcie no sabem mais o que inventar para desonrar 
seus brases. Vejo que o mundo caminha s avessas: preparam-se sacerdotes para evangelizar os sacerdotes, e chegamos ao ponto de um desavergonhado como voc, quase 
um libertino, vir pregar moral a uma famlia honesta e s como a nossa. No posso toler-lo!
 Fora de si, o ancio ergueu-se, e, como a refeio havia terminado, todos o imitaram. Anglica, que no tinha podido comer nada, saiu da sala sem se fazer notar. 
Inexplicavelmente, sentia-se gelada e tinha calafrios. Tudo o que acabara de ouvir rodopiava em sua cabea: o rei dormindo sobre palha, o Parlamento rebelado, os 
grandes senhores servindo sopa, Paris, um mundo cheio de vida e de atrativos. Diante daquela agitao, sentia-se como morta, vivendo encerrada em uma cripta.
 Subitamente postou-se num canto do corredor. Seu primo Filipe passou perto dela sem v-la. Ouviu-o subir ao pavimento superior e interpelar seus criados, que,  
plida luz de algumas velas, preparavam os quartos para seus amos. A voz de falsete do rapaz elevava-se raivosa:
 -         incrvel que nenhum de vocs se tenha lembrado de obter brandes na ltima parada. Poderamos ter suspeitado de que, nestas remotas paragens, os pretensos 
nobres no valem mais do que os seus viles. Aqueceram o menos a gua para o meu banho?
 O homem respondeu qualquer coisa que Anglica no ouviu. Filipe tornou resignadamente:
 -        Tanto pior! Lavar-me-ei em uma tina! Felizmente, meu pai me disse que no Castelo do Plessis h dois banheiros florentinos.
Estou impaciente por chegar. Tenho a impresso de que o odor desta tribo dos Sanc nunca me vai sair do nariz.
"Desta vez", pensou Anglica, "ele me pagar." Viu-o descer de novo  luz da lanterna colocada sobre o consolo da antecmara. Quando ele estava bem perto, saiu da 
sombra da escada.
 - Como se atreve a falar de ns com tal insolncia aos lacaios? - interrogou com voz firme, que ressoou sob as abbadas. - Voc no tem sentido da dignidade da 
nobreza? Isso se deve, sem dvida, a descendentes de um bastardo de rei. Quanto a ns, temos o sangue puro.
 - To puro o sangue como suja a cara - replicou o jovem friamente.
 Dando um salto inesperado, Anglica atirou-se contra ele, disposta a enterrar-lhe as unhas no rosto. Mas o rapaz, com fora j varonil, segurou-a pelos pulsos e 
atirou-a violentamente contra a parede. Em seguida afastou-se sem aligeirar o passo.
 Atordoada, Anglica sentia que o corao lhe batia precipitadamente. Afogava-a um sentimento misto de vergonha e desespero.
 "Odeio-o", pensava, "e me vingarei algum dia. Ter de curvar-se, de me pedir perdo."
 Mas por enquanto no passava de uma menina miservel  sombra de um castelo velho e mido.
 Rangeu uma porta, e Anglica percebeu a silhueta macia do velho Guilherme, que entrava trazendo dois baldes de gua fumegante para o banho do jovem senhor. Ao 
v-la, deteve-se.
- Quem est a?
- Sou eu - respondeu Anglica em alemo.
 Quando estava a ss com o velho soldado, falava sempre nessa lngua, que ele lhe havia ensinado.
 - Que faz a? - retrucou Guilherme no mesmo idioma. - Faz frio. V para a sala escutar as histrias do senhor marqus, seu tio. Assim poder alegrar-se para todo 
o ano.
 - Detesto essa gente! - disse Anglica. - So impertinentes e em nada se parecem conosco. Destroem tudo o que tocam e deixam-nos depois sozinhos e com as mos vazias, 
enquanto partem para seus belos castelos, cheios de objetos magnficos.
 - Que se passa com voc, minha filha? - perguntou lentamente o velho Ltzen. - Seu esprito no poderia estar acima de algumas brincadeiras?
 Crescia o mal-estar de Anglica. Um suor frio molhava-lhe a fronte.
 - Guilherme, voc, que nunca esteve em uma corte de prncipes, diga-me: quando algum encontra de uma s vez um malvado e um covarde, que deve fazer?
 - Estranha pergunta para uma menina! J que me pergunta, dir-lhe-ei que deve matar o malvado e deixar que o covarde fuja.
 E acrescentou, depois de um momento de reflexo, tornando a pegar os baldes:
 - Mas seu primo Filipe no  nem covarde nem malvado.  um pouco jovem, eis tudo...
 - Ento, tambm voc o defende? - exclamou Anglica com voz aguda. - Tambm voc. Porque  formoso... porque  rico...
 Enchia-lhe a boca um gosto amargo. Vacilou e, escorregando ao longo da parede, tombou desmaiada.
 A enfermidade de Anglica era coisa naturalssima. A Sra. de Sanc deu  menina explicaes tranqilizadoras sobre os sintomas que a inquietavam: havia-se transformado 
em mulher. Avisou-a de que aquilo lhe aconteceria da em diante todos os meses, at uma idade avanada.
 - E desmaiarei todos os meses? - perguntou Anglica, surpreendida de no haver percebido mais amide os desmaios obrigatrios das mulheres que a rodeavam.
 - No, o desmaio foi um acidente. Logo voc se recobrar e se acostumar perfeitamente ao seu novo estado.
 - De qualquer maneira... falta muito para ser velha! - suspirou a menina. - E, quando for velha, j no poderei subir nas rvores.
 - Pode continuar subindo nas rvores - disse a Sra. de Sanc, que punha muita delicadeza na educao de seus filhos e parecia compreender os dissabores de Anglica. 
- Mas, como voc mesma compreende, j  hora de renunciar a algumas criancices que no ficam bem para a sua idade e para a sua condio de senhorita nobre.
 Acrescentou pequeno discurso em que tratou da alegria de trazer filhos ao mundo e do castigo original que pesa sobre todas as mulheres por culpa de nossa me Eva.
"Juntemos isso  misria e  guerra", pensou Anglica.
 Estirada entre os lenis, escutando a chuva que caa, experimentava certo bem-estar. Sentia-se fraca e, ao mesmo tempo, engrandecida. Tinha a impresso de se achar 
estendida em um navio que se afastava de uma praia conhecida, rumo a outro destino. De vez em quando pensava em Filipe e cerrava os dentes.
Depois do seu desfalecimento, velada no leito pela tia Pulquria, Anglica no percebera a partida do marqus e de seu filho. Soube que no haviam demorado muito 
em Monteloup. Filipe queixava-se dos percevejos, que no o tinham deixado dormir. - E minha petio ao rei? - perguntou o Baro de Sanc no momento em que seu ilustre 
parente subia para a carruagem. - Voc pde apresent-la?
   -        Apresentei-a, meu bom amigo, mas no creio que voc tenha direito a esperar dela grande coisa; o pequeno rei est agora mais pobre do que voc e no 
tem, por assim dizer, nem um teto sob o qual repouse a cabea. Contaram-me - prosseguiu desdenhosamente - que voc preenche seus lazeres criando belos muares. Venda 
alguns.
 -        Refletirei sobre sua sugesto - disse Armando de Sanc, em tom irnico. - Atualmente,  melhor para um gentil-homem ser trabalhador do que contar com a 
generosidade de seus pares.
  - Trabalhador! Oh! Que palavra feia! - disse o marqus com gesto amaneirado. - Adeus, meu primo! Envie seu filho para o exrcito, e os seus mais robustos aldees 
para o meu regimento. Adeus! Beijo-lhe mil vezes.
 A carruagem afastou-se aos solavancos, enquanto uma bem tratada mo se agitava na portinhola.
 No houve outras visitas dos senhores do Plessis. Soube-se que davam algumas festas; depois, que se preparavam para voltar  He de France com seu exrcito inteiramente 
novo. Os sargentos recrutadores j tinham passado por Monteloup.
 No castelo, somente Joo Couraa e um dos trabalhadores do campo se deixaram tentar pelo glorioso porvir reservado aos drages do rei. A ama Fantina chorou copiosamente 
quando seu filho partiu.
 -        No era mau, e agora se converter em um soldado-cavaleiro como voc - disse a Guilherme Ltzen.
-         questo de herana, minha cara. No teve por pai um soldado?
Para marcar as pocas, adquiriu-se, no castelo, o hbito de dizer:
"Isso aconteceu antes, ou depois, da visita do Marqus du Plessis".

CAPTULO VII

A visita do homem de negro - O irmo mais veiho de Anglica foge para a Amrica

Ocorreu depois do incidente do "visitante negro".
 Foi recordado por Anglica mais profundamente e por muito mais tempo. Longe de abater e mortificar, como o haviam feito os hspedes anteriores, o visitante trouxe, 
com suas palavras estranhas, uma esperana que haveria de acompanhar a jovem no transcurso de sua vida, uma esperana to arraigada que nos momentos de angstia 
vividos mais tarde bastava-lhe fechar os olhos para rever aquela tarde chuvosa de primavera, na qual o homem havia aparecido.
 Anglica estava na cozinha, como de costume. A seu redor brincavam Dionsio, Maria Ins e o pequeno Alberto. O caula estava no bero, perto do fogo. Para as crianas, 
a cozinha era a mais bela pea da casa. O fogo ali ardia todas as horas e quase sem fumaa, pois a chamin era muita alta. A luz daquele fogo perene danava e refletia-se 
nos fundos vermelhos de caarolas e de pesados tachos de cobre, que pendiam das paredes. O retrado e pensativo Gontran passava horas inteiras observando a cintilao 
daqueles reflexos, nos quais enxergava estranhas vises, e nos quais Anglica reconhecia os gnios tutelares de Monteloup.
  Naquela tarde Anglica estava preparando um pastelo de lebre. J tinha dado  massa a forma de torta, e estava  picando a carne. Ouviu-se o tropel de um cavalo.
 -         seu pai que volta - disse tia Pulquria. - Anglica, creio que devemos ir ao salo.
 Depois de curto silncio, durante o qual o cavaleiro deve ter-se apeado, soou a campainha da porta de entrada.
- Vou atender - gritou Anglica.
E precipitou-se, com as mangas arregaadas e os braos sujos de farinha. Atravs da chuva e da bruma distinguiu um homem alto e magro de cuja capa escorria gua.
 - Abrigou seu cavalo? - perguntou. - Aqui os animais se resfriam facilmente. H demasiada nvoa, por causa dos pntanos.
 - Agradeo-lhe, senhorita - respondeu o forasteiro, tirando o grande chapu de feltro e fazendo uma reverncia. - Tomei a liberdade, segundo o costume dos viajantes, 
de levar o meu cavalo e a bagagem para a sua estrebaria. Como me achava demasiado longe do meu destino, e passava perto do Castelo de Monteloup, decidi-me a solicitar 
do senhor baro hospitalidade por uma noite.
 Pelo traje de grosso tecido negro, apenas adornado com um colarinho branco, Anglica pensou que se tratasse de um pequeno comerciante ou de um campons em roupa 
domingueira. Mas seu acento, que no era da regio e parecia um pouco estrangeiro, desconcertava-a, bem como a linguagem rebuscada.
 -        Meu pai ainda no voltou para casa, mas venha aquecer-se na cozinha. Um moo cuidar do animal.
 Quando voltou  cozinha,  frente do visitante, seu irmo Josselino acabava de entrar pela porta dos fundos. Coberto de lama, com o rosto vermelho e sujo, ia arrastando 
pelo cho um javali por ele morto.
-        Boa caa, senhor? - perguntou o forasteiro com muita cortesia.
Josselino lanou-lhe um olhar pouco amvel e respondeu com um grunhido. Sentou-se, depois, em um tamborete e estendeu os ps para o lume. Mais modestamente, o visitante 
sentou-se tambm junto ao fogo e aceitou um prato de sopa que Fantina lhe ofereceu. Explicou que era originrio da regio, pois havia nascido perto de Secondigny, 
mas que, por ter passado muitos anos viajando, falava com sotaque estrangeiro a sua prpria lngua.
 -        Mas perd-lo-ei prontamente - afirmou. No fazia mais de uma semana que desembarcara em La Roche.
 Ao ouvir as ltimas palavras, Josselino levantou a cabea e fitou-o com olhos brilhantes. Os meninos rodearam-no e comearam a criv-lo de perguntas.
- Que paises visitou?
- Muito distantes daqui?
- Qual  sua profisso?
 - No tenho profisso - respondeu o desconhecido. - Por enquanto, creio que gostaria bastante de percorrer a Frana e contar a quantos queiram escut-las as minhas 
viagens e aventuras.Como os poetas, como os trovadores medievais? - perguntou Anglica, que, apesar dos pesares, havia aproveitado algumas das lies de tia Pulquria.
 - Qualquer coisa assim, embora eu no saiba cantar nem fazer versos. Mas poderei contar-lhes coisas muito belas das terras em que no  preciso plantar vides. As 
uvas pendem das rvores das florestas, mas os habitantes no sabem fazer vinho com elas.  melhor assim, porque No se embriagou e o Senhor no quer que os homens 
se transformem em porcos. Ainda existem povos inocentes sobre a Terra. Tambm poderia falar-lhes dessas extensas plancies, onde, para conseguir um cavalo, basta 
espreitar, atrs de uma rocha, a passagem das recuas selvagens, que galopam com as crinas ao vento. Lana-se-lhes uma corda comprida com um n corredio, e fica-se 
dono do animal.
- E podem-se dom-los facilmente?
- Nem sempre - disse sorrindo o forasteiro.
 Anglica compreendeu que aquele homem devia sorrir poucas vezes. Parecia ter uns quarenta anos, mas existia em seu olhar algo inflexvel e apaixonado.
 - Para chegar a esses pases  preciso atravessar o mar? - perguntou com desconfiana o taciturno Josselino.
 - Atravessa-se todo o oceano. Alm, no interior das terras, encontram-se grandes rios e lagos. Os habitantes so de cor vermelho-acobreada. Enfeitam a cabea com 
penas de aves e viajam em canoas feitas com peles de animais. Tambm estive numas ilhas onde todos os homens so negros. Alimentavam-se de plantas grossas como o 
punho de um homem, chamadas cana-de-acar, e  delas, na verdade, que provm o acar. Com o melao fazem uma bebida mais forte que a aguardente dos cereais, mas 
que embriaga menos e d alegria e fora: chama-se "rum".
 - Trouxe um pouco dessa bebida maravilhosa? - perguntou Josselino.
 - Tenho uma garrafa na bolsa de minha sela. Mas deixei vrios tonis em casa de meu primo, que mora em La Rochelle e que tenciona tirar deles bons lucros.  esse 
o seu negcio. Quanto a mim, sou apenas um viajante curioso de ver terras novas, vido de conhecer esses lugares onde ningum tem fome nem sede e onde o homem se 
sente livre. Foi ali que compreendi que todo o mal provm dos homens de raa branca, que no atenderam  palavra do Senhor, mas a desviaram de seu verdadeiro sentido. 
Porque o Senhor no mandou matar nem destruir, mas amar uns aos outros.
Houve um silncio. As crianas no estavam acostumadas quela linguagem to inslita.
-A vida nas Amricas , pois, mais perfeita que em nossos pases, onde Deus reina h tanto tempo? - perguntou a voz tranqila de Raimundo.
"Tambm ele se tinha aproximado, e Anglica notou em seu olhar ia expresso anloga  do forasteiro. Este mirou-o com ateno.
-  difcil pesar em uma balana as diversas perfeies de um mundo antigo e de um mundo novo, meu filho. Que posso dizer-:? Nas Amricas vive-se de maneira muito 
diferente. A hospitalidade entre os homens brancos  ampla; nunca se fala ali de pagar alm disso, em certos lugares, o dinheiro no existe e vive-se ricamente da 
caa, da pesca e da troca de peles por avelrios.
- E as plantaes?
Desta vez era Fantina Lozier quem interrogava, coisa a que no teria atrevido em presena de seus patres. Mas a curiosidade devorava, como s crianas.
- As plantaes? Nas Antilhas os negros trabalham pouco a terra, i Amrica, os peles-vermelhas no se ocupam disso, mas vivem colheita de frutos e rebentos. Em outros 
rinces, cultiva-se a baia, que se denomina trufa na Europa, mas que ainda no se plan-aqui. Mas o que mais se v so frutas; por exemplo, espcies de ras que, na 
realidade, so cheias de manteiga, e rvores de po.
- rvores de po? Ento, no so necessrios os moleiros? - clamou Fantina.
- Claro que no. Alm do mais, existe muito milho. Em outras reses, as pessoas mascam algumas cascas, ou nozes de cola. Com isso, no sentem fome nem sede durante 
todo o dia. Tambm se come uma espcie de massa de amndoa, o cacau, que se mistura com acar mascavo. E bebe-se um extrato de favas, chamado caf. Nos pases mais 
desrticos, encontra-se suco de palma ou de agave. H animais...
- Nesses pases pode-se fazer cabotagem? - interrompeu Josselino.
- Alguns habitantes de Dieppe j o fazem, e tambm pessoas dali. Meu primo trabalha para um armador que s vezes manda seus ivios  Costa Franciscana, como diziam 
no tempo de Francisco.
- J sei, j sei - interrompeu de novo Josselino, impaciente.  Sei tambm que oloneses tm ido  Terra Nova, e pessoas do arte  Nova Frana, mas me parece que esses 
pases so muito ios e no me agradariam.
- Enviaram Champlain  Nova Frana j em 1608, e h ali muitos colonos franceses. Mas , realmente, um pas muito frio, e a vida nele  muito dura.
- Por qu?
 -  bastante difcil explicar-lhes isso. Talvez porque j se acham l alguns jesutas franceses.
- O senhor  protestante, no  verdade? - arriscou Raimundo.
 - Sim. Sou at pastor, embora sem parquia, e principalmente viajante.
 - Entrou em porta errada, senhor - disse com riso irnico Josselino. - Creio que meu irmo sente forte atrao pela disciplina e exerccios espirituais da Companhia 
de Jesus, que o senhor critica.
 - Longe de mim a idia de censurar-lhes - disse o huguenote com gesto de protesto. - Encontrei por l, muitas vezes, padres jesutas que penetraram no interior 
da terra com uma coragem e abnegao evanglicas. Para certas tribos da Nova Frana, no existe maior heri do que o clebre Padre Jogues, mrtir dos iroqueses. 
Mas cada um tem liberdade de conscincia e de convices.
 - Em verdade - disse Josselino -, no posso conversar com o senhor sobre tais assuntos, pois comeo a esquecer o latim, mas meu irmo o fala com mais elegncia 
que o francs e...
 - Essa  uma das maiores desditas que tombaram sobre a nossa Frana! - exclamou o pastor. - Que j no possamos rezar a Deus cada qual em nossa lngua materna e 
com o corao, e sim que seja indispensvel servirmo-nos desses encantamentos em latim...
 Anglica lamentava que j no falassem de mares encapelados nem de navios negreiros, de animais extraordinrios como as serpentes ou desses lagartos gigantescos 
com dentes de lcio, capazes de matar um boi, ou ainda de baleias grandes como barcos.
 No havia percebido que a ama acabava de sair da cozinha. Tinha deixado a porta entreaberta, por onde chegaram aos ouvidos de Anglica as palavras pronunciadas 
em voz baixa pela Sra. de Sanc:
 -        Protestante ou no, minha filha, esse homem  nosso hspede e permanecer aqui enquanto desejar.
Pouco depois a baronesa, seguida de Hortnsia, entrou na cozinha.
 O visitante inclinou-se cortesmente, sem beija-mo nem reverncia palaciana. Anglica pensou que era certamente um plebeu, mas achou-o simptico, embora huguenote, 
e muito pouco exaltado.
 -        Pastor Rochefort - disse, apresentando-se. - Tenho de ir a Secondigny, minha terra natal, mas, como o percurso  longo, pensei em acolher-me sob seu teto 
hospitaleiro, minha senhora.
 A dona da casa garantiu-lhe que era muito bem-vindo e que, embora todos ali fossem catlicos praticantes, isso no os impedia de ser tolerantes, como o tinha recomendado 
o bom Rei Henrique IV.
-        E o que me atrevi a esperar ao entrar aqui, minha senhora- respondeu o pastor, inclinando-se mais profundamente -, pois devo confessar-lhe que amigos meus 
me confiaram que a senhora tem h muitos anos um velho servidor huguenote. Assim foi que me dirigi a ele em primeiro lugar. Trata-se de Guilherme Ltzen, que me 
fez confiar em que a senhora poderia acolher-me esta noite.
 - Pode ficar certo disso, meu senhor, e ainda nos dias seguintes, se assim desejar.
 - Meu nico prazer  estar s ordens do Senhor, na medida em que posso servi-lo. Ele me inspirou bem, embora, confesso-o, a quem acima de tudo desejaria ver  a 
seu marido...
- O Senhor traz uma incumbncia em relao a meu marido?-        disse surpresa a Sra. de Sanc.
 -        No uma incumbncia, mas talvez uma misso. Permita, senhora, que no a comunique seno a ele.
-        Certamente, senhor. Alis, j ouo os passos de seu cavalo.
O Baro Armando no tardou a entrar. Certamente o avisaram da inesperada visita. No demonstrou para com seu hspede a habitual cordialidade. Parecia constrangido 
e preocupado.
 -  certo, senhor pastor, que vem das Amricas? - perguntou, depois das saudaes costumeiras.
 - Sim, senhor baro. E me agradaria ter com o senhor uns momentos em particular para falar-lhe de quem o senhor sabe.
 - Psiu! - fez imperativamente Armando de Sanc, lanando um olhar inquieto para a porta.
 E acrescentou um tanto precipitadamente que sua casa estava  disposio do Sr. Rochefort, e que lhe bastaria pedir aos criados tudo o que fosse necessrio para 
o seu conforto. Jantariam dali a uma hora. O pastor agradeceu e pediu permisso para retirar-se, a fim de "lavar-se um pouco".
 "No lhe bastou o aguaceiro?", pensou Anglica. "Que pessoas originais esse huguenotes! Dizem com razo que no so como as outras criaturas. Amanh perguntarei 
a Guilherme se ele tambm se lava a cada instante. Deve ser algum de seus ritos. Por isso mostram, amiude, esse ar triste e s vezes so to irritveis, como Ltzen. 
Tm a pele muito spera e em carne viva e deve doer-lhes...  como o jovem Filipe, que tambm sente necessidade de passar a vida a banhar-se. No h dvida de que 
essa preocupao acabar por arrast-lo  heresia. Pode ser que o queimem, e ser muito bem feito!"
 Quando o forasteiro se encaminhava para a porta, a fim de ir ao aposento que lhe havia destinado a Sra. de Sanc, Josselino, com sua habitual incivilidade, reteve-o 
pelo brao.
 - Mais uma palavra, pastor. Para poder trabalhar nesses pases da Amrica, sem dvida,  preciso ser muito rico, ou ento comprar um posto de oficial de navegao 
ou, pelo menos, de arteso de qualquer ofcio?
 - Meu filho, as Amricas so terras livres, onde nada se exige, embora seja certo que nelas  preciso trabalhar muito e duramente e tambm defender-se.
 - Quem  voc, estrangeiro, para permitir-se chamar "meu filho" a esse jovem, e ainda mais na presena de seu prprio pai e na minha, seu av?
Havia-se feito ouvir a voz depreciativa do velho baro.
 - Sou o Pastor Rochefort, senhor baro, para servir-lhe, mas no tenho diocese designada, e somente estou de passagem.
 - Um huguenote! - grunhiu o velho. - E que, alm do mais, vem desses pases malditos...
 Estava de p na soleira, apoiado na bengala, mas to empertigado quanto podia. Havia tirado o amplo sobretudo negro com que se agasalhava no inverno. Pareceu a 
Anglica que tinha o rosto to branco como a barba. Sem saber por qu, sentiu medo e apressou-se a intervir.
 - Meu av, este cavalheiro estava todo molhado e oferecemos-lhe agasalho. Contou-nos histrias fascinantes...
 - Seja. No nego que aprecio a coragem e, quando o inimigo se apresenta de rosto descoberto, sei que tem direito a todas as consideraes.
- Senhor, no venho como inimigo.
 - Poupe-nos das suas prdicas herticas. Nunca tomei parte em controvrsias que no so da competncia de um velho soldado. Mas desejo avisar-lhe que nesta casa 
no encontrar almas para converter.
O pastor suspirou imperceptivelmente.
 -        Para dizer a verdade, no venho da Amrica como pregador em busca de novas converses. Em nossa Igreja, os fiis e curiosos aproximam-se livremente. Sei 
muito bem que em sua famlia so todos catlicos fervorosos e que  muito difcil converter aqueles cuja religio est fundada sobre as mais antigas supersties, 
e que pretendem ser os nicos infalveis.
 - Com isso reconhece que no recruta seus adeptos entre as pessoas de bem, mas entre os indecisos, os ambiciosos desiludidos, os monges que largaram a batina e 
que se alegram de ver santificados os- seus desmandos.
 - Senhor baro, o senhor  demasiado imprudente em seus juzos - disse o pastor, em tom enrgico. - Altas personagens e prelados do mundo catlico j se converteram 
 nossa doutrina.
 - No me revela nada que eu j no saiba. O orgulho pode fazer afrouxar os melhores. Mas a vantagem de que gozamos, ns, os catlicos,  que somos auxiliados pelas 
oraes de toda a Igreja, dos santos e de nossos mortos, enquanto vocs, em seu orgulho, recusam esta intercesso e pretendem tratar com o prprio Deus.
 - Os papistas acusam-nos de orgulho, mas eles mesmos consideram-se infalveis e arrogam-se o direito da violncia. Quando sa da Frana - continuou o pastor com 
voz surda -, em 1629, acabava de escapar, muito jovem, ao stio atroz de La Rochelle pelas hordas do Sr. de Richelieu. Estavam ento firmando a paz de Ales, que 
tirava aos protestantes o direito de possuir praas fortes.
 - J era tempo. Estavam convertendo-se em um Estado dentro do Estado. Confesse que seu fim era arrebatar  influncia do rei todas as regies do oeste e do centro 
da Frana.
 - Ignoro-o. Era ento demasiado jovem para abraar to vastos desgnios. Tudo o que compreendi foi que aquelas novas decises estavam em desacordo com o Edito de 
Nantes, do Rei Henrique IV. Vejo a meu redor, com amargura, que no cessaram de contestar e deturpar os pontos do referido edito, ao faz-lo cumprir com um rigor 
que corre parelhas com a m-f dos casustas e dos juzes. A isso chamam "observncia mnima" do edito. Vejo, por exemplo, que os protestantes so obrigados a enterrar 
seus mortos de noite. Por qu? Porque o edito no diz explicitamente que o enterro de um reformado pode ser feito de dia. Logo, tem de ser feito  noite.
 - O que deve comprazer  sua humildade - disse em tom de troa o velho nobre.
- Quanto ao artigo 28, que permite aos protestantes abrir escola em todos os lugares onde esteja autorizado o exerccio de culto, como foi interpretado? Como o edito 
no fala nem das matrias, nem do nmero de professores, nem da importncia das classes por comunidade, decidiram que no devia existir seno um mestre protestante 
por escola e por burgo. Assim  que em Marennes vi seiscentas crianas protestantes com direito a um s mestre. Ah, bem se v o esprito ladino que anima a falsa 
dialtica da Igreja antiga! - exclamou o pastor. Houve um silncio embaraoso, e Anglica percebeu que seu av, no fundo um esprito reto e justo, estava levemente 
perturbado pela exposio de tais fatos, que ele no ignorava. Mas de repente a voz calma de Raimundo se fez ouvir:
 - Senhor pastor, no estou em condies de apreciar a justia da investigao que o senhor realizou nestas terras sobre certos abusos de zeladores intransigentes. 
Agradeo-lhe no haver citado os casos de converses compradas de crianas e adultos, mas deve saber que, se tais excessos existem, Sua Santidade, o papa, em pessoa 
interferiu muitas vezes junto ao clero da Frana e ao rei. Comisses oficiais e secretas percorrem o pas para sanar as injustias praticadas. Estou convencido de 
que, se fosse at Roma e entregasse uma representao minuciosa ao sumo pontfice, a maior parte das faltas que observou seriam corrigidas...
 - Jovem, a mim no me cabe intentar a reforma da sua Igreja - disse o pastor com rudeza.
 - Pois a faremos ns mesmos, senhor pastor, e, queira ou no, o Todo-Poderoso nos iluminar! - exclamou o adolescente com sbito calor.
 Anglica olhou com espanto para seu irmo. Nunca desconfiara que podia esconder-se tanta paixo sob aquela aparncia insignificante e um tanto hipcrita.
 Desta vez quem se desconcertou foi o pastor. Procurando dissipar o enleio, o Baro Armando disse, rindo sem malcia:
 -        Suas discusses fazem-me lembrar que desde h algum tempo lamento, s vezes, no ser huguenote. Porque parece que do at trs mil libras por um nobre 
que se converte ao catolicismo.
O velho baro saltou:
 -        Meu filho, poupe-me de suas pesadas brincadeiras. So de mau gosto perante um adversrio.
O pastor havia apanhado sua capa mida de sobre a cadeira.
 -        No vim aqui como adversrio. Tinha uma misso a cumprir no Castelo de Sanc. Uma mensagem de terras distantes. Queria falar a ss com o Baro Armando, 
mas vejo que tem o costume de tratar dos seus assuntos publicamente em famlia. Agrada-me essa maneira. Era a dos patriarcas e tambm a dos apstolos.
 Anglica viu que seu av tinha ficado to branco como o casto de marfim de sua bengala e que se apoiava na ombreira da porta.
 Teve pena dele. Gostaria de prender as palavras que estavam por vir, mas j o pastor continuava:
 -        O Sr. Antnio de Ridou de Sanc, seu filho,.a quem tive o prazer de encontrar na Flrida, pediu-me que viesse ao castelo onde ele nasceu e obtivesse notcias 
de sua famlia, para que eu lhas possa transmitir quando voltar. Minha tarefa est cumprida.
O velho gentil-homem acercara-se dele vagarosamente.
 - Fora daqui! - disse com voz surda e ofegante. - Nunca, enquanto eu viver, se pronunciar sob este teto o nome de meu filho perjuro ante seu Deus, seu rei e sua 
ptria. Fora daqui, digo-lhe! No quero huguenotes em minha casa!
- Eu vou - disse o pastor, muito calmo.
- No!
Era a voz de Raimundo que se erguia de novo.
 - Fique, senhor pastor. No pode sair com esta noite chuvosa. Nenhum habitante de Monteloup querer dar-lhe asilo, e a primeira aldeia protestante  muito longe. 
Peo-lhe que aceite a hospitalidade do meu quarto.
 - Fique - disse Josselino com sua voz rouca. -  preciso que continue falando-me das Amricas e do mar.
A barba do velho baro tremia.
 -        Armando! - exclamou, com tal angstia que partiu o corao de Anglica. - Eis aqui onde se refugiou o esprito de rebeldia de seu irmo Antnio: nestes 
dois rapazes que eu amava. Deus no me poupar a coisa nenhuma. Na verdade, vivi demasiado.
 Cambaleou. Guilherme foi quem o amparou. Saiu apoiado ao velho soldado e repetindo com voz trmula:
-        Antnio... Antnio...
 Alguns dias mais tarde o av morreu. No se pde saber de que doena. Extinguiu-se quando j o acreditavam recuperado da emoo causada pela visita do pastor.
No sentiu a dor de inteirar-se da partida de Josselino.
 Com efeito, certa manh, pouco depois do enterro, Anglica, que ainda dormia, ouviu que algum a chamava a meia voz e viu, com surpresa, que Josselino estava  
cabeceira de sua cama. Ela fez-lhe sinal para que no acordasse Madelon e saiu com ele para o corredor.
 -  Vou-me embora - murmurou Josselino. - Voc procurar faz-los compreender.
-        Aonde vai?
 -  Primeiro a La Rochelle e depois para as Amricas. O Pastor Rochefort me falou de todos estes pases: Antilhas, Nova Inglaterra, e tambm das colnias: Virgnia, 
Maryland, Carolina, o novo ducado de York, a Pensilvnia. Acabarei chegando a alguma parte onde me queiram.
 - Aqui tambm o querem - disse Anglica em tom queixoso. Tiritava dentro de sua tnue camisola surrada.
 - No - disse Josselino -, neste pas no h lugar para mim. Estou cansado de pertencer a uma classe que possui privilgios e j no tem utilidade alguma. Ricos 
ou pobres, os nobres j no sabem absolutamente para que servem. Veja o que se passa com papai. Anda s tontas. Rebaixa-se a criar muares, mas no se atreve a explorar 
a fundo essa situao humilhante para erguer com dinheiro seu ttulo de gentil-homem. De modo que perde por ambos os lados. Zombam dele porque se entrega ao negcio 
de muares, e tambm porque somos nobres sem dinheiro. Felizmente nosso tio Antnio de Sanc, o irmo mais velho de papai, indicou-me o caminho: fez-se huguenote 
e deixou o continente.
- Voc vai abjurar? - perguntou horrorizada.
- No. As beatices no me interessam. Eu quero  viver.
 Beijou-a apressadamente, desceu alguns degraus e voltou-se para lanar sobre sua irm meio desnuda um olhar de homem prudente.
 -        Voc est se tornando bela e forte, Anglica. Cuidado! Tambm deveria ir embora. Se no o fizer, qualquer dia destes se encontrar no palheiro com um moo 
de cavalaria. Ou se converter em propriedade de um destes ricaos que temos por vizinhos.
Acrescentou com sbita doura:
 -        Creia na minha experincia de menino mau, querida: seria para voc uma vida insuportvel. Fuja tambm destas velhas muralhas. Quanto a mim, vou para o 
mar.
E, saltando os degraus de dois em dois, desapareceu.

CAPITULO VIII

O claustro dos monges dissolutos - Singular concluso do negcio dos
 muares - A Marquesa du Plessis quer Anglica para donzela de honor

A morte d av, a partida de Josselino e aquelas palavras que lhe havia dito: "V voc tambm!", transtornaram Anglica profundamente, numa idade em que uma natureza 
hipersensvel se predispe a todas as extravagncias.
 Foi assim que, nos primeiros dias do vero, Anglica de Sanc de Monteloup partiu para as Amricas com um grupo de rapazes camponeses que havia recrutado e entusiasmado 
com seus projetos aventurosos. Disso se falou durante muito tempo na regio, e muitas pessoas viram no acontecimento mais uma prova de que ela pertencia  famlia 
das fadas.
 Para dizer a verdade, a expedio no foi alm da floresta de Nieul. Anglica voltou  razo ao cair da tarde, quando o sol projetava suas grandes pinceladas de 
luz vermelha por entre enormes troncos da selva centenria. Havia vivido uns tantos dias em plena febre. Via-se chegando a La Rochelle, oferecendo-se como grumete 
aos navios prestes a zarpar, desembarcando em terras desconhecidas onde seres amveis a acolheriam com as mos carregadas de uvas. Seduziu facilmente Nicolau. "Marinheiro... 
isto  muito melhor do que guardar as bestas. Sempre desejei correr mundo." Outros valdevinos, a quem agradava mais vaguear pelos bosques do que trabalhar no campo, 
suplicaram que os levassem, e Dionsio tambm, naturalmente. Eram oito ao todo. E Anglica, a nica moa, era o chefe. Cheios de confiana nela, inquietaram-se apenas 
quando a noite comeou a invadir a mata. Com flores nas mos e o nariz lambuzado de amoras, acharam esta primeira parte da expedio extremamente agradvel. Andaram 
desde o amanhecer e fizeram alto por volta do meio-dia, perto de um riacho, para devorar as provises de castanhas e po de rala.
 Em dado momento Anglica teve um calafrio e de repente a conscincia de sua tolice a invadiu com tal lucidez que ela sentiu a boca seca.
 "No podemos passar a noite na floresta", pensou. "Aqui h lobos."
 -        Nicolau - disse em voz alta -, no lhe parece estranho que ainda no tenhamos chegado  aldeia de Naill?
O rapaz comeou a intranqilizar-se.
 -        Parece-me que nos perdemos. Quando fui com meu falecido pai, tenho a impresso de que no andamos tanto tempo.
 Anglica sentiu que uma mozinha suja deslizava na sua. Era a do expedicionrio mais novo, que tinha seis anos.
 - J comea a anoitecer - gemeu ele. - Creio que estamos perdidos.
 - Pode ser que j estejamos muito perto - tranqilizou-o Anglica. - Continuemos caminhando.
 Voltaram a empreender a marcha em silncio. Por entre a ramagem, o cu empalidecia.
 -        Se no chegarmos  aldeia at a noite, no h motivo para nos assustarmos - disse Anglica. - Subiremos s rvores para dormir. Assim no seremos vistos 
pelos lobos.
 Mas, embora aparentasse tranqilidade, sentia-se angustiada. Subitamente chegou at eles o som argenteo de um sino e a menina deu um suspiro de alvio.
-        Ali est a aldeia, onde esto tocando o ngelus! - exclamou.
Puseram-se a correr. O caminho comeava a descer, as rvores espaavam-se. Encontraram-se de repente na orla do bosque e detiveram-se encantados.
 No fundo de um pequeno vale verdejante, ali estava, maravilha silenciosa no seio da floresta, a Abadia de Nieul.
 O sol poente dourava seus numerosos telhados cor-de-rosa, seus pinculos, suas paredes plidas semeadas de trepadeiras, seus claustros, seus grandes ptios desertos. 
Soava um sino. Um monge carregado de baldes dirigia-se para o poo.
 Emudecidos pela emoo religiosa, os meninos aproximaram-se do prtico principal. A porta de madeira estava entreaberta.
Entraram. Um velho monge, vestido de batina escura, estava sentado em um banco e havia adormecido. Os cabelos brancos formavam-lhe uma pequena coroa de neve cuidadosamente 
arrumada sobre o crnio desnudo.
 Nervosos pelas emoes diversas que acabavam de experimentar, os pequenos tunantes olharam-no e puseram-se a rir, o que atraiu um frade gordo e jovial  soleira 
de uma porta.
- Ei, meninos! - gritou-lhes em pato. - So uns malcriados!
- Parece-me que  Frei Anselmo - cochichou Nicolau.
 Frei Anselmo costumava percorrer a regio com seu asno. Distribua teros e garrafas de licor medicinal, extrado das flores da anglica, em troca de trigo e pedaos 
de toucinho. As pessoas estranhavam isso porque a abadia no pertencia a uma ordem mendicante, e diziam que era muito rica em conseqncia das rendas que obtinha 
de suas terras.
 Anglica dirigiu-se para ele, acompanhada de seu fiel grupinho. No se atreveu a confiar-lhe o seu plano inicial de seguir para as Amricas. Seguramente Frei Anselmo 
nunca teria ouvido falar das Amricas. Contou-lhe somente que eram de Monteloup e que, tendo ido ao bosque apanhar morangos e framboesas, se haviam perdido.
 -        Pobres franguinhos! - disse o frade, que era muito bom homem. - Vejam o que acontece aos gulosos. Suas mes os buscaro chorando e prevejo que, ao seu 
regresso, vo esquentar-lhes as ndegas. Mas por enquanto nada podem fazer seno sentar-se a. Vou dar-lhes uma escudela de leite e po de rala. Dormiro no celeiro 
e amanh atrelarei a carriola para lev-los a suas casas. Estava mesmo pensando em ir pedir esmolas no lugar.
 O projeto era razovel. Anglica e seus companheiros tinham andado o dia inteiro. Sabiam que, mesmo de carriola, somente chegariam a Monteloup altas horas da noite. 
Nenhum caminho atravessava a floresta de um lado a outro, exceto as trilhas que haviam seguido as crianas. Deveriam tomar um caminho muito mais extenso, que passava 
pelas comunas de Naill e Varrout, das quais estavam muito longe.
 "A floresta  como o mar", pensou Anglica. "Quem nela penetra tem de guiar-se por um relgio, como explicava Josselino; de outra maneira, caminhar s cegas."
 Foi tomada de sbito desalento. Via-se reiniciando mal a viagem, conduzindo um relgio to pesado como o que tinha visto em casa de Molines. Alm disso, seus "homens" 
no estavam a ponto de abandon-la? A menina ficou silenciosa, enquanto os demais comiam sentados junto  parede, na mornido do crepsculo que enchia os grandes 
ptios.
 O sino continuava a soar. As andorinhas lanavam seus pios agudos no cu cor-de-rosa, e as galinhas cacarejavam sobre montes de palha e estreo.
Frei Anselmo passou encapuzado.
 -        Vou para as completas - disse. - Portem-se bem, se no querem que os cozinhe na panela.
 Viam-se perfis escuros que passavam entre as arcadas do claustro. Perto do prtico, o velho frade continuava dormindo. Sem dvida, estava dispensado de assistir 
aos ofcios...
Anglica precisava refletir, e distanciou-se sozinha.
 Em um dos ptios viu belssimo coche brasonado, que descansava sobre seus varais. Uns cavalos de raa comiam seu feno na estrebaria. Este detalhe a intrigou sem 
que ela soubesse bem por qu. Caminhava devagarinho, em silncio, enfeitiada pelo encanto daquela grande morada no meio das rvores. Quando a noite enchesse a mata 
e os lobos vagassem nela, a abadia, protegida pelas grossas paredes, continuaria sua vida fechada, cujos segredos a menina no podia imaginar. Ao longe elevavam-se 
os cnticos da igreja, lentos e doces. Anglica, orientada pela msica, comeou a subir uma escada de pedra. Nunca tinha ouvido harmonia to suave, pois na igreja 
de Monteloup os cnticos berrados pelo cura e pelo mestre-escola em nada faziam lembrar os das falanges celestiais.
 Subitamente ouviu um rumor de saias e, ao voltar-se, viu caminhar na penumbra do claustro uma formosa dama ricamente vestida. Isso foi, pelo menos, o que lhe pareceu. 
Anglica nunca vira sua me nem suas tias em traje de veludo negro com flores cinzentas incrustadas. Como poderia suspeitar que era um vestido de extraordinria 
simplicidade, reservado para o retiro piedoso na tranqilidade de um mosteiro? Sobre os cabelos castanhos a criatura trazia uma mantilha de renda negra e na mo 
um grosso missal. Passou perto de Anglica e lanou-lhe um olhar de surpresa.
-        Que faz aqui, menina? No  hora de pedir esmola.
Anglica recuou, procurando assumir o ar pateta de uma camponesa assustada.
 Na sombra daquelas abbadas, o busto da dama lhe parecia extremamente branco e avantajado. Apenas uma fina renda cobria aquelas magnficas rotundidades que o plastro 
bordado apresentava, como uma cornucpia oferece seus frutos.
 "Eu gostaria de ser assim, quando crescer", pensou Anglica, que voltou a descer a escada em caracol.
 Afagava seu busto ainda pouco desenvolvido e sentia certa inquietao. O rudo de umas sandlias que subiam a escada f-la ocultar-se nervosamente atrs de um pilar. 
O burel de um monge roou-a ao passar. No conseguiu ver mais que um belo rosto, cuidadosamente barbeado, e uns olhos azuis, brilhantes de inteligncia na sombra 
do capuz. Ele desapareceu. Depois elevou-se sua voz varonil e suave.
 - S agora me preveniram de sua visita, senhora. Estava na biblioteca do mosteiro, inclinado sobre uns cdices que tratam de filosofias gregas. Mas a sala est 
muito distante e meus frades no so muito lestos, principalmente em poca de calor. Apesar de ser o abade, no me avisaram da sua chegada at a hora das completas.
 - No se desculpe, padre. Conheo o mosteiro, e me acomodei. Ah! Que bom ar se respira aqui! Cheguei ontem a minhas terras de Richeville, e estava impaciente por 
vir a Nieul. A atmosfera da corte, desde que se transferiu para Saint-Germain,  insuportvel. Tudo est revolto, triste e pobre. A verdade  que no consigo viver 
seno em Paris... ou em Nieul. Alm disso, o Sr. de Mazarino no gosta de mim. Dir-lhe-ei at que esse cardeal...
 O resto da conversa se perdeu. Os dois interlocutores se afastavam.
 Anglica encontrou seus companheiros na grande cozinha da abadia, onde Frei Anselmo, metido em um avental branco, azafamava-se ajudado por dois ou trs adolescentes 
vestidos com hbitos excessivamente grandes para eles. Eram os novios da abadia.
 - Ceia delicada esta noite - dizia o irmo cozinheiro. - A Condessa de Richeville encontra-se entre ns. Tenho ordem de descer  adega e escolher os melhores vinhos, 
assar seis capes e arranjar-me como puder para apresentar um prato de pescado. Tudo bem temperado - acrescentou, lanando um olhar malicioso a um de seus confrades, 
que, sentado junto a um extremo da mesa de madeira, bebia um copo de licor.
 - As criadas da visitante so graciosas - respondeu o outro, homem gordo e vermelho, cujo ventre quase fazia rebentar um cordo cheio de ns, do qual pendia um 
tero. - Ajudei trs dessas encantadoras moas a levar o leito para a cela reservada para sua patroa, bem como as malas e o guarda-roupa.
 -  Ah, ah, ah! - exclamou Frei Anselmo. - Gostaria de t-lo visto, Frei Toms, carregando mala e guarda-roupa! Voc, que nem ao menos tem fora para carregar a 
pana.
 -        Ajudei-as com meus conselhos - disse gravemente Frei Toms.
 Seus olhos avermelhados percorriam o aposento, onde brilhava e crepitava o lume sob assadores e enormes panelas.
 - Que nuvem  essa de vilezinhos que acolheu em seus domnios, Frei Anselmo?
- So crianas de Monteloup que se extraviaram na mata.
 - Por que no os prepara com escabeche? - disse Frei Toms, revirando os olhos de maneira terrvel.
Dois dos meninos puseram-se a chorar assustados.
 -        Vamos, vamos! - disse Frei Anselmo, abrindo uma porta. - Sigam por este corredor. Encontraro um celeiro, deitem-se ali e durmam. No tenho tempo para 
cuidar de vocs esta noite. Felizmente, um pescador me trouxe um belo lcio; do contrrio, o  nosso abade seria capaz de dar-me como penitncia trs horas com os 
braos em cruz. E j estou ficando velho para esses exerccios...
 Quando se certificou de que seus pequenos companheiros estavam dormindo, Anglica, deitada no cheiroso feno, sentiu que os olhos se lhe enchiam de lgrimas.
 - Nicolau - cochichou ela -, creio que nunca poderemos chegar s Amricas. Pensei muito nisso. Necessitaramos de um relgio.
 - No se inquiete - respondeu o adolescente, bocejando. - Desta vez samo-nos mal. Mas divertimo-nos bastante.
 - Naturalmente - disse Anglica, furiosa -, voc  como um esquilo. Incapaz de realizar grandes projetos. Alm disso, no se importa que voltemos em situao lastimvel 
a Monteloup. Seu pai no lhe dar uma sova, porque est morto, mas os outros, que tunda!
 - No se preocupe com eles - retrucou Nicolau meio adormecido -, tm o lombo duro.
Trs segundos depois, roncava ruidosamente.
 Anglica supunha que tantas preocupaes a impedissem de conciliar o sono, mas pouco a pouco a voz distante de Frei Anselmo, que azoinava seus novios, foi sumindo 
e a menina adormeceu.
 Com o calor excessivo, despertou. As crianas continuavam dormindo, e suas respiraes cadenciadas enchiam o celeiro.
"Vou respirar l fora", disse consigo mesma.
 Procurou, tateando, a porta do pequeno corredor que conduzia  cozinha. Quando conseguiu abri-la, chegou at ela um rumor de vozes estridentes e de gargalhadas 
camponesas. Nos domnios de Frei Anselmo parecia haver numerosa assemblia.
Anglica chegou at a soleira.
 Viu uma dezena de monges sentados em torno da grande mesa coberta de pratos e jarros de estanho. Carcaas de aves entulhavam os pratos. Um cheiro de vinho e de 
fritura misturava-se com o odor mais delicado de uma garrafa de licor aberta, do qual cada um dos comensais tinha um copo diante de si. Trs mulheres, camponesas 
louas disfaradas em aias, tomavam parte na festa. Duas delas riam muito e pareciam completamente embriagadas. A terceira, mais modesta, resistia a Frei Toms, 
que procurava atra-la.
 -        Vamos, vamos, querida - dizia o gordo monge -, no seja mais pudica que a sua augusta patroa. A esta hora, pode ter certeza de que ela no mais se ocupa 
de filosofia grega com o nosso abade. Voc ser a nica a no se divertir esta noite, na abadia.
 A criada lanou em volta de si olhares constrangidos e decepcionados. Sem dvida ela era menos arisca do que desejava parecer, mas a face rubicunda de Frei Toms 
no a seduzia.
 Um dos outros monges pareceu compreender isso, pois ergueu-se de sbito e enlaou-lhe a cintura num gesto carinhoso.
 -        Por So Bernardo, padroeiro do nosso claustro - exclamou ele -, esta moa  muito fina para voc, grande porco! Que est pensando? - interrogou, levantando 
com um dedo o queixo da recalcitrante. - Ser que no tenho belos olhos, embora me faltem belos cabelos? Pois digo-lhe que fui soldado e sei divertir as garotas.
 Ele tinha, efetivamente, olhos negros e vivos, e um ar astuto. A criada no pde deixar de sorrir. Seguiu-se uma curta rixa, provocada por Frei Toms, aborrecido 
por ter sido desprezado. Uma vasilha de estanho foi derrubada e as mulheres protestaram. Subitamente, algum gritou:
-        Olhem! Ali!... Um anjo!...
 Todos se voltaram para a porta, onde se encontrava Anglica. No recuou porque no era medrosa. Tinha assistido a muitas festas camponesas e no se assustava com 
as algazarras provocadas necessariamente pelas libaes abundantes. Mas algo se rebelava dentro dela. Parecia-lhe que aquele espetculo no condizia com a viso 
que havia tido ante os olhos, do alto da floresta, quando lhe surgiu a abadia, na luz dourada do entardecer, como asilo e refgio de paz.
 - E uma garota que se perdeu no bosque - explicou Frei Anselmo.
 - A nica de um bando de meninos - explicou Frei Toms. _-  uma esperana. Quem sabe no gostar da brincadeira? Tome, venha beber isto! - disse, oferecendo a 
Anglica um copo de licor. -  bom,  doce. Ns mesmos o fabricamos com a anglica dos pntanos: Anglica sylvestris.
 Anglica obedeceu, menos por gulodice do que por curiosidade, e provou aquela bebida que tanto tinha ouvido elogiar e que trazia seu nome. Era de um verde dourado 
e pareceu-lhe forte, mas deliciosa. Depois de tom-la, um calor agradvel espraiou-se-lhe pelo corpo.
 -        Bravo! - exclamou Frei Toms. - Mostrou, pelo menos, que sabe beber.
 F-la sentar-se em seus joelhos. Seu hlito avinhado, o odor que se desprendia de seu burel desagradaram a Anglica, mas ela estava entontecida pelo lcool que 
acabara de ingerir. A mo de Frei Toms dava palmadinhas nos joelhos da menina, com um gesto que pretendia ser paternal.
- Ela  to delicada, esta pequena! Da porta se fez ouvir uma voz:
- Irmo, deixe em paz essa criana!
 Um monge encapuzado, com as mos ocultas nas largas mangas do hbito, estava de p na soleira, como um espectro.
 - A vem o desmancha-prazeres - grunhiu Frei Toms. - Ningum lhe pede que se junte a ns, Frei Joo, se a boa mesa no o tenta. Mas ao menos deixe que os outros 
se divirtam tranqilamente. Ainda no se tornou nosso prior.
 - No se trata disso - replicou o recm-vindo, com voz alterada. - No fao seno aconselhar-lhe a que deixeis essa menina.  a filha do Baro de Sanc, e no ficaria 
bem que houvesse de queixar-se dos seus costumes, em vez de agradecer a sua hospitalidade.
Houve um silncio feito de assombro e constrangimento.
-        Venha, minha filha - disse o monge com voz firme.
 Anglica seguiu-o maquinalmente. Atravessaram o ptio. Erguendo os olhos, a menina viu o cu estrelado, de uma pureza indescritvel, sobre o convento.
 -        Entre a - disse Frei Joo, abrindo uma porta de madeira compostigo. -  a minha cela. Pode descansar em paz at o amanhecer.
 Era um quarto muito pequeno, de paredes nuas, nas quais no se viam outros ornamentos alm de um crucifixo de madeira e uma imagem da Virgem. Em um canto existia 
um catre, simples tbua coberta de lenis grosseiros e um cobertor. Um genufle-xrio de madeira, com a prateleira cheia de livros de oraes, estava colocado por 
baixo do crucifixo. Reinava ali agradvel frescor, que no inverno devia transformar-se em frio atroz. A janela, redonda, fechava-se por uma s folha de madeira. 
Aberta, essa noite, os eflvios da floresta, os odores de musgo e de cogumelos penetravam na cela. A esquerda, um degrau dava acesso a um retiro em que brilhava 
uma lamparina. Uma estante coberta de pergaminhos e pequenos copos ocupava-o quase completamente.
O monge aponton a enxerga:
 -        Deite-se a e durma sem temor, minha filha. Eu continuarei meu trabalho.
 Entrou no pequeno quarto, sentou-se em um tamborete e inclinou-se sobre os pergaminhos.
 Sentada na beira do desconfortvel leito, a menina no sentia nenhum desejo de dormir. Jamais havia imaginado lugares to estranhos. Ps-se de p e foi olhar pela 
janela. Divisou l embaixo uma fila de hortas muito reduzidas, separadas umas das outras por altos muros. Cada monge tinha a sua, aonde ia diariamente cultivar algumas 
hortalias e cavar sua sepultura.
 Com passo cauteloso aproximou-se do cubculo em que trabalhava Frei Joo. A lamparina alumiava um perfil de homem jovem, semi-oculto em seu capuz. Com mo esmerada 
copiava uma iluminura antiga. Seus pincis, molhados no vermelho, no ouro e no azul distribudos pelos copinhos, reproduziam habilmente as flores e monstros com 
que a arte da Idade Mdia se havia com-prazido em ilustrar os missais.
 Percebendo a presena da menina, o monge levantou a cabea e sorriu.
- No est dormindo?
- No.
- Como se chama?
- Anglica.
 Uma sbita emoo alterou o rosto macerado pelas privaes e pelo ascetismo.
-  Anglica! Filha dos anjos! - murmurou.
 __ Alegro-me muito de que tenha chegado, meu padre. No gostei daquele frade gordo.
 __ De repente - disse Frei Joo, cujos olhos brilharam de modo estranho -, ouvi uma voz dentro de mim: "Levante-se, deixe seu agradvel trabalho. Vele por minhas 
ovelhas perdidas..." Sa da cela, movido por misterioso impulso. Minha filha, por que no est prudentemente sob o teto de seus pais, como deve faz-lo uma menina 
de sua idade e sua condio?
_ No sei - murmurou Anglica, baixando a cabea, confusa.
 O monge tinha largado os pincis. Levantou-se e, ocultando as mos nas largas mangas, aproximou-se da janela e olhou demoradamente para o cu estrelado.
 -        Veja - disse a meia voz -, a noite ainda reina sobre a terra. Os aldees esto dormindo em seus casebres e os nobres em seus castelos. Eles esquecem suas 
penas durante o sono. Mas a abadia no dorme nunca... Existem lugares em que sopra o esprito. Aqui mesmo, numa luta que no tem fim, sopram o esprito de Deus e 
o esprito do Mal... Abandonei o mundo muito jovem e vim enterrar-me entre estas paredes para servir a Deus na orao e no jejum. Aqui encontrei, mesclados com a 
mais alta cultura, com a mais pura mstica, costumes infames, corruptos. Soldados desertores ou invlidos, aldees preguiosos buscam no claustro, sob o hbito monacal, 
uma vida negligente e segura, e introduzem nela seus costumes depravados. A abadia  como um grande navio sacudido pelas tempestades e que range por todos os lados. 
Mas no soobrar enquanto houver entre seus muros almas devotas.
Somos, alguns, homens resolvidos a, custe o que custar, levar aqui a vida de penitncia e santificao a que nos havamos destinado.
Ah! no  coisa fcil! Que no inventa o Demnio para desencaminhar-nos? Quem no viveu nos claustros nunca se deparou com a face de Satans. Muito desejaria reinar 
como dono na casa de Deus!... E, como se julgasse insuficientes as tentaes do desespero ou as que nos envia pelas mulheres que tm direito de entrar em nosso recinto, 
vem ele prprio,  noite, bate s nossas portas, desperta-nos, golpeia-nos sem piedade...
Levantou a manga e mostrou o brao cheio de equimoses.
-        Veja - disse queixosamente - o que Satans fez comigo.
Anglica escutava-o com crescente terror.   
"Est louco", pensava.
 Mas ainda lhe causava mais horror pensar que poderia no estar. Pressentia a verdade de suas palavras, e o medo lhe punha em p os cabelos. Quando terminaria aquela 
noite angustiosa?
O monge tinha cado de joelhos sobre o solo duro e frio.
  -        Senhor - dizia -, venha em meu socorro! Compadea-se da .minha fraqueza! Que se afaste o Maldito!
 Anglica, sentada na beira da enxerga, tinha a boca seca e sentia um pavor que no conseguia definir. cudiu-lhe  mente a expresso "noite malfica", com que a 
bab Fantina enfeitava suas histrias. Havia em torno dela algo insuportvel e indefinvel, que a sufocava e afligia.
 Afinal o som agudo e fraco de um sino elevou-se na noite, rompendo o profundo silncio do mosteiro.
 Frei Joo ergueu-se. Anglica viu que o suor lhe molhava as tmporas, como se acabasse de travar um combate fsico esgotante.
  - Tocam as matinas - disse. - Ainda no amanheceu, mas tenho de ir  capela com meus irmos. Fique aqui, se o desejar. Virei busc-la quando o sol nascer.
  - No, tenho medo - protestou Anglica, que teve mpeto de se agarrar  batina de seu protetor. - No posso ir com o senhor  igreja? Eu tambm rezarei.
-        Se assim o quer, minha filha...
Acrescentou com um sorriso triste:
 -        Antigamente, ningum teria pensado em levar uma menina s matinas, mas agora cruzamo-nos em nossos claustros com rostos to estranhos que j nada nos surpreende. 
Por isso a conduzi a minha cela, onde est mais segura que num celeiro.
E gravemente:
 -        Quando sair deste recinto, posso pedir-lhe que no conte o que nele viu?
-        Prometo-lhe - disse ela, erguendo para ele seus olhos puros.
Saram para o corredor, de cujas velhas paredes parecia brotar um vapor mido ao aproximar-se a alvorada.
 - Por que existe um postigo em sua porta? - interrogou Anglica.
 - Noutro tempo ramos uma ordem de solitrios. Os padres nunca saam de suas celas a no ser para ir aos ofcios, e mesmo isso era proibido durante a quaresma. 
Os irmos leigos deixavam a comida no postigo. Agora, menina, cale-se e seja o mais discreta possvel. Agradecer-lhe-ei.
 Silhuetas encapuzadas passavam perto deles, num rumor de teros e preces murmuradas.
 Anglica encolheu-se num canto da capela e esforou-se por orar, mas os cnticos montonos e o cheiro dos crios acesos fizeram-na dormir.
 Quando despertou, a capela estava deserta, mas os crios, recm-apagados, fumegavam sob as abbadas sombrias.
 Deixou o templo quando despontava o sol. Sob sua luz purprea, os telhados tinham cor de aleli. As pombas arrulhavam na horta, perto de um velho santo de pedra. 
Anglica espreguiou-se demoradamente e bocejou. Perguntava a si mesma se no teria sonhado.
 Frei Anselmo, cordial mas pachorrento, s atrelou a carriola aps a refeio do meio-dia.
 -        No se impacientem, meninos - dizia alegremente. - Assim lhes retardo a hora da sova. Chegaremos de noite  sua aldeia e seus pais estaro com sono...
 "A no ser que andem pelos campos em busca de seus pimpolhos", pensava Anglica desanimada. Parecia-lhe que em algumas horas havia envelhecido.
 "No voltarei a fazer asneiras", dizia a si mesma, com resoluo mesclada de melancolia.
 Frei Anselmo, em sinal de respeito  sua linhagem, f-la sentar-se junto de si na bolia, enquanto os demais se amontoavam no interior do veculo.
 -        Arre, arre, doce mula! - cantarolava o monge, sacudindo as rdeas.
 Mas a besta no se apressava. J caa a tarde e ainda se encontravam na estrada romana.
 -        Vou seguir por um atalho - disse o frade. - O pior  ter de passar por Vaunou e Chaill, que so aldeias protestantes. Queira Deus que j tenha anoitecido 
e que esses hereges no nos vejam. Meu burel no  muito estimado por l.
 Apeou-se para puxar a mula num aclive. Anglica, que sentia desejos de esticar as pernas, ps-se a caminhar a seu lado. Olhava com assombro em redor, pois jamais 
havia ido para aquelas bandas, que, todavia, no estavam nem a uma lgua de Monteloup. O caminho flanqueava um monto de fragmentos de rocha que parecia uma pedreira 
abandonada.
Examinando o lugar com mais ateno, viu surgirem, com efeito, algumas runas. Seus ps desnudos escorregavam sobre escrias enegrecidas.
 - Diacho de pedra-pomes! - disse, abaixando-se para apanhar uma pedra grande e pesada que lhe ferira o p.
 -  uma velhssima mina de chumbo dos romanos - explicou o frade. - Figura em nossos antigos escritos sob o nome de argen-tum, porque, ao que parece, tiravam dela 
tambm prata. Procuraram reiniciar a explorao no sculo XIII, e os fornos abandonados so quase todos dessa poca mais recente.
A menina escutava-o com interesse.
 -        E o mineral de onde se extraa o chumbo , sem dvida, essalava solidificada, negra e pesada?
Frei Anselmo assumiu um ar doutorai.
 -        Engana-se! O mineral  o terreno amarelo, em grandes blocos. Dizem que dele tambm se tira arsnico. No apanhe isso! Em compensao, pode tocar nesses 
cubos brilhantes cor de prata, mas frgeis, que vou ver se acho.
 O frade procurou alguns instantes, e depois chamou Anglica para mostrar-lhe, em cima de um rochedo, uma espcie de baixos-relevos de rocha negra e de forma geomtrica. 
Raspou alguns deles, e apareceu uma superfcie brilhante cor de prata.
 - Mas isso  prata macia! - observou Anglica com senso prtico. - Por que ningum a apanha? Deve valer muito, e com ela poder-se-iam pagar pelo menos os impostos...
 - No  to simples, nobre senhorita. Em primeiro lugar, nem tudo que brilha  prata, e o que est vendo , na realidade, outro mineral de chumbo. Contm prata, 
 verdade, mas a extrao  muito complicada. Somente os espanhis e os saxes conhecem o processo. Parece que fazem misturas com carvo e resina e, em seguida, 
as fundem numa forja a fogo violento. Obtm-se, ento, um lingote de chumbo. Antigamente utilizava-se derretido para lan-lo sobre os inimigos pelos balestreiros 
de seu castelo. Mas extrair a prata do mineral  coisa de sbios alquimistas, e a tanto no vo os meus conhecimentos.
 - O senhor falou, Frei Anselmo, de nosso castelo. Por que "nosso castelo"?
 - Cus! Pela simples razo de que este stio abandonado faz parte de suas terras, embora delas esteja separado pelas terras do Plessis.
-        Meu pai nunca me falou disso.
_ Este terreno  pequeno e muito estreito e nele no d resultado nenhuma plantao. Que quer que faa com ele seu pai? __ E esse chumbo e essa prata?...-Sem dvida 
esgotaram-se. Alm do mais, tudo o que eu lhe disse me foi contado por um frade saxo. Tinha a mania das pedras e dos velhos livros de magia. Creio que era meio 
doido...
 A mula, puxando a carriola, seguia sozinha seu caminho e tinha chegado ao alto da ladeira. Anglica e Frei Anselmo a alcanaram, e retomaram seus lugares. Em breve 
a escurido se tornou bastante densa.
 -        No acendo a lanterna - disse o frade - para no chamar ateno. Quando passo por estas aldeias, acredite-me, gostaria mais de ir inteiramente nu do que 
de levar este capelo s costas e o tero na cintura. Olhe... no so fachos aquelas luzes l longe? - perguntou subitamente, puxando as rdeas.
 Via-se, com efeito, a certa distncia, moverem-se muitos pontos luminosos, que aos poucos se multiplicavam. O vento da noite trazia o som de um canto estranho e 
triste.
 -        Que a Virgem nos proteja! - exclamou Frei Anselmo descendo da carriola. - So os huguenotes de Vauloup que vo enterrar seus mortos. O cortejo vem por 
ali.  melhor voltarmos.
 Segurou o freio da mula e procurou faz-la dar volta no caminho estreito. Mas o animal recusou-se a obedecer. O monge enfurecia-se, praguejava. J no a chamava 
"doce mula", mas "besta maldita". Anglica e Nicolau juntaram-se a ele para procurar convencer o animal. O prstito se aproximava. O cntico soava cada vez mais 
alto: "O Senhor  nosso amparo em nossas tribulaes..."
-        Ai de mim! - gemia o frade.
 Os primeiros portadores de archotes surgiram na curva do caminho. A sbita claridade iluminou a carriola, meio atravessada nele.
- Que  aquilo?
- E um sdito do Diabo, um monge...
- E corta-nos o caminho.
 - No basta que sejamos obrigados a enterrar os nossos mortos de noite, como se fossem ces?...
- Quer profan-los ainda com sua presena.
- Bandido! Libertino! Papista do inferno! Porco!
 As primeiras pedras atingiram as tbuas da carriola. Os meninos comearam a chorar.
Anglica precipitou-se com os braos estendidos.
-        Detenham-se, detenham-se! So crianas!
 Sua apario, com os cabelos em desalinho, desencadeou as paixes.
- Uma transviada, naturalmente! Uma de suas concubinas!
- E, na carriola, seus bastardos aspergidos de gua benta...
- Tambm foram concebidos sem pecado!
- E por obra do Esprito Santo!
- Vo roubar nossos filhos para os imolar diante de seus dolos!
- Morte aos bastardos do Demnio!
- Protejamos os nossos filhos!
 Rudes camponeses, vestidos de negro, cercavam a carriola. Os da procisso, que no sabiam de que se tratava, continuavam cantando: "O Senhor  nosso amparo... O 
Eterno  nossa fortaleza!" Acorria gente de todos os lados.
 Fustigado, modo de pancadas, Frei Anselmo, com agilidade que ningum teria esperado de corpo to avantajado, conseguiu romper o cerco e fugir atravs do campo. 
Nicolau, tambm esbordoa-do a pau, procurava, mesmo assim, fazer que a mula retornasse. Mos como garras caam sobre Anglica. Retorcendo-se como uma cobra, escapuliu 
pelo declive lateral. Um dos huguenotes a perseguiu e alcanou. Era um rapaz muito novo, quase de sua idade, e sua juventude exacerbava, sem dvida, a paixo sectria.
 Rolaram sobre o pasto, lutando desesperadamente. Anglica estava possuda de um sbito delrio de raiva. Arranhava, mordia, cravava-lhe todos os dentes na carne, 
cujo sangue salgado lhe escorria da lngua. Sentiu, por fim, que seu adversrio fraquejava e pde reencetar a fuga.
Diante da carriola havia-se postado um homem alto.
 - Detenham-se! Detenham-se, infelizes! - gritava, repetindo o apelo que Anglica fizera. - So crianas!
 - Filhos do Diabo,  o que so! E que fizeram com os nossos? Lanaram-nos das janelas sobre lanas, na noite de So Bartolomeu!
 - So coisas do passado, meus filhos. Acalmem seu brao vingador. Precisamos de paz. Detenham-se, meus filhos, escutem seu pastor.
Anglica ouviu o chiado da carriola que se punha em marcha, guiada por Nicolau, que tinha conseguido vencer a obstinao da mula.
Esgueirando-se por trs das sebes, juntou-se a ele na primeira curva.
 -        Se no fosse o pastor; creio que seramos todos mortos - murmurou o jovem campons, rangendo os dentes.
 Anglica estava cheia de arranhes e procurou pr um pouco de ordem em seu vestido rasgado e enlameado. Tanto lhe haviam puxado os cabelos que tinha a impresso 
de os terem arrancado, e sofria horrivelmente.
 Um pouco adiante, ouviram uma voz sufocada que chamava, e Frei Anselmo saiu dos espinheiros.
 Foi preciso descer at a estrada romana. Felizmente, a lua assomara no firmamento. Somente ao romper da aurora chegaram os meninos a Monteloup. Disseram-lhes que 
desde a vspera os camponeses batiam a mata de Nieul. No tendo encontrado seno a bruxa que estava colhendo plantas em uma clareira, tinham-na acusado de haver 
raptado as crianas e a enforcaram, sumariamente, no ramo de um carvalho.
 -        Percebe - disse o Baro Armando a sua filha Anglica - as preocupaes e desgostos em que me consumo por causa de vocs todos, e particularmente por sua 
causa?
 Haviam transcorrido vrios dias aps sua fuga. Anglica, passeando sem rumo por uma vereda profunda, acabava de encontrar seu pai sentado num tronco de rvore, 
enquanto seu cavalo pastava no muito longe.
- Vai mal o negcio dos muares, pai?
 - Tudo caminha bem. Acabo de regressar da casa do intendente Molines. Olhe, Anglica, como conseqncia da sua insensata aventura, Pulquria convenceu sua me e 
a mim de que  impossvel conserv-la mais tempo no castelo.  preciso lev-la para o convento. Por isso, decidi-me a dar um passo muito humilhante e que preferiria 
ter evitado de qualquer maneira. Acabo de ir ver o intendente para pedir-lhe que me d o adiantamento que me havia proposto.
 Falava em voz baixa e triste, como se alguma coisa se houvesse partido dentro dele, como se lhe tivesse acontecido algo ainda mais doloroso do que a morte de seu 
pai ou a ida para o estrangeiro de seu primognito.
- Pobre papai! - murmurou Anglica.
 - Mas a coisa no  to simples - continuou o baro. - Se fosse suficiente estender a mo a um plebeu, o caso j seria bem duro. Mas o que me inquieta  que no 
consigo compreender a inteno oculta de Molines. Estabeleceu, para seu novo emprstimo, condies estranhas.
-        Que condies, pai?
 Contemplou-a pensativo e, estendendo sua mo calosa, afagou-lhe os esplndidos cabelos de ouro acastanhado.
 -  curioso... Para mim  mais fcil confiar em voc do que em sua me. Embora seja uma louca selvagem, parece-me que j  capaz de compreender tudo. Certamente 
eu j desconfiava que Molines, nesse negcio dos muares, procurava importante vantagem comercial, mas no compreendia bem por que se dirigiu a mim, em vez de procurar 
um simples criador da regio. De fato, o que lhe interessa  minha condio de nobre. Hoje me disse que conta comigo para obter de minhas relaes ou de meus parentes 
a dispensa total, pelo intendente das Finanas, Fouquet, dos direitos aduaneiros, de barreira e de p, para a quarta parte da nossa produo muar, bem como a garantia 
de poder exportar essa quarta parte para a Inglaterra ou a Espanha, quando terminar a guerra com esta.
 - Mas  timo! - respondeu Anglica entusiasmada. -  um negcio muito bem planejado. De um lado, Molines, que  plebeu mas esperto. De outro lado, o senhor, que 
 nobre...
- E nada esperto - disse o pai sorrindo.
 - Eu ia dizer "inexperiente". S tem relaes e ttulos. Mas precisa prosperar. O senhor mesmo disse outro dia que o envio de muares para o estrangeiro lhe parecia 
impossvel com todos esses tributos que multiplicam as despesas. E se pedir iseno somente para a quarta parte, o superintendente achar razovel. E que poderia 
fazer com os demais?
 -. A intendncia militar ter o direito de reservar para si a compra, ao preo do ano, no mercado de Poitiers.
 - Tudo foi previsto. Esse Molines  homem que sabe o que faz.  preciso ir ver o Sr. du Plessis e talvez escrever ao Duque de Ia Trmoille. Mas parece que todas 
essas grandes personagens tencionam vir  regio dentro em pouco para continuar ocupando-se da sua Fronda.
 - Fala-se disso, efetivamente - disse o baro, de mau humor. - No entanto, no se apresse em dar-me parabns. Venham ou no os prncipes, no  certo que eu tenha 
fora para obter seu auxlio, E no lhe contei ainda o mais surpreendente.
- Do que se trata?
- Molines quer que eu ponha a funcionar a velha mina de chumbo que possumos nas proximidades de Vauloup - suspirou o baro com ar pensativo. - As vezes pergunto 
a mim mesmo se esse homem estar em seu perfeito juzo, e confesso que no compreendo esses negcios confusos... se realmente so negcios. Em resumo: pediu-me que 
solicitasse ao rei a renovao do privilgio que tinham os meus antepassados de produzir lingotes de chumbo e prata extrados dessa mina. Conhece a mina abandonada 
de Vauloup? - perguntou Armando de Sanc, notando que sua filha estava desatenta. Anglica respondeu afirmativamente com um aceno de cabea.
 -        Gostaria de saber o que esse endiabrado espera extrair dessas velhas pedras. Porque, naturalmente, o reaparelhamento da mina ser feito em meu nome, mas 
ele  quem pagar. Um acordo secreto entre ns dois estipular que ele ter direito de arrendamento por dez anos, ficando a seu cargo minhas obrigaes de proprietrio 
do solo e de explorao do mineral. Eu apenas terei de obter do superintendente a mesma iseno de impostos para a quarta parte da futura produo, bem como as mesmas 
garantias de exportao. Tudo isso me parece um tanto complicado - concluiu o baro, ao mesmo tempo que se levantava.
 O gesto fez tilintar em sua bolsa os escudos que lhe acabara de entregar Molines, e aquele som agradvel relaxou-lhe os nervos.
 Chamou o cavalo e fitou sobre a pensativa Anglica um olhar a que procurou imprimir severidade.
 -        Trate de esquecer o que lhe contei e cuide de seu enxoval. Desta vez, est resolvido, minha filha. Voc vai para o convento.
 Anglica preparou o enxoval. Hortnsia e Madelon tambm partiriam. Raimundo e Gontran as acompanhariam e, aps deix-las no convento das ursulinas, iriam para o 
dos padres jesutas de Poi-tiers, educadores de quem se contavam maravilhas. Falou-se at de incluir nessa emigrao o pequeno Dionsio, que no passava dos nove 
anos. Mas a ama protestou. Depois de a terem feito gemer sob a carga de dez crianas, agora queriam tirar-lhe "todas". Horrorizavam-na, dizia, aquelas maneiras extremadas. 
Em vista disso, Dionsio ficou em casa. Com ele e ainda Maria Ins, Alberto e o caula de dois anos, a quem chamavam Beb, haveria com que ocupar os "lazeres" de 
Fantina Lozier.
 Poucos dias antes da partida, um incidente quase modificava o curso do destino de Anglica.
 Certa manh de setembro, o Sr. de Sanc voltou muito azafamado do Castelo do Plessis.
 - Anglica! - exclamou ao entrar na sala de jantar, onde a famlia reunida o esperava para sentar-se  mesa. - Voc est a, Anglica?
- Estou, meu pai.
 Lanou um olhar perscrutador a sua filha, que nos ltimos meses continuara crescendo e agora tinha as mos limpas e os cabelos bem penteados. Todos concordavam 
em dizer que Anglica estava criando juzo.
 - Desta vez a coisa vai - murmurou. E dirigindo-se a sua mulher: - Imagine que toda a tribo do Plessis, marqus, marquesa, filho, pajens, criados, ces, acaba de 
chegar a seus domnios. Tm um hspede ilustre, o Prncipe de Conde, com todo o seu squito. Ca no meio deles e me senti deslocado. Mas meu primo se mostrou amvel. 
Fez-me perguntas, pediu-me notcias suas, e sabe o que me solicitou? Que levasse Anglica para substituir uma das donzelas de honor da marquesa. Esta teve de deixar 
em Paris quase todas as meninas que a penteiam, a divertem e tocam alade para distra-la. A chegada do Prncipe de Conde a alvoroa. Necessita, assegura, de algumas 
camareiras graciosas para ajud-la.
- E por que no eu? - exclamou Hortnsia, escandalizada.
- Porque ele disse "graciosas" - respondeu seu pai sem rodeios.
- O marqus me disse que tenho muito esprito.
- Mas a marquesa quer ter em seu redor carinhas bonitas.
 - Oh,  demais! - gritou Hortnsia, precipitando-se para sua irm com as garras  mostra.
 Mas Anglica previra o ataque e se esquivou com presteza. Com o corao aos pulos, subiu para o quarto grande, que agora partilhava somente com Madelon. Pela janela 
chamou um dos criadinhos e ordenou-lhe que trouxesse um balde de gua e uma tina.
 Lavou-se com esmero e escovou longamente seus formosos cabelos, que trazia sobre os ombros como uma capelina sedosa. Pulquria entrou trazendo-lhe o mais belo vestido 
que lhe tinham feito para o seu ingresso no convento. Anglica admirava aquele vestido, embora fosse de uma cor cinzenta bastante fosca. Mas a fazenda era nova, 
comprada especialmente para a ocasio na casa de um importante negociante de tecidos de Niort, e uma golinha branca o adornava. Era seu primeiro vestido comprido. 
Envergou-o com um frmito de prazer. A tia juntava as mos enternecida.
 -        Anglica, minha menina, qualquer um diria que voc j  uma jovem. E se levantssemos o seu cabelo?
 Mas Anglica recusou-se. Seu instinto feminino aconselhava-lhe que no diminusse o esplendor de seu nico enfeite.
 Montou numa bonita mula baia, que seu pai havia mandado arrear para ela, e, em companhia dele, tomou o caminho do Castelo do Plessis!
 O castelo acordara de seu sono encantado. Quando o baro e sua filha, aps deixarem suas montarias em casa do administrador Molines, subiam a alameda principal, 
ondas de msica vieram ao seu encontro. Grandes e pequenos ces de caa brincavam sobre a relva. Senhores de cabelos anelados e senhoras de vestidos cintilantes 
percorriam as alias. Alguns olharam espantados o fidalgo vestido de grossa l escura e aquela adolescente em traje de pensionista.
 - Ridcula, mas bonita - disse uma das damas, abanando-se com o leque.
 Anglica perguntou a si mesma se seria dela que falavam. Por que a chamavam ridcula? Olhou com mais ateno as luxuosas roupas, de cores vivas, guarnecidas de 
rendas, e comeou a achar que seu vestido cinza no era apropriado para a ocasio.
 O Baro Armando no partilhava o mal-estar de sua filha. Estava ansioso pela entrevista que pensava em solicitar ao Marqus du Plessis. Obter a iseno total de 
direitos para a quarta parte de uma produo muar e de uma mina de chumbo poderia ser coisa extremamente fcil para um nobre de alta linhagem, como de fato o era 
o atual Baro de Ridou de Sanc de Monteloup. Mas o pobre gentil-homem percebia que, vivendo longe da corte, ficara to desazado como um campons, entre aquelas 
personagens cujas cabeleiras empoadas, hlito perfumado e exclamaes papagaiais o perturbavam. Acreditava recordar que nos tempos de Lus XIII fazia-se gala de 
mais simplicidade e mais rudeza. No foi Lus XIII quem, escandalizado com o decote excessivo de uma jovem beldade do Poitiers, cuspiu sem cerimnia naquele ninho 
indiscreto... e tentador?...
 Testemunha, em seu tempo, daquele impulso rgio, Armando de Sanc o evocava com saudade, enquanto, seguido de Anglica, abria passagem entre a multido enfitada.
 Msicos sobre um pequeno estrado tocavam instrumentos de sons encantadores: sanfonas, alades, flautas, obos. Em um salo repleto de espelhos, Anglica viu jovens 
que danavam. Perguntou a si mesma se seu primo Filipe estaria entre eles.
 Nesse nterim, Armando de Sanc, havendo atravessado os sales, inclinava-se, tirando seu velho chapu de feltro adornado de modesta pluma. Anglica se afligia. 
"Em nossa pobreza", pensava, "somente a arrogncia nos assenta." Em lugar de curvar-se na reverncia que Pulquria lhe havia feito ensaiar trs vezes, parou tesa 
como um boneco de madeira, olhando firme para a frente. Os rostos que a cercavam mantinham um ar srio, mas ela sabia que todos os circunstantes morriam de desejo 
de rir. Um silncio entrecortado de risotas sufocadas produziu-se bruscamente quando o criado anunciou:
-        O Sr. Baro de Ridou de Sanc de Monteloup.
 O rosto da Marquesa du Plessis enrubesceu por trs de seu leque e seus olhos brilharam de contida hilaridade. O Marqus du Plessis procurou salvar a situao, adiantando-se 
afavelmente.
 - Querido primo - exclamou -, lisonjeia-nos ter vindo to depressa e trazendo-nos vossa encantadora filha. Anglica, voc est ainda mais bonita que da ltima vez 
que a vi. No  verdade? No parece um anjo? - perguntou, voltando-se para sua mulher.
 - Realmente - concordou a marquesa, que tinha recuperado a serenidade. - Com outro vestido estar divina. Sente-se neste tamborete, querida, para que melhor possamos 
observ-la.
 - Meu primo - disse Armando de Sanc, cuja voz spera soou estranhamente naquele salo precioso -, desejaria falar-lhe sem tardana de assuntos importantes.
O marqus ergueu as sobrancelhas, surpreso.
- Deveras? Estou pronto a ouvi-lo.
 - Lamento-o, mas so coisas de que s podemos tratar em particular.
 O Sr. du Plessis dirigiu aos presentes um olhar a um tempo resignado e trocista.
 -        Est bem, est bem, meu primo. Vamos ao meu escritrio. Senhoras, desculpem-nos. At j...
 Anglica, em seu tamborete, era alvo dos olhares de um grupo de curiosos. A penosa emoo que a tinha colhido esvaneceu-se um pouco. Ela agora distinguia todos 
os semblantes que a rodeavam. A maioria deles eram desconhecidos, mas, perto da marquesa, encontrava-se uma mulher muito formosa, que reconheceu pelo colo branco 
e nacarado.
"A Sra. de Richeville", pensou.
O vestido recamado de ouro da condessa e o plastro ornado de diamantes faziam-na perceber como era feio o seu vestido cinza. Todas aquelas damas cintilavam da cabea 
aos ps. Carregavam na cintura estranhos berenguendns: espelhinhos, pentes de tartaruga, relgios e caixinhas com amndoas aucaradas. Nunca poderia Anglica vestir-se 
daquela maneira. Nunca poderia olhar os outros com tanta sobranceria. Nunca seria capaz de conversar com aquela voz alta e afetada de pessoa que parece estar permanentemente 
chupando confeitos.
 - Querida - dizia uma -, ela tem os cabelos sedutores, mas nunca receberam qualquer trato.
- Tem pouco peito para quinze anos.
- Mas, querida, tem apenas treze!
 - Quer que lhe diga o que penso, Henriqueta?  muito tarde para buril-la.
 "Sou uma mula que querem comprar?", perguntava Anglica a si prpria, mais estupefata que ofendida.
 - Que querem vocs? - exclamou a Sra. de Richeville. - Ela tem os olhos verdes, e os olhos verdes trazem m sorte, como as esmeraldas.
-  uma cor rara - observou uma delas.
 - Mas sem encanto. Veja que expresso dura tem esta garota. No, na verdade no gosto de olhos verdes.
 "Vo tirar-me at meus nicos bens, meus olhos e meus cabelos?", pensou a adolescente.
 -        Concordo, senhora - disse bruscamente em voz alta. - No duvido que os olhos azuis do abade de Nieul tenham mais doura... e lhe dem boa sorte - acrescentou 
em voz mais baixa.
 Houve um silncio mortal. Estralejaram algumas risadas, que se extinguiram logo. As damas olharam em torno, espantadas, como se lhes parecesse impossvel ter ouvido 
tais palavras pronunciadas por aquela menina impassvel.
 Uma cor prpura espraiou-se pelo rosto da Condessa de Richeville e foi-lhe descendo at o peito.
-        Eu a estou reconhecendo! - exclamou. Depois arrependeu-se.
Todos olhavam Anglica com assombro. A Marquesa du Plessis, que tinha uma lngua viperina, voltou a ocultar seu riso por trs do leque. Mas agora era de sua vizinha 
que tentava esconder a hilaridade.
 -        Filipe, Filipe! - chamou, para sair da entalada. - Onde est meu filho? Sr de Barre, quer ter a bondade de fazer vir o coronel?
 E, quando se aproximou o jovem coronel de dezesseis anos, sua me lhe disse:
 -        Filipe, aqui est sua prima de Sanc. Leve-a para danar. A companhia dos jovens distra-la- melhor do que a nossa.
 Sem esperar, Anglica se pusera de p. Sentia pular o corao. O jovem olhava para sua me com visvel indignao. "Como", parecia dizer, "se atreve a jogar-me 
nos braos uma pequena to mal vestida?"
 Mas logo compreendeu, pela expresso dos circunstantes, que alguma coisa anormal havia ocorrido e, estendendo a mo a Anglica, murmurou com desdm:
-        Venha, minha prima.
 Anglica levou  palma aberta seus dedos midos, que ignorava serem to lindos. Em silncio, o jovem a conduziu at a entrada de uma galeria, onde os pajens e as 
pessoas jovens tinham o direito de se divertir  sua maneira.
 -        Abram alas, abram alas! - gritou subitamente. - Amigos, apresento-lhes minha prima, a Baronesa do Triste Vestido!
 Houve risadas e todos se precipitaram para os dois. Os pajens usavam curiosos calezinhos abalonados que desciam  altura das coxas e, com suas longas e magras 
pernas de adolescentes, empoleirados em taces altos, pareciam aves pernaltas.
 "Afinal de contas", pensava Anglica, "no estou mais ridcula com meu 'triste vestido' do que eles com essas morangas nas cadeiras."
 Teria sacrificado seu amor-prprio para ficar perto de Filipe. Mas um dos jovens perguntou-lhe:
- Sabe danar, senhorita?
- Um pouco.
- De verdade? Que danas?
- A bourre, o rigodo, a ronda...
 - Ah, ah, ah! - riram estrondosamente os jovens. - Filipe, que passarinho nos trouxe! Vamos, vamos, senhores, tiremos a sorte! Quem vai danar com a camponesa? 
Onde esto os apreciadores da bourre? Puf! Puf! Puf!
Num gesto brusco, Anglica retirou sua mo da de Filipe e fugiu.
 Atravessou os grandes sales repletos de criados e senhores, o vestbulo mosaicado, onde dormiam os ces sobre almofadas de veludo. Procurava seu pai, e, principalmente, 
no queria chorar. Tudo aquilo no valia a pena. Seria uma recordao que teria de apagar da memria, como um sonho um tanto louco e grotesco. No fica bem para 
a codorniz sair de seu mato. Por haver obedecido com um pouco de boa vontade aos ensinamentos da tia Pulqueria, Anglica dizia a si mesma que tinha recebido o justo 
castigo da vaidade inspirada pelo convite lisonjeiro da Marquesa du Plessis.
 Ouviu, finalmente, vinda de uma salinha afastada, a voz um tanto aguda do marqus.
 _- Mas no, de maneira alguma! No est no caminho certo, meu pobre amigo - dizia em aflitivo crescendo. - Engana-se pensando que nos  fcil a ns, nobres sobrecarregados 
de despesas, obter isenes. Alm disso, nem eu nem o Prncipe de Conde estamos capacitados para conced-la a voc.
 - Peo-lhe unicamente que seja meu advogado ante o superintendente de Finanas, o Sr. de Trmant, que voc conhece pessoalmente. O negcio no deixa de ter interesse 
para ele. Isentar-me-ia de impostos e direitos de trnsito exclusivamente sobre o que fosse do Poitou ao oceano. Tal iseno, alis, s se aplicaria  quarta parte 
de minha produo de muares e de chumbo. Em compensao, a intendncia militar do rei poder reservar-se a compra do restante ao preo corrente, e do mesmo modo 
o Tesouro Real ter exclusividade semelhante sobre o chumbo e a prata pela tarifa oficial. No  mau para o Estado contar com alguns produtores certos de matrias 
diversas no pas, ao invs de compr-las no estrangeiro. Por exemplo, para puxar os canhes tenho belssimos animais, impetuosos e resistentes.
 - Suas palavras cheiram a estreo e suor - replicou o marqus, tapando o nariz. - Pergunto-me at que ponto rebaixa sua condio de gentil-homem, lanando-se a 
um empreendimento que se parece muito, permita que lhe diga, a um comrcio.
 - Comrcio ou no, preciso viver - retrucou Armando de Sanc, com uma persistncia que reconfortou Anglica.
 - E eu - exclamou o marqus erguendo os braos -, pensa que no tenho as minhas dificuldades? Pois bem, saiba que at o ltimo de meus dias no me entregarei a 
nenhum trabalho plebeu que possa prejudicar minha qualidade de gentil-homem.
 - Meu primo, seus rendimentos no so comparveis aos nossos. De fato, vivo em estado de mendicncia relativamente ao rei, que me nega auxlio, em relao aos usurrios 
de Niort, que me devoram.
 - J sei, j sei, meu bom Armando. Mas voc j se perguntou como  que eu, corteso e com dois cargos reais importantes, posso equilibrar meu oramento? Tenho certeza 
de que no! Pois bem, saiba que minhas despesas ultrapassam inevitavelmente minhas rendas.  certo que, contando com as rendas do meu domnio do P!essis e as de 
minha mulher na Touraine, meu cargo de oficial-camareiro do rei - umas quarenta mil libras - e de mestre-de-campo-de-brigada do Poitou, tenho uma renda mdia bruta 
de cento e sessenta mil libras...
- Eu - disse o baro - me contentaria com a dcima parte.
 - Um instante, meu primo. Tenho cento e sessenta mil libras de renda. Mas saiba que as despesas de minha mulher, o regimento de meu filho, meu palcio em Paris, 
meu pavilho de Fontai-nebleau, meus deslocamentos com a corte, os juros que tenho de pagar por emprstimos diversos, as recepes, as roupas, as carruagens e cavalos, 
a criadagem, etc, somam cerca de trezentas mil libras de despesas.
 - Quer dizer que lhe faltariam mais de cento e quarenta mil libras por ano?
 - Voc diz apenas a verdade, meu primo. E se me permiti fazer-lhe esta enfadonha exposio, foi para que compreendesse meu ponto de vista quando lhe digo que no 
momento no posso falar ao Sr. de Trmant, superintendente das Finanas.
- Mas voc o conhece.
 - Conheo-o, mas j no tenho relaes com ele. Estou cansado de dizer-lhe que o Sr. de Trmant est a servio do rei e da regente, e que  mesmo ardoroso partidrio 
de Mazarino.
- Pois bem, precisamente...
 - Precisamente por esta razo no nos encontramos. No sabe que o Sr. Prncipe de Conde, ao qual sou fiel, est brigado com a corte?
 - Como havia de sab-lo? - disse confuso Armando de Sanc. - Faz poucos meses que os vi, e naquela poca a regente no tinha melhor servidor que o senhor prncipe.
 - Ah, desde ento correu muita gua! - suspirou o Marqus du Plessis. - No posso contar-lhe a histria detalhadamente. Saiba somente que, se a rainha, seus dois 
filhos e esse diabo vermelho, o cardeal, puderam voltar ao Louvre, em Paris, devem-no ao Sr. de Conde. Em recompensa, tratam esse grande homem de maneira indigna. 
H vrias semanas que houve a ruptura. Ao prncipe pareceram interessantes algumas propostas da Espanha, e veio a minha casa para estud-las.
- Propostas espanholas? - repetiu o Baro Armando.
 - Isso mesmo. Entre ns, e pela nossa honra de gentis-homens, imagine que o Rei Filipe IV chega a oferecer ao nosso grande general bem como ao Sr. de Turenne, um 
exrcito de dez mil homens a cada um.
__ Para fazerem o que?    .
 ___ para submeterem a regente e, principalmente, esse cardeal ladro! Graas aos exrcitos espanhis comandados pelo Sr. de Cond este entraria em Paris, e Gasto 
d'Orlans, isto , Monsieu, irmo do finado Rei Lus XIII, seria proclamado rei. A monarquia estaria salva e finalmente livre de mulheres, de crianas e de e um 
estrangeiro que a desonra. Com todos esses belos projetos, pergunto-lhe: que devo eu fazer? Para manter o nvel de vida que acabo de lhe expor, no posso dedicar-me 
a uma causa perdida. Pois bem, o povo, o Parlamento, a corte, todo mundo odeia Mazarino. A rainha continua a se agarrar a ele e no ceder nunca.  indescritvel 
a existncia que h dois anos levam a corte e o pequeno rei. S pode ser comparada com a dos ciganos do Oriente: fugas, retornos, disputas, guerras, etc. Assim  
demais. A causa de Lus XIV est perdida. Acrescento-lhe que a filha de Gasto d'Orlans, a Srta. de Montpensier - essa ilustre moa de verbo inflamado -,  uma 
ferrenha partidria da Fronda. J lutou ao lado dos rebeldes, h um ano. S deseja combater de novo. Minha mulher adora-a, e ela lhe retribui. Mas desta vez no 
consentirei que Alice se comprometa com outro partido que no o meu. Cingir o torso com uma faixa azul e prender no chapu uma espiga de trigo no seria grave se 
a separao entre esposos no acarretasse outros transtornos. Ora, Alice, por sua natureza,  francamente do "contra". Contra as ligas e a favor dos laos de seda; 
contra a franja de cabelos e a favor da fronte descoberta, etc.  uma original. Agora est contra Ana d'ustria, a regente, porque esta lhe observou que as pastilhas 
que ela usava para o trato da boca lhe recordavam certo purgante. No haver fora humana que faa Alice voltar  corte, onde acha que se aborrece entre as devoes. 
Da rainha e as traquinagens de seus pequenos prncipes. Seguirei, pois, minha mulher, j que minha mulher no quer seguir-me. Tenho o fraco de achar nela certa graa 
e algumas habilidades amorosas que me agradam...
 - Mas... mas no quer dizer que o Sr. de Turenne, tambm ele...? - balbuciou Armando de Sanc, que estava a ponto de desfalecer.
 - Oh! O Sr. de Turenne! O Sr. de Turenne!  como todo mundo... No gosta que se menosprezem os seus servios. Pediu Sedan para sua famlia. Recusaram-lha. Aborreceu-se, 
como  natural.
Dir-se-ia at que j aceitou as propostas do rei da Espanha. O Sr. de Conde  menos apressado. Aguarda primeiro as notcias de sua irm de Longueville, que foi com 
a Princesa de Conde sublevar a Normandia. Aqui,  preciso que eu lhe diga, entra a Duquesa de Beaufort, cujos encantos no lhe so indiferentes... Desta vez, nosso 
grande heri se mostra menos ansioso de partir para a guerra. Desculpa-lo- quando tiver encontrado a referida deusa... Tem uma pele, meu amigo!...
 Anglica, que se encostara ao tapiz de uma parede, viu de longe que seu pai puxava seu enorme leno e enxugava a fronte.
 "Nada conseguir", pensou, com o corao apertado. "Que lhes importam nossas histrias de muares e de chumbo argentfero?"
 Um angstia intolervel constringia-lhe a garganta. Afastou-se e desceu para o parque, sobre o qual j comeavam a descer as sombras. Do fundo dos sales continuava 
a chegar o som dos violinos e das guitarras. Os lacaios, em filas, traziam candelabros. Outros, trepados em escabelos, acendiam as velas de castiais fixados s 
paredes, cujos espelhos lhes refletiam as luzes.
 "Quando penso", dizia Anglica consigo mesma, caminhando devagarinho pelas alamedas, " que meu pobre pai sentia escrpulos por algumas bestas que Molines queria 
vender  Espanha em tempo de guerra! Traio?... Bem indiferente a todos esses prncipes, que, entretanto, s vivem graas  monarquia. E possvel que pensem realmente 
em fazer guerra ao rei?"
 Havia contornado o castelo e agora se achava ao p da parede que tantas vezes havia escalado para contemplar os tesouros do aposento encantado. O lugar estava deserto, 
pois os pares que no fugiam da bruma crepuscular, muito fresca naquele anoitecer de outono, permaneciam de preferncia na relva da frente.
 Um instinto familiar f-la tirar os sapatos, e, com agilidade, a despeito de sua saia comprida, subiu at a cornija do primeiro andar. J tinha anoitecido completamente. 
Ningum que passasse por ali poderia v-la, encolhida, alm do mais,  sombra de uma toninha que ornava a ala direita.
 A janela estava aberta e Anglica inclinou-se para a frente. Adivinhava que, pela primeira vez, o aposento estaria habitado, porque a luz dourada de uma lamparina 
de azeite o iluminava. O mistrio dos belos mveis e da tapearia acentuava-se ainda mais. Via-se luzirem como cristais de neve os ncares de uma pequena secretria 
de bano.
 De repente, olhando em direo do alto leito adamascado, Anglica teve a impresso de que o quadro do deus e da deusa se animava.
 Dois corpos brancos e nus estreitavam-se em meio  desordem dos lenis rejeitados, cujas rendas se arrastavam no cho. Eles se confundiam de tal maneira que ela 
acreditou,  primeira vista, estar assistindo a um combate de adolescentes, a uma luta entre pajens batalhadores e impudicos, antes de distinguir que ali havia um 
homem e uma mulher.
 A cabeleira escura e anelada do participante masculino cobria quase inteiramente o rosto da mulher, que seu longo corpo parecia querer esmagar inteiramente. Entretanto, 
o homem se movia com doura, ritmadamente, animado de uma espcie de tenacidade voluptuosa, e os reflexos da lamparina revelavam o jogo de seus msculos magnficos.
 Da mulher, Anglica no percebia seno detalhes meio apagados na penumbra: uma perna delgada, erguida contra o corpo masculino, um seio ressaltando de entre os 
braos que a envolviam, uma mo delicada e branca, que ia e vinha, qual uma borboleta, acariciando maquinalmente a ilharga do parceiro, para se afastar subitamente, 
a palma distendida, pendente da beira da cama, enquanto um profundo gemido se perdia entre as cortinas de seda.
 Durante os momentos de silncio, Anglica ouvia duas respiraes a se confundirem, cada vez mais aceleradas, semelhando o vento de uma tempestade. Depois um sbito 
repouso os aquietava. Novamente os queixumes da mulher ascendiam na sombra, enquanto sua mo tombava vencida sobre o alvo lenol, como uma flor cortada.
 Anglica achava-se a um s tempo extremamente perturbada e vagamente maravilhada. Por haver muitas vezes contemplado o quadro do Olimpo, apreciado sua frescura 
e seu arrojo prenhes de majestade, teve finalmente uma impresso de beleza que se desprendia daquela cena e que ela, como camponesa sagaz que era, compreendia em 
todo o seu sentido.
 "E isso ento o amor!", disse ela consigo mesma, enquanto a percorria um frmito de medo e de prazer.
 Separaram-se finalmente os dois amantes. Repousavam agora um ao lado do outro, como plidos mortos na obscuridade de uma cripta. Seus hlitos se enlanguesciam numa 
beatitude sonolenta. Nenhum dos dois falava. Foi a mulher quem se moveu primeiro.
Esticando o brao muito branco, apanhou sobre o consolo, junto ao leito, um frasco em que brilhava o rubi de um vinho escuro. Teve um pequeno riso.
 -        Oh! querido, eu estou exausta - murmurou ela. -  preciso que repartamos entre ns este vinho do Roussillon que seu previdente criado colocou aqui. Quer 
um copo?
 O homem, do fundo da alcova, respondeu com um grunhido que podia ser tomado por assentimento.
 A dama, cujas foras pareciam restauradas, encheu dois copos, estendeu um a seu amante, e bebeu o outro com alegria gulosa. Repentinamente, Anglica pensou que 
adoraria estar l, naquele leito, assim inteiramente nua e estirada, saboreando o vinho quente do Midi.
"E o chaudaut dos prncipes", pensou.
 No percebia o incmodo de sua posio. Agora ela enxergava completamente a mulher, admirava seus seios redondos, acentuados por um bico arroxeado, seu ventre flexvel, 
suas pernas longas, que ela havia cruzado.
 Sobre a bandeja havia frutas. A mulher escolheu um pssego e mordeu-o gostosamente.
 -        Ao diabo os importunos! - exclamou de repente o homem, saltando do leito por cima da companheira.
 Anglica, que no tinha ouvido baterem  porta do quarto, julgou-se descoberta e agachou-se a um canto da torrinha, mais morta que viva.
 Quando olhou de novo, viu que o deus se havia envolvido em um amplo chambre escuro, atado por um cordo de prata. Seu rosto, de jovem de uns trinta anos, era menos 
belo que seu corpo, pois tinha o nariz comprido e olhos duros, mas brilhantes, que lhe davam certa aparncia de ave de rapina.
 -        Estou em companhia da Duquesa de Beaufort - gritou, voltado para a porta.
 
 CAPITULO IX
 
 O cofrezinho e a grande conspirao
 
 Apesar dessa advertncia, um criado apareceu no umbral.
 - Perdoe-me, Vossa Alteza. Acaba de apresentar-se no castelo um monge que insiste em ser recebido pelo Sr. de Conde. O Marqus du Plessis achou conveniente mand-lo 
imediatamente  presena de Vossa Alteza.
 - Pois que entre! - resmungou o prncipe, depois de pensar um instante.
 Aproximou-se da secretria de bano que se achava perto da janela e abriu umas gavetas.
 O criado introduziu na alcova a outra personagem: um monge encapuzado que se aproximou, inclinando-se vrias vezes com notvel flexibilidade.
 Ao erguer-se, mostrou um rosto moreno, onde cintilavam grandes olhos negros e lnguidos.
 A chegada do eclesistico no pareceu constranger de maneira alguma a mulher estendida sobre o leito. Ela continuou mordendo despreocupadamente suas belas frutas. 
Apenas cobriu-se com um xale, no lugar onde comeam as pernas.
 O homem de cabelo escuro, inclinado sobre a secretria, tirava dela grandes envelopes chancelados de vermelho.
 - Meu padre - disse sem se voltar -, foi o Sr. Fouquet quem o enviou?
- Ele mesmo, monseigneur.
 O monge acrescentou uma frase num idioma cantante, que Anglica sups ser italiano. Quando se exprimia em francs, sua pronncia ceceava um pouco e tinha qualquer 
coisa de infantil, que no deixava de ter encanto.        
 - Seria intil dar a senha, Signor Exili - disse o Prncipe de Conde -; eu o teria reconhecido por seus sinais particulares e por essa pinta azul que tem no canto 
do olho. E ento o mais hbil artista da Europa na difcil e sutil cincia dos venenos?
 - Vossa Alteza me honra. No fiz mais do que aperfeioar algumas receitas herdadas de meus antepassados florentinos.
 - Os italianos so artistas em todos os gneros! - exclamou Conde.
 Soltou uma gargalhada semelhante ao relinchar de um cavalo, e depois sua fisionomia subitamente readquiriu a expresso dura.
- Traz a coisa convosco?
- Ei-la aqui.
 Tirou das largas mangas do hbito um cofrezinho cinzelado. Ele mesmo o abriu, comprimindo uma das molduras de madeira preciosa.
 -        Veja, monseigneur, basta introduzir a unha na base do pescoo desta pequena personagem que traz uma pomba sobre o punho.
 A tampa se havia fechado de novo. Sobre uma pequena almofada de cetim cintilava um frasquinho de vidro cheio de um lquido esmeralda. O Prncipe de Conde tomou-o 
com cautela e o mirou contra a luz.
 - Vitrolo romano - disse calmamente o Padre Exili. - E uma composio de efeito lento, mas seguro. Preferi-a ao sublimado corrosivo, que pode provocar a morte 
em algumas horas. Segundo as indicaes que recebi do Sr. Fouquet, acreditei compreender que nem o senhor, monseigneur, nem seus amigos quereriam que se provocassem 
suspeitas demasiado certas entre as pessoas que rodeiam a criatura visada. Ela ser acometida de languidez, resistir talvez uma semana, mas sua doena mortal no 
ter seno a aparncia de uma inflamao intestinal causada por um prato de caa deteriorada ou qualquer outro alimento no muito fresco. Ser mesmo conveniente 
fazer servir  mesa dessa pessoa mexilhes, ostras, ou outros mariscos cujos efeitos por vezes so perigosos. Faz-los responsveis por uma morte to sbita ser 
brincadeira de criana.
- Agradeo seus excelentes conselhos, meu padre.
 Conde continuava a fixar o frasco verde-plido, e seus olhos tinham um brilho odiento. Anglica experimentou uma aguda decepo: o deus do amor descido sobre a 
terra perdera sua beleza e lhe metia medo. _ Tome cuidado, monseigneur - continuou o Padre Exili -, este veneno deve ser ministrado com infinitas precaues. Para 
concentr-lo, eu prprio fui obrigado a usar uma mscara de vidro. Uma gota cada sobre sua pele poderia desenvolver um mal niie no cessaria de corroer um de seus 
membros. Se no lhe for possvel derramar o senhor mesmo este lquido nos alimentos da pessoa, recomende ao criado a quem encarregar da tarefa que proceda com cautela 
e habilidade.
 -        Meu criado que o introduziu  homem de toda a confiana, por uma manobra pela qual me felicito, a pessoa em questo no o conhece. Creio que ser fcil 
coloc-lo junto dela.
 O prncipe lanou um olhar zombeteiro ao monge, a quem dominava com sua alta estatura.
 -        Suponho que uma vida consagrada a tal arte no o tornou muito escrupuloso, Signor Exili. E que pensaria se eu lhe dissesse que este veneno se destina a 
um de seus compatriotas, um italiano dos Abruzos?
 Um sorriso distendeu os lbios flexveis de Exili, que se inclinou de novo.
 -        Considero compatriotas apenas aqueles que do aos meus servios o justo valor, monseigneur. E, no momento, o Sr. Fouquet, do Parlamento de Paris, mostra-se 
mais generoso para comigo do que certo italiano dos Abruzos que tambm conheo.
Estalou de novo o riso cavalar de Conde.
 -        Bravo, bravssimo, signorl Gosto de ter comigo pessoas da sua espcie.
 Com extrema cautela o prncipe recolocou o frasco sobre o seu coxim acetinado. Houve um breve silncio. Os olhos do Signor Exili contemplavam sua obra com uma satisfao 
que no estava isenta de vaidade.
 -        Acrescento, monseigneur, que este licor tem o mrito de ser inodoro e quase sem sabor. No altera os alimentos aos quais  misturado, e quando muito a 
pessoa, supondo-se que preste muita ateno ao que come, poder culpar seu cozinheiro de ter sido um tanto exagerado nos temperos.
 -" O senhor  um homem precioso - repetiu o prncipe, que estava agora pensativo.
 Um tanto nervosamente empilhou sobre a prateleira do mvel os envelopes chancelados.
 Eis o que devo, em troca, entregar-lhe para o Sr. Fouquet. Esta sobrecarta contm a declarao do Marqus d'Hocquincourt. Aqui esto as do Sr. de Charost, do Sr. 
du Plessis, da Sra. du Plesiss, da Sra. de Richevillie, da Duquesa de Beaufort, da Sra. de LonguevilJe. Como v, as damas so menos preguiosas... ou menos escrupulosas 
que os cavalheiros. Faltam-me ainda as cartas do Sr. de Maupou, do Marqus de Crqui e de alguns outros...
- E tambm a sua, monseigneur.
- Tem razo. Acabo, alis, de termin-la, mas ainda no assinei.
  - Ter Vossa Alteza a extrema gentileza de ler-me seu texto, a fim de que eu possa verificar, ponto por ponto, as suas disposies? O Sr. Fouquet tem como essencial 
que no seja esquecido nenhum termo.
  - Como queira - disse o prncipe, encolhendo levemente os ombros.
Pegou a folha e leu em voz alta;
  "Eu, Lus II, Prncipe de Conde, assumo perante Monseigneur Fouquet o compromisso de jamais subordinar-me a outra pessoa que no ele, de no obedecer a nenhuma 
outra pessoa, sem exceo, e de lhe entregar minhas praas, fortificaes e outras obras de defesa, todas as vezes que ele o ordenar.
  "Para garantia do qu, dou-lhe a presente declarao escrita e assinada de meu prprio punho, por minha prpria vontade, sem que ele o tenha desejado, tendo a 
bondade de confiar em minha palavra.
"Feita no Plessis-Bellire, a 20 de setembro de 1649".
  -        Assine, monseigneur - disse o Padre Exili, cujos olhos brilhavam na sombra do cabelo.
 Rapidamente e como compressa de terminar, Conde tomou de sobre a secretria uma pena de ganso, que aparou. Enquanto ele assinava a carta, o monge acendeu um pequeno 
aquecedor de prata dourada. Conde derreteu o lacre e sinetou a missiva.
  - Todas as outras declaraes esto feitas segundo este modelo e assinadas - concluiu ele. - Creio que seu amo se mostrar satisfeito e no-lo provar.
- Esteja certo disso, monseigneur. Entretanto, no posso deixar este castelo sem levar comigo as outras declaraes que me prometeu.
 Esforar-me-ei por obt-las antes do meio-dia de amanh. "  permanecerei ento sob este teto at esse momento. _ Nossa amiga, a Marquesa du Plessis, providenciar 
sua acomodao, signor. Avisei-a da sua chegada.
 _. Enquanto espero, creio que seria prudente guardar estas caras no cofrezinho que acabo de lhe entregar. A abertura  invisvel e em nenhum outro lugar estariam 
mais a salvo.
 __ Tem razo, Signor Exili. Ouvindo-o, compreendo que a conspirao  tambm uma arte que exige experincia e prtica. Quanto a mim, sou apenas um guerreiro, e 
no o escondo.
- Guerreiro glorioso! - exclamou o italiano inclinando-se.
 - Lisonjeia-me, meu padre. Mas confesso que me agradaria que o Sr. Mazarino e Sua Majestade, a rainha, participassem da sua opinio. Seja como for, acredito, entretanto, 
que a ttica militar, embora mais rude e mais ampla, aproxime-se um pouco de suas manobras sutis.  preciso sempre prever as intenes do inimigo.
 - Monseigneur, fala como se o prprio Maquiavel tivesse sido seu mestre.
- O senhor me lisonjeia - repetiu o prncipe.
 Exili explicou-lhe a maneira de levantar a almofadinha de cetim para esconder debaixo dela os envelopes comprometedores. Depois, o cofrezinho foi guardado na secretria.
 To logo se retirou o italiano, Conde, como uma criana, tornou a tirar o pequeno cofre e novamente o abriu.
-        Mostre - sussurrou a mulher, estendendo o brao para ele.
 Durante a conversa, ela no interviera, contentando-se em recolocar os numerosos anis nos dedos. Mas, obviamente, no tinha perdido uma s das palavras trocadas.
 Conde aproximou-se do leito e os dois se inclinaram sobre o frasquinho verde.
 - Acredita que seja to terrvel quanto ele disse? - murmurou a Duquesa de Beaufort.
 - Fouquet assegura que no existe boticrio mais hbil do que esse florentino. E, de qualquer maneira, temos de valer-nos de Fouquet. Foi ele quem teve a idia 
da interveno espanhola no Parlamento de Paris, em abril passado. Interveno que desagradou a todos mas que o ps em contato com Sua Majestade Muito Catlica. 
No conseguirei meu exrcito seno por seus bons ofcios.
A dama reclinara-se novamente nas almofadas.
-        Quer dizer que Mazarino est morto! - disse ela lentamente.
-  como se estivesse, pois tenho a morte dele em minhas mos.
 - No consta que a rainha-me s vezes toma sua refeio com aquele a quem ama apaixonadamente?
 - Assim dizem - afirmou Conde aps um momento de silncio. - Mas no apoio o seu projeto, minha amiga. Penso em outro plano mais hbil e mais eficaz. Que seria 
da rainha-me sem seus filhos?...  espanhola no restaria outro remdio seno retirar-me para um convento a fim de chor-los...
- Envenenar o rei? - disse a duquesa estremecendo.
 O prncipe relinchou alegremente. Voltou  secretria e guardou o cofre.
 - Assim so as mulheres! - exclamou. - Sempre o rei! Enternece-se porque se trata de um belo menino, todo agitado pelas perturbaes da adolescncia e que, desde 
h algum tempo, na corte, lhe lanou olhares de co fiel. O rei, para voc,  isso. Para ns,  um obstculo perigoso em todos os nossos projetos. Quanto a seu irmo, 
o Petit Monsieur,,menino transviado que se compraz em vestir-se de menina e fazer-se acariciar pelos homens, eu o acho ainda menos habilitado para  trono que o 
seu rgio amiguinho. No, acredite-me, com o Sr. d'Orlans, muito menos austero que seu irmo Lus XIII, teremos um rei como nos convm. Ele  rico e de carter 
frouxo. Que mais haveremos de querer? Querida - continuou Conde, que tinha tornado a fechar a secretria e posto a chave no bolso de seu roupo -, creio que deveramos 
apresentar-nos aos nossos anfitries. A ceia no tardar. Quer que mande chamar Manon, sua camareira?
- Ser-lhe-ia agradecida, meu caro senhor.
 Anglica, que comeava a sentir-se cansada, retrocedeu um pouco sobre a cornija. Pensava que seu pai devia estar  sua procura, mas no se decidia a abandonar seu 
posto de observao. No interior do aposento, o prncipe e sua amante, ajudados pelos domsticos, comearam a vestir seus atavios, com grande rumor de tecido e algumas 
imprecaes de monseigneur, que no era paciente. Quando Anglica desviava os olhos da tela de luz formada pela janela aberta, no via em torno de si seno a noite 
opaca, da qual subia o murmrio da floresta prxima, agitada pelo vento do outono.
 Afinal percebeu que o quarto estava deserto. A lamparina continuava brilhando, mas o aposento retomara o seu silncio.
 Muito de manso, a adolescente aproximou-se da janela e passou para o interior.
 O cheiro dos cosmticos e dos perfumes confundia-se de maneira estranha com o que vinha da noite carregada de aromas do bosque mido, de musgo, de castanhas maduras.
 Anglica na verdade no sabia ainda o que ia fazer. Poderiam surpreend-la, mas no o receava. Tudo aquilo no passava de um sonho. Era como a partida para as Amricas, 
a dama louca de Monteloup, os crimes de Gil de Retz...
 Num gesto repentino, tirou do bolso do chambre abandonado sobre uma cadeira a pequena chave da secretria, abriu-a e retirou o cofrezinho. Era feito de sndalo 
e desprendia um odor penetrante. Fechou de novo a secretria, ps a chave no bolso do roupo e voltou para a cornija com o cofre debaixo do brao. Sentiu-se logo 
extremamente alegre. Imaginava a cara do Sr. de Conde quando desse pelo desaparecimento do veneno e das cartas comprometedoras.
 - Isto no  roubar - disse com os seus botes. - Trata-se de evitar um crime.
 J sabia em que lugar esconderia o seu furto. As torrinhas com que o arquiteto italiano tinha guarnecido os quatro cantos do gracioso Castelo do Plessis no serviam 
seno de ornamentos, mas tinham sido providas de ameias e balestreiros em miniatura, que imitavam a decorao guerreira dos edifcios medievos. Alm do mais, eram 
ocas e adornadas por uma pequenina trapeira. Anglica introduziu o cofrezinho no interior da mais prxima. Seria muito sagaz quem o fosse procurar ali!
 Desceu, depois, ao longo da fachada e reencontrou-se em terra firme. Somente ento percebeu que seus ps descalos estavam gelados.
Calou seus velhos sapatos e voltou ao castelo.
 Todos agora estavam reunidos nos sales. Aquela noite, demasiado sombria e brumosa, no seduzia a ningum.
 Penetrando no vestbulo, o nariz de Anglica foi acariciado por eflvios culinrios muito apetitosos. Viu passar uma srie de pequenos criados de libre que transportavam, 
com muita gravidade, enormes salvas de prata. Faises e galinholas adornados com suas penas, um leito coroado de flores feito uma noiva, vrios pedaos de um belo 
cabrito montes, colocados sobre camadas de alcachofras e ramos de funcho, desfilaram diante dela.
Rudos de faianas e cristais entrechocados vinham das salas e das galerias, onde toda a companhia estava reunida em torno de pequenas mesas guarnecidas de toalhas 
de renda e espalhadas com muito gosto. Em volta de cada uma sentavam-se dez pessoas.
 Anglica, que se detivera  entrada do salo maior, avistou o Prncipe de Conde, rodeado pela Sra. du Plessis, a Duquesa de Beaufort e a Condessa de Richeville. 
O Marqus du Plessis e seu filho Filipe tambm partilhavam a mesa do prncipe, bem como algumas outras damas e jovens senhores. O burel do italiano Exili punha uma 
nota inslita no meio de tantas rendas, fitas, tecidos preciosos recamados de ouro e prata. Se o Baro de Sanc estivesse presente, estaria correndo parelhas com 
a austeridade monstica. Mas Anglica, embora tivesse olhado com ateno, no viu seu pai em nenhum lugar.
 De repente, um dos pajens que passava conduzindo uma garrafa de prata dourada a reconheceu. Fora ele quem a motejara grosseiramente a propsito da bourre.
 -        Oh! Eis a Baronesa do Triste Vestido! - chasqueou. - Que quer beber, Nanon? Aguap de ma ou uma boa coalhada?
 Ela ps a lngua para o pajem, e, deixando-o meio confuso, continuou caminhando nas proximidades da mesa do prncipe.
 -        Senhor, que  aquilo que vem ali? - exclamou a Duquesa de Beaufort.
 A Sra. du Plessis seguiu a direo de seu olhar, descobriu Anglica, e mais uma vez chamou o filho em seu socorro:
 -        Filipe! Filipe! Meu filho, tenha a bondade de conduzir sua prima de Sanc  mesa das donzelas de honor.
O rapaz lanou a Anglica seu olhar aborrecido.
- Eis um tamborete - disse indicando um lugar vazio ao seu lado.
 - Aqui no, Filipe, aqui no! Tinha reservado esse lugar para a Srta. de Senlis.
 - A Srta. de Senlis podia ter-se apressado. Quando ela se juntar a ns, ver que foi substituda... vantajosamente - concluiu com um sorriso irnico.
Seus vizinhos de mesa puseram-se a rir de maneira ruidosa.
 Entrementes, Anglica se sentara. Tinha ido muito longe para retroceder. No ousava perguntar onde estava seu pai, e os raios luminosos refletidos pelos copos, 
frascos, argentaria e diamantes das damas a deslumbravam a ponto de entontec-la. Reagindo, ela se entesou, estufou o peito, lanou para trs sua abundante cabeleira 
dourada. Pareceu-lhe que alguns homens lhe dirigiam olhares que no eram destitudos de interesse. Quase defronte dela, os olhos de ave de rapina do Prncipe de 
Conde a examinaram por um instante com arrogante ateno.
 - Pelo diabo, o senhor tem estranhos parentes, Sr. du Plessis. Quem  essa patinha cinzenta?
 - Uma jovem prima de provncia, monseigneur. Ah! Sou digno de pena: durante duas horas, esta tarde, em lugar de escutar os nossos msicos e a encantadora conversa 
das damas, tive de suportar o requisitrio do baro seu pai, cujo hlito ainda faz que eu me sinta indisposto - como exclamaria nosso cnico poeta Argenteuil:
"Digo-lhes, sem mentir, que o hlito de um morto Ou o odor de uma sentina no cheiram to forte".
Uma gargalhada servil agitou a reunio.
 - E sabe o que me pedia? - continuou o marqus, enxugando as plpebras num gesto afetado. - No adivinharia. Queria que eu lhe conseguisse iseno de impostos para 
alguns muares de sua estrebaria e para a produo - saboreie a palavra - de chumbo que pretende encontrar j fundido em lingotes debaixo dos canteiros de sua horta. 
Jamais ouvi tamanhos disparates.
 - Ao diabo esses mendigos! - resmungou o prncipe. - Eles ridicularizam nossos brases com suas maneiras camponesas.
As damas perdiam o flego de tanto rir.
-        Viram a pluma de seu chapu?
-        E os seus sapatos, que ainda tinham palha aderida aos taces!...
O corao de Anglica batia to violentamente que lhe dava a impresso de que seu vizinho Filipe o ouvia. Ela lanou-lhe um olhar e surpreendeu os olhos azuis e 
frios do belo rapaz pregados nela com uma expresso indefinvel.
"No posso consentir que insultem assim meu pai", pensava ela.
 Anglica devia estar muito plida. Recordou o rubor da Sra. de Richeville, algumas horas antes, quando sua prpria voz se havia erguido num silncio glacial. Tinha, 
pois, algo que aquelas pessoas impertinentes temiam...
A "pequena De Sanc" aspirou profundamente.
 -        Pode ser que sejamos pobres - disse em voz muito alta e claramente -, mas ns, ao menos, no buscamos meios de envenenar o rei!
 Como da outra vez, os risos morreram nas faces. Pouco a pouco as conversas foram perdendo a animao, a alegria dos comensais foi-se extinguindo; todos olhavam 
para o Prncipe de Conde.
 - Quem... quem... quem?... - balbuciou o Marqus du Ples-sis. E no disse mais nada.
 - Eis palavras curiosas - disse enfim o prncipe, que se dominava com dificuldade. - Esta jovem no tem prtica do mundo. Ainda ouve histrias da carochinha...
"Daqui a pouco, ele vai me ridicularizar e vo expulsar-me da mesa prometendo-me uma sova", pensou Anglica. Inclinou-se um pouco e olhou para a cabeceira da mesa.
 -        Disseram-me que o Signor Exili  o maior perito do reino na arte dos venenos.
 Aquela nova pedra atirada no charco produziu ondas violentas. Houve um murmrio de espanto.
 - Oh, esta menina est possessa do Demnio! - exclamou a Sra. du Plessis, mordendo com raiva seu lencinho de renda. -  a segunda vez que ela me cobre de vergonha. 
Fica a como uma boneca de olhos de vidro e de repente abre a boca e diz coisas terrveis!
 - Terrveis? Por que terrveis? - discordou calmamente o prncipe, cujo olhar no se apartava de Anglica. - S-lo-iam se fossem verdadeiras. Mas no passam de 
fantasias de garota que no sabe estar calada.
- Calar-me-ei quando quiser - disse Anglica com clareza.
- E quando vai querer, senhorita?
 - Quando cessar de insultar meu pai e lhe houver concedido os modestos favores que solicita.
 O rosto do Sr. de Conde ensombreceu-se bruscamente. O escndalo havia chegado ao auge. No fundo da galeria convidados trepavam em cadeiras.
-        Ao diabo... Ao diabo... - murmurou o prncipe.
Ergueu-se de repente, o brao estendido como se lanasse suas tropas ao assalto s trincheiras espanholas.
-        Acompanhe-me! - rugiu.
 "Vai matar-me", pensou Anglica. E o aspecto daquele grande senhor a dominou, fazendo-a tremer de medo e de prazer.
 Entretanto, ela o seguiu, pequena pata cinzenta atrs daquele grande pssaro enfitado.
 Observou que ele tinha debaixo dos joelhos grandes folhos de rendas engomadas, e sobre seus cales uma espcie de saia curta enfeitada com inmeros gales. Nunca 
ela havia visto um homem trajado de maneira to extravagante. No entanto, admirava sua anda-dura, o modo pelo qual ele pisava com seus altos e arqueados taces.
 -        Eis-nos a ss - disse bruscamente Conde, voltando-se. - No quero, senhorita, zangar-me com voc, mas  preciso que responda a minhas perguntas.
 Esta voz adocicada assustou mais Anglica do que o teria feito um mpeto de clera. Ela estava num aposento deserto, sozinha com aquele homem poderoso cujas intrigas 
ela acabava de transtornar, e compreendeu que se havia enredado e perdido nelas como numa teia de aranha. Recuou, balbuciou, fingindo ser uma camponesa meio pateta.
- No pensava estar dizendo alguma coisa que no devia.
 - Por que inventou semelhantes insultos  mesa de um tio que respeita?
 Ela compreendeu o que ele queria faz-la confessar, hesitou, pesou os prs e os contras. Dado o que sabia, um protesto de total ignorncia da sua parte no seria 
crido.
 -        No inventei... apenas repeti coisas que me disseram - murmurou ela: - que o Signor Exili era um homem muito hbil em preparar venenos... Mas, acerca do 
rei, eu inventei. No deveria faz-lo, mas estava com raiva.
Ela enrolava canhestramente o pano da cintura.
-        Quem o disse a voc?
A imaginao de Anglica trabalhava ativamente.
- Foi um... um pajem. No sei seu nome.
- Poderia mostrar-mo?
- Posso.
 O prncipe conduziu-a  entrada dos sales. Ela indicou o pajem que a tinha escarnecido.
 - Ao demo esses malandros que escutam s portas! - rosnou o prncipe. - Como se chama, senhorita?
- Anglica de Sanc.
 - Escute, Srta. de Sanc. No  bom repetir levianamente palavras que uma jovem da sua idade no pode compreender. Isso pode prejudicar-lhe, a voc e  sua famlia. 
Passarei uma esponja sobre este incidente. Examinarei mesmo o caso de seu pai e verei se  possvel fazer alguma coisa em seu favor. Mas que garantia terei do seu 
silncio?
Ela ergueu para ele seus olhos verdes.
 -        Eu sei to bem calar quando satisfazem aos meus desejos como falar quando me injuriam.
 -        Pelo diabo, quando for mulher, j estou prevendo que haver homens que se enforcaro por t-la encontrado - disse o prncipe.
Mas um vago sorriso flutuava em seu rosto. Ele no parecia suspeitar que ela pudesse saber mais do que lhe havia dito. Impulsivo e, por outro lado, irrefletido, 
Conde era falho em psicologia e ateno. Passada a primeira agitao, ele decidiu que no havia mais do que tricas de corredor.
 Como homem habituado  lisonja e sensvel aos encantos femininos que era, a emoo daquela adolescente de uma beleza j notvel ajudava a abrandar-lhe a clera. 
Anglica insistia em dirigir-lhe um olhar de cndida admirao.
  - Gostaria de perguntar-lhe uma coisa! - disse ela, exagerando sua ingenuidade.
- Que ?
- Por que veste uma pequena saia?
  - Uma pequena saia?... Mas, minha menina, trata-se de uma rhingrave. E no  de uma suprema elegncia? A rhingrave dissimula o calo desgracioso, que no assenta 
bem seno nos cavaleiros. Pode ser guarnecida de gales e de fitas.  muito cmoda. Nunca a tinha visto em sua terra?
- No. E esses grandes folhos que usa sob os joelhos?
  - So canons. Valorizam a barriga da perna, que aparece fina e arqueada.
  -  verdade - aprovou Anglica. - Tudo isso  maravilhoso. Jamais vi traje to belo!
  - Ah! Fale de trapos s mulheres e aplacar a mais perigosa fria - disse o prncipe, encantado com o seu sucesso. - Mas devo voltar aos meus anfitries. Promete-me 
ser discreta?
  - Prometo, monseigneur - disse ela com um sorriso encantador, que descobriu seus dentinhos nacarados.
 O Prncipe de Conde retornou aos sales, abrandando com um gesto a emoo dos presentes.
  -        Comam, comam, amigos. No tem nenhuma importncia. A pequena insolente vai desculpar-se.
De moto-prprio, Anglica inclinou-se diante da Sra. du Plessis.
  -        Apresento-lhe minhas desculpas, senhora, e peo-lhe licena para me retirar.
Alguns riram do gesto da Sra. du Plessis, que, incapaz de falar, indicou a porta. Mas, diante da porta, formava-se outro grupo.
- Minha filha, onde est ela? - clamava o Baro Armando.
  - O senhor baro pergunta por sua filha? - exclamou um lacaio em tom chocarreiro.
Entre os hspedes elegantes e os criados de libre, o pobre fidalgo parecia um grande moscardo negro prisioneiro. Anglica precipitou-se para ele.
 - Anglica - suspirou -, voc me pe louco. Faz mais de trs horas que a procuro pelas trevas da noite, entre Sanc, o pavilho de Molines e o Plessis. Que dia, 
minha filha! Que dia!
- Vamos, pai, vamos depressa - disse ela.
 J estavam na escada quando a voz do Marqus du Plessis os chamou.
 -        Um instante, meu primo. O senhor prncipe desejaria conversar com voc. E a propsito dos direitos alfandegrios de que me falou...
O resto se perdeu quando os dois homens tornaram a entrar.
 Anglica sentou-se no ltimo degrau e esperou seu pai. De repente, pareceu-lhe que ela estava inteiramente vazia de qualquer pensamento, de qualquer vontade. Um 
cachorrinho branco veio farej-la. Ela o acariciou maquinalmente.
Quando o Sr. de Sanc reapareceu, segurou sua filha pelo pulso.
 -        Receava que houvesse escapado de novo. Voc tem mesmo o diabo, no corpo, menina. O Sr. de Conde me dirigiu a seu respeito cumprimentos to estranhos que 
eu no sabia se convinha desculpar-me por hav-la trazido ao mundo.
 Um pouco mais tarde, quando seus cavalos marchavam a passo no meio das trevas, o Sr. de Sanc voltou a falar, sacudindo a cabea.
 - No consigo compreender essas pessoas. Zombam de mim quando me ouvem. O marqus, de algarismos em punho, procura provar-me que sua situao financeira  mais 
precria que a minha. Deixam-me partir sem mesmo oferecer-me um copo de vinho para molhar meu gasnete e depois, de repente, saem a me buscar, prometem-me tudo que 
eu queira. Segundo monseigneur, a iseno de meus direitos aduaneiros me ser concedida no ms vindouro.
- Tanto melhor, pai - murmurou Anglica.
 Ela escutava, vindo da noite, o coaxar dos sapos, que indicava a aproximao dos pntanos e do velho castelo fortificado. Subitamente sentiu desejos de chorar.
 - Acredita que a Sra. du Plessis v tom-la como donzela de honor? - perguntou ainda o baro.
- Oh! No creio - respondeu suavemente Anglica.

CAPITULO X

Poitiers e o convento - Encontro com o Sr. Vicente de Paulo

Da viagem que fez para alcanar Poitiers, Anglica s conservou uma lembrana desordenada e sobretudo desagradvel. Haviam consertado para a ocasio uma velhssima 
carruagem, na qual ela tomou lugar com Hortensia e Madelon. Um criado guiava as mulas que a puxavam. Raimundo e Gontran montavam belos cavalos de raa, que seu pai 
lhes ofertara. Diziam que os jesutas, em seus novos colgios, tinham cocheiras reservadas para as mon-tarias dos jovens nobres.
 Dois robustos cavalos de carga completavam a caravana. Cavalgava um deles o velho Guilherme, encarregado de escoltar seus jovens amos. Inmeras notcias de agitaes 
e de guerras circulavam na regio. Dizia-se que o Sr. de Ia Rochefoucauld sublevava o Poitou por conta do Sr. de Conde. Recrutava exrcitos e levava parte das colheitas 
para aliment-los. Quem diz exrcitos diz fome e misria, bandidos e vagabundos nas encruzilhadas.
 Ali estava pois o velho Guilherme, com sua lana apoiada no estribo e sua velha espada  cintura.
 Entretanto, a viagem foi calma. Ao atravessarem uma floresta, viram vultos suspeitos que se dispersavam entre as rvores. Mas, sem dvida, a lana do velho mercenrio, 
a menos que fosse a pobreza da carruagem, desencorajou os bandoleiros.
 Passaram a noite em um albergue, numa encruzilhada sinistra, onde no se ouvia seno o sibilar do vento na floresta desfolhada.
 O estalajadeiro concordou em servir aos viajantes uma gua clara batizada com o nome de caldo e alguns queijos que comeram  luz de uma ordinria vela de sebo.
 -        Todos os donos de albergues so cmplices de bandidos - confiou Raimundo a suas jovens irms aterrorizadas. -  nos albergues das estradas que se cometem 
a maioria dos assassinatos. Em nossa ltima viagem dormimos numa estalagem onde, um ms antes, haviam degolado um rico capitalista que no tinha pratica do outro 
mal seno viajar sozinho.
 Lamentando haver-se entregue a reflexes demasiado profanas acrescentou:
 -        Esses crimes cometidos pelos homens do povo so conseqncia do desregramento das pessoas altamente colocadas. Todo mundo perdeu a crena em Deus.
 Tiveram ainda um dia de viagem. Sacudidas como nozes ensaca-das por caminhos cobertos de gelo e sulcados de carris, as trs irms sentiam-se fatigadas. S raramente 
encontravam trechos da estrada romana com suas grandes lajes antigas e regulares. O comum eram caminhos de pura argila, revolvidos pela passagem incessante de cavaleiros 
e carruagens. A entrada das pontes permaneciam s vezes horas inteiras at ficarem gelados, visto que o portageiro era quase sempre um funcionrio pouco ativo e 
tagarela, que aproveitava cada viajante para uns dedos de palestra. Somente passavam sem deter-se os grandes senhores, que com mo desdenhosa lanavam, pela portinhola, 
uma bolsa aos ps do servidor.
 Madelon chorava, transida de frio e agarrada a Anglica. Contraindo os lbios, Hortnsia dizia:
-         inadmissvel!
 As trs estavam alquebradas e soltaram um suspiro de alvio, quando, ao entardecer do segundo dia, surgiu Poitiers, escalonando seus telhados de um rosa plido 
na falda de uma colina cercada por aprazvel rio: o Clain.
 Era um dia lmpido de inverno. Dir-se-ia uma paisagem do Midi, do qual o Poitou  alis o limiar, tal a doura do cu sobre as casas. Os sinos repicavam tocando 
as trindades.
 Aqueles sinos, dali em diante, iriam marcar as horas de Anglica durante quase cinco anos. Poitiers era uma cidade de igrejas, de conventos e de colgios. Os sinos 
regulavam a vida de toda aquela multido de batinas, daquele exrcito de estudantes, to estrepitosos quanto cochichadores os seus mestres. Sacerdotes e bacharis 
abalroavam-se nas esquinas das ladeiras, na sombra dos ptios, nas inmeras praas, que aqui e ali ofereciam repouso aos peregrinos da cidade.
 Os pequenos viajantes separaram-se diante da catedral. O convento das ursulinas era um pouco  direita e dominava o Clain. O colgio dos padres jesutas encontrava-se 
bem no alto. Com o natural desazo da adolescncia, apartaram-se quase sem trocar palavra, e Madelon, em lgrimas, abraou seus dois irmos.
 As portas do convento fecharam-se por trs de Anglica. Tardou a compreender que a sufocao que a oprimia provinha dessa brusca rotura com o espao. Paredes e 
mais paredes, e grades nas janelas. Suas companheiras no lhe pareciam simpticas: ela sempre brincara com rapazes, pequenos camponeses que a admiravam e seguiam. 
Agora, aqui, entre moas de alta linhagem e de slida fortuna, Anglica de Sanc no podia estar seno nos ltimos lugares. Tambm foi necessrio submeter-se  tortura 
do espartilho, atado fortemente, que obrigava as jovens a se manterem eretas, dando-lhes atravs da vida e em qualquer circunstncia o porte de uma rainha desdenhosa. 
Anglica, de msculos flexveis, graciosa por instinto, poderia prescindir de tal tormento. Mas tratava-se de uma instituio que ultrapassava largamente os limites 
do convento. Ouvindo as conversas das maiores, no podia duvidar de que o espartilho ocupasse importante lugar em tudo o que concernia  moda. Tambm era objeto 
das palestras uma espcie de plastro em bico de pato que se conservava rgido graas a um papelo forte ou varetas de ferro e que se bordava e rebordava e se guarnecia 
de laos e jias. Destinava-se a sustentar os seios, fazendo-os subir sob a renda, a ponto de sempre parecerem prestes a saltar daquela priso. Naturalmente, as 
maiores falavam de tais detalhes em segredo, embora o convento estivesse especialmente encarregado de preparar as jovens para o casamento e para a vida mundana.
 Era preciso aprender a danar, saudar, tocar alade e cravo, manter com duas ou trs colegas conversaes sobre determinado assunto, e at manejar o leque e fazer 
a pintura do rosto. Tambm se dava importncia aos afazeres domsticos. Por causa dos reveses que o cu poderia enviar, as alunas deviam sujeitar-se aos trabalhos 
mais humildes. Alternadamente, elas trabalhavam nas cozinhas e nas lavanderias, acendiam e conservavam as lmpadas, varriam e esfregavam os ladrilhos. Por fim, ministravam-lhes 
alguns rudimentos intelectuais: histria e geografia, sumariamente expostas, mitologia, clculo, teologia, latim. Dispensava-se muito tempo aos exerccios de estilo, 
pois a arte epistolar era essencialmente feminina, e a troca de cartas com amigos e namorados representava uma das ocupaes mais absorventes de uma mulher de sociedade.
 Sem ser uma aluna indcil, Anglica no deu grande satisfao a suas professoras. Executava o que lhe mandavam, mas parecia no compreender por que era obrigada 
a fazer tantas coisas estpidas. Por vezes, nas horas das lies, procuravam-na em vo; encontravam-na, por fim, na enorme horta, situada a cavaleiro de ruelas quentes 
e pouco freqentadas. Aos mais severos reproches ela respondia sempre que no tinha conscincia de estar fazendo alguma coisa censurvel ao ver crescer as eouves.
 No vero seguinte a cidade foi assolada por uma epidemia bastante grave, que denominaram peste porque muitos ratos subiam de suas tocas para morrer nas ruas e nas 
casas.
 A Fronda dos prncipes, dirigida pelos Srs. de Conde e Turen-ne, levava a misria e a fome quelas regies do oeste at ento poupadas pelas guerras estrangeiras. 
No se sabia mais quem estava a favor do rei e quem era contra, mas inmeros camponeses cujas aldeias tinham sido incendiadas encaminhavam-se para as cidades. Formavam 
um exrcito de miserveis, que se dirigiam a todas as portas-cocheiras, estendendo a mo. Dentro em pouco, havia mais mendigos do que padres e estudantes.
 As pequenas pensionistas das ursulinas davam esmolas a certas horas de certos dias aos pobres que estacionavam diante do convento. Ensinou-se-lhes que isso tambm 
fazia parte de sua; futuras atribuies de consumadas grandes damas.
 Pela primeira vez Anglica viu diante de si a misria desesperanada, a misria andrajosa, a verdadeira misria de olhos lbricos e rancorosos. No se comoveu nem 
se alterou, como algumas de suas companheiras, que choravam ou contraam os lbios com aflio. Parecia-lhe distinguir uma imagem impressa em seu interior, como 
o pressentimento do que lhe reservaria um estranho destino.
 A 'peste teve origem naquela escria que obstrua as augustas ladeiras em que um ardente ms de julho secava todas as fontes.
 Houve vrios casos entre as alunas. Certa manh, no ptio de recreio, Anglica no viu Madelon. Perguntou por ela, e disseram-lhe que a tinham levado para a enfermaria. 
Madelon morreu poucos dias depois. Diante do pequeno corpo lvido e como dessecado, Anglica no chorou. At censurou intimamente Hortnsia por suas lgrimas espetaculares. 
Por que chorava aquela magricela de dezessete anos? Nunca havia gostado de Madelon. S gostava de si mesma.
- Ah! Minhas queridinhas - disse-lhes suavemente uma velha religiosa -,  a lei de Deus! Muitas crianas morrem. Disseram-me que sua me teve dez filhos e s perdeu 
um. Com esta so dois. No  muito. Conheo uma senhora que teve quinze filhos e j perdeu sete. Como vem,  assim. Deus d os filhos, Deus os leva. I H muitas 
crianas que morrem. E a lei de Deus!...
 Aps a morte de Madelon, Anglica tornou-se ainda mais insoci-vel e chegou at a ser indisciplinada. No fazia seno o que lhe dava I na veneta. Ficava horas inteiras 
em recantos ignorados da vastssima casa. Haviam-lhe proibido o acesso ao jardim e  horta. Encontrava, todavia, meios de ir l. Pensaram em deslig-la, mas o Baro 
de Sanc, no obstante as dificuldades que lhe causava a guerra civil, pagava regularmente a penso de suas duas filhas, e muitas pensionistas no faziam o mesmo. 
Alm do mais, Hortnsia prometia tornar-se das jovens mais adiantadas de sua classe. Por considerao  mais velha, conservaram a mais nova, mas puseram-na de lado.
 Num dia de janeiro de 1652, Anglica, que acabava de completar quinze anos, achava-se mais uma vez empoleirada no muro da horta, distraindo-se com o movimento dos 
transeuntes e aquecendo-se ao fraco sol de inverno.
 Naqueles primeiros dias do ano havia grande animao em Poitiers porque a rainha, o rei e seus partidrios acabavam de instalar-se na cidade. Pobre rainha, pobre 
reizinho, afugentados de rebelio em rebelio! : Haviam-se dirigido antes  Guyenne, para combater o Sr. de Conde. De regresso detiveram-se no Poitou, a fim de negociar 
com o Sr. de Turenne, que tinha em suas mos aquela provncia, desde Fontenay-le-Comte at o oceano. Chtellerault e Luon, antigas praas fortes protestantes, haviam 
aderido ao general huguenote, mas Poitiers, que no esquecia que, cem anos antes, tinham sido saqueadas as suas igrejas, sendo o mare enforcado pelos hereges, abrira 
suas portas ao monarca.
 Agora s se via junto ao rei adolescente o vestido negro da Espanhola. O povo, a Frana inteira, havia gritado tanto: "Fora, Ma-zarino!", que o homem de vermelho 
acabara por se curvar. Havia deixado a rainha, a quem amava, exilando-se na Alemanha. Mas   \ sua partida no bastara para acalmar as paixes...
 Apoiada ao muro do convento, Anglica escutava o murmrio da cidade agitada, cuja excitao repercutia at aquele bairro distante.
 As pragas dos cocheiros, cujas carruagens se embaraavam nas tortuosas ruelas, misturavam-se com os risos e a gritaria dos pa-jens e criados e com os relinchos 
dos cavalos.
 Sobre o alarido propagava-se o repique dos sinos. Anglica j econhecia todos os carrilhes: o de Santo Hilrio, o de Santa Ra-desunda, o bordo de Nossa Senhora 
Maior, os graves sinos da Torre de So Porchaire.
 De repente, ao p do muro, a moa viu um grupo de pajens que nassavam como um bando de pssaros exticos, com suas roupas de cetim e seda.
 Um deles se deteve para ajeitar o lao do sapato. Ao erguer-se, levantou a cabea e deu com Anglica, que o contemplava do alto do paredo.
Com uma barretada galante, o pajem espalhou a poeira.
-        Salve, senhorita! No parece muito alegre nessas alturas.
Parecia-se com os pajens que ela havia visto no Plessis e usava,
como eles, um curto calo abalonado, apangio do sculo XVI, que lhe figurava pernas imensas de gara.
 Afora isso, era simptico, com um rosto sorridente, tostado pelo sol, e belos cabelos castanhos e anelados.
 Anglica perguntou-lhe sua idade. Ele respondeu que tinha dezesseis anos.
 -        Mas no se inquiete, senhorita - acrescentou. - Sei fazer a. corte s damas.
Dirigia-lhe olhares requebrados e de repente lhe estendeu os braos.
-        Venha comigo!
 Uma agradvel sensao invadiu Anglica. O crcere cinzento e triste onde seu corao murchava pareceu abrir-se. Aquele riso alegre prometia-lhe algo indefinido, 
mas suave e saboroso, de que tinha fome, como depois do grande jejum da quaresma.
 -        Venha - sussurrou ele. - Se quiser, lev-la-ei at o palcio dos duques da Aquitnia, onde se alojou a corte, e mostrar-lhe-ei o rei.
Ela no hesitou muito e ajeitou o manto de l negra com capuz.
-        Ateno, vou saltar! - gritou.
O moo recebeu-a quase nos braos. Puseram-se a rir. Num gesto decidido, tomou-a pela cintura e a levou.
- Qu vo dizer as freirinhas do seu convento?
- Esto acostumadas a meus caprichos.
- E como se arranjar para entrar?
-        Tocarei a campainha e pedirei esmola.
O pajem soltou uma gargalhada.
 Anglica sentia-se meio embriagada pelo torvelinho em que subitamente mergulhara. Entre senhores e damas cujos formosos atavios maravilhavam os provincianos, passavam 
mercadores. A um deles o pajem comprou duas varetas enfiadas em coxas de r fritas. Tendo vivido sempre em Paris, achava extremamente ridculo aquele manjar. Os 
dois comeram com bom apetite. O pajem disse que se chamava Henrique de Roguier e que estava a servio do rei. Alegre companheiro, deixava de lado, vez por outra, 
os graves senhores do seu conselho para ir arranhar um pouco a guitarra com seus amigos. As encantadoras bonecas italianas, sobrinhas do Cardeal Maza-rino, continuavam 
na corte, apesar da partida forada- de seu tio. Com essa conversa o rapaz conduziu insidiosamente Anglica para quarteires menos movimentados. Ela o percebeu, 
mas no disse nada. Seu corpo, subitamente desperto, esperava algo que prometia a mo do pajem a estreitar-lhe a cintura. Ele se deteve e impeliu-a levemente para 
o canto de uma porta. Em seguida comeou a beij-la com ardor. Dizia coisas banais e divertidas.
 -        Voc  formosa... tem as faces como boninas e olhos verdes como as rs... as rs de sua terra... No se mexa.  o seu corpete que eu quero
, abrir... Deixe... Eu sei pegar... Oh! Nunca vi seios to brancos e to mimosos... E firmes como mas... Gosto de voc, minha amiguinha...
 Ela deixou-o divagar, acariciar. Reclinou a cabea um pouco para trs, contra a pedra musgosa, e seus olhos contemplavam maquinalmente o cu azul  beira de um 
telhado festonado.
 Agora o pajem estava calado e sua respirao tornava-se mais rpida. Inquietou-se e olhou vrias vezes em torno de si, com irritao. A rua estava bastante calma. 
No entanto, algumas pessoas transitavam. Passou at uma cavalgada de estudantes, que gritaram "Ei! Ei!" ao descobrirem o jovem casal  sombra da fachada.
O rapaz recuou e bateu com os ps no cho.
 - Oh! Que raiva! As casas esto repletas nesta maldita cidade de provncia. Os prprios grandes senhores tm de receber suas amantes nas antecmaras. Pergunto-lhe, 
pois, onde poderemos estar um pouco tranqilos?
- Estamos bem aqui - murmurou ela.
 Mas ele no estava satisfeito. Lanou um olhar  pequena esmo-leira que tinha  cintura, e seu semblante se iluminou.
 -        Venha comigo! Tenho uma idia! Encontraremos um lugar digno de ns.
 Tomou-a pela mo e levou-a correndo pelas ruas, at a praa de Nossa Senhora Maior. Embora j estivesse havia dois anos em Poitiers, Anglica nada conhecia da cidade. 
Olhou com admiraco a fachada da igreja, lavrada como um cofrezinho hindu e flanaueada de pequenas torres em forma de pinha. Dir-se-ia que a prpria pedra florescera 
sob o cinzel mgico dos escultores.
 Henrique disse ento  sua companheira que ficasse no prtico e o esperasse. Voltou pouco depois, todo contente, com uma chave na mo.
_ O sacristo me alugou o plpito por uns momentos.
__ O plpito? - repetiu Anglica estupefata.
 .- Ora essa! No  a primeira vez que ele presta este servio aos pobres enamorados.
 Retomou-a pela cintura e desceu os degraus que conduziam ao santurio, cujo pavimento estava um pouco afundado.
 Anglica viu-se envolvida pelas trevas e pela frescura das abbadas. As igrejas do Poitou so as mais sombrias da Frana. Slidos edifcios, assentados sobre enormes 
pilares, dissimulam em sua sombra antigas decoraes murais, cujos tons vivos vo aparecendo pouco a pouco aos olhos surpresos. Os dois adolescentes avanavam em 
silncio.
 -        Estou com frio - murmurou Anglica, envolvendo-se no manto.
 O jovem ps-lhe um brao protetor sobre os ombros, mas sua exaltao tinha diminudo e ele parecia intimidado.
 Abriu a primeira porta do enorme plpito; depois, subindo os degraus, penetrou na rotunda destinada ao pregador. Anglica o seguiu um tanto maquinalmente.
 Sentaram-se os dois nas tbuas do cho, cobertas por um tapete de veludo. Aquela igreja, aquela noite profunda com cheiro de incenso pareciam ter acalmado o temperamento 
afoito de Henrique. Ele ps novamente o brao em torno das espduas de Anglica e a beijou suavemente na fronte.
 -        Como voc  bela, minha amiguinha - suspirou -, e como eu a prefiro a todas essas grandes damas que me provocam e zombam de mim! Nem sempre me agrada, 
mas eu devo comprazer-lhes. Se voc soubesse...
Tornou a suspirar. Seu rosto havia recobrado toda a sua puerilidade.
 -        Vou mostrar-lhe uma coisa linda, excepcional - disse ele, remexendo a esmoleira.
Tirou dela um pano branco orlado de renda e no muito limpo. ~~ Um leno? - disse Anglica.
-  Sim. O leno do rei. Deixou-o cair esta manh. Apanhei-o e guardei-o como talism. Olhou-a demoradamente, concentrado.
- Posso d-lo a voc, como prova de amor?
- Oh! Sim - disse Anglica, estendendo logo a mo.
O brao bateu na balaustrada de madeira macia e a pancada produziu enorme eco sob as abbadas. Imobilizaram-se, inibidos e um tanto inquietos.
- Creio que vem algum - murmurou Anglica. O rapaz confessou com ar desconsolado:
- Esqueci-me de fechar a porta do plpito ao p da escada. Calaram-se,.escutando os passos que se aproximavam. Algum
galgou os degraus de seu refgio, e a cabea de um velho sacerdote, coroada de um solidu negro, apareceu acima deles.
-        Que fazem aqui, meus filhos? - perguntou.
O pajem tinha j uma histria na ponta da lngua:
 - Eu quis ver minha irm, que  pensionista em Poitiers, mas no sabia onde conversar com ela. Nossos pais...
 - No fale assim to alto na casa de Deus - disse o padre. - Levante-se, e sua irm tambm, e siga-me.
 Levou-os para a sacristia e sentou-se num mocho. Depois, com as mos apoiadas nos joelhos, olhou sucessivamente os dois. Os cabelos brancos surgindo de seu solidu 
eclesistico aureolavam um rosto que, apesar da velhice, conservava sadias cores camponesas. Tinha um grande nariz, pequenos olhos vivos e penetrantes e curta barba 
branca. Henrique de Roguier, subitamente, pareceu assustado e calou-se com um embarao que no era fingido.
 -        Ele  seu amante? - perguntou de chofre o padre a Anglica, indicando o jovem com um movimento de cabea.
O rubor cobriu as faces da moa e o pajem exclamou prontamente:
- Senhor, eu o desejaria, mas ela no  dessa espcie.
 - Tanto melhor, milha filha. Se tivesse um belo colar de prolas, divertir-se-ia em lan-lo em seu ptio cheio de estreo, onde os porcos viriam farej-los com 
seus focinhos asquerosos? Hein? Responda-me, menina! F-lo-ia?
- No. Eu no o faria.
 - No se devem dar prolas aos porcos. No deve malbaratar o tesouro de sua virgindade, que deve ser guardada para o seu casamento. E voc, leviana personagem - 
continuou ele calmamente, voltando-se para o rapaz -, como teve a idia sacrlega de trazer sua amiga ao plpito da igreja para fazer-lhe madrigais?
- Aonde poderia lev-la? - retrucou o pajem, de mau humor. - No se pode conversar tranqilamente nas ruas desta cidade, mais estreitas que corredores. Sabia que 
o sacristo de Nossa Senhora Maior costuma alugar o plpito e os confessionrios, para que se possa dizer algum segredo longe de ouvidos indiscretos. Nestas cidades 
de provncia, o senhor sabe, Sr. Vicente, h muitas moas severamente guardadas por um pai ranzinza e uma genitora intratvel e que nunca teriam oportunidade de 
ouvir uma palavra doce se...
-        Como voc me instruir, meu pequeno!
 _ Q plpito custa trinta libras, e os confessionrios, vinte.  muito para minha bolsa, acredite-me, Sr. Vicente.
 -        Acredito sem dificuldade - disse o Sr. Vicente -, mas  mais caro ainda na balana onde o Diabo e o Anjo pesam os pecados no trio de Nossa Senhora Maior.
 Seu semblante, que at ento conservava uma expresso serena, tornou-se duro. Estendeu a mo.
-        D-me a chave que lhe entregaram.
E, quando o rapaz a devolveu:
 -        Vai confessar-se, no ? Esper-lo-ei amanh ao anoitecer, nesta mesma igreja. Dar-lhe-ei absolvio. Sei muito bem em que meio vive, pobre pajenzinho! 
E para voc  mais vantajoso brincar de homem com uma menina da sua idade do que servir de brinque do para as maduras damas que lhe arrastam a suas alcovas para 
corromp-lo... Sim, eu o vejo enrubescer. Envergonha-se diante dela, to fresca, to nova, dos seus turvos amores.
O jovem baixou a cabea, seu aprumo desapareceu. Balbuciou afinal:
 -        Sr. Vicente de Paulo, por favor, no conte este caso a Sua Majestade, a rainha. Se ela me devolver a meu pai, ele no saber o que fazer de mim. Tenho 
sete irms que ele precisa dotar, e eu sou o quarto filho da famlia. No consegui este imenso favor de entrar para o servio do rei seno graas ao Sr. de Lorraine, 
que me... a quem eu agradava - concluiu com embarao. - Ele comprou o posto para mim. Se me mandam embora, ele exigir, sem dvida, que meu pai o reembolse, e isso 
 impossvel.
O velho eclesistico olhava-o com gravidade.
 -        No direi nada. Mas convm que mais uma vez recorde  rainha as torpezas de que se acha rodeada. Ai!  mulher piedosa e consagrada s boas obras, mas que 
pode ela contra tanta podrido? No se modificam as almas com decretos...
 O rudo da porta da sacristia interrompeu-o. Entrou um homem jovem, de cabelos compridos e encaracolados, vestido com esmerado traje negro. O Sr. Vicente ergueu-se 
e lanou-lhe um olhar severo.
 -        Senhor vigrio, quero acreditar que ignore o comrcio a que se entrega seu sacristo. Acaba de cobrar trinta libras a este jovem cavaleiro para que possa 
encontrar-se livremente com sua amiga no plpito de sua igreja. Seria bom que vigiasse com um pouco mais de cuidado os seus auxiliares.
 A fim de recompor-se, o vigrio despendeu muito tempo fechando a porta. Quando se voltou, a penumbra da sacristia dissimulava mal o seu desconcerto. Como calava, 
o Sr. Vicente continuou:
 -        Observo, alm disso, que usa peruca e roupas seculares, o que  proibido aos sacerdotes. Serei obrigado a denunciar tais faltas
ao beneficirio de sua parquia.
O vigrio teve dificuldade em disfarar um encolher de ombros.
 - O qual no se preocupar com isto, Sr. Vicente. Meu beneficirio  um cnego parisiense. Comprou o cargo h trs anos ao cura anterior, que se retirava para suas 
terras. Nunca veio aqui, e, como tem casa canonical sobre a abside de Nossa Senhora de Paris, aposto que Nossa Senhora Maior de Poitiers deve parecer-lhe muito pequena.
 - Ah! - exclamou bruscamente o Sr. Vicente. - Receio que este abominvel trfico de curatos e parquias, vendidos como as-nos e cavalos no mercado, arraste a Igreja 
 sua perdio. E a quem nomeiam agora bispos neste reino? Grandes senhores guerreiros e libertinos, que s vezes nem sequer receberam as sagradas ordens, mas que, 
tendo fortuna bastante para adquirir um bispado, permitem-se vestir a sotaina e os paramentos dos ministros de Deus. Ah! O Senhor nos ajude a derribar tais instituies!
 Contente ao ver que os raios se desviavam dele, arriscou-se o vigrio a dizer:
 -        Minha parquia no est abandonada. Ocupo-me com ela e dedico-lhe todo o meu desvelo. D-nos a honra, Sr,. Vicente, de assistir esta noite  nossa bno 
do Santssimo Sacramento. Ver a nave repleta de fiis. Poitiers foi preservada da heresia pelo zelo de seus sacerdotes. No  como Niort, Chtellerault e...
O ancio lanou-lhe um olhar fulminante.
 -        Os vcios dos sacerdotes foram a causa primria das heresias! - exclamou com rudeza.
 Levantou-se e, tomando pelos ombros os dois jovens, levou-os para fora. Apesar de sua idade e de suas espduas curvadas, parecia estar cheio de vigor e vivacidade.
 Descia a noite sobre a praa fronteira  igreja, onde plida luz do inverno animava as flores de pedra.
 -  Meus cordeiros - disse o Sr. Vicente -, filhinhos de Deus, vocs intentaram provar o fruto verde do amor. Eis por que seus dentes se embotaram e tm os coraes 
cheios de tristeza. Deixem, pois, amadurecer ao sol da vida aquilo que sempre esteve destinado a sazonar. Quando se procura o amor,  preciso no se transviar, porque, 
do contrrio, talvez ele nunca seja encontrado. Que castigo mais cruel para a impacincia e a fraqueza do que estar condenado a vida inteira a no morder seno frutos 
amargos e sem aroma! Agora, vo cada um para seu lado. Voc, moo, para o seu servio, que deve fazer com conscincia. Voc, menina, para suas religiosas e seus 
trabalhos. E, quando romper o dia, no se esqueam de orar a Deus, que  pai de ns todos.
 Deixou-os ir. Seu olhar seguiu as silhuetas graciosas dos dois jovens at se separarem na esquina da praa.
 Anglica no virou a cabea at chegar  porta do convento. Sentia uma grande paz e guardava a lembrana de uma velha e clida mo pousada em seu ombro.__
 "O Sr. Vicente", pensou. " este, ento, o Sr. Vicente? Aquele que o Marqus du Plessis denomina 'A conscincia do reino? O que obriga os nobres a servir os pobres? 
O que fala diariamente com a rainha e o rei? Como tem o ar simples e doce!"
 Antes de erguer a aldrava, lanou um olhar sobre a cidade, mergulhada na noite.
- Sr. Vicente, abenoe-me! - murmurou.
 Anglica aceitou sem rebeldia os castigos que lhe impuseram por esta nova fugida. A partir daquele dia suas maneiras intratveis se transformaram. Aplicou-se aos 
estudos, mostrou-se amvel com as companheiras. Parecia ter-se adaptado, finalmente,  severidade do claustro.
 No ms de setembro sua irm Hortnsia deixou o convento. Uma parenta afastada quis t-la em Niort como donzela de companhia. Na realidade, a dama em questo, que 
era de baixa nobreza e tinha se casado com um magistrado rico mas de origem obscura, desejava que seu filho, aliando-se a uma jovem de alta linhagem, desse um pouco 
de lustre aos seus escudos. O rapaz acabava de conseguir por intermdio de seu pai um cargo de procurador do rei em Paris, e era preciso que ele se sentisse  vontade 
entre os brases. A ocasio era inesperada para^ambas as partes. O matrimnio foi realizado sem demora.
 Simultaneamente, o jovem Rei Lus XIV entrava como vencedor em sua bela capital.
 A Frana saa exangue de uma guerra civil em cuja durao seis exrcitos haviam torvelinhado sobre seu solo, buscando-se uns aos outros e nem sempre se encontrando. 
Havia o exrcito do Prncipe de Conde; o do rei, dirigido por Turenne, que de sbito resolveu no trair o soberano; o de Gasto d'Orlans, aliado dos ingleses e 
indisposto com os prncipes franceses; o do Duque de Beaufort, brigado com todo o mundo, mas ao qual os espanhis ajudavam; o do Duque de Lorena, que operava por 
conta prpria; e, por fim, o de Mazarino, que da Alemanha enviara reforos  rainha. Estiveram a ponto de nomear general a Srta. de Montpensier, por sua iniciativa 
de fazer disparar, certo dia, o canho da Bastilha sobre as tropas de seu prprio primo, o rei. Proeza que a Grande Made-moiselle pagou muito caro, pois assustou 
inmeros pretendentes  sua mo entre os prncipes da Europa.
 -        Mademoiselle acaba de "matar" seu marido - murmurou com o suave acento dos Abruzos o Cardeal Mazarino, quando lhe contaram o sucedido.
 Este ltimo ficava como grande vencedor de uma crise atroz e louca. Menos de um ano depois, tornou-se a ver sua batina vermelha nos corredores do Louvre, mas no 
houve mais "mazari-nadas". Todo mundo tinha as foras exauridas.
 Anglica estava com dezessete anos quando soube da morte de sua me. Rezou muito na capela, mas no chorou. Custava-lhe conceber que nunca mais veria aquela silhueta 
passando com seu vestido cinza e um leno preto na cabea, a qe sobrepunha no vero um chapu de palha fora de moda. Enamorada da horta e do pomar, a Sra. de Sanc 
havia talvez prodigalizado mais carinho e cuidados s pereiras e s couves do que a seus numerosos filhos.
 Por ocasio da morte de sua me, Anglica voltou a ver seus irmos Raimundo e Dionsio, que lhe foram fazer a participao. A jovem recebeu-os no locutrio, por 
trs das frias grades que eram exigidas pela ordem das ursulinas.
 Dionsio estava agora no colgio. Ao crescer, assemelhara-se tanto a Josselino que Anglica sups por um momento que tornava a ver o irmo mais velho tal como o 
conservava na lembrana, com seu uniforme preto de colegial. To surpreendida estava que, depois de ter saudado o clrigo que acompanhava Dionsio, no lhe prestou 
ateno, e ele se viu obrigado a dizer-lhe quem era.
-        Sou Raimundo, Anglica. No me reconhece?
Sentiu-se meio assustada. Em seu convento, extremamente ri-orista comparado com muitos outros, as religiosas consideravam os sacerdotes com devota servilidade, no 
isenta da instintiva submisso feminina ao homem. Ouvir um deles trat-la por "voc"
 perturbava. E era ela agora quem baixava os olhos, enquanto Raimundo lhe sorria. Com muito tato este a ps a par da desgraa nue os feria a todos e falou com muita 
simplicidade do acatamento que se deve  vontade de Deus. Alguma coisa havia mudado em seu longo rosto de tez mate e olhos claros e ardentes.
 Disse tambm que seu pai sentira muito que sua vocao religiosa se mantivesse durante os ltimos anos que havia passado entre os jesutas. Tendo-se ido embora 
Josselino, esperava sem dvida que Raimundo desempenhasse o papel de herdeiro do ttulo. Mas o jovem, depois de renunciar  herana em favor dos outros irmos, havia 
proferido seus votos. Gontran tambm decepcionava o pobre Baro Armando. Longe de querer ingressar no exrcito, havia ido para Paris estudar no se sabia o qu. 
Era mister, pois, aguardar que Dionsio, agora com treze anos, conquistasse para o nome de Sanc o brilho militar, tradicional nas famlias de alta prospia.
 Enquanto falava, o padre jesuta olhava a irm, que, a fim de escut-lo, apoiava contra os frios vares seu rosto rosado e cujos olhos estranhos tomavam na obscuridade 
do parlatrio uma lim-pidez de gua-marinha. Havia uma espcie de compaixo em sua /oz, quando perguntou:
- E voc, Anglica, que vai fazer?
 A jovem sacudiu seus longos cabelos com reflexos de ouro, e respondeu com indiferena que no sabia.
 Um ano mais tarde chamaram Anglica de Sanc novamente ao locutrio.
 Ali encontrou o velho Guilherme, um pouco mais encanecido do que quando o havia deixado. Sua inseparvel lana estava cuidadosamente encostada na parede.
 Disse que vinha busc-la para reconduzi-la a Monteloup. Tinha terminado sua educao. Agora era uma perfeita moa e tinham encontrado um marido para ela.

CASAMENTO EM TOULOUSE (1656-1660)

CAPITULO XI

Um conde toiosano pede a mo de Anglica

O Baro de Sanc olhava sua filha com indisfarvel satisfao.
 - Essas freiras fizeram de voc uma jovem perfeita, minha sel-vagenzinha.
 - Oh! Perfeita! Isto se ver na prtica - retrucou Anglica, sacudindo, como outrora, seus cabelos anelados.
 Os ares de Monteloup, com o cheiro caracterstico de seus pntanos, faziam-na fruir de novo sua independncia. Erguia-se como uma flor estiolada sob uma deliciosa 
btega.
Mas a vaidade paternal do Baro Armando no se deixava abater.
 -        De qualquer maneira, est mais bonita do que eu esperava. Sua pele me parece mais escura do que seria necessrio para hrmonizar-se com seus olhos e seus 
cabelos. Mas o contraste no deixa de ter o seu encanto. Observei, alis, que a maior parte de meus filhos tm a mesma cor. Receio que seja o ltimo resqucio de 
alguma gota de sangue rabe que os naturais do Poitou, de um modo geral, conservaram. Viu seu irmozinho Joo Maria? Parece um verdadeiro mouro.
E acrescentou abruptamente:
- O Conde de Peyrac de Morens pediu-a em casamento.
- A mim? - disse Anglica. - Mas se nem o conheo!
 - Isso no tem importncia. Molines o conhece, e  o principal. Garante-me que eu no poderia ter sonhado com melhor aliana para qualquer das minhas filhas.
 O Baro Armando estava radiante. Com a ponta da bengala cortava as primaveras do talude,  beira da funda trilha por onde pasmava com sua filha naquela tpida manh 
de abril.
 Anglica tinha chegado a Monteloup na vspera, de noite, em companhia de Guilherme e de seu irmo Dionsio. Como se admirasse de ver o colegial em frias, ele lhe 
disse que tinha obtido permisso para assistir ao seu casamento.
"Que histria de casamento  essa?", pensou a moa.
 Ainda no levava a srio o assunto, mas agora o tom de segurana do baro comeava a inquiet-la.
 Ele no havia mudado muito nos ltimos anos. Apenas alguns fios cinzentos se viam em seus bigodes e na mosca que usava,  Lus XIII. Anglica, que esperava encontr-lo 
abatido e indeciso aps a morte de sua mulher, surpreendia-se de v-lo muito bem-humorado e sorridente.
 Ao chegarem a um prado em declive que dominava os pntanos esgotados, ela procurou desviar a conversa, que ameaava gerar um conflito entre ambos quando mal acabavam 
de se reencontrar.
 - O senhor me escreveu, pai, que tinha sofrido grandes perdas de gado pelas requisies e pilhagens do exrcito, durante os anos dessa terrvel Fronda?
 -  verdade. Molines e eu perdemos pouco mais ou menos metade dos animais, e, se no fosse ele, eu estaria no crcere por dvidas, aps a venda de todas as nossas 
terras.
- Ser que lhe deve ainda muito? - perguntou, inquieta.
 - Ai de mim! Das quarenta mil libras que me emprestou h tempos, em cinco anos de trabalho ininterrupto no pude devolver-lhe mais de cinco mil, e mesmo essas ele 
no queria receber, pretextando que mas havia dado e que eram minha parte no negcio. Tive de zangar-me para conseguir que as aceitasse.
 Anglica fez notar com simplicidade que, se o administrador achava que no era necessrio reembols-lo, seu pai fazia mal em obstinar-se na sua generosidade 
 - Se o tal Molines lhe props esse negcio,  porque saa ganhando. No  homem capaz de dar presentes. Mas tem certa retido, e se lhe deixa essas quarenta mil 
libras,  porque acha que o trabalho a que o senhor se entregou e os servios que lhe prestou valem bem essa quantia.
 - A verdade - respondeu o baro -  que o nosso pequeno comrcio de muares e de chumbo com a Espanha, isento de impostos at o oceano, tem marchado sofrivelmente. 
Nos anos sem saques, vendendo o resto da produo ao Estado, cobrimos as despesas...
.Lanou a Anglica um olhar perplexo.
 _ Mas com que prtica voc me fala, filha! Pergunto a mim mesmo se tal linguagem assenta bem a uma jovem que acaba de sair do convento.
Anglica ps-se a rir.
 __ Parece que em Paris so as mulheres que dirigem tudo: a poltica, a religio, as letras, at as cincias. Chamam-nas "as preciosas". Renem-se todos os dias 
na residncia de uma delas com os homens de gnio, com os sbios. A dona da casa fica estendida em seu leito; os convidados agrupam-se na alcova e ali discutem. 
Pergunto-me se, quando eu for a Paris, no criarei tambm uma sesso na qual se falar de comrcio e de negcios.
 _ Que horror! - exclamou o baro, escandalizado. - Anglica no foram as ursulinas de Poitiers que lhe inculcaram semelhantes idias...
 - Diziam que eu era excelente em clculo e raciocnio. At demasiado... Em compensao, deploravam muito no haverem podido fazer de mim uma devota exemplar... 
e hipcrita, como minha irm, Hortnsia, que lhes fez acalentar a esperana de que entraria para a sua ordem. Mas, decididamente, os atrativos do procurador foram 
mais fortes.
 - Minha filha, no sinta inveja de sua irm, pois esse Molines, que voc julga to severamente, encontrou-lhe um marido que  sem dvida muito superior ao de Hortnsia.
A jovem bateu com o p, impaciente.
 - Acho que o tal Molines exagera! Quem quer que o ouvisse diria que sou filha dele e no sua, visto tomar tanto interesse pelo meu futuro.
 - Faz muito mal em queixar-se, tolinha - disse seu pai, sorrindo. - Escute-me um pouco. O Conde Joffrey de Peyrac  um descendente dos antigos condes de Toulouse, 
cujos quartis de nobreza so anteriores aos de nosso rei Lus XIV. Alm disso,  o homem mais rico e influente do Languedoc.
 - E possvel, pai; mas, em resumo, no me posso casar assim sem mais nem menos com um homem que eu no conheo e que o senhor mesmo nunca viu.
 -  Por qu? - surpreendeu-se o baro. - Todas as jovens de qualidade se casam desse modo. No so elas nem o acaso que devem decidir sobre as alianas que convm 
s suas famlias, e nas quais empenham no s o seu porvir, mas tambm o seu nome.
- Ele ... ele  jovem? - perguntou Anglica, vacilante.
 - Jovem? Jovem? - resmungou o baro, contrariado. - Ei$| uma pergunta ociosa para uma pessoa prtica. E verdade que seul futuro esposo tem doze anos mais do que 
voc. Mas trinta anos I em um homem,  a idade da fora e da seduo. O cu podei conceder-lhe numerosos filhos. Ter um palcio em Toulouse, cas-l telos em Albi 
e em Barn, carruagens, vestidos caros...
O Sr. de Sanc deteve-se, carecente de imaginao.
 -        De minha parte - concluiu -, julgo que o pedido de casamento feito por um nobre que tambm nunca a viu  uma sorte 
inesperada, extraordinria...
Deram alguns passos em silncio.
 - Precisamente - murmurou Anglica -, essa sorte me parece excessivamente extraordinria. Por que motivo esse conde, que tem todo o necessrio para escolher uma 
rica herdeira para esposa, vem buscar no fundo do Poitou uma moa sem dote?
 - Sem dote? - repetiu Armando de Sanc, cujo rosto se iluminou. - Venha comigo at casa, Anglica, e vista-se para sair. Iremos a cavalo. Quero mostrar-lhe algo.
 No ptio do castelo, um criado, por ordem do baro, tirou da estrebaria dois cavalos e prestemente os arreou. Intrigada, a jovern j no fazia perguntas. Enquanto 
montava, dizia a si prpria que, afinal de contas, estava destinada ao casamento e que a maior parte de suas companheiras se casavam assim, com candidatos escolhidos 
por seus pais. Por que a revoltava tanto esse projeto? O homem que lhe destinavam no era um ancio. Ela seria rica...
 Anglica percebeu que de repente a invadia uma agradvel sensao fsica e levou algum tempo para compreender-lhe a causa. A mo do criado que a tinha ajudado a 
montar no animal acariciara-lhe suavemente o tornozelo, num gesto que a melhor boa vontade deste mundo no podia tomar por distrao.
 O baro tinha entrado no castelo para trocar as botas e pr uma volta limpa.
Anglica teve um gesto nervoso e o cavalo deu alguns passos.
-        Enlouqueceu, vilo?
 Sentia-se enrubescida e furiosa contra si prpria, porque reconhecia que um delicioso estremecimento a percorrera durante aquela breve carcia.
O criado, um hrcules de largos ombros, ergueu a cabea. Mede cabelos escuros caam-lhe sobre os olhos castanhos, que brilhavam com malcia conhecida.
 Nicolau! - exclamou Anglica, enquanto lutavam dentro dela tisfao de rever o antigo companheiro de folguedos e a confuso proveniente do gesto que ele se atrevera 
a fazer.
- Ah! Reconheceu Nicolau? - disse o Baro de Sanc, que volva a largos passos. -  o pior diabo da regio e ningum pode ele. Nem o trabalho nem os muares lhe interessam. 
Preguio-o e conquistador, eis a seu belo companheiro de amanho, Anglica! O jovem no pareceu envergonhar-se do julgamento de seu amo. Ele continuava a olhar Anglica 
com um riso que mostrava seus dentes brancos, e com atrevimento quase insolente. Sua camisa aberta descobria-lhe o peito musculoso e bronzeado.
 -        Ol, rapaz, pega um mulo e acompanhe-nos - disse o baro,
que no percebia nada.
_ Est bem, senhor.
 As trs cavalgaduras atravessaram a ponte levadia e tomaram o caminho  esquerda de Monteloup.
- Aonde vamos, pai?
-  antiga mina de chumbo.
- Aqueles fornos derrudos perto das terras da abadia de Nieul?
- Isso mesmo.
 Anglica recordou o convento dos frades libertinos, a louca aventura de sua infncia, quando tinha querido seguir para as Amricas, e as explicaes de Frei Anselmo 
sobre o chumbo e a prata e os trabalhos realizados na mina durante a Idade Mdia.
- No vejo que interesse pode ter esse pedao de terra inculto...
 - Esse pedao de terra, que j no  inculto e agora se chama Argentire, representa simplesmente o seu dote. Lembre-se de que Molines tinha me pedido que revalidasse 
o direito de explorao por minha famlia e solicitasse iseno de impostos para a quarta parte do que se produzisse. Obtido isso, trouxe trabalhadores sa-xoes. 
Vendo a importncia que ele dava a esse terreno at ento abandonado, disse-lhe um dia que o daria a voc como dote. Creio que naquele instante germinou em sua frtil 
cabea a idia de um casamento com o Conde de Peyrac, porque, de fato, esse senhor tolosano queria adquiri-lo. No compreendi bem a espcie de transao que mantm 
com Molines; creio que ele  o consignatrio no negocio dos muares e metais que enviamos por mar com destino a Espanha. Isso demonstra que h mais gentis-homens 
que se entregam ao comrcio do que geralmente se acredita. Eu pensava entretanto, que o Conde de Peyrac possusse propriedades e terras suficientes para no precisar 
recorrer a processes plebeus. Talvez o comrcio lhe sirva de passatempo. Dizem que  muito original, Sim, compreendi bem - disse lentamente Anglica. - O senhor 
sabia que ele cobiava a mina, e deu a entender que era pre-ciso levar tambm a filha.
 - Voc apresenta as coisas de um ngulo bem extravagante, Anglica! Parece-me que esta soluo de dar-lhe a mina como dote  excelente. O desejo de ver minhas filhas 
bem situadas tem sido minha principal preocupao, como foi a de sua pobre me. Ora, entre ns, as terras no se vendem. Com todas as nossas dificuldades, conseguimos 
conservar o patrimnio intato, apesar de Du Ples-sis, por mais de uma vez, haver posto a mira em meus famosos terrenos dos pntanos esgotados. Mas casar minha filha, 
no s honrosamente mas tambm ricamente, isso, sim, me enche de satisfao. A terra no sai da famlia, no passa para estranhos, mas para um novo ramo, para uma 
nova aliana.
  Anglica ia um pouco atrs de seu pai, de maneira que este no podia ver a expresso de seu rosto. Seus dentinhos brancos mordiam os lbios com uma raiva impotente. 
No podia explicar a seu pai quo humilhante era para ela o modo como se havia apresentado aquela proposta de matrimnio, pois ele estava persuadido de que preparara 
muito habilidosamente a felicidade de sua filha. No obstante, procurou ainda lutar.
 - Se bem me lembro, o senhor havia arrendado esta mina por dez anos. Ainda restam, pois, quatro anos de arrendamento. Como  possvel dar como dote uma coisa que 
est arrendada?
 - Molines no somente est de acordo que seja assim, mas continuar a explorao por conta do Sr. de Peyrac. Alm disso, o trabalho comeou j faz trs anos, como 
voc ver. Estamos chegando.
 Em uma hora de trote haviam chegado ao destino. Em outro tempo Anglica acreditava que a negra pedreira e as aldeias protestantes estavam situadas no fim do mundo. 
Mas agora pareciam muito prximas. Um caminho bem tratado confirmava aquela novi impresso. Construra-se uma pequena aldeia para os trabalhadores.
 O pai e a filha apearam e Nicolau aproximou-se para segurar as rdeas dos cavalos.
 O lugar, cujo desolado aspecto Anglica recordava muito bem, inha mudado completamente.
 Uma canalizao trazia gua corrente e punha em movimento vrias ms verticais. Piles de ferro fundido trituravam as pedras
   um rudo surdo, enquanto grandes blocos de rocha eram desprendidos a malho.
 Ardiam os fornos, cujas chamas eram atiadas por enormes foles de couro. Montanhas negras de carvo de lenha jaziam junto aos fornos e o resto do terreno da mina 
estava tomado por montes de pedras.
 Em calhas de madeira por onde a gua corria, alguns trabalhadores jogavam com a p a rocha triturada que saa das ms. Outros, com enxadas, raspavam contra a corrente 
o interior das canalizaes.
 Um vasto edifcio, erguido a pouca distncia, mostrava portas com grades e barras de ferro, fechadas com grossos cadeados. Dois homens armados de mosquetes montavam-lhe 
guarda.
-        O depsito de lingotes de prata e chumbo - disse o baro.
Muito orgulhoso, acrescentou que pediria a Molines, qualquer dia, que o mostrasse por dentro a Anglica.
 Levou-a depois para ver a pedreira contgua. Enormes degraus, de quatro varas de altura cada um, delineavam agora uma espcie de anfiteatro romano. Aqui e acol, 
escuros subterrneos se aprofundavam na rocha, de onde surgiam carrocinhas puxadas por jumentos.
 - Existem aqui dez famlias saxs de mineiros profissionais, fundidores e cavouqueiros. Foram eles e Molines que montaram a explorao.
- E quanto produz por ano o negcio? - perguntou Anglica.
 - Esse, confesso,  um assunto que nunca me ocorreu - disse um tanto confuso Armando de Sanc. - Voc compreende: Molines me paga com pontualidade o arrendamento. 
Fez todas as despesas de instalao. Trouxe da Inglaterra, e tambm sem dvida da Espanha, os tijolos para os fornos, introduzidos por caravanas de contrabandistas 
do Languedoc.
 - Provavelmente por intermdio daquele que o senhor me desuna para esposo, no  verdade? 
 -  possvel. Parece que se ocupa de mil coisas diferentes. Alis, e um sbio, e foi ele quem desenhou o projeto desta mquina a vapor.
O baro conduziu a filha at a entrada de uma das baixas galerias da montanha.
 Mostrou-lhe uma espcie de enorme caldeira de ferro sob a qual se produzia fogo, e da qual saam dois grossos tubos enfaixados que mergulhavam num poo. Dali jorrava 
gua intermitentemente  superfcie do solo.
 -         uma das primeiras mquinas a vapor construdas at agora no mundo. Serve para extrair a gua subterrnea das minas.  uma inveno que o Conde de Peyrac 
aperfeioou em uma de suas viagens  Inglaterra. Veja, pois, como mulher que quer converter-se m "preciosa", que vai ter um marido to sbio quanto eu sou ignorante 
e to engenhoso quanto eu sou obtuso - acrescentou, com uma visagem lastimosa. - Ol! Bom dia, Fritz Hauer.
 Um dos obreiros, que se encontrava junto  mquina, tirou o gorro e inclinou-se profundamente. Tinha o rosto azulado pelo p de rocha que se lhe havia incrustado 
na pele no transcurso de uma longa existncia de trabalhos mineiros. Faltavam-lhe dois dedos em uma das mos. Atarracado e giboso, dir-se-ia que tinha os braos 
demasiadamente compridos. Mechas de cabelos caam-lhe sobre os olhos pequenos e brilhantes.
 -        Acho que se parece um pouco com Vulcano, deus dos infernos - disse o Sr. de Sanc. - Creio no haver homem que conhea melhor as entranhas da terra do 
que este operrio saxo. Talvez pr isso tenha aspecto to curioso. Essas questes de minas nunca me pareceram muito claras e no sei se com elas no se mistura 
um pouco de bruxaria. Dizem que Fritz Hauer conhece um processo secreto para transformar chumbo em ouro. Isto, sim, seria extraordinrio. Trabalha h vrios anos 
com o Conde de Peyrac, que o enviou ao Poitou para instalar Argentire.
"O Conde de Peyrac! Sempre o Conde de Peyrac!", pensou Anglica, enfadada. E disse em voz alta:
 - Talvez por isso seja to rico o tal Conde de Peyrac. Transforma em ouro o chumbo que lhe envia este Fritz Hauer. No v querer transformar-me em r...
 - Verdadeiramente, causa-me desgosto, minha filha. Por que esse tom de mofa? Acha que estou tramando a sua infelicidade? Nada existe neste projeto que possa justificar 
sua desconfiana. Esperava de voc exclamaes de alegria e ouo apenas sarcasmos.
-  verdade, pai; perdoe-me - disse Anglica, confusa e desolada ante a decepo que lia no honrado rosto do fidalgo. - As
 jjgiosas diziam amide que eu no era como as demais, que tinha reaes desconcertantes. No lhe ocultarei que, ao invs de reiubilar-me, este pedido de casamento 
me  extremamente desagradvel. D-me tempo para refletir, para acostumar-me.
 Assim falando, tinham voltado para onde se achavam os cavalos. Anglica montou apressadamente para evitar a ajuda demasiado solcita de Nicolau, mas no pde evitar 
que a mo morena do moo roasse na sua, ao entregar-lhe as rdeas.
 " muito confiado", pensou aborrecida. "Ser preciso p-lo em seu lugar."
 Nos profundos caminhos floresciam os espinheiros. Seu aroma esquisito, recordando-lhe os dias de sua infncia, acalmou um pouco o seu nervosismo.
 -        Pai - disse de sbito -, creio que o senhor gostaria de uma rpida deciso minha acerca do Conde de Peyrac. Acabo de ter uma idia. Permita-me que v ver 
Molines. Quisera ter com ele uma conversa sria.
O baro olhou o sol para calcular as horas.
 -        J  quase meio-dia. Mas acho que Molines ter muito prazer em receb-la  sua mesa. V, minha filha. Nicolau a acompanhar.
 Anglica esteve a ponto de recusar a escolta, mas no quis demonstrar que dava qualquer importncia ao campons, e, depois de dar um alegre adeus a seu pai, lanou-se 
a galope. O moo, montado em um mulo, deixou que ela tomasse a dianteira.
 Meia hora mais tarde, Anglica, ao passar em frente  grade do Castelo do Plessis, inclinou-se procurando descobrir, no fim da avenida de castanheiros, a branca 
apario.
 "Filipe", pensou. E admirou-se de que esse nome lhe houvesse voltado  memria como para aumentar sua .melancolia.
 Mas os Du Plessis continuavam em Paris. Embora velho partidrio do Sr. de Conde, o marqus soubera recobrar as graas da rainha e do Cardeal Mazarino, enquanto 
o Sr. Prncipe, o vencedor de Rocroi, um dos mais gloriosos generais da Frana, ia vergonhosamente servir ao rei da Espanha em Flandres. Anglica perguntou a si 
prpria se a desapario do pequeno cofre com o veneno havia desempenhado algum papel no destino do Sr. de Conde. Em todo caso, nem o Cardeal Mazarino nem o rei 
nem seu jovem irmo tinham sido envenenados. E dizia-se que o Sr. Fou. quet, alma da conspirao contra Sua Majestade, acabava de ser nomeado superintendente das 
Finanas.
 Era divertido pensar que uma pequena camponesa obscura hou-vera por acaso mudado o curso da histria. Qualquer dia teria de certificar-se se o cofrezinho continuava 
em seu esconderijo. E o pajem a quem tinha acusado, que teriam feito dele? Que idia! Isso no tinha nenhuma importncia.
 Anglica ouviu o galope do mulo de Nicolau, que se aproximava. Retomou sua carreira e logo chegou  casa do administrador.
 Depois do almoo, o intendente Molines fez entrar Anglica no escritrio onde alguns anos antes havia recebido o seu pai. Ali tivera origem o negcio dos muares 
e a jovem recordou prontamente a ambgua resposta que o administrador havia dado  sua pergunta de menina prtica:
- "E a mim, que me daro?"
- "Dar-lhe-ei um marido."
 Pensaria j numa aliana com aquele estranho Conde de Tou-louse? No era impossvel, pois Molines era um homem de larga viso, um esprito penetrante que concebia 
mil projetos. Na realidade, o intendente do vizinho castelo no lhe era antiptico. Sua atitude um tanto matreira era inerente  sua qualidade de subalterno. Um 
subalterno que tinha conscincia de ser mais inteligente que seus patres.
 Para a famlia do pobre castelo vizinho sua interveno tinha sido uma verdadeira providncia, mas Anglica sabia que s o interesse pessoal do intendente estava 
na origem de suas liberalida-des e de sua ajuda. Isso lhe agradava, livrando-a do escrpulo de se considerar agradecida e lhe dever uma gratido humilhante. Admirava-se, 
no entanto, da real simpatia que lhe inspirava aquele huguenote plebeu e calculista.
 " porque est empenhado em criar algo novo e talvez slido pensou prontamente.
 Mas, por outro lado, no achava graa em estar envolvida nos planos do administrador, como se fosse uma burrica ou um lingote de chumbo.
 -        Sr. Molines - disse claramente -, meu pai me falou cominsistncia de um matrimnio que o senhor teria planejado para mim com, um certo Conde de Peyrac. 
Dada a influncia muito erande que o senhor adquiriu sobre meu pai nestes ltimos anos, no posso duvidar de que d muita importncia, tambm o senhor, a esse casamento, 
isto , que sou chamada a desempenhar um papel em suas combinaes comerciais. Desejaria saber qual . Um frio sorriso dilatou os lbios finos de seu interlocutor.
 -        Dou graas ao cu por tornar a v-la tal como prometia ser quando em toda a regio a chamavam de pequena fada dos pntanos. Com efeito, prometi ao Conde 
de Peyrac uma mulher bela e inteligente.
 _ Comprometeu-se demas;ado. Eu poderia ter-me tornado feia e idiota, o que o teria deixado mal em seu ofcio de casamenteiro.
 _ Nunca me comprometo baseado em simples presuno. Conhecidos meus de Poitiers me falaram vrias vezes de voc, e eu prprio a vi no ano passado numa procisso.
 -        De modo que me tinha sob vigilncia - exclamou Anglica, furiosa -, como um melo que est amadurecendo sob sua redoma!
 A imagem pareceu-lhe to cmica que ela se ps a rir e passou-lhe a raiva. No fundo queria ter um argumento a que se aferrasse, antes de se deixar apanhar na armadilha 
como um passarinho inocente.
 -        Se eu quisesse falar a linguagem de seu mundo - disse Molines gravemente -, poderia entrincheirar-me por trs de conside
raes tradicionais: ma donzela, to jovem ainda, no precisa saber por que seus pais escolhem para ela este ou aquele marido. Os negcios de chumbo e prata, as 
transaes comerciais, no so dacompetncia das mulheres, e principalmente das damas nobres...
Muito menos os assuntos de criao de gado. Mas creio conhec-la, Anglica, e no lhe falarei assim.
Ela no se ofendeu com o tom familiar.
 - Por que pensa que pode falar-me diferentemente do modo como fala a meu pai?
- E difcil explicar, senhorita. No sou iilsofo e meus estudos consistiram sobretudo em experincias de trabalho. Perdoe-me o ser demasiado franco. Mas dir-lhe-ei 
uma coisa: as pessoas uo seu mundo nunca podero compreender o que me anima:   o trabalho. Os camponeses trabalham mais ainda, parece-me.
- Labutam, o que no  a mesma coisa. So estpidos, ignonorantes e inconscientes de seu prprio interesse, tanto quanto as pessoas da nobreza, que no produzem 
nada. Estas ltimas so seres inteis, exceto para conduzir guerras destruidoras. Seu pai comea a fazer algo, mas, permita que lhe diga, jamais compreender o trabalho.
 - Acredita que no conseguir nada? - disse, assustada, a jovem. - Eu acreditava, entretanto, que seu negcio ia para frente, e a prova est em que o senhor se 
interessa por ele.
 - A prova seria principalmente produzirmos vrios milhares de animais por ano e, mais ainda, que isso nos desse uma renda considervel e crescente. Esse  o verdadeiro 
sinal de que um negcio progride.
- Est bem; e no  a isso que chegaremos algum dia?
 - No, porque uma criao de gado, embora seja importante e tenha reservas de dinheiro para os momentos difceis, de enfermidades ou guerras, continua sendo sempre 
uma criao de gado. , como o cultivo da terra, uma coisa muito demorada e de pouco lucro. Alis, nunca as terras nem os animais enriqueceram verdadeiramente os 
homens. Recorde o exemplo dos imensos rebanhos dos pastores da Bblia, cuja vida era, contudo, to frugal.
 - Se est convencido disso, no compreendo, Sr. Molines, que o senhor, to prudente, tenha-se dedicado a tal negcio, demorado e pouco lucrativo.
-  a, senhorita, que seu pai e eu vamos necessitar de voc.
 - No entanto, no posso ajud-los a fazer as jumentas parirem mais depressa.
- Pode ajudar-nos a dobrar o lucro.
- No vejo absolutamente de que maneira.
 - Compreender facilmente a minha idia. O que importa em um negcio lucrativo  prosperar depressa, mas, como no podemos mudar as leis de Deus, vemo-nos forados 
a explorar a fraqueza dos homens. Assim, pois, os muares representam a fachada do negcio. Cobrem as despesas correntes e nos pem em bons termos com a Intendncia 
Militar,  qual vendemos couros e animais. Permitem, sobretudo, circular livremente, com isenes de direitos aduaneiros e peagens, e lanar pelos caminhos recuas 
pesadamente carregadas. Deste modo expedimos, com uma tropa de muares, chumbo e prata para a Inglaterra. Na volta, os animais nos trazem sacos de escrias negras, 
que batizamos com o nome de "fundentes", produtos necessrios para os trabalhos da mina e que so, na realidade, ouro e prata, que vm da Espanha em guerra, passando 
por Londres.
 - No posso compreend-lo, Molines. Por que enviam prata a Londres para traz-la de volta depois?
- Trago-a de volta em quantidade dobrada ou triplicada. Quanto ouro, o Conde Joffrey de Peyrac possui no Languedoc uma jazida aurfera. Quando tiver a mina de Argentire, 
as operaes de cmbio que eu fizer para ele com esses dois metais preciosos no podero parecer suspeitas de maneira alguma, pois tanto o ouro como a prata procedero 
oficialmente das duas minas de sua oropriedade.  a que reside o nosso verdadeiro negcio. Porque, compreenda-me, o ouro e a prata que se podem explorar na Franca 
representam, repito, muito pouca coisa; em compensao, sem enganar o fisco, nem a alfndega, fazemos entrar grande quantidade de ouro e prata espanhis. Os lingotes 
que ofereo aos cambistas no falam. No podem confessar que, em vez de provirem de Argentire ou do Languedoc, chegam d Espanha via Londres. Assina ao mesmo tempo 
que damos um lucro legal ao Tesouro Real, podemos passar, como se fossem produtos necessrios a minerao, quantidades importantes de metais preciosos sem pagar 
mo-de-obra nem direitos aduaneiros, e sem nos vermos arruinados por instalaes carssimas, pois ningum pode suspeitar quanto produzimos aqui, e tm de acreditar 
nas cifras que declaramos.
 - Mas, se descobrirem esse trfico, no correro o risco de ir para as gals?
 - No fabricamos nenhuma moeda falsa. No temos, alis, a menor inteno de fabric-la. Ao contrrio, provemos regularmente o Tesouro Real de ouro legtimo e bom, 
de prata em lingotes que ele contrasta e sela, e com os quais bater a moeda. Somente valendo-nos dessas mnimas extraes nacionais, poderemos, quando as minas 
do Languedoc e de Argentire estiverem reunidas sob um mesmo nome, conseguir um rpido lucro dos metais preciosos da Espanha. Aquele pas est cheio de ouro e prata 
procedentes das Amricas; com isso perdeu o amor ao trabalho e no vive seno da troca de suas matrias-primas com outras naes. Os bancos de Londres lhe servem 
de intermedirios. A Espanha  simultaneamente o pas mais rico e o mais miservel do mundo. Quanto a Frana, essas relaes comerciais, que uma pssima administrao 
econmica impede de realizar s claras, enriquec-la-o quase contra sua vontade. E a ns, antes, pois as somas que tivermos investido nos sero devolvidas mais 
rapidamente e com mais proveito do que com a venda de uma jumenta que fica prenhe dez meses e no pode render mais de uns dez por cento do capital empregado. 
Anglica no podia deixar de interessar-se por aquelas engenho-sas combinaes.
 - E o chumbo, que pensam fazer com ele? Serve unicamente de disfarce ou pode ser utilizado comercialmente?
 - O chumbo d muito bons lucros.  necessrio para a guerra e a caa. E valorizou-se mais ainda nos ltimos anos, depois que a rainha-me fez vir engenheiros florentinos 
para completar a instalao de banheiros em todas as suas habitaes, como j o havia feito sua sogra, Maria de Mdicis. Voc deve ter visto uma reproduo desses 
aposentos no Plessis, com sua banheira romana e seus canos de chumbo.
- E o marqus seu amo est no corrente de tantos projetos?
 - No - disse Molines, com um sorriso indulgente. - No entenderia nada disto, e o mnimo que faria seria demitir-me do cargo de intendente de seus domnios, que 
ainda exero a contento dele.
- E meu pai, que sabe ele de suas traficncias?
 - Achei que s o fato de saber que por suas terras passariam metais espanhis lhe seria desagradvel. No  melhor faz-lo acreditar que os pequenos lucros que 
lhe permitem viver so frutos de um labor honesto e tradicional?
 Anglica ofendeu-se com o tom irnico e um tanto desdenhoso de Molines. Retrucou secamente:
 - E por que tenho eu direito a que me conte seus planos que a dez lguas cheiram a gals?
 - No se trata de gals, e, ainda que chegasse a haver dificuldades com os funcionrios da Fazenda, alguns escudos as aplanariam. Veja Mazarino e Fouquet: personagens 
que tm mais crdito que os prncipes de sangue e que o prprio rei. Isso porque possuem uma fortuna imensa. Quanto a voc, sei que se debater entre os varais enquanto 
no compreender por que a atrelaram. O problema, na realidade,  simples. O Conde de Peyrac precisa de Argen-tire. E seu pai no a ceder seno como dote de uma 
das suas filhas. Voc bem sabe como ele  teimoso. No vender jamais nenhuma parcela de seu patrimnio. E como De Peyrac deseja casar-se com uma jovem da alta nobreza, 
achou vantajosa a combinao.
- E se eu me negasse a compartilhar essa opinio?
- Voc no deseja que seu pai venha a sofrer a priso por dvidas - disse lentamente o administrador. - Bastaria muito pouco para que vocs voltassem a cair todos 
numa penria maior que a que conheceram no passado. E, para voc mesma, que seria o futuro? Envelhecer, como suas tias, na pobreza... Para seus irmos e irmzinhas, 
seria a carncia de educao e, mais tarde, a partida para o estrangeiro...
 Vendo que os olhos de Anglica lanavam chispas, acrescentou em tom submisso:
 -        Mas por que me obriga a esboar to negro quadro? Supus
aue voc fosse de uma tempera diferente da desses nobres que consideram seus brases a maior riqueza e vivem das esmolas do rei... No se consegue sair das dificuldades 
sem enfrent-las corajosamente e sem se arriscar um pouco. Em resumo:  preciso agir. Por isso no lhe ocultei nada, para que pudesse saber como deve
cooperar.
 Nenhuma palavra podia atingir Anglica mais diretamente. Ningum lhe havia falado em linguagem to afim com o seu carter. Ergueu-se como se houvesse recebido uma 
chicotada. Revia Mon-teloup em runas, seus irmos e irms rolando no estreo, sua me com os dedos vermelhos de frio, e seu pai sentado  pequena secretria, escrevendo 
ao rei uma splica que no ia ter resposta...
O intendente os livrara da misria. Agora era preciso pagar.
 -        Est bem, Sr. Molines - disse friamente. - Desposarei o Conde de Peyrac.
Op. Ricardo - Hl - Disco Fonte:  1

CAPTULO XII

Casamento por procurao

Anglica regressava pelos fragrantes caminhos, mas no reparava em coisa alguma, profundamente imersa em seus pensamentos.
 Nicolau a seguia montado no mulo. A jovem no prestava mais ateno ao rapaz. Procurava no precisar o vago tremor que continuava a agitar-se dentro dela. Sua resoluo 
estava tomada; houvesse o que houvesse, no voltaria atrs. O melhor, portanto, era olhar para a frente e rechaar decididamente tudo o que pudesse faz-la vacilar 
na execuo daquele programa to bem traado.
De repente, uma voz varonil a chamou:
-        Senhorita! Srta. Anglica!
 Maquinalmente puxou as rdeas, e o cavalo, que vinha a passo, deteve-se logo. Ao voltar a cabea, viu que Nicolau havia desmontado e lhe fazia sinais para que se 
aproximasse.
- Que aconteceu? - perguntou Anglica. O jovem, com ar de mistrio, murmurou:
- Desa. Quero mostrar-lhe uma coisa.
 A moa obedeceu, e o criado, depois de prender as rdeas dos animais ao tronco de uma btula, encaminhou-se para um bos-quete. Ela acompanhou-o. A luz primaveril, 
atravs das folhas novas, era da cor da anglica. Um tentilho cantava sem descanso entre os arbustos.
 Com a cabea curvada, Nicolau caminhava, olhando em torno com ateno. Ajoelhou-se, por fim, e, ao levantar-se, ofereceu a Anglica, em suas palmas abertas, alguns 
frutos vermelhos e perfumados.
   - Os primeiros morangos - murmurou, enquanto a malcia de seu sorriso fazia brilhar seus olhos castanhos.
  Oh Nicolau, isso no fica bem! - protestou Anglica. Mas sua emoo fez aflorar-lhe  ponta dos clios sbitas lgripois, com aquele gesto, o rapaz lhe devolvia 
todo o encanto de sua  infncia, o encanto de Monteloup, das correrias pelos bosques dos sonhos embriagados pelo aroma dos espinheiros, do frescor dos canais em 
que Valentim a acompanhava, e dos arroios onde scavam caranguejos; Monteloup, que no se parecia com nenhum lugar da terra, porque nele se misturavam o suave mistrio 
dos pntanos e o aterrador mistrio das florestas.
 -        Recorda - murmurou Nicolau - como a chamvamos? Marquesa dos Anjos...
 _ Voc  um tolo - disse ela com voz dbil. - No deveria, Nicolau...
 Mas, j com um gesto familiar, ia apanhando das mos que se lhe estendiam as frutas midas e deliciosas. Nicolau se encontrava muito perto dela, como antigamente, 
mas agora o jovem magro e gil, com cara de esquilo, elevava-se muito acima de sua cabea, e pela abertura da camisa desabotoada ela aspirava o cheiro rstico daquela 
carne de homem, tostada e coberta de plos negros. Via respirar compassado o peito forte e isso a perturbava a ponto de no se atrever a levantar a cabea, to certa 
estava de que encontraria um olhar atrevido e ardente.
 Continuou saboreando os morangos e absorvendo-se naquele prazer, ao qual, na verdade, concedia valor infinito.
 "Monteloup pela ltima vez!", pensava. "A ltima vez que o saboreio! Tudo o que de melhor existe para mim est contido nessas mos, nas mos morenas de Nicolau."
 Quando terminou, cerrou bruscamente os olhos e apoiou a cabea no tronco de um carvalho.
- Escute, Nicolau...
- Estou escutando - respondeu ele em pato.
 Ela sentiu nas faces sua respirao quente, que cheirava a sidra. Estava to prximo, quase encostado nela, que a envolvia toda na lrradia de sua macia presena. 
Entretanto, no lhe tocava. De sbito, ao olh-lo, viu que ele tinha posto as mos nas costas para resistir  tentao de agarr-la e estreit-la. Recebeu o choque 
do olhar temvel, destitudo de qualquer sorriso, ensombrado por uma suplica que no dava lugar a nenhum equvoco. Nunca havia Anglica sentido assim a atrao do 
macho, nunca ouvira confisso mais clara sobre os desejos que sua beleza inspirava. O capricho do pajem de Poitiers no tinha sido mais que uma brincadeira uma inconseqente 
experincia de ferazinhas que ensaiam suas garras.
 Agora tratava-se de outra coisa, forte, imperiosa, velha como o mundo, como a terra, como a tempestade.
 A jovem teve medo. Se fosse menos inocente, no teria podido resistir a semelhante atrao. Sua carne se arreitava, as pernas lhe tremiam, mas recuou como a cerva 
assustada diante do caador. O desconhecimento do que a aguardava e a contida violncia do campons a atemorizaram.
 - No me olhe assim, Nicolau! - disse ela, procurando firmar a voz. - Quero dizer-lhe...
 - J sei o que me quer dizer - interrompeu ele com voz surda. - Leio-o em seus olhos e na sua maneira de erguer a cabea. Voc  a Srta. de Sanc e eu sou um criado... 
e agora j se acabou para ns olharmo-nos face a face. Quanto a mim, devo estar sempre de cabea baixa! "Est bem, senhorita... sim, senhorita..." E quanto a voc 
seus olhos passaro por cima de mim sem ver-me... No mais que um tronco, menos que um co. H marquesas que em seus castelos se fazem lavar por seus lacaios, porque 
no tem importncia nenhuma ficar nua diante deles... Um lacaio no  um homem,  um mvel, um simples utenslio... No  assim que me tratar agora?
- Cale-se, Nicolau!
- Est bem, eu me calarei.
 Respirava violentamente, mas com a boca cerrada, feito um animal doente.
 -        Vou dizer-lhe uma ltima coisa antes de me calar - prosseguiu ele -:  que s voc existia em minha vida. No o compreendi seno quando voc partiu, e 
durante vrios dias fiquei como louco.  verdade que sou preguioso e namorador e tenho averso  terra e aos animais. Sou como uma coisa que no est em seu lugar 
e que andar sempre de um lado para outro sem saber. Meu nico objeto era voc. Desde que voltou no pude esperar para saber se continuava minha ou se a havia perdido. 
Sim, sou atrevido e nada me acanha. Se houvesse querido, t-la-ia possudo ai sobre o musgo, nesse bosquete que  nosso, sobre esta terra de Monteloup que  nossa, 
somente de ns dois, como outrora! - exclamou.
Os pssaros, assustados, tinham-se calado na ramagem.
 -  Voc divaga, meu pobre Nicolau - disse brandamente Anglica.
 -  Isso no! - protestou ele, empalidecendo.
 la sacudiu seus longos cabelos, que ainda usava soltos sobre as espduas, e uma ponta de clera a animou.
 __ Que linguagem deseja que eu empregue? - disse ela. - Quer queira quer no, j no sou hvre para escutar os galanteios de um pastor. Devo casar-me brevemente 
com o Conde de Peyrac.
-        O Conde de Peyrac! - repetiu Nicolau com assombro.
Recuou alguns passos e contemplou-a em silncio.
 - Ento  verdade o que diziam na regio? - bufou ele. - O Conde de Peyrac. Voc!... Voc!... Voc vai casar com esse homem?
- Vou.
 Ele no quis perguntar mais nada; ela tinha dito "vou", e isso era bastante. Ela diria "vou", obstinadamente, at o fim.
 Ela tomou a vereda que levava de volta  estrada, e seu chicote ia abatendo um tanto nervosamente as plantas novas  beira do caminho.
 O cavalo e o mulo pastavam junto da orla do bosque. Nicolau desatou-os. Com os olhos baixos, ajudou Anglica a sentar-se na cela. Subitamente ela reteve a rude 
mo do criado.
-        Nicolau... diga-me, voc o conhece?
 Ele levantou os olhos para a jovem e ela viu brilhar neles uma ironia perversa.
 - Conheo... j o vi... Esteve na regio vrias vezes.  um homem to feio que as moas fogem quando ele passa montado em seu cavalo negro.  coxo como o Demnio, 
malvado como ele... Dizem que no seu castelo de Toulouse atrai as mulheres por meio de filtros e cantos estranhos... Aquelas que o seguem no voltam mais ou tornam-se 
loucas. Ah! ah! Um belo esposo, Srta. de Sanc!
 - Voc diz que ele  coxo? - repetiu Anglica, sentindo as mos geladas.
 - Sim coxo! Coxo! Pergunte a qualquer um e todos lhe respondero:  o Grande Coxo do Languedoc.
Ps-se a rir e dirigiu-se para seu mulo capengando exagera-darnente. Anglica chicoteou sua cavalgadura, fazendo-a disparar. Atravs da brenha de espinheiros ela 
fugia  voz zombeteira que repetia: "Coxo! Coxo!"
 Chegava ao ptio de Monteloup quando um cavaleiro, atrs dela, transpunha a velha ponte levada. Por seu rosto suado e poeirento e por seu culote reforado de 
couro via-se logo que era uni mensageiro.
 A princpio, ningum entendeu nada do que ele perguntava, porque sua pronncia era to estranha que precisaram de muito tempo para perceber que ele falava francs.
 Ao Sr. de Sanc, que se apresentara logo, entregou uma carta que trazia em sua pequena caixa de ferro.
 - Meu Deus,  o Sr. d'Andijos, que chega amanh! - exclamou o baro, muito agitado.
- Quem  este agora? - interrogou Anglica.
- E um amigo do conde. O Sr. d Andijos deve casar com voc...
- Como?! Tambm este?
 -        ...por procurao, Anglica. Deixe-me terminar minhas frases, filha. As vezes pergunto a mim mesmo que foi que lhe ensinaram as religiosas, se nem ao menos 
lhe inculcaram o respeito que me deves. O Conde de Peyrac envia seu melhor amigo para represent-lo na primeira cerimnia nupcial, que se realizar aqui, na capela 
de Monteloup. A segunda bno ser em Toulouse. A essa, que pena! sua famlia no poder assistir. O Marqus d'Andijos ir escolt-la em sua viagem para o Languedoc. 
Essa gente do sul  expedita. Eu sabia que ele estava a caminho, mas no o esperava to cedo.
 -        Vejo que era hora de aceitar - murmurou Anglica com amargura.
 No dia seguinte, pouco antes do meio-dia, o ptio encheu-se de um rudo de carruagens, relinchos de cavalos, exclamaes enfti-, cas e conversas frvolas.
 O Midi da Frana desembarcava em Monteloup. O Marques d'Andijos, muito moreno, com o bigode em ponta de punhal e olhar penetrante, vestia uma rhingrave de seda 
amarela e alaranja-da, que dissimulava com graa sua gordura de vivente alegre. Apresentou seus companheiros que seriam testemunhas do casamento, o Conde de Carbon-Dorgerac 
e o pequeno Baro Cerbalaud.
Foram levados para a sala de refeies, onde, sobre mesas de cavaletes, a famlia de Sanc havia disposto suas melhores riquezas: mel de abelhas, frutas, coalhada, 
gansos assados, vinhos da colina de Chaill.
 Os recm-chegados morriam de sede. Mas, depois de haver bebido o Marqus d'Andijos voltou-se e cuspiu sobre o lajedo.
__ por So Paulino, baro, seus vinhos do Poitou me destroem
 lngua! O que me acaba de servir  um carrasco dos mais desagradveis. Ol, gasces, tragam os barris!
 Sua simplicidade sem rodeios, seu acento cantante, o cheiro de alho que desprendia, longe de desgostar o Baro de Sanc, encantaram-no.
 Quanto a Anglica, no tinha foras nem para sorrir. Desde a vspera estivera to atarefada, com a tia Pulquria e a ama, para dar ao velho castelo um aspecto apresentvel, 
que se sentia der-reada e ancilosada. Era melhor assim; pois j no podia pensar. Havia trajado o vestido mais elegante, feito em Poitiers, ainda desta vez cinzento, 
mas com lacinhos azuis no orpete: a patinha cinzenta entre os senhores cobertos de fitas flamejantes. No sabia que seu clido rosto, firme e delicado como um fruto 
recm-amadurecido, surgindo de uma grande gola de renda engomada, era, por si mesmo, seu mais deslumbrante adorno. Os olhares dos trs senhores voltavam-se sem cessar 
para ela, com uma admirao que seu temperamento no lhes permitia dissimular. Comearam a fazer-lhe numerosos cumprimentos. Anglica no os entendia bem, porquanto 
falavam em linguagem muito rpida, com aquele acento inverossmil que fazia a palavra mais inexpressiva ressaltar num feixe de luz.
 "Terei de ouvir falar assim por toda a minha vida?", perguntava a si mesma com tdio.
 Nesse meio tempo, os lacaios rolavam na sala grandes barris, que puseram sobre cavaletes e perfuraram em seguida. Feito o orifcio, introduziram nele uma torneira 
de pau: o primeiro jorro deixou no solo grandes poas de transparncia rosa ou vermelho-escura com reflexos dourados.
 - Saint-Emilion - dizia o Conde de Carbon-Dorgerac, que era bordels -, Sauternes, Mdoc...
 Acostumados  aguap de mas ou ao suco de abrunhos, os habitantes do Castelo de Monteloup provavam com circunspeco
os diferentes vinhos anunciados. Bem depressa Dionsio e os trs garotos mais novos tornaram-se demasiadamente alegres. Os vapores do vinho subiam-lhes  cabea. 
Anglica sentiu-se invadida de bem-estar. Via seu pai, risonho, desabotoar o casaco fora de moda sem se importar que lhe vissem a camisa surrada. J os Senhores 
do sul desabotoavam tambm suas curtas vstias sem mangas. Um deles tirou a peruca para enxugar a fronte e tornou a p-la meio torta.
 Maria Ins, agarrada ao brao de sua irm mais velha, gritava lhe ao ouvido, com voz aguda:
 -        Venha, Anglica, venha! Venha ver em cima, no seu quarto que maravilhas!
 Ela deixou-se levar. No vasto aposento que tanto tempo havial partilhado com Hortnsia e Madelon, haviam posto grandes malas de ferro e couro que ento se chamavam 
garde-robe. Criados e criadas haviam-nas aberto e estavam estendendo o contedo sobre o solo e algumas poltronas velhas. Sobre o enorme leito, Anglica viu um vestido 
de tafet verde do mesmo tom de seus olhos. Uma renda de extraordinria finura adornava o espartilho, e o plastro do corpete era inteiramente recamado de diamantes 
e esmeraldas, reunidos em forma de flores. O mesmo desenho floral se reproduzia no veludo lavorado do manto, que era de cor negra. Broches de diamantes mantinham-no 
erguido de cada lado da saia.
 - Seu vestido de npcias - disse o Marqus d'Andijos, que havia acompanhado as jovens. - O Conde de Peyrac procurou por muito tempo, entre os tecidos que mandou 
trazer de Lyon, uma. cor que combinasse com os seus olhos.
- Ele nunca os viu - retrucou Anglica.
 - O Sieur Molines descreveu-os cuidadosamente: so da cor do mar, disse-lhe, tal como se v da praia quando o sol mergulha em suas profundezas.
 - Maldito Molines! - exclamou o baro. - No me far acreditar que ele seja poeta a esse ponto. Suspeito, marqus, que enfeite a verdade para ver alegres os olhos 
de uma jovem noiva, hsonjeada por tal ateno da parte de seu futuro marido.
 - E isto! E isto! Olhe, Anglica! - exclamava Maria Ins, cuja carinha de camundongo esperto brilhava de excitao.
 Com seus dois irmos mais novos, Alberto e Joo Maria, levantava as finas roupas e abria caixas onde se viam fitas e adornos de renda, ou ainda leques de pergaminho 
e de plumas. Havia um encantador estojo de viagem, de veludo verde forrado de damasco branco e com guarnies de prata dourada, provido de duas escoum estojo de 
ouro com trs pentes, dois espelhinhos italia-oS' uma alfineteira, duas coifas e uma camisola de finssima Jbraia, um castial de marfim e um saco de cetim verde 
com 5eis velas de cera virgem.
 Tambm havia vestidos mais simples, porm muito elegantes, luvas, cintos, um reloginho de ouro e inmeras outras coisas de cllja utilidade Anglica nem sequer suspeitava, 
como uma caixa de ncar na qual se encontrava uma coleo de "moscas" de veludo preto sobre tafet engomado.
 __  de bom-tom - explicou o Conde de Carbon - colocar este sinal de beleza em qualquer lugar do rosto.
 -        No tenho a ctis suficientemente branca e no  preciso acentuar isso - disse Anglica, fechando a caixa.
 Cumulada de presentes, hesitava entre uma alegria infantil e um arrebatamento de mulher que, tendo o gosto instintivo do adorno e da beleza, toma conscincia disso 
pela primeira vez.
 -        E isto? - perguntou o Marqus d'Andijos. - Sua ctis se nega tambm a partilhar seu brilho?
 Abriu um escrnio chato. No aposento, onde se amontoavam criadas, lacaios e trabalhadores do campo, ressoou um grito, seguido de murmrios de admirao.
 Sobre o cetim branco havia um trplice colar de prolas de brilho purssimo, um pouco dourado. Nada podia convir melhor a uma jovem noiva. Completavam o jogo dois 
brincos e duas cadeias de prolas menores, que Anglica pensou fossem braceletes.
 - So adornos de cabelo - explicou o Marqus d'Andijos, que, apesar de seu ventre e de seus modos guerreiros, parecia muito entendido em assuntos de elegncia. 
- Com isso levantar a sua cabeleira. Para dizer a verdade, no saberia explicar-lhe como.
 - Vou pente-la, senhora - interveio uma criada alta e forte, aproximando-se.
 Embora mais moa, parecia-se d maneira estranha com a ama Fantina Lozier. O mesmo sangue sarraceno, trazido pelas antigas invases, havia-lhe tostado a pele. Uma 
e outra j trocavam relances hostis com seus olhos igualmente escuros.
 -         Margarida, irm de leite do Conde de Peyrac. Esteve a servio das grandes damas de Toulouse e muitas vezes acompanhou seus amos a Paris. Ser de agora 
em diante vossa aia.
 Com habilidade, a criada levantou a longa cabeleira dourada e segurou-a com laadas de prolas. Sem interrupo, retirou das orelhas de Anglica as modestas pedrinhas 
que seu pai lhe havia ofertado para a primeira comunho e nelas prendeu os magnficos brincos. Por ltimo, ps-lhe o colar.
 -        Ah! Seria bom descobrir um pouco mais o peito - exclamou o pequeno Baro Cerbalaud, cujos olhos, negros como as amoras do bosque depois da chuva, procuravam 
adivinhar as graciosas formas da jovem.
 O Marqus d'Andijos deu-lhe sem cerimnia uma bengalada na cabea.
Um pajem precipitou-se trazendo um espelho.
 Anglica se mirava em seu novo esplendor. Tudo nela parecia fulgir, at sua pele lisa, levemente tingida de rosa nas faces. Um prazer sbito f-la abrir os lbios 
num sorriso feiticeiro.
"Sou formosa", pensou.
 Mas tudo se nublou ante seus olhos, e, oriunda do espelho, pareceu-lhe ouvir a terrvel zombaria:
  "Coxo! Coxo! E mais feio que o Diabo! Ah! ah! ah! Que belo esposo vai ter, Srta. de Sanc!"
 O matrimnio por procurao realizou-se oito dias depois, e as festas duraram trs dias. Danou-se em todas as aldeias da vizinhana, e na noite das bodas dispararam-se 
petardos e foguetes em Mon-teloup.
 No ptio do castelo e nos prados vizinhos havia grandes mesas providas de jarras de vinho e sidra e de todas as espcies de vian-das e frutas que os camponeses 
vinham comer, uns aps outros, assombrados ante aqueles gasces e tolosanos ruidosos, cujos pandeiros, alades, violinos e vozes de rouxinol mofavam do rabequista 
da aldeia e do tocador de flauta campestre.
 Na ltima tarde anterior  partida da noiva para as distantes terras do Languedoc, houve um grande festim no ptio do castelo, que reuniu todos os casteles e pessoas 
importantes dos arredores. O Sieur Molines esteve presente, com sua mulher e filha.
 Na grande cmara onde tantas vezes,  noite, Anglica tinha ouvido ranger os enormes cata-ventos do velho castelo, a ama a ajudava a vestir-se. Depois de haver 
escovado com carinho seus formosos cabelos, apresentou-lhe o corpete turquesado e acolchetou o plastro ornado de jias.
-        Como est linda! Ah! Como est linda, meu tesouro! - susrrava com ar desconsolado. - Seus seios so to firmes que voc no teria necessidade de usar esses 
duros corpetes. 
__ No estou demasiado decotada, minha b?
 -        Uma grande dama tem de mostrar o busto. Como est formosa! E para quem, santo Deus! - suspirou com voz sufocada.
 Anglica viu que o rosto de sua Fantina estava inundado de lgrimas.
-  No chore, bab, que assim me tira o nimo.
 -  E vai fazer-lhe falta, ai, minha filha!... Baixe a cabea para que possa fechar seu colar. As prolas do cabelo deixaremos para Margarida pr; no entendo nada 
destes enredamentos!... Ai, meu tesouro, que desgosto o meu! Quando penso que essa mulherona, que fede a alho e a demnio a meia lgua de distncia,  quem vai lav-la 
e rapar-lhe os plos no dia de suas npcias! Ai, que desgosto!
 Ajoelhou-se para ajeitar no cho a cauda do manto. Anglica ouviu-a soluar. No podia imaginar to grande desespero, e sentiu crescer a ansiedade que lhe apunhalava 
o corao.
Ainda de joelhos, Fantina Lozier murmurou:
 - Perdoe-me, filha, por no haver sabido defend-la, eu que a alimentei com o meu leite. Mas, desde que, h muitos dias, comecei a ouvir falar desse homem, no 
pude pregar olho nem uma s noite.
- Que dizem dele?
 A ama se levantou; recuperava j seu olhar sombrio e fixo de profetisa.
- Falam de ouro, ouro... Tem o castelo cheio de ouro...
 - Ter ouro no  pecado, minha b. Olhe quantos presentes me fez. Estou encantada com eles.
 - No se engane, filha. Esse ouro  maldito. Ele o fabrica em suas retortas, com seus filtros. Um dos pajens, aquele que toca to  bem o tamborim, Enrico, contou-me 
que em seu palcio de Toulouse, um palcio rubro como o sangue, existe uma ala inteira em que ningum pode entrar. Quem guarda a porta  um homem completamente negro, 
to negro como o fundo de minhas panelas. Um dia em que o guarda estava ausente, Enrico viu pela porta entrea-berta uma grande sala cheia de bales de vidro, retortas 
e tubos. E tudo silvava, e tudo fervia! De sbito produziu-se uma chama e um forte estrondo. Enrico fugiu.
 - Esse rapaz tem muita imaginao, como todas as pessoas do sul.
 - Ai! Ele falou com um tom de sinceridade que no engana. Esse Conde de Peyrac  um homem que conseguiu poder e riqueza aliado ao Capeta! Um Gil de Retz,  o que 
ele ! Um Gil de Retz que nem ao menos  do Poitou!
 - No diga tolices! - replicou Anglica, com dureza. - Ningum jamais contou que ele come crianas.
 - Atrai as mulheres - cochichou a ama - com estranhos encantamentos. Em seu palcio h verdadeiras orgias. Parece que o Arcebispo de Toulouse o denunciou do plpito, 
dizendo que  um escndalo, uma coisa do Demnio. E o danado do pajem que me contou tudo ontem na cozinha, rindo-se como um louco, disse que depois do sermo o Conde 
de Peyrac deu ordem aos seus homens de esbordoar os pajens e criados do arcebispo, e que houve luta at na catedral. Voc acredita que tais abominaes poderiam 
ocorrer entre ns? E todo esse ouro que possui, aonde o foi buscar? Seus pais no lhe deixaram seno dvidas e terras hipotecadas. E um nobre que no freqenta o 
rei nem os grandes. Dizem que quando o Prncipe d'Orlans, que  governador do Languedoc, foi a Toulouse, o conde se negou a dobrar o joelho diante dele, sob o pretexto 
de que se fatigava. E como monsieur o fez saber, sem zangar-se, que podia conseguir-lhe grandes benefcios em alto posto, o Conde de Peyrac respondeu-lhe que...
 A velha Fantina interrompeu-se e comeou muito solcita a prender alfinetes aqui e ali, na saia de Anglica, onde nenhum fazia falta.
- Respondeu-lhe o qu?
 - Que... que o ter o brao longo no lhe fazia a perna menos curta. Que insolncia!
 Anglica mirava-se no espelhinho redondo do seu estojo de viagem e alisava cuidadosamente as sobrancelhas depiladas por Margarida.
 - Ento  verdade o que me contaram,  verdade que ele  coxo? - disse, esforando-se por dar  sua voz uma inflexo indiferente.
-  verdade, meu tesouro. Ai, Jesus! Voc, to formosa!
 - Cale-se, bab. Aborrece-me com tantos suspiros. V chamar Margarida para me pentear e no torne a falar do Conde de Peyrac como acaba de faz-lo. No esquea 
que, de agora em diante, ele  meu marido.
No ptio, ao chegar a noite, haviam acendido fachos. Os msicos, agrupados na escada e formando uma pequena orquestra de duas sanfonas, um alade, uma flauta e um 
obo, acompanhavam ern surdina as ruidosas conversaes. Anglica ordenou de repente que fossem buscar o rabequista da aldeia que tocava para os camponeses danarem 
no grande prado junto ao castelo. Seus ouvidos no estavam acostumados quela outra msica sem vida, feita para a corte e as reunies dos senhores cobertos de rendas. 
Uma vez mais queria escutar as doces gaitas do Poitou e o som alegre da charamela marcando o embate surdo dos tamancos camponeses. O cu estava estrelado, mas coberto 
por ligeira nvoa, que punha um halo dourado em redor da lua. As viandas e os bons vinhos desfilavam sem cessar. Algum colocou uma cesta com pezinhos redondos 
ainda quentes diante de Anglica, e ali a deixou at que a jovem levantasse os olhos para quem a ofertava. Viu um homem alto, vestido de rico pano cinzento-claro, 
da cor que usam os moleiros. Tinha os cabelos abundantemente empoados,  moda dos nobres, e seus ornatos eram de fazenda fina.
 - Aqui est Valentim, o filho do moleiro, que traz sua homenagem  noiva - exclamou o Baro Armando.
 - Valentim - disse Anglica sorrindo -, ainda no o havia visto desde meu regresso  terra. Voc continua indo aos canais com seu barco em busca de anglicas para 
os monges de Nieul?
 O rapaz inclinou-se profundamente, sem responder. Esperou que Anglica se servisse e, depois, erguendo a cesta, passou-a em redor. Finalmente, perdeu-se na multido, 
no meio da noite.
 "Se toda esta gente se calasse, ouviria nesta hora coaxar as rs do pntano", pensou Anglica. "Se eu voltar daqui a alguns anos, talvez j no as oua, porque 
as guas tero recuado diante de novas obras."
 -        Prove isto;  absolutamente necessrio - disse-lhe ao ouvido a voz do Marqus d'Andijos.
 Apresentava-lhe um prato de aspecto no muito tentador, mas de cheiro apetitoso.
 -  um guisado de trufas verdes, minha senhora. Vieram frescas do Prigord. Saiba que a trufa  divina e mgica. No h manjar que melhor prepare o corpo de uma 
jovem esposa para receber as homenagens de seu marido. A trufa d calor s entranhas, ativa o sangue e torna a pele mais sensvel s carcias.
- Pois no vejo necessidade de com-la esta noite - disse friamente Anglica, recusando a terrina de prata. - No encontrarei meu marido seno daqui a semanas.
 - Mas tem de preparar-se, minha senhora. Acredite-me, a trufa  a melhor amiga do himeneu. Com este delicioso regime, ser toda ternura na noite de vossas npcias.
 - Em minha terra - disse Anglica olhando-o de frente com um leve sorriso -, antes do Natal cevam-se os gansos com fun-cho para que sua carne fique mais saborosa 
na noite em que sero comidos assados...
O marqus, meio brio, soltou uma gargalhada.
 - Ah, como eu gostaria de ser o que h de trincar essa gansinha! - disse, inclinando-se tanto para ela que seu bigode lhe roou a face. - Deus que me condene - 
acrescentou, erguendo-se e pondo uma das mos sobre o corao - se for levado a proferir outras inconvenincias! Ai de mim! A culpa no  toda minha, pois vim enganado. 
Quando meu amigo Joffrey de Peyrac me pediu que desempenhasse junto a voc o papel de um marido sem seus encantadores direitos, fi-lo jurar que voc era corcunda 
e zarolha, mas vejo que uma vez mais no se deu ao trabalho de poupar-me a tormentos. Verdadeiramente no quer provar as trufas?
- No, obrigada.
 - Ento eu as comerei - disse com um trejeito que noutra ocasio teria divertido a jovem -, embora seja um falso marido e, alm do mais, solteiro. Espero que a 
sorte me seja favorvel e ponha em meu caminho, nesta noite festiva, algumas damas menos cruis que voc.
 Anglica esforou-se por sorrir ante aquelas loucuras. Archotes e candelabros desprendiam um calor insuportvel. No havia nem a mais leve aragem. Cantavam e bebiam. 
O forte cheiro dos vinhos e dos molhos dificultavam a respirao.
 Anglica passou um dedo sobre as tmporas e viu que estavam midas.
 "Que  que eu tenho?", pensou. "Parece-me que vou explodir, que vou gritar a todos palavras de dio. Por qu?... Meu pai  feliz. Casa-me quase principescamente. 
Minhas tias esto jubilosas. O Conde de Peyrac enviou-lhes grandes colares de rochas dos Pireneus e toda sorte de bugigangas. Meus irmos e irms podero receber 
boa educao. E eu, por que me queixo? Sempre nos preveniram no convento contra os sonhos romanescos. Um esposo fico e de boa casa no  o fim primacial para uma 
jovem de qualidade?"
 Um tremor semelhante ao dos cavalos aguados a invadiu. No entanto, no estava cansada. Era uma reao nervosa, uma revolta fsica de todo o seu ser, que no momento 
mais inesperado cedia.
 "Ser medo? Sempre essas malditas histrias de minha b, que acredita ver o Demnio por toda parte. Por que hei de crer nela? Certamente exagerou. Nem Molines nem 
meu pai me ocultaram que o Conde de Peyrac  um sbio. Mas da a imaginar semelhantes orgias demonacas h enorme distncia. Se a bab acreditasse verdadeiramente 
que vou cair nas mos de semelhante ser, no me deixaria partir. No, disso no tenho medo. No creio nisso."
 A seu lado, o Marqus d'Andijos, guardanapo ao queixo, levantava com uma das mos uma sucosa trufa e com a outra o copo de bordeaux. Declamava com voz ligeiramente 
rouca, que de vez em quando se perdia num soluo satisfeito:
 -  trufa divina, benfeitora dos enamorados! Introduz em minhas veias o alegre fogo do amor! Acariciarei minha amada at o amanhecer!...
 "A isso, a isso  que me nego", pensou subitamente Anglica. "Isso  que nunca poderei suportar."
 Teve a viso do senhor espantoso e deforme a quem ia dentro em pouco ser entregue. No silncio das noites daquele distante Languedoc, o homem desconhecido teria 
sobre ela todos os direitos. Poderia chamar, bradar, suplicar. Ningum lhe acudiria. Ele a tinha comprado; haviam-na vendido. E assim seria o fim de sua vida!
 "Eis o que todos esto pensando e ningum diz, o que talvez se cochiche nas cozinhas, entre lacaios e criadas.  por isso que vejo uma espcie de compaixo estampada 
nos olhos desses msicos do sul, nos do lindo Enrico de cabelos crespos, que to bem toca o tamborim. Mas a hipocrisia  maior que a piedade. Uma so pessoa sacrificada 
e tantas contentes! O ouro e o vinho correm a rodo. Que lhes importa o que vai suceder entre seu senhor e mim. Ah, eu juro, nunca me por as mos em cima!..."
 Levantou-se, invadida por uma clera terrvel, e o esforo que azia Para dominar-se a punha quase enferma. No alarido da festa ningum reparou em sua sada.
Ao dar com o mordomo que seu pai havia contratado em Niort, de nome Clemente Tonnel, perguntou-lhe onde estava o criadQl Nicolau.
-        Est no celeiro, enchendo as garrafas, minha senhora.
Anglica seguiu avante, movendo-se como um autmato. No sabia por que procurava Nicolau, mas queria v-lo. Aps a cena do bosque, Nicolau no havia voltado a erguer 
os olhos para a moa, limitando-se a fazer seu servio de lacaio com um misto de esmero e averso. Achou-o na adega ocupado em encher de vinho os cntaros e garrafes 
que os pequenos criados e os pajens  lhe traziam sem cessar. Vestia uma libre amarela ornada de gales que o Sr. de Sanc havia alugado para a ocasio. Longe de 
parecer ridculo com aquela roupa, o jovem campons no era falto de elegncia. Ergueu-se ao ver Anglica e fez a profunda reverncia que o mordomo Clemente havia 
ensinado durante horas inteiras a todos os criados da casa.
- Estava procurando voc, Nicolau.
- Senhora condessa...
 Anglica lanou um olhar aos criadinhos que esperavam com suas vasilhas na mo.
 -        Ponha um moo em seu lugar por alguns instantes e acompanhe-me.
 J fora, passou a mo sobre a testa. Na verdade, no sabia exatamente o que ia fazer, mas a exaltao a invadia com o cheiro em-briagante das poas de vinho espalhadas 
pelo cho. Empurrou a porta de um celeiro vizinho: ali tambm flutuava o capitoso aroma do vinho, pois l estiveram criados enchendo garrafas durante uma parte da 
noite. Agora os barris estavam vazios e o celeiro, deserto. Fazia calor.
 Anglica ps as mos no forte peito de Nicolau. Subitamente agarrou-se a ele, sacudida por soluos.
 - Nicolau - gemia -, meu companheiro, diga-me que no e verdade. Que no vo levar-me, que no vo entregar-me a ele. Tenho medo, Nicolau. Aperte-me, aperte-me 
com fora!
- Senhora condessa...
- Cale-se! - gritou. - Ah! No seja mau tambm voc!
 E acrescentou com voz rouca e ofegante que ela prpria quase no reconheceu como sua:
-        Aperte-me! Aperte-me com fora!  tudo o que lhe peo!
Ele pareceu vacilar. Depois seus robustos braos de lavrador cingiram o delgado talhe.
O celeiro estava s escuras. O calor da palha amontoada produzia  uma espcie de tenso vibratria, semelhante  da tempestade. Anglica, enlouquecida, embriagada, 
rolava a fronte no ombro de Nicolau. De novo sentia-se envolvida pelo selvagem desejo do homem  mas desta vez se lhe abandonava.
-        Ai! - suspirava. - Voc  bom! Voc  meu amigo! Quisera me amasse... S uma vez... S uma vez quero ser amada por um homem jovem e belo. Compreende?
 Passou os braos em torno da nuca macia do rapaz e obrigou-o a inclinar o rosto para ela. Ele havia bebido, e seu hlito tinha o aroma do vinho ardente.
Nicolau suspirou:
-        Marquesa dos Anjos...
 -        Ame-me - balbuciou ela, os lbios contra seus lbios. - S uma vez. Depois partirei... No quer? Ser que j no me ama?
 Ele respondeu com um rugido surdo e, carregando-a nos braos, titubeou na sombra e foi cair com ela sobre o monto de palha.
 Anglica sentia-se a um tempo estranhamente lcida e como liberta de todas as contingncias humanas. Acabava de penetrar em outro mundo: flutuava por cima do que 
havia sido sua vida at ento. Aturdida pela obscuridade total do celeiro, pelo calor e pelo cheiro confinado, pelo indito daquelas carcias ao mesmo tempo brutais 
e experientes, procurou antes de tudo dominar seu pudor, que a fazia retrair-se a contragosto. Desejava, ardentemente, que aquilo fosse feito, e depressa, porque 
podiam surpreend-los. Cerrando os dentes, repetia para si mesma que no haveria de ser o outro quem a possuiria primeiro. Assim se vingaria, essa seria sua resposta 
ao ouro que acreditava poder comprar tudo.
 Atenta s injunes do homem, cuja respirao se acelerava, ela cedia, tudo aceitava dele, abria-se documente sob o peso daquele corpo, que parecia esmag-la.
 Subitamente brilhou a luz de uma lanterna atravs do celeiro, eda porta veio um grito de mulher horrorizada. Nicolau, de um salto, atirou-se para um lado. Anglica 
viu um homem forte precipitar-se sobre o criado. Reconheceu o velho Guilherme e impediu-lhe a passagem, agarrando-se a ele com todas as suas foras. Agilmente Nicolau 
j tinha alcanado as vigas do teto e aberto uma trapeira. Ouviram-no saltar para fora e correr.
 A mulher, na soleira, continuava a berrar. Era a tia Joana, um cntaro na mo e a outra espalmada sobre o amplo seio palpitante.
 Anglica soltou Guilherme para se lanar sobre ela, e enterrou lhe as unhas no brao.
 -        Cale-se, velha louca!... Deseja que rebente um escndalo e que o Marqus d'Andijos se retire com seus presentes e suas promessas? Ento acabar-se-iam suas 
pedras dos Pireneus e suas gulosemas. Cale-se, se no quer que lhe enterre o punho nessa velha boca desdentada!
 Dos celeiros vizinhos acudiam criados e camponeses. Anglica viu aproximar-se a ama e, atrs dela, seu pai, que, no obstante as copiosas libaes e o andar inseguro, 
continuava a zelar pela boa ordem do festim.
-  voc, Joana, que lana esses gritos?
 - Ai, Armando, eu morro! - exclamou a solteirona, perdendo o flego.
- E por qu, mana?
- Vim aqui buscar um pouco de vinho, e vi nesse palheiro... vi...
 - Tia Joana viu um bicho, no sabe se uma serpente ou uma fuinha - interrompeu Anglica -, mas na verdade, tia, no  caso para se perturbar... Faria melhor em 
voltar para a mesa, e ali lhe levariam seu vinho.
 - Isso, isso - aprovou o baro com voz pastosa. - Pela primeira vez, Joana, que procurou ser til, acabou assustando todo mundo.
 "Ela no procurou ser til", pensava Anglica. "Espiava-me, seguia-me. Vive h tanto tempo no castelo, sentada diante de sua tapearia como uma aranha em sua teia, 
que nos conhece a todos melhor do que ns mesmos; fareja, adivinha os nossos pensamentos. Veio me seguindo. Pediu ao velho Guilherme que a acompanhasse com a lanterna."
 Seus dedos continuavam enterrados nos antebraos gelatinosos da gorda mulher.
 -        Compreendeu bem? - cochichou. - Nem uma palavra sobre o que viu, do contrrio, juro que a enveneno com umas ervas que conheo.
 Tia Joana soltou um ltimo cacarejo e revirou os olhos. Mas a aluso a seu colar, mais ainda que a ameaa, a havia subjugado. Contraindo os lbios, seguiu o irmo.
 Uma rude mo deteve Anglica. Com ar severo, o velho soldado tirou-lhe dos cabelos e do vestido as palhas penduradas. Anglica levantou os olhos para ele e buscou 
decifrar a expresso de seu rosto barbado.
-  Guilherme - murmurou -, quero que compreenda...
 -  No necessito compreender, senhora - respondeu em alemo com uma altivez que foi para ela como uma bofetada. - Basta-me o que vi.
 Ergueu o punho na sombra e rosnou uma injria. Anglica levantou a cabea e volveu ao festim. Ao sentar-se  mesa procurou com a vista o Marqus d'Andijos e o viu 
por terra, debaixo de seu mocho, dormindo como um justo. Alguns dos convidados haviam ido embora ou estavam dormindo, mas no prado ainda continuava o baile.
 Empertigada, Anglica continuou presidindo, sem sorrir, o seu banquete de npcias. A irritao que sentia por causa daquele ato inacabado, por aquela vingana que 
no tinha podido consumar, enchia-a de dor at a ponta das unhas, a clera e a vergonha disputavam-lhe o corao. Tinha perdido o velho Guilherme. Mon-teloup a repelia. 
No lhe restava outro caminho seno ir juntar-se ao marido coxo.
 
 CAPTULO XIII
 
 Chegada a Toulouse - O marido de Anglica  o "Grande Coxo do Languedoc"
 No dia seguinte, quatro coches e duas pesadas viaturas tomavam o caminho de Niort. Anglica tinha dificuldade em acreditar que toda aquela ostentao de cavalos 
e postilhes, aqueles gritos e rangidos de eixos fossem em sua honra. Tanta poeira revolvida para a Srta. de Sanc, que jamais conhecera outra escolta que no um 
velho mercenrio com sua lana, era inimaginvel.
 Lacaios, criadas e msicos amontoavam-se nas grandes viaturas com as bagagens. Ao sol da manh, entre vergis floridos, via-se passar aquele cortejo de rostos morenos. 
Risos, canes, dedilhados de guitarras deixavam aps si, como o cheiro do estreo, um trao de despreocupao. Os filhos do sul voltavam ao seu Midi fagulhento, 
perfumado de alho e de vinho.
 O mordomo Clemente Tonnel era o nico que, no meio de to alegre bando, assumia ares de gravidade. Contratado para a semana das bodas, havia pedido que o reconduzissem 
depois a Niort, o que lhe poupava a despesa com uma escolta. Mas logo na primeira parada veio falar com Anglica. Propunha-lhe ficar a seu servio, fosse como mordomo, 
fosse como criado-grave. Explicou que havia servido, em Paris, em casa de importantes senhores, cujos nomes citou; mas, tendo ido a Niort, de onde era natural, para 
adir a herana de seu pai aougueiro, um criado intrigante havia-lhe tomado o ltimo emprego. Desde ento procurava uma casa honrada e de boa linhagem para nela 
exercer suas funes.
 Discreto e inteligente, havia conquistado a simpatia da criada Margarida. Esta lhe assegurou que um novo criado, to hbil em seu ofcio, seria bem acolhido no 
palcio de Toulouse. O senhor conde estava rcado de domsticos de vrios tipos e cores, que no desempenhavam um servio decente. Todos folgavam ao sol, e o mais 
preguioso era sem dvida alguma o intendente Afonso, encarregado de dirigi-los.
 Anglica, pois, contratou o mordomo Clemente. Sentia-se atemorizada, sem saber por qu, mas agradava-lhe que ele falasse como
 cornum dos mortais, sem aquele insuportvel acento que comeava a exasper-la. Aquele homem frio, dcil, quase demasiado servil em suas demonstraes de respeito 
e em suas atenes, aquele criado ontem desconhecido, representaria para ela a sua provncia.
 Ao deixar para trs Niort, a capital dos pntanos, com o seu pesado torreo negro como ferro, a equipagem da Sra. de Peyrac precipitou-se para a luz. Quase sem 
o perceber, Anglica se achou em meio a uma paisagem inusitada, sem sombras, raiada por vinhedos em todos os sentidos. Passaram no longe de Bordus. Depois, os 
verdes milharais alternavam com as vinhas. Nas cercanias do Barn os viajantes foram recebidos no castelo do Sr. Antonino de Cau-mont, Marqus de Pguilin, Duque 
de Lauzan. Anglica olhou com ateno aquele homenzinho cuja graa e talento faziam dele, afirmava Andijos, "o moo mais adulado da corte". O prprio rei, que se 
esforava por assumir um ar de seriedade em sua adolescncia, no resistia s faccias de Pguilin, que o faziam rebentar de riso em pleno conselho. Justamente Pguilin 
estava naquele momento em suas terras, com certeza purgando algum remoque excessivo para com Mazarino. Mas no parecia pesaroso e contava mil histrias.
 Anglica, pouco habituada  gria da galanice ento em voga na corte, no compreendia metade de suas narraes, mas a estada naquele stio foi alegre e animada 
e serviu para lhe relaxar os nervos. O Duque de Lauzan extasiou-se ante sua beleza e a saudou em versos improvisados.
 -        Ah, meus amigos! - exclamava. - Fico pensando se a Voz de Ouro do Reino no ir perder sua nota mais alta.
 Assim foi que Anglica ouviu falar pela primeira vez na Voz de Ouro do Reino.
 -         o maior cantor de Toulouse - explicaram. - Desde os grandes trovadores medievais, o Languedoc no conheceu outro igual!
Ouvi-lo-, minha senhora, e no poder resistir ao seu encanto.
 Anglica procurava no desiludir seus hospedeiros, mantendo um semblante alegre. Todas aquelas pessoas eram simpticas, e s vezes triviais, mas tratavam-na sempre 
com gentileza. O ar superaquecido, as coberturas de telhas, as folhas dos pltanos tinham a cor do vinho branco, dando uma sensao de leveza.
 Mas,  medida que ia chegando o trmino da viagem, Anglica sentia que o corao se lhe tornava mais pesado.
 Na vspera da entrada em Toulouse, alojaram-na em uma das habitaes do Conde de Peyrac, formoso castelo de pedras claras em estilo renascentista. Anglica fruiu 
o conforto de uma das peas, aquela onde se encontrava a piscina de mosaico. Margarida a atendia com solicitude. Receava que o p e o calor dos caminhos houvessem 
escurecido ainda mais o rosto de sua senhora.
 A criada ungiu-a com substncias aromticas e, depois de faz-la deitar sobre um diva, fez-lhe massagens com fora e depilou-a completamente. Anglica no ficou 
surpreendida com aquele costume, que, outrora, nos tempos em que havia termas romanas em todas as cidades, era praticado at pela gente do povo. Agora, somente as 
jovens da alta sociedade se submetiam a isso. Era de muito mau gosto que uma grande dama conservasse plos suprfluos. Mas enquanto sua aia tanto se empenhava em 
conseguir que ela tivesse um corpo perfeito, Anglica no podia seno sentir uma espcie de horror.
"Ele no me tocar", pensava. "Jogar-me-ei antes pela janela."
 Mas nada podia j deter a corrida louca, o torvelinho que a arrastava.
 Na manh seguinte, cheia de apreenses, subiu pela ltima vez para o coche que em poucas horas a levaria a Toulouse. O Marqus d'Andijos sentou-se ao seu lado. 
Estava contentssimo, cantarolava, tarameleava.
 Mas Anglica no o ouvia. Aps alguns minutos, viu o posti-lho diminuir o tiro dos animais. A pequena distncia do coche, um grupo de pessoas a p e a cavalo obstrua 
o caminho. Quando o carro se deteve, ouviram-se melhor os cantos e os gritos marcados pelo toque ritmado dos tamborins.
 - Por So Severino! - exclamou o marqus, dando um salto. - Creio que  seu esposo que vem ao nosso encontro.
 Anglica sentiu-se empalidecer. Os pajens abriram as portinho-las. Teve de pisar a areia da estrada, sob um sol implacvel. O cu estava azul-escuro. Uma multido 
cintilante se aproximava. Vestidos com trajes estranhos, de grandes losangos rubros e verdes, uma nuvem de meninos saltavam fazendo cabriolas incrveis, e vinham 
esbarrar nos cavalos, cujos ginetes usavam vestimentas extravagantes de cetim rosa e plumas brancas.
 -Os prncipes dos amores! Os cmicos da Itlia! - exultou o marqus, abrindo os braos com um gesto de entusiasmo perigoso para aqueles que o rodeavam. - Ah, Toulouse, 
Toulouse!
 A multido abriu alas. Um grande vulto desengonado e bam-boleante apareceu vestido de veludo prpura e apoiando-se numa bengala de bano.
 A medida que tal personagem avanava coxeando, podia-se distinguir, emoldurado por ampla cabeleira negra, um rosto to desagradvel como o conjunto de sua figura. 
Duas profundas cicatrizes riscavam-lhe a fronte e a face esquerda e lhe repuxavam a plpe-bra. Tinha os lbios grossos e no usava bigode, o que era contrrio  
moda e acrescia o aspecto inslito do curioso espantalho.
"Que no seja ele", rezou Anglica. "Meu Deus, que no seja ele!"
 -        Seu esposo, o Conde de Peyrac, minha senhora - disse o Marqus d'Andijos.
 Anglica curvou-se na reverncia que havia aprendido. Seu esprito conturbado ia reparando em pormenores ridculos: o lao de diamantes dos sapatos do conde, o 
taco de um deles um pouco mais alto que o outro para atenuar sua coxeadura, as meias franzidas com baguettes de seda bordadas, o traje luxuoso, a espada, a enorme 
gola de rendas brancas.
 Ele falou-lhe. Anglica respondeu qualquer coisa. Sentia-se atordoada pelo som dos tambores e pelo toque estridente dos clarins.
 Ao voltar ao coche, caram-lhe no regao uma braada de rosas e buqus de violetas.
 -        As flores, ou "gozos primiciais" - disse uma voz. - Elas reinam sobre Toulouse.
 Anglica percebeu que j no era o Marqus d'Andijos, mas o outro, quem estava a seu lado. Para no ver o espantoso semblante, inclinou-se para as flores.
 Pouco depois surgiu a cidade, eriada de torres e campanrios vermelhos. O cortejo avanou atravs de ruelas estreitas, profundos corredores fracamente alumiados 
por uma luz purprea.
 No palcio do Conde de Peyrac enfiaram rapidamente em Anglica um magnfico vestido de veludo branco, incrustado de cetim da mesma cor. Atilhos e laos eram adornados 
de diamantes. Enquanto a vestiam, as aias serviam-lhe bebidas geladas. Ao meio-dia repicaram os sinos e ao seu alegre compasso o cortejo se dirigiu para a catedral, 
onde o arcebispo esperava os noivos no trio.
Aps a bno, Anglica, segundo o costume dos prncipes, percorreu a nave sozinha. O claudicante senhor a precedia, e aquela figura vermelha e agitada pareceu-lhe 
subitamente to extraordinria, sob aquelas abbadas nubladas de incenso, como a do prprio Diabo.
 L fora, dir-se-ia que toda a cidade estava em festa. Anglica no chegava a conciliar todo aquele estrpito com o acontecimento pessoal que representava seu casamento 
com o Conde de Peyrac. Inconscientemente, buscava em outra parte o espetculo que punha nos rostos da multido sorrisos to abertos. Mas todos os olhos estavam voltados 
para ela. Diante dela  que se inclinavam aqueles senhores com olhares ardentes e aquelas damas luxuosamente ataviadas.
 Para voltar da catedral ao palcio, os novos esposos montaram em dois cavalos magnificamente ajaezados. O caminho, seguindo as margens do Garonne, estava juncado 
de flores, e os cavaleiros com trajes cor-de-rosa, a quem o Marqus d'Andijos havia chamado "os prncipes dos amores", continuavam a derramar-lhe cestas inteiras 
de ptalas. A esquerda cintilava o rio dourado e os bar-queiros gritavam sonoros "vivas".
 Anglica sorria quase maquinalmente. O cu, de um azul purssimo, e o cheiro das flores trilhadas a embriagavam. Subitamente conteve um grito: ia escoltada por 
pajenzinhos cujas caras, cor de alcauz, acreditou de incio que estivessem mascaradas. Mas logo percebeu que tinham a pele negra. Era a primeira vez que via negros.
 Decididamente, o que ia vivendo tinha algo de irreal. Sentia-se extremamente s naquele sonho impreciso, do qual, talvez, ao despertar, procuraria recordar-se.
 Continuava ao seu lado o perfil grotesco do homem que chamavam seu marido e a quem aclamavam.
 Moedinhas de ouro tilintavam sobre as pedras. Os pajens lanavam-nas por entre a multido, que lutava na poeira para recolh-las.
 Nos jardins do palcio haviam sido dispostas  sombra longas mesas brancas. Corria o vinho das fontes, diante das portas, para que as pessoas da rua pudessem beber. 
Os nobres e os grandes burgueses tinham acesso ao interior.
 Anglica, sentada entre o arcebispo e o homem de vermelho, incapaz de comer, viu desfilar um nmero incalculvel de servios e pratos: terrinas de perdiz, fils 
de pato, roms sangneas, codornizes fritas, trutas, coelhinhos, saladas, tripas de cordeiro, foie gras. Eram incontveis as sobremesas: creme frito ornado com 
filhs de pssego, tortas de mel, doces de todas as espcies, pirmides de frutas to altas quanto os negrinhos que as levavam. Sucediam-se vinhos de todos os matizes, 
desde o mais escuro vermelho at o ouro mais plido.
 Anglica notou junto a seu prato uma espcie de forquilha de ouro. Olhando em derredor, viu que a maioria dos comensais a utilizavam para espetar a carne e lev-la 
 boca. Procurou imit-los, mas depois de alguns ensaios infrutferos preferiu voltar  sua colher. Deixaram-na  vontade, ao verem que no sabia usar aquele pequeno 
e curioso instrumento, a que todo mundo chamava "garfo". Esse ridculo incidente aumentou seu desconcerto.
 Nada  mais difcil de suportar do que os regozijos alheios em que no toma parte o nosso corao. Empertigada em sua apreenso e seu desgosto, Anglica sentia-se 
fatigada de tanto rudo e tanta abundncia. Altiva por natureza, no deixava transparecer nada, sorria e encontrava sempre uma palavra amvel para cada um. A frrea 
disciplina do convento das ursulinas permitia-lhe manter-se ereta e em atitude serena, a despeito do cansao. A nica coisa de que no era capaz era de voltar-se 
para o Conde de Peyrac. Como compreendera que tal atitude poderia parecer estranha, dedicou toda a sua ateno ao outro vizinho de mesa, o arcebispo. Era este um 
belo homem, nos seus quarenta anos. Tinha muita un-o, graa mundana e olhos azuis muito frios. Era o nico da reunio que no parecia compartilhar a alegria geral.
 - Que profuso! Que profuso! - suspirava, olhando em torno. - Quando penso nos pobres que todos os dias se amontoam  porta do arcebispado, nos enfermos sem amparo, 
nas crianas das aldeias herticas, que no podemos arrancar s suas crenas por falta de dinheiro, meu corao se dilacera. Interessam-lhe as obras pias, minha 
filha?
 - Acabo de sair do convento, mo.nsenhor, mas seria feliz se me pudesse consagrar  minha parquia sob o seu patrocnio.
 O arcebispo pousou sobre ela seu olhar lcido e teve um leve sorriso enquanto erguia o queixo um tanto gordo.
 -        Agradeo-lhe sua docilidade, minha filha. Mas sei como  cheia de novidades a vida de uma jovem dona de casa, e como requerem toda a sua ateno. No a 
arrebatarei a elas antes que manifeste o desejo disso. A obra maior de uma mulher, aquela a que deve dedicar todos os seus cuidados, no , em primeiro lugar, a 
influencia que deve exercer sobre seu marido? Uma mulher amorosa, h bil, tem em nossos dias todo o poder sobre o esprito de seu esposo. 
 Inclinou-se para ela, e os caboches de sua cruz episcopal despediram uma cintilao cor de malva.
 -        Uma mulher pode tudo - repetiu -; mas, aqui entre ns, a senhora escolheu um singular marido...
 "Escolhi...", pensou Anglica com ironia. "Ter visto meu pai, ao menos uma vez, este medonho bonifrate? Duvido. Meu pai queria-me sinceramente. Por nada deste 
mundo haveria desejado fazer minha infelicidade. Mas seus olhos queriam ver-me rica e eu desejava ser amada. Madre Sant'Ana me repetiria que no se deve ser romanesca... 
Este arcebispo parece um bom homem. Ter sido com as pessoas de sua escolta que se bateram os pajens do Conde de Peyrac na prpria catedral?..."
 Com o cair da tarde, o intenso calor comeava a ceder. Ia comear o baile e Anglica suspirou.
 "Danarei a noite inteira", pensava, "mas em nenhum momento consentirei em ficar sozinha com ele..."
 Nervosamente olhou para seu marido. Cada vez que o fazia, o aspecto daquele rosto cicatrizado, em que brilhavam pupilas negras como carvo, produzia-lhe mal-estar. 
A plpebra esquerda, meio fechada pelo rebordo de uma cicatriz, dava ao Conde de Peyrac uma expresso de ironia perversa.
 Repimpado em sua poltrona estofada, acabava de levar  boca um pequeno rolo escuro. Um criado aproximou-se conduzindo numa pina uma brasa, que aplicou  extremidade 
do rolete.
 - Ah, conde, seu exemplo  deplorvel! - exclamou o arcebispo, franzindo as sobrancelhas. - O tabaco  a sobremesa do inferno. Que seja utilizado em p para atuar 
sobre os humores do crebro, e sempre por conselho mdico, j o admito com dificuldade, pois parece-me que os rapezistas experimentam nisso um gozo malso e amide 
alegam a sade como pretexto para sorver rape a cada instante. Mas os fumadores de cachimbo so a escria de nossas tabernas, onde se embrutecem durante horas inteiras 
com essa planta maldita. At agora eu nunca tinha ouvido dizer que um gentil-homem consumisse tabaco desse modo grosseiro.
 - No tenho cachimbo e no sorvo tabaco. Fumo a folha enrolada, tal como vi fazerem alguns nativos da Amrica. Ningum pode acusar-me de ser vulgar como um mosqueteiro 
ou amanei-rado como um petimetre da corte...
 - Quando h dois modos de fazer uma coisa, sempre  preciso que se encontre um terceiro - disse o arcebispo com acrimnia. - Tambm acabo de reparar em outra singularidade 
sua. No pe em seu copo nem pedra-de-sapo nem pedao de licorne. Todos sabem que so esses os melhores processos de evitar o veneno que uma mo inimiga sempre  
capaz de verter em seu vinho. At sua jovem esposa adotou este prudente costume. A pedra-de-sapo, com efeito, e o chifre de licorne mudam de cor ao contato de bebidas 
perigosas. O senhor nunca os utiliza. Cr-se invulnervel ou... sem inimigos? - acrescentou o prelado com um brilho nos olhos que impressionou Anglica.
 - No, monsenhor - respondeu o Conde de Peyrac. - Penso unicamente que o melhor meio de algum se preservar do veneno  no pr nada no copo, mas no corpo inteiro.
- Que quer dizer?
 - Apenas isto: absorva cada dia de sua vida uma dose nfima de algum veneno temvel.
- O senhor o faz? - exclamou o arcebispo, horrorizado.
 - Desde a mais tenra idade, monsenhor. O senhor sabe que meu pai foi vtima de certa bebida florentina, e no entanto a pedra-de-sapo que punha em seu copo era do 
tamanho de um ovo de pomba. Minha me, que era mulher sem preconceitos, procurou o verdadeiro meio de me resguardar a mim. De um mouro escravo trazido de Narbonne, 
aprendeu o mtodo de defender-se do veneno com o veneno.
 - Suas observaes tm sempre algo de paradoxal que me alarma - replicou o arcebispo. - Dir-se-ia que deseja reformar tudo, e ningum ignora quantas desordens produziu 
na Igreja e no reino a palavra "reforma". Pergunto-lhe uma vez mais: por que empregar um mtodo de cuja eficincia no se tem certeza alguma, quando outros provaram 
ser bons? Evidentemente,  necessrio possuir verdadeiras pedras e verdadeiros chifres de licorne. Inmeros charlates se fizeram comerciantes de tais objetos e 
vendem no sei o que em seu lugar. Mas, por exemplo, meu Monge B-cher, um recoleto de grande saber, que se entrega por minha conta a experincias de alquimia, poderia 
conseguir-lhe excelentes.
 O Conde de Peyrac inclinou-se um pouco para olhar o arcebispo e, no movimento, seus abundantes cachos roaram a mo de Anglica, que recuou. Viu, ento, que seu 
marido no usava peruca, mas que aquele velo negro era natural.
 -        O que me intriga - declarou o conde -  saber como ele os arranja. Quando menino, matei por curiosidade muitssimos sapos. Jamais encontrei em seu crebro 
a famosa pedra protetora que, ao que parece, deve encontrar-se nele. Quanto ao chifre de licorne, dir-lhe-ei que percorri o mundo e formei minha prpria convico. 
O licorne  um animal mitolgico, imaginrio; enfim, um animal que no existe.
 - Essas coisas no se afirmam, senhor.  necessrio deixar sua parte aos mistrios e no pretender saber tudo.
 - O que  um mistrio para mim - disse lentamente o conde -  que um homem de sua inteligncia possa acreditar seriamente em tais... fantasias...
 "Meu Deus!", pensou Anglica. "Nunca ouvi falar a um digni-trio da Igreja com tamanha insolncia."
 Olhava alternadamente as duas personagens, cujas pupilas se enfrentavam. Seu marido, o primeiro que pareceu perceber a emoo que ela experimentava, dirigiu-lhe 
um sorriso que pregueou estranhamente seu rosto, mas descobriu seus dentes muito brancos.
 - Perdoe-nos, senhora, o discutirmos assim em sua presena. Monsenhor e eu somos inimigos ntimos!
 - Nenhum homem  meu inimigo! - exclamou o arcebispo, indignado. - Que  feito da caridade que deve habitar o corao de um servo de Deus? Se o senhor me odeia, 
eu no o odeio. Mas sinto em sua presena a inquietao do pastor pela ovelha que se extravia, e, se no fizer caso das minhas palavras, saberei separar o joio do 
trigo.
 - Ah! - exclamou o conde com um riso espantoso. - Bem sei que o senhor  o herdeiro daquele Foulques de Neuilly, bispo e brao direito do terrvel Simo de Montfort, 
que ergueu as fogueiras para os albigenses e reduziu a cinzas a primorosa civilizao da Aquitnia! O Languedoc, depois de quatro sculos, continua chorando seus 
esplendores destrudos e treme ao relato desses horrveis crimes. Eu, que sou da mais antiga cepa tolosana, que tenho sangue lgure e visigodo nas veias, estremeo 
quando meu olhar encontra seus olhos azuis de homem do norte. Herdeiro de Foulques, herdeiro dos brbaros que implantaram entre ns o sectarismo e a intolerncia, 
isso  o que leio em seus olhos!
 - Minha famlia  uma das mais antigas do Languedoc - re-torquiu o arcebispo, erguendo-se um pouco. Naquele instante sua pronncia meridional se tornava quase ininteligvel 
para Anglica. - Sabe muito bem, monstro insolente, que metade de Tou-louse me pertence por herana. H sculos que nossos feudos so tolosanos.
- Quatro sculos! Apenas quatro sculos, monsenhor! - gritou Joffrey de Peyrac, que tambm se tinha levantado. - O senhor veio nos carros de Simo de Montfort, com 
os abominveis cruzados...  um invasor! Homem do norte, que faz  minha mesa?
 Anglica, horrorizada, comeava a se perguntar se no ia declarar-se a luta, quando uma gargalhada dos convivas sublinhou as ltimas palavras do conde tolosano. 
O sorriso do arcebispo foi menos sincero. No entanto, quando o grande corpo de Joffrey de Peyrac bamboleou para ir inclinar-se diante do prelado, em sinal de desculpa, 
estendeu-lhe com amabilidade o anel pastoral, para que o beijasse.
 Anglica estava demasiado desconcertada para que participasse francamente de tal exuberncia. As frases que aqueles dois homens acabavam de trocar no eram fteis, 
mas  certo que para as pessoas do sul o riso , muitas vezes, o brilhante preldio das mais negras tragdias. Subitamente Anglica reencontrou a exaltao ardente 
de que a ama Fantina havia cercado sua infncia. Graas a isso, no se sentiria estranha naquela sociedade impulsiva.
 -        Senhora, incomoda-lhe a fumaa do tabaco? - perguntou bruscamente o conde, inclinando-se para ela e procurando surpreender seu olhar.
 Ela sacudiu a cabea negativamente. O aroma sutil do tabaco acentuava sua melancolia, fazendo-a evocar a presena de Guilherme ao lado do fogo e a grande cozinha 
de Monteloup. O velho Guilherme, a ama, as coisas familiares haviam-se distanciado repentinamente.
 Entre o arvoredo comearam a tocar os violinos. Embora estivesse morta de cansao, Anglica aceitou com presteza o convite do Marqus d'Andijos. Os danarinos se 
tinham reunido em um grande ptio lajeado, refrescado por um repuxo. No convento, Anglica tinha aprendido suficientes passos da moda para no se ver em apuros entre 
senhores e damas de uma provncia mundana, cuja maior parte passava longas temporadas em Paris. Era a primeira vez que danava assim numa verdadeira recepo, e 
comeava a gostar, quando se produziu um tumulto. Os pares eram deslocados ao empuxo da multido que corria para o lugar do banquete. Houve protestos, mas algum 
gritou:
-        Ele vai cantar!
E outros repetiram:
-        A Voz de Ouro! A Voz de Ouro do Reino.

CAPTULO XIV

Horror de Anglica por seu marido - Descobre que ele se ocupa com alquimia

Naquele momento uma mo tocou discretamente no brao desnudo de Anglica.
 - Senhora - cochichou a criada Margarida -,  chegado o momento de se eclipsar. O senhor conde encarregou-me de conduzi-la ao pavilho do Garonne, onde dever passar 
a noite.
 - Mas eu no quero ir! - protestou Anglica. - Desejo escutar esse cantor de que tanto se fala. Ainda no o ouvi.
 - Ele cantar para a senhora, cantar para a senhora em particular, o senhor conde lhe promete - afirmou a serva. - Mas a cadeirinha a espera.
 Enquanto falava, tinha posto aos ombros de sua senhora um manto com capuz e entregou-lhe depois uma mscara de veludo negro.
 -        Cubra o rosto - cochichou. - Assim ningum a reconhecer. Do contrrio, os jovens brincalhes seriam capazes de correr at o pavilho para perturbar sua 
noite de npcias com o barulho de suas caarolas - acrescentou Margarida, disfarando o riso com a mo. -  costume em Toulouse. Os recm-casados que no podem fugir 
como se fossem ladres tm de se resgatar com um bom punhado de escudos ou suportar a algazarra desses demnios. Monsenhor e a polcia j tentaram em vo suprimir 
essa prtica... Assim, o melhor  sair da cidade.
 Introduziu Anglica na cadeirinha, que dois robustos criados ergueram prontamente. Alguns cavaleiros, saindo da sombra, formaram escolta. Aps percorrer um labirinto 
de ruelas, o pequeno grupo atingiu o campo.
 O pavilho era uma casa modesta rodeada de jardins que desciam at o rio. Ao pr os ps em terra, Anglica surpreendeu-se com o silncio, perturbado unicamente 
pelo cricrilar dos grilos. Margarida, que havia montado  garupa de um dos ginetes, apeou e fez entrar a recm-casada na moradia deserta.
 Com os olhos a brilhar e um sorriso nos lbios, a serva parecia divertir-se com todos aqueles mistrios amorosos. Anglica se achou num aposento ladrilhado de mosaico. 
Uma lamparina ardia perto da alcova, mas sua luz era intil, pois o luar penetrava tanto na pea que dava um brilho de neve aos lenis rendados do enorme leito.
 Margarida lanou um ltimo olhar apreciativo  jovem esposa, depois tirou de sua bolsa um frasco de gua-de-colnia para purificar-lhe a pele.
- Deixe-me - protestou Anglica com impacincia.
- Senhora, seu esposo vai chegar.  preciso...
- No  preciso nada. Deixe-me!
- Est bem, senhora.
A criada fez uma reverncia.
- Desejo-lhe uma doce noite, senhora.
- Deixe-me! - gritou pela terceira vez Anglica, irritadssima. Ficou s, furiosa por no ter sabido conter seu agastamento diante
de uma criada. Mas Margarida lhe era antiptica. Suas maneiras resolutas e hbeis a intimidavam, e receava a mofa de seus olhos negros.
 Ficou imvel longo tempo, at que o sossego do quarto se lhe tornou insuportvel.
 O medo, que a agitao e as conversas haviam adormecido, novamente despertava. Cerrou os dentes.
 "No tenho medo", disse consigo mesma quase em voz alta. "Sei o que devo fazer. Morrerei, mas ele no me tocar!"
 Deu uns passos para a porta-janela que se abriu sobre o terrao. Anglica no tinha visto seno no Plessis aqueles balces elegantes que a arquitetura da Renascena 
havia posto em voga. Um diva forrado de veludo verde convidava-a a sentar-se e a contemplar a paisagem cheia de majestade. Dali no se avistava Toulouse, escondida 
por um cotovelo do rio. No existiam seno jardins e a gua resplandecente, e, mais alm, plantaes de milho e vinhedos.
 Anglica sentou-se na beira do diva e apoiou a fronte na balaus-trada. Seu penteado, com aquela complicao de prolas e alfinetes de diamantes, incomodava-a profundamente. 
Comeou em seguida a desfaz-lo, no sem dificuldade. 
 "Por que no ficou aqui essa idiota para me despir e despen-tear?", pensou. "Julga que meu marido  quem vai encarregar-se disso?"
E teve para si prpria um risinho zombeteiro e triste.
 "Madre Sant'Ana no deixaria de fazer-me um discursinho sobre a docilidade que as esposas devem mostrar ante todos os desejos do marido. E quando ela dizia esse 
todos, revirava os olhos e ns rebentvamos de rir, compreendendo bem o que ela estava pensando. Mas eu no tenho propenso para a docilidade. Moli-nes tem razo 
quando diz que eu no me inclino diante do que no compreendo. Obedeci para salvar Monteloup. Que mais podem pedir-me? Argentire j  do Conde de Peyrac. Ele e 
Molines podero prosseguir o seu trfico. E meu pai continuar criando muares para transportar o ouro espanhol... Se eu me jogasse do alto deste balco, nada mudaria. 
Todos tiveram o que desejavam..."
 Conseguiu por fim desatar os cabelos, que se espalharam sobre seus ombros nus, e sacudiu-os com o movimento de cabea um pouco selvagem de sua infncia.
 De repente ouviu um leve rudo. Ao voltar-se, conteve um grito de espanto. Apoiado  ombreira da porta-janela, o coxo a contemplava.
 J no vestia seu traje vermelho. Envergava uns cales e um gibo de veludo negro muito curto, que deixava expostas a cintura e as mangas de uma fina camisa de 
cambraia.
Avanou com seu passo desigual e fez uma profunda reverncia.
-        Permite-me que me sente a seu lado, minha senhora?
Anglica inclinou a cabea em silncio. Ele se senbu, ps o cotovelo no corrimo de pedra e olhou para a frente com displicncia.
 -        Faz vrios sculos - disse -, sob estas mesmas estrelas, damas e trovadores subiam aos caminhos-de-ronda dos castelos e ali se realizavam as cortes de 
amor. J ouviu falar, minha senhora, dos trovadores do Languedoc?
 Anglica no previra aquela espcie de conversao. Estava inteiramente preocupada em se defender e balbuciou com certo esforo:
 - Creio que j ouvi... Chamavam assim a uns poetas da Idade Mdia.
- Os poetas do amor. Lngua d'oc! Lngua suave! To diferente do rude falar do norte, a lngua d'oil! Em Aquitnia aprendia-se aIte de amar, porque, como disse Ovdio 
muito antes dos pr-orios trovadores, "o amor  uma arte que se pode ensinar e na nual pode algum aperfeioar-se estudando suas leis". J a interessou esta arte, 
minha senhora?
Anglica no sabia o que responder. Era bastante arguta para perceber a leve ironia da voz. Tal como lhe fora feita a pergunta, um "sim" ou um "no" teria sido igualmente 
ridculo. No estava acostumada a gracejos. Aturdida por inmeros acontecimentos a habilidade para replicar a tinha abandonado. No soube seno volver a cabea e 
olhar maquinalmente a plancie adormecida. Percebeu que o homem se havia acercado dela, mas no se movia.
 -        Veja - disse ele - l embaixo, no jardim, aquele pequeno lago de gua verde em que a lua mergulha como uma pedra-de-sapo num copo de anis... Pois bem, 
essa gua tem a cor de seus olhos, minha amiga. Nunca, atravs do mundo, vi pupilas to estranhas nem to sedutoras. E veja essas rosas que se unem formando guirlandas 
em nosso balco. Tm o mesmo colorido dos seus lbios. No, verdadeiramente, jamais encontrei lbios to rosados... e to fechados. Quanto  doura... vou julgar...
 Subitamente duas mos a sujeitaram pelo torso. Anglica sentiu-se dobrada para trs por uma fora que no havia presumido naquele homem alto e magro. Viu-se com 
a nuca tombada num brao que a constringia e paralisava. O espantoso rosto inclinava-se sobre ela at roar-lhe a face. Gritou apavorada e comeou a debater-se, 
movida pela averso. Quase imediatamente achou-se livre. O conde a tinha largado e a olhava rindo.
 -        O que eu imaginava. Causo-lhe um medo horrvel. Preferiria lanar-se do alto deste balco a entregar-se. No  verdade?
 Anglica fitava-o com o corao aos pulos. Ele ps-se de p e sua longa silhueta se estendeu sob o cu enluarado.
 -        No a violarei, pobre virgenzinha. No est nas minhas predilees. Ento, entregaram-na toda inexperiente a este Grande Coxo do Languedoc? Coisa terrvel!
Inclinou-se, e ela sentiu raiva do seu sorriso escarninho.
 - Saiba que possu muitas mulheres em minha vida: brancas, negras, amarelas e vermelhas, mas nunca pela fora, e a nenhuma atrai com dinheiro. Vieram por sua prpria 
vontade e voc tambm vir um dia, uma noite...
- Jamais! 
A rplica havia brotado violenta. O sorriso no se apagou no curioso semblante.
 - E uma jovem selvagem, mas isso no me desgosta. Uma conquista fcil desvaloriza o amor; uma conquista difcil aumenta-lhe o valor. Assim fala Andr le Chapelain, 
o mestre de A Arte de Amar. Adeus, minha bela. Durma bem em seu grande leito, a ss com a graa de seus membros, com o encanto de seus pequenos seios, tristes por 
no terem carcias. Adeus!
 No dia seguinte, ao despertar, Anglica viu que o sol j ia alto no Armamento. Os pssaros calavam nas sombras do jardim, atormentados pelo calor.
 No se lembrava bem de como se havia despido e deitado naquela cama cujos lenis armoriados tinham um perfume de violeta. Havia chorado de fadiga e desgosto, talvez 
de solido. Agora sentia-se mais lcida. A garantia que lhe dera seu estranho marido de que no a tocaria sem que ela o desejasse tranqilizava-a por algum tempo.
 "Imagina que acabarei por achar sedutores seu rosto queimado e sua perna curta?"
 Acariciou o plano de uma existncia agradvel, perto de um esposo com quem viveria em boa amizade. Afinal de contas, a vida poderia no ser destituda de encantos. 
Toulouse oferecia tantas distraes...
 Margarida, discreta e impassvel, veio vesti-la. Ao meio-dia Anglica voltou para a cidade. Clemente apresentou-se e disse-lhe que o senhor conde o havia encarregado 
de avisar a senhora condessa de que estava trabalhando em seu laboratrio e de que no devia esper-lo para a refeio. Sentiu alvio. O homem acrescentou que o 
senhor conde o havia contratado para mordomo, pelo que estava muito contente. Os domsticos eram barulhentos e preguiosos, mas cordiais. A casa parecia-lhe rica 
e faria o possvel para agradar a seus novos amos.
 Anglica lhe agradeceu o pequeno discurso no qual se mesclava certo ar de presuno com servilismo. A ela tambm no desgostava conservar a seu lado aquele rapaz 
cujas maneiras faziam contraste com a exuberncia de quantos a rodeavam.
 Nos dias seguintes Anglica notou que o palcio do Conde de Peyrac era certamente o lugar mais freqentado da cidade. O dono da casa participava ativamente de todas 
as reunies. Seu vulto claudicante passava de um grupo para outro, e Anglica se admirava da animao que a presena dele provocava.
Foi se acostumando ao seu aspecto, e j no sentia tanta averso marido. Sem dvida, a idia da submisso carnal que lhe devia tinha sido um fator importante na 
violncia de sua repulsa e tambm no medo que ele lhe inspirava. Agora que estava tranqila quanto a esse ponto, via-se forada a reconhecer que aquele homem de 
palavra brilhante e carter jovial despertava simpatias.
 Em relao a ela o conde afetava grande indiferena, conquanto lhe prodigalizasse as atenes devidas  sua prospia. Saudava-a todas as manhs e ela presidia em 
frente a ele s refeies, nas quais quase sempre tomavam parte no mnimo dez pessoas, o que lhes evitava um colquio a ss.
 No entanto, no se passava um dia sem que ela encontrasse em seu aposento uma lembrana: um adorno ou uma jia, um vestido novo, um mvel e at doces ou flores. 
E tudo de um gosto perfeito, de um luxo que a deixava deslumbrada, encantada... e tambm desconcertada. No sabia como testemunhar ao conde o prazer que lhe davam 
seus presentes. Cada vez que se via na obrigao de dirigir-lhe a palavra diretamente, no podia decidir-se a levantar os olhos para seu rosto desfigurado; sentia-se 
desazada e balbuciava.
 Um dia encontrou, junto  janela ante a qual tinha o costume de sentar-se, um escrnio de marroquim vermelho com ornamentos estampados. Ao abri-lo, deparou-se-lhe 
o adereo de diamantes mais formoso que poderia imaginar. Com as mos trmulas, contemplava-o, pensando que com certeza a rainha no tinha um semelhante, quando 
ouviu os caractersticos passos de seu marido.
Num impulso, correu para ele com os olhos brilhantes...
-        Que maravilha! Como agradecer-lhe, senhor?
 Seu entusiasmo a tinha aproximado dele muito depressa. Quase lhe deu um esbarro. Sua face tocou o yeludo do gibo, enquanto um brao de ferro a deteve prontamente. 
O rosto que a aterrava pareceu-lhe to prximo que seu sorriso se apagou, e Anglica jogou-se para trs num incoercvel estremecimento de pavor. Jof-irey de Peyrac 
deixou cair o brao e disse com displicncia um tanto desdenhosa:
 -        Agradecer-me? Por qu?... No esquea, querida, que  a mulher do Conde de Peyrac, ltimo descendente dos ilustres condes de Toulouse. Deve, portanto, 
ser a mais bela, a mais adornada.
aqui em diante no se julgue obrigada a me agradecer. 
 As obrigaes de Anglica eram, assim, muito leves, e teria podido considerar-se uma das convidadas do palcio, mais livre ainda que as demais para dispor do tempo 
a seu bel-prazer.
 Joffrey de Peyrac no lhe recordava o ttulo de marido seno em muito raras ocasies. Por exemplo, quando um baile em casa do governador ou de algum dos altos funcionrios 
da cidade exigia que a Sra. de Peyrac fosse justamente a mulher mais bela e mais bem ataviada da cidade. Ento chegava sem se fazer anunciar, sentava-se junto  
penteadeira e olhava com ateno o toucado da jovem, orientando as hbeis mos de Margarida e das aias. Nenhum pormenor lhe passava despercebido. O adorno feminino 
no tinha segredos para ele. Anglica maravilhava-se do acerto de suas observaes e do seu refinamento. Como desejava chegar a ser uma grande dama de qualidade, 
no perdia uma palavra de suas lies. Nesses momentos esquecia seus pesares e seus receios.
 Mas, uma noite em que se mirava num grande espelho, deslumbrante em um vestido de cetim cor de marfim com alta gola de rendas guarnecida de prolas, viu a seu lado 
o sombrio vulto do Conde de Peyrac, e um sbito desespero caiu-lhe sobre os ombros como um manto de chumbo.
 "Que importam a riqueza e o luxo", pensava, "diante deste terrvel destino: estar amarrada pela vida inteira a um marido capenga e horroroso?"
 O conde percebeu que era a ele que Anglica olhava no espelho, e afastou-se bruscamente.
-        Que lhe sucede? No se acha formosa?
A jovem dirigiu  prpria imagem um olhar melanclico.
- Acho, senhor - respondeu documente.
- Ento?... Ao menos poderia sorrir... E suspirou mansamente.
  Durante os meses que se seguiram, Anglica pde observar que Joffrey de Peyrac dispensava muito mais atenes s outras mulheres que a ela. Sua galanteria era 
espontnea, risonha, refinada, e as damas o procuravam com evidente prazer.
Faziam-se de "preciosas", como era moda em Paris.
 -        Este  o Palcio da Gaia Cincia - disse-lhe um dia o conde.
- Tudo o que fizeram a raa e a cortesia da Aquitnia e, portanto, da Frana deve reviver entre estas paredes. Toulouse acaba de assistir aos famosos Jogos Florais. 
A violeta de ouro foi conferida  a um jovem poeta do Roussillon. De todos os rinces da Frana at do mundo vm a Toulouse os autores de ronds, para se fa-Verem 
julgar sob a gide de Clemncia Isaura, a luminosa inspira-dora dos trovadores do passado. No se assombre, portanto, A ngca, de ver tantos rostos desconhecidos 
que vo e vm em meu palcio. Se a incomodam, pode retirar-se para o pavilho do Garonne.
 Mas Anglica no sentia desejo de isolar-se. Pouco a pouco deixava-se vencer pelo encanto daquela vida festiva. Depois de a terem desdenhado, algumas damas perceberam 
que no lhe faltava esprito e acolheram-na em sua roda. Diante do xito das recepes que o conde oferecia naquela morada que, apesar de tudo, era a sua, a jovem 
passou a dirigir de bom grado os servios da casa. Era vista a correr das cozinhas para os jardins e da cobertura s adegas, seguida por seus trs negrinhos, a cujos 
alegres semblantes se tinha acostumado.
 Na cidade havia muitos mouros escravos, porque os portos de Aigues-Mortes e Narbonne se abriam para aquele Mediterrneo que no era seno um grande lago de pirataria. 
Ir por mar de Nar-bonne a Marselha representava uma verdadeira expedio! Em Toulouse riram-se muito, quela poca, das desventuras de um nobre gasco que durante 
uma viagem fora aprisionado pelas galeras rabes. O rei da Frana o resgatou imediatamente ao sulto dos ber-beres, mas ele regressou muito enfraquecido e no ocultava 
que entre os mouros havia passado maus momentos.
 S Kuassi-Ba impressionava um pouco Anglica. Quando via erguer-se diante de si aquele colosso negro com olhos muito brancos, sentia uma ponta de temor. No obstante 
ele parecia muito manso. No se separava do Conde de Peyrac, e era quem guardava no fundo do palcio a porta de um apartamento misterioso. Para ali o conde se retirava 
todas as noites e, s vezes, durante o dia. Anglica estava certa de que naquele domnio reservado se achavam as retortas e garrafinhas de que Enrico tinha falado 
 ama. Gostaria de poder entrar ali, mas no se atrevia. Foi um dos visitantes do Palcio da Gaia Cincia quem lhe permitiu descobrir aquele novo aspecto da estranha 
personalidade de seu marido. 
 
 CAPTULO XV
 
 Discusses fsico-matemticas
 
 O visitante estava coberto de poeira. Viajara a cavalo e vinha de Lyon por Nmes.
 Era homem bastante alto, de uns trinta e cinco anos. Comeou falando em italiano, passou depois para o latim, que Anglica compreendia mal, e acabou expressando-se 
em alemo.
 Foi nesta ltima lngua, familiar a Anglica, que o conde lhe apresentou o viajante:
 - O Professor Bernali, de Genebra, d-me a grande honra de vir tratar comigo de problemas cientficos sobre os quais h muitos anos vimos mantendo farta correspondncia.
 O forasteiro inclinou-se com galanteria italiana e se desmanchou em protestos. Com certeza ia importunar com seus discursos abstratos e suas frmulas uma dama encantadora 
cujas preocupaes [ eram, sem dvida, menos graves.
 Um pouco por exibio e um pouco por curiosidade, Anglica pediu para assistir  conversa. No entanto, para no ser indiscreta, foi sentar-se no canto de uma alta 
janela que deitava para o ptio.
 Era um dia de inverno, mas de frio seco e sol brilhante. Subia dos ptios o cheiro dos braseiros de cobre em torno dos quais se . aqueciam os domsticos.
 Anglica, com um trabalho de bordado na mo, escutava a palestra dos dois homens, sentados frente a frente junto  lareira, onde se mantinha sem muito empenho um 
pequeno fogo de lenha. 
 De incio falaram de personalidades que lhe eram totalmente desconhecidas: do filsofo ingls Bacon, do francs Descartes, do engenheiro francs Blondel, contra 
o qual os homens estavam indignados porque, diziam, considerava as teorias de Galileu como estreis paradoxos.
De  tudo isso acabou a jovem por deduzir que o recm-chegado partidrio ferrenho do chamado Descartes, que seu marido, ao contrrio, combatia.
 Sentado no fundo de uma poltrona estofada, em uma das negligentes posturas que lhe agradavam, Joffrey de Peyrac parecia pouco mais srio do que quando discutia 
com as damas as rimas de um soneto. Sua atitude desenvolta fazia contraste com a do interlocutor empertigado na beira de seu tamborete pela paixo que lhe inspirava 
o dilogo.
 -        Seu Descartes  certamente um gnio - dizia o conde -, mas isso no quer dizer que tenha razo em tudo e por tudo.
O italiano acalorava-se.
 - Gostaria de saber como se poderia pilh-lo em erro. Vejamos! Foi o primeiro homem que ops  escolstica e s idias abstratas e religiosas seu mtodo experimental. 
Doravante, em vez de julgarem as coisas como se fazia antes, segundo os princpios absolutos, julg-las-o efetuando medidas e experincias, para depois deduzir-lhes 
as leis matemticas. Isso devemos a Descartes. Como  que o senhor, que se gaba de possuir o esprito realista to caro aos homens da Renascena, pode no aderir 
a este sistema?
 - Adiro a ele, creia-o, amigo. Estou convencido de que, sem Descartes, nunca haveria a cincia podido romper a crosta de ne-cedades em que a envolveram os ltimos 
sculos. Mas o que lhe censuro  carecer de franqueza para com seu prprio gnio. Suas teorias esto inquinadas de erros flagrantes. Mas no quero contrari-lo se 
est convencido.
 - Vim de Genebra, e atravessei neves e rios para aceitar seu desafio acerca de Descartes. Estou escutando-o.
 - Tomemos, se quiser, o princpio da gravitao, isto , o da atrao recproca dos corpos* e, portanto, da queda dos mesmos rumo ao solo. Descartes afirma que, 
quando um corpo se choca com outro, no pode imprimir-lhe movimento se no tiver massa superior a ele. Assim, uma bola de cortia que se choque com uma bola de ferro 
no poder desloc-la.
 -  a evidncia mesma. E permita-me citar a frmula de Descartes: "A soma aritmtica das quantidades em movimento das
diversas partes do universo permanece constante". 
-  No! - exclamou Joffrey de Peyrac, levantando-se to bruscamente que fez Anglica tremer. - No! Isso no passa de uma falsa evidncia, e Descartes no fez a 
experincia. Ter-lhe-ia bastado, para perceber seu erro, tomar uma pistola e disparar uma bala de chumbo de uma ona contra uma bola de trapos comprimidos com o 
peso de duas libras. A bola de trapos sairia do lugar. 
 Bernalli olhou o conde com estupefao.
 - Confesso que o senhor me confunde, mas seu exemplo esta, r bem escolhido? Nessa experincia do tiro de pistola entra talvez um elemento novo... Como cham-lo? 
A violncia, a fora,
 -  simplesmente a velocidade. Mas no  um elemento espe. cfico do tiro. Cada vez que um corpo se desloca, esse elemento' entra em jogo. O que Descartes denomina 
a quantidade de movi. mento  a lei da velocidade e no uma soma aritmtica das coisas,
- E se a lei de Descartes no  boa, que outra o senhor encontra?
 - A de Coprnico, quando fala da atrao recproca dos cori pos, dessa propriedade invisvel, semelhante  do m, que no se pode medir, mas tampouco se pode negar.
Bernalli, com o punho cerrado sobre os lbios, meditava.
 -        J pensei um pouco em tudo isso e discuti-o com o prprio Descartes quando o encontrei em Haia, antes de sua partida para a Sucia, onde, coitado, iria 
morrer. Sabe o que me respondeu? Disse-me que essa lei da atrao devia ser posta de lado porque nela existia "alguma coisa de oculto" e ela parecia apriori hertica 
e suspeita.
O Conde de Peyrac soltou uma gargalhada.
 - Descartes era um pulha, e sobretudo no queria perder os; mil escudos de penso que o Sr. de Mazarino lhe dava. Recordava-se do pobre Galileu, que teve de retratar, 
sob as torturas da Inquisio, a sua "heresia do movimento da Terra" e que mais tarde morreu suspirando: "E, no entanto, ela se move!... " Tambm quando Descartes, 
em seu Tratado do Mundo, adotou a teoria do polons Coprnico De Revolutionibus Orbium Coelestium, absteve-se de afirmar o movimento da Terra. Limitou-se a dizer: 
"A Terra no se move, mas  arrastada por um turbilho". No  uma hiprbo-le encantadora?
 - Vejo que o senhor no  muito benvolo para com o pobre Descartes - disse o genebrino -, e, no entanto, o considera um gnio.
-  Detesto os grandes espritos quando se mostram mesquinhos. Descartes, infelizmente, preocupava-se demasiado em salvar a pele e assssegurar o po cotidiano, que 
devia s liberalidades dos granAcrescentarei que, em minha opinio, se se revelou um gnio nas matemticas puras, no era forte em dinmica nem em fsica em geral. 
Suas experincias sobre a queda dos corpos, se  que na verdade tentou verdadeiras experincias materiais, so embrionrias. Teria sido preciso, para complet-las, 
que avanasse um fato extraordinrio, mas que no meu entender, nao e impossvel, e e que o ar no est vazio. __ Que quer dizer? Seus paradoxos me enlouquecem!
 -        Digo que o ar em que nos movemos no seria em realidade seno um elemento denso, algo como a gua que respiram os peixes: elemento com certa elasticidade, 
certa resistncia; em suma, um elemento invisvel a nossos olhos, mas real.
_ O senhor me espanta - repetiu o italiano.
 Levantou-se e ps-se a caminhar agitado pelo aposento. Deteve-se abriu vrias vezes a boca como um peixe, sacudiu a cabea e voltou a sentar-se junto  lareira.
 -        s vezes quase o considero louco e, no entanto, existe dentro de mim mesmo algo que prova o que o senhor diz. Sua teoria seria o remate dos meus estudos 
sobre os lquidos em movimento. Ah! No me arrependo desta perigosa viagem, que me proporciona o gozo insigne de falar com um grande sbio! Mas tenha cuidado, meu 
amigo. Se eu, que nunca pronunciei palavras com a audcia das suas, fui considerado herege e obrigado a exilar-me na Sua, que no poder suceder-lhe?
 - Ora essa! - disse o conde. - Eu no procuro convencer ningum, a no ser a espritos iniciados e capazes de compreender-me! Nem sequer tenho a ambio de registrar 
e publicar o resultado de meus trabalhos. Entrego-me a eles por prazer, assim como me divirto versejando algumas canes com amveis damas. Estou tranqilo em meu 
palcio tolosano, e quem vir procurar querela comigo?
 - O olho do poder est em toda parte - disse Bernalli lanando em derredor um olhar desencantado.
 Naquele mesmo instante Anglica percebeu, no longe de si, um levssimo rumor, e pareceu-lhe que um reposteiro se havia movido. Sentiu uma impresso desagradvel. 
Daquele momento em diante seguiu distraidamente a conversa dos dois homens. Seu olhar fitava inconscientemente o rosto de Joffrey de Peyrac. A penumra que ia invadindo 
a habitao, no prematuro crepsculo do inverno, atenuava as desfiguradas feies do gentil-homem, e somente sobressaam seus olhos negros e brilhantes e a brancura 
de sem dentes no sorriso que acompanhava com desenvoltura as suas palavras mais graves. A perturbao apoderou-se do esprito de Anglica.
 Quando Bernalli se retirou a fim de se preparar para a refeio! Anglica fechou a janela. Os criados estavam pondo candelabros sobre as mesas, enquanto uma criada 
reavivava o fogo. Joffrey de Peyrac ergueu-se e aproximou-se do lugar em que se encontrava sua mulher.
 - Est muito silenciosa, minha amiga. , alis, seu costume. Dormiu escutando nossa palestra?
 - No, ao contrrio, interessou-me muitssimo - disse lentamente Anglica, e pela primeira vez seus olhos no repeliram o olhar de seu marido. - No pretendo haver 
compreendido tudo, mas confesso-lhe que sinto mais atrao para esse gnero de discusses do que para as poesias das damas ou de seus pajens.
 Joffrey de Peyrac ps um p sobre o degrau do peitoril e inclinou-se para olhar Anglica com ateno.
 -        Voc  uma curiosa rnulherzinha. Creio que comea a ceder, mas no cessa de me assombrar. Empreguei inmeras e diversas sedues para conquistar a mulher 
que desejava, mas nunca pensei em pedir auxlio s matemticas.
 Anglica no pde deixar de rir, enquanto um rubor lhe subia s faces. Baixou os olhos, um tanto confusa, sobre o seu trabalho, e, para mudar de assunto, perguntou:
 - E ento a experincias de fsica que voc se entrega nesse misterioso laboratrio que Kuassi-Ba guarda com tanto zelo?
 - Sim e no. Tenho alguns aparelhos para medies, mas o laboratrio me serve principalmente para trabalhos qumicos sobre metais como o ouro e a prata.
 - A alquimia! - repetiu Anglica emocionada, e a viso do castelo de Gil de Retz repassou ante seus olhos. - Por que procura sempre ouro e prata? - perguntou de 
repente. - Dir-se-ia que o busca por toda parte, no s em seu laboratrio, mas tambm na Espanha, na Inglaterra e at nessa pequena mina de chumbo que minha famlia 
possua no Poitou... E Molines me disse que voc tambm tem uma mina de ouro nos montes Pireneus. Para que quer tanto ouro?
- E preciso muito ouro e prata para ser livre, minha senhora.  E veja o que diz mestre Andr le Chapelain no comeo de seu manuscrito A Arte de Amar. "Para algum 
se ocupar de amor,  oreciso no ter preocupaes com a vida material".
 _ No creia que me renderei com presentes e riquezas - disse Anglica, reagindo violentamente.
 _ No creio nada, querida. Apenas a espero e suspiro por voc, Todo amante deve empalidecer em presena de sua amada. Eu enlpalideo. Parece-lhe que ainda no empalideo 
o bastante? Sei muito bem que se aconselha aos trovadores que se ajoelhem diante de suas damas, mas  um movimento que minha perna no me permite fazer. Desculpe-me. 
Ah! Fique certa de que posso dizer como Bernardo de Ventadour, o divino poeta: "Os tormentos do amor que me inspira esta bela de quem sou um submisso escravo sero 
a causa de minha morte!" Sinto-me morrer, minha senhora.
Anglica sacudiu a cabea, rindo.
 - No acredito em voc. No tem cara de moribundo... Encerra-se em seu laboratrio ou percorre os palcios dessas preciosas damas tolosanas para orient-las em 
suas composies poticas.
- Sente a minha falta, senhora?
 Anglica hesitou, com um sorriso nos lbios, querendo conservar o tom de gracejo.
 -        So as distraes que me faltam, e voc  a Distrao e a Variedade personificadas.
 E voltou ao seu trabalho de bordado. Ela j no sabia se lhe agradava ou a intimidava a expresso com que Joffrey de Peyrac a olhava s vezes durante as justas 
alegres que a vida mundana multiplicava entre eles. Subitamente ele deixava de ironizar e, no silncio, ela tinha a impresso de estar dominada por um estranho imprio 
que a envolvia e queimava. Sentia-se nua, seus pequenos seios palpitavam sob as rendas do corpete. Tinha desejo de fechar os olhos.
 "Aproveita-se do entorpecimento de minha desconfiana para fazer-me um feitio", pensou aquela noite com um pequeno tremor de medo e prazer.
 Joffrey de Peyrac atraa as mulheres. Anglica no podia neg-lo, e o que nos primeiros dias havia sido para ela motivo de estupefao agora se lhe tornava compreensvel. 
Certas expresses desordenadas, certos estremecimentos de suas belas amigas quando nos corredores se aproximava com passo vacilante o gentil-homem
 oxo no lhe tinham passado despercebidos. Logo que ele aparea urna corrente de excitao atravessava a assemblia feminina. Sabia falar s mulheres. Tinha frases 
mordentes e suaves, conhecia a palavra que d quela que a recebe a impresso de ter sido notada entre as outras. Anglica empinava-se como um cavalo re-belo ante 
a voz lisonjeira. Com uma sensao de vertigem recordava as confidencias da ama: "Atrai as jovens com estranhas canes..."
 Quando Bernalli reapareceu, Anglica se levantou para ir ao seu encontro. Roou no Conde de Peyrac e sentiu-se despeitada por no ter ele estendido a mo para abraar-lhe 
a cintura. 
 
 CAPITULO XVI
 
 A vulcnica Carmencita
 
 Um riso histrico estalou atravs da galeria deserta. Anglica, que enveredara por ela, deteve-se e olhou em derredor. O riso se prolongava, subindo at as notas 
mais altas e caindo em uma espcie de soluo para tornar a elevar-se. Era uma mulher quem ria. Anglica no a via. Aquela ala do palcio, na qual se tinha aventurado 
na hora mais quente do dia, estava tranqila. Abril, com os primeiros calores, entorpecia o Palcio da Gaia Cincia. Os pa-jens dormiam nas escadas. Anglica, que 
no costumava fazer a sesta, havia decidido percorrer sua morada, que ainda no conhecia inteiramente. As escadas, as salas, os corredores cortados de loggie eram 
inumerveis. Pelas janelas e trapeiras avistava-se a cidade, seus altos campanrios, atravs de cujos vos se divisavam nesgas do firmamento azul, seus grandes cais 
vermelhos s margens do Garonne.
 Tudo dormia. A longa saia de Anglica produzia sobre as lajes um rumor de folhas.
 De repente, feriu o ar aquela nervosa gargalhada. Anglica viu no fundo da galeria uma porta entreaberta. Ouviu um breve rudo de gua jogada e o riso interrompeu-se 
bruscamente. Uma voz masculina disse:
- Agora que voc j se acalmou, estou aqui, pronto para escut-la.
Era a voz de Joffrey de Peyrac.
 Anglica acercou-se devagarinho e olhou pela fresta da porta. Seu marido estava sentado. Ela via apenas as costas da poltrona e uma das suas mos, que segurava 
um daqueles roletes de tabaco que ele chamava charutos.
 Diante dele, ajoelhada no lajedo sobre uma poa de gua, estava uma bela mulher que Anglica no conhecia. Trajava um rico vestido negro, que parecia ensopado at 
a camisa. Perto dela um vaso de bronze vazio indicava claramente para que havia servido a gua que continha, habitualmente destinada a refrescar as garrafas de vinhos 
finos.
 A mulher, com os longos cabelos negros colados s tmporas, olhava com espanto seus punhos de renda amarrotados.
 - A mim! - dizia, com voz abafada. - A mim voc trata assim?
 - Era preciso, minha bela - respondeu Joffrey em tom de leve repreenso. - No podia deixar por mais tempo que voc perdesse sua dignidade perante mim. No me perdoaria 
isso jamais. Vamos, levante-se, Carmencita. Com este calor sua roupa secar rapidamente. Sente-se nessa poltrona  minha frente.
 Ela levantou-se com dificuldade. Era uma mulher alta, e sua opulenta beleza igualava as que tinham sido celebradas pelos pintores Rembrandt e Rubens.
 Sentou-se na poltrona que lhe fora indicada. Seus olhos negros, muito dilatados, olhavam para a frente com expresso feroz.
-        Que h? - inquiriu o conde.
 Anglica estremeceu, porque aquela voz, emitida por uma personagem invisvel, tinha um encanto que ela nunca imaginara.
 - Vamos, Carmencita, faz mais de um ano que voc partiu de Toulouse. Ia para Paris com seu esposo, cujo elevado posto era para voc penhor de vida brilhante. Levou 
a ingratido para com a nossa pequena sociedade provinciana a ponto de no nos enviar jamais uma nica notcia. E agora cai de sbito no Palcio da Gaia Cincia 
gritando, reclamando... Que quer, afinal de contas?
- Amor! - respondeu a dama com voz rouca e anelante. - No posso mais viver sem voc. Ah, no me interrompa! No sabe o que foi o meu suplcio nesse ano interminvel. 
Sim, acreditei que Paris saciaria minha sede de prazeres e divertimentos. Mas ate nas mais belas festas da corte sentia-me entediada. Evocava Toulouse, este palcio 
rosa da Gaia Cincia. Falava dele com os olhos brilhantes, e as pessoas mofavam de mim. Tive amantes. Sua grosseria dava-me asco. Compreendi ento que o que me faltava 
era voc. Passava a noite com os olhos abertos, e via voc. Via esses  seuss olhos incendiados pelo fogo de sua frguas, to ardentes que me faziam desfalecer; via 
suas mos brancas e sbias...
-        Meu andar gracioso! - disse ele rindo.
Levantou-se e aproximou-se dela, exagerando a coxeadura.
Ela o encarou.
 -        No tente afastar-me com o seu desdm - disse ela. - Sua claudicao, suas cicatrizes que importncia tm para as mulheres que amou, diante da ddiva que 
lhes outorga?
A mulher estendeu as mos para ele.
 -        D-lhes a voluptuosidade - cochichou. - Antes de conhec-lo, eu era fria. Voc acendeu em mim um fogo que me devora.
 O corao de Anglica batia violentamente. Receava no sabia o qu, talvez que seu marido pusesse a mo naquele belo ombro dourado, oferecido com impudor.
 Mas o conde, apoiado numa mesa, fumava com ar impassvel. Ela o via de perfil, e o lado desfigurado de seu rosto estava invisvel. De repente Anglica descobriu 
ali outro homem, cujas feies tinham uma pureza de medalha sob as ondas dos bastos cabelos negros.
 - Quem possui uma luxria demasiado grande no sabe amar verdadeiramente - disse o conde, enquanto lanava uma nuvem de fumo azul. - Recorde as lies de amor corts 
que recebeu no Palcio da Gaia Cincia. Volte a Paris, Carmencita;  o refgio das pessoas da sua espcie.
 - Se me repele, entrarei para um convento. Alis, meu marido quer encerrar-me em um.
 - Excelente idia, querida. Ouo dizer que esto sendo fundados em Paris inmeros asilos piedosos nos quais a devoo est em moda. No acaba de comprar a Rainha 
Ana d'ustria o belssimo convento do Val-de-Grce para alojar beneditinas? E a Visitao de Chaillot tambm  muito procurada.
Os olhos de Carmencita faiscavam.
 -        Ento  esse todo o efeito que lhe causo? Estou disposta  enterrar-me sob um vu e voc nem sequer se compadece de mim?
- Minhas reservas de piedade so escassas. Se h algum que merea compaixo em toda esta histria,  o Duque de Mrecourt, seu marido, que teve a imprudncia de 
traz-la de Madri nos carros de sua embaixada. E no procure misturar-me de novo  sua existncia vulcnica, Carmencita. Mais uma vez lhe recordarei ou- P tros preceitos 
de amor galante: "Um homem s deve amar urna mulher de cada vez". E tambm este outro: "Amor novo desaloja o antigo".
-        Fala por mim ou por voc? - interrogou ela.
 Sob seus cabelos negros, vestida de preto, seu rosto adquiria a brancura do mrmore.
 - E por causa dessa mulher, da sua mulher, que voc fala assim? Pensei que tinha casado com ela para satisfazer sua cobia. Questo de um terreno, voc me disse. 
No entanto, escolheu-a para amante! Ah, no duvido de que, entre suas mos, chegue a ser uma discpula ; notvel! Como foi levado a amar uma jovem do norte?
 - Ela no  do norte,  do Poitou. Conheo o Poitou: viajei  por l.  uma doce regio que em outros tempos pertenceu ao reino da Aquitnia. A lngua d'oc encontra-se 
no pato de seus camponeses, e Anglica tem a cor das filhas de nossa terra.
 - Vejo que j no me quer! - exclamou subitamente a mulher. - Ah! Compreendo-o mais do que imagina.
Caiu de joelhos, agarrando-se ao gibo de Joffrey.
-        Ainda  tempo. Ame-me! Tome-me em seus braos! Sou sua! 
Anglica no pde ouvir mais. Fugiu. Atravessou correndo a galeria e desceu a escada em caracol da torre. No ltimo degrau  esbarrou em Kuassi-Ba, que arranhava 
uma guitarra e cantarolava com a grossa voz aveludada um refro de sua terra. Sorriu-lhe com todos os dentes e gorjeou:
-        Bonzou, mdme...
 Ela no respondeu e seguiu seu caminho. O palcio despertava.  Na grande sala algumas damas j estavam reunidas e sorviam bebidas frescas. Uma delas chamou:
 -        Anglica, corao, ache-nos seu marido. Com este calor, nossa imaginao enlanguesce e, para conversar...
 Anglica no parou, mas teve nimo para sorrir s "preciosas" e-dizer-lhes:
-        Conversem, conversem. Volto j.
 Chegou, por fim,  sua alcova e tombou sobre o leito. "Isto e demais", repetia. Mas pouco a pouco teve de confessar a si mesma que no sabia por que estava to 
transtornada. Ocorria-lhe algo intolervel, e no podia continuar assim.
 Mordeu com raiva seu lencinho de renda e olhou em redor com ar tristonho. Amor em demasia, era isso que a exasperava. Todo  mundo falava de amor, discorria sobre 
o amor, naquele palcio, ela cidade, onde o arcebispo troava do alto do plpito ameaando com as fogueiras do inferno,  falta das da Inquisio, os Hevassos, os 
libertinos e suas amantes, cobertas de jias e ricos atavios. Sermes que eram particularmente dirigidos contra o Palcio da Gaia Cincia.
 Gaia Cincia! Que queria dizer isso? Gaia Cincia! Alegre Cincia! Aquele segredo fazia brilhar formosos olhos e gorjear belas gargantas, inspirava os poetas, animava 
os msicos. E o grande maestro daquele espetculo terno e louco era o aleijado, s vezes burlo e s vezes lrico, o mago que tinha avassalado Toulouse pela riqueza 
e pelo prazer! Nunca, desde o tempo dos trovadores, havia Toulouse conhecido igual fulgor, igual triunfo... Sacudia o jugo dos homens do norte, reencontrava seu 
verdadeiro destino...
 - Oh, detesto-o, odeio-o! - exclamava Anglica, batendo com os ps.
 Agitou violentamente uma campainha de prata dourada, e quando apareceu Margarida ordenou-lhe que mandasse trazer uma cadei-rinha e uma escolta. Queria voltar imediatamente 
para o pavilho do Garonne.
 Quando desceu a noite, Anglica ficou longo tempo no terrao de seu aposento. Pouco a pouco a calma da paisagem tranqilizou-lhe os nervos.
 Naquela noite houvera sido incapaz de permanecer em Toulouse, de ir passear de coche pela feira a fim de escutar os cantores e de presidir depois o grande banquete 
que o Conde de Peyrac ofereceria nos jardins iluminados por lanternas venezianas. Esperava que seu marido a fizesse regressar  fora para receber os convidados, 
mas nenhum mensageiro veio da cidade reclamar a fugitiva. Isso era prova de que no necessitavam dela. Era uma estranha.
 Vendo que Margarida estava decepcionada por no assistir  festa, mandou-a de volta ao palcio, ficando unicamente com uma jovem aia e alguns guardas, visto que 
os arredores de Toulouse onde as nobres faziam construir suas casas de campo no estavam resguardados contra os ladres e os desertores espanhis.
Solitria, Anglica procurou recolher-se e ver claro dentro de si.
 Rolou a fronte na balaustrada. "Eu nunca conhecerei o amor", pensou com melancolia.

CAPTULO XVII

A "Voz de Ouro do Reino" - Primeiro beijo

Quando, afinal, cansada e aborrecida, ia retirar-se para seu quarto,  uma guitarra preludiou sob as suas janelas. Anglica inclinou-se, mas no conseguiu divisar 
ningum entre as sombras das rvores.
  "Ter Enrico me seguido?  simptico esse rapaz. Talvez queira distrair-me."
 O msico invisvel comeou a cantar. Sua voz grave e mscula no era a do pajem.
 Desde as primeiras notas a jovem sentiu que aquela voz lhe tocava o corao. O timbre, com inflexes alternativamente aveludadas e sonoras e uma dico perfeita, 
era de uma qualidade que os cantores galantes, que invadiam Toulouse quando chegava a noite, nem sempre possuam. No Languedoc no escasseiam as boas gargantas. 
A melodia nasce espontaneamente nos lbios acostumados ao riso e s declamaes. Mas desta vez impunha-se o artista. Sua voz tinha uma potncia excepcional. Parecia 
invadir todo o jardim e fazer vibrar a lua. Ele cantava uma antiga lamentao, nessa velha lngua d'oc cuja finura to amide o Conde de Peyrac enaltecia. Anglica 
no compreendia todas as palavras, mas uma voltava sem cessar: Amore! Amore!
Amor!
Uma convico tomou vulto no seu esprito. " ele,  o ltimo dos trovadores,  a Voz de Ouro do Reino!" Nunca havia ouvido cantar assim. s vezes lhe diziam: - 
Ah, se ouvisse a Voz de Ouro do Reino! Ele no tem cantado. Quando voltar a cantar? - E olhavam-na com malcia, lamentando que ela no conhecesse aquela celebridade 
da provncia.
 __ Ouvi-la uma vez e depois morrer! - dizia a Sra. Aubertr, mulher do Grand Capitoul da cidade e cinqentona muito arrebatada.        
 " ele! E ele!", pensava consigo mesma Anglica. "Como pode estar aqui? Ser para mim?"
 Viu-se refletida no grande espelho de seu aposento. Tinha uma das mos apoiada no peito e os olhos dilatados. Troou de si mesma: "Como sou ridcula! Talvez Andijos 
ou qualquer outro admirador me tenha enviado um msico pago para me fazer uma serenata!..."
 No obstante, abriu a porta. Com as mos juntas sobre o cor-pete, para conter as pulsaes do corao, atravessou as antecma-ras, desceu as escadas de mrmore 
branco e saiu para o jardim... Iria comear a vida para Anglica de Sanc de Monteloup, Condessa de Peyrac? Porque o amor  a vida!
 A voz provinha de um caramancho situado  beira da gua e que abrigava a deusa Pomona. Quando a jovem se aproximava, calou-se o cantor, mas continuou a dedilhar 
em surdina as cordas da guitarra.
 A lua, naquela noite, no estava cheia; tinha a forma de uma amndoa. Sua claridade, entretanto, bastava para iluminar o jardim, e Anglica viu no interior do caramancho 
um vulto negro sentado na base da esttua.
O desconhecido, ao v-la, no se mexeu.
"E um negro", pensou Anglica, desapontada.
 Mas logo percebeu que se enganara. O homem trazia uma mscara de veludo, mas suas mos, muito brancas, apoiadas no instrumento, no permitiam nenhuma dvida sobre 
a sua raa. Um leno de cetim negro sobre a nuca,  italiana, ocultava seus cabelos. Pelo que se podia ver na obscuridade do caramancho, seu traje um tanto gasto 
era uma curiosa mistura de roupa de criado com a de comediante. Usava grossos sapatos de pele de castor, como  costume entre as pessoas que andam muito: os carreiros 
e os mascates; mas abaixo das mangas da jaqueta viam-se punhos de renda.
 - O senhor canta maravilhosamente - disse Anglica, ao ver que no fazia nenhum movimento -, mas eu gostaria de saber 0 nome de quem o enviou.
 -Ningum, minha senhora. Vim aqui sabendo que este pavilho abriga uma das mulheres mais belas de Toulouse.
 O homem falava em voz baixa e muito lentamente, como se temesse ser ouvido.
 - Cheguei a Toulouse esta noite e dirigi-me ao Palcio da Gaia Cincia, no qual havia numerosa e alegre reunio, para fazer ouvir minhas canes. Mas, quando soube 
que a senhora no estava presente, sai a busc-la, pois sua reputao de formosura  to grande em nossa provncia que h muito tempo eu ansiava por encontr-la.
 - Sua reputao  igualmente grande. No  aquele a quem chamam a Voz de Ouro do Reino?
-        Sou eu, minha senhora, seu humilde servidor.
Anglica sentou-se num banco de mrmore. O cheiro de madressilva era embriagador.
-        Cante de novo! - disse.
 A voz clida ergueu-se novamente, porm mais doce. No era mais um canto invitatrio, mas um canto de ternura, uma confidencia, uma confisso.
 -        Minha senhora - disse o msico interrompendo-se -, perdoe minha audcia: quisera traduzir-lhe em lngua francesa um refro que me inspira o encanto de 
seus olhos.
Anglica inclinou a cabea.
 Perdera a noo do tempo decorrido. J nada tinha importncia. A noite lhes pertencia.
 O msico preludiou longamente como se procurasse o fio da melodia, soltou um longo suspiro e comeou:
"Os olhos verdes tm a cor do mar.
As ondas se fecharam sobre mim
E, nufrago do amor,
Pervago no profundo oceano
De seu corao".
 Anglica tinha fechado os olhos. Mais ainda do que as palavras ardentes, a voz a embriagava de um prazer que jamais havia experimentado.
"Quando ela abre os olhos verdes,
As estrelas se refletem neles
Como no fundo de um lago primaveril."
 "Tem de acontecer agora", dizia consigo mesma Anglica, "pois este instante np poder ser revivido. No se pode viver isto duas vezes. Parece-se tanto com as histrias 
de amor que se contavam no convento!"
 A voz calara-se. O desconhecido aproximou-se de Anglica. No brao firme que a enlaou, na mo que lhe ergueu o queixo com uma doura imperiosa, o instinto de Anglica 
reconheceu um mestre que certamente havia conseguido mais de uma vitria amorosa. Sentiu certo arrependimento. Mas, quando os lbios do trovador tocaram os seus, 
uma vertigem a empolgou. No sabia que uns lbios de homem podiam ter aquele frescor de ptala, aquela ternura derretida. Um brao musculoso a esmagava, mas a boca 
ainda fremia com palavras encantadoras, e esse encanto e essa fora arrastavam Anglica num torvelinho em que ela tentava em vo pr em ordem os pensamentos.
 "No devo fazer isso... No fica bem!... Se Joffrey nos surpreendesse..."
 Depois tudo se confundiu. Os lbios do homem entreabriam os dela. Seu hlito ardente invadia-lhe a boca, espalhando-lhe pelas veias um delicioso bem-estar. Com 
os olhos fechados, ela se abandonou ao interminvel beijo, voluptuosa posse que j prefi-gurava e sugeria outra. As vagas do prazer refluam nela, prazer muito novo 
para seu corpo de jovem donzela, a tal ponto que ela sentiu de sbito uma espcie de irritao e de dor, que a fez recuar num estremecimento.
 Parecia-lhe que ia desmaiar ou pr-se a chorar. Viu que os dedos do homem lhe acariciavam as pomas nuas, que ele tinha sorrateiramente despido de seu corpete enquanto 
a beijava.
Ela se afastou um pouco a fim de se compor.
 -        Perdoe-me - balbuciou -, deve achar-me bem nervosa, mas eu no sabia... no sabia...
- Que  que voc no sabia, corao? Como ela no respondeu, ele cochichou:
- Que um beijo podia ser to doce?
 Anglica se levantou e foi apoiar-se na entrada do caramancho. L fora, a lua tingia-se de ouro, descendo na direo do rio. Fazia horas que Anglica devia estar 
naquele jardim. Sentia-se feliz, imensamente feliz. Nada tinha mais importncia que poder reviver aquelas horas.
 - Voc foi feita para o amor - murmurou o trovador. - Percebe-se isto s em tocar sua pele. Aquele que souber despertar seu corpo sedutor a levar ao cume do prazer.
 - Cale-se! No deve falar assim. Sou casada, bem o sabe, e o adultrio  um pecado.
 - Pecado bem maior  que to bela dama aceite por marido um senhor coxo.
- Eu no o aceitei: ele me comprou.
 Arrependeu-se logo daquelas palavras que perturbavam a serenidade daqueles momentos.
 -        Cante outra vez - suplicou. - S uma vez, e depois nos se
pararemos.
 Ele se levantou para pegar a guitarra, mas no movimento que fez uma coisa inslita despertou a ateno de Anglica. Olhou-o melhor. Sem saber por qu, de repente 
sentiu medo.
 Enquanto ele cantava em voz baixa um refro de estranha nostalgia, ela o examinava atentamente. Um momento antes, enquanto ele a beijava, ela havia tido, por um 
breve instante, a impresso de uma presena familiar, e agora recordava: no hlito do cantor mesclava-se o perfume de violetas com o aroma caracterstico do tabaco... 
O Conde de Peyrac s vezes mascava pastilhas de violeta... E tambm fumava. Uma terrvel suspeita invadiu a jovem... Pouco antes, ao levantar-se para apanhar a guitarra, 
ele havia tropeado de maneira estranha...
 Anglica soltou um grito de espanto, depois um grito de clera, e ps-se a arrancar as trepadeiras do caramancho batendo com os ps.
 -        Oh! E demais,  demais!...  monstruoso... Tire a mscara, Joffrey de Peyrac... Cesse sua farsa, ou eu lhe arranco os olhos, eu o degolo, eu o...
 Interrompeu-se a cano. A guitarra emitiu um decrescendo l-gubre. Sob a mscara de veludo, os dentes brancos do Conde de Peyrac brilhavam em um grande riso.
 Aproximou-se de Anglica com seu passo desigual. Anglica estava terrificada, mas sobretudo fora de si.
- Arrancar-lhe-ei os olhos - repetia ela com os dentes cerrados. Ele a segurou pelos pulsos sem deixar de rir.
- E que restar a este medonho coxo se lhe arrancar os olhos?
 -        Voc mentiu com um descaramento inqualificvel. Fez-me crer que era o... a Voz de Ouro do Reino.
 -        Mas eu sou a Voz de Ouro do Reino.
E como ela o encarasse perplexa:
 -        Que tem isso de extraordinrio? Eu tinha alguma vocao. Estudei com os maiores mestres da Itlia. Cantar  uma arte de sociedade que se pratica muito 
em nossos dias. Francamente, que rida, no lhe agrada a minha voz?
 Anglica deu meia-volta e enxugou as lgrimas indignadas que lhe desciam pelas faces.
- Como no adivinhei, no desconfiei de nada at agora?
 - Eu havia pedido que no lhe falassem disto. E talvez voc no pusesse muito empenho em descobrir meus talentos.
- Oh! E demais! - repetiu Anglica.
Mas, passado o primeiro momento de furor, teve vontade de rir.
 Dizer que ele tinha levado seu cinismo a ponto de encoraj-la a "tra-lo" com ele mesmo! Verdadeiramente, aquele homem tinha o demnio no corpo!... Ele era o diabo 
em pessoa!
 - Jamais lhe perdoarei esta odiosa comdia - disse ela, contraindo os lbios com a maior dignidade que podia revelar.
 - Adoro representar comdias. Veja, minha cara, a vida no foi sempre indulgente para comigo, e tanto me tm escarnecido  minha passagem que eu sinto por meu turno 
uma infinita satisfao em zombar dos outros.
Anglica fixou no rosto mascarado um olhar grave.
-        Zombava de mim verdadeiramente?
- No de todo, bem o sabe - respondeu ele. Sem uma palavra de despedida, Anglica se retirou.
- Anglica! Anglica!
Ele a chamava em voz baixa.
 De p na soleira do caramancho, na tpica atitude de um arle-quim da Itlia, ele punha um dedo sobre os lbios.
 - Rogo-lhe, minha senhora, que no conte esta histria a ningum, nem mesmo a sua aia preferida. Se algum souber que abandono meus convidados, que me disfaro 
e me mascaro para ir roubar um beijo a minha prpria esposa, serei ridicularizado.
- Voc  insuportvel! - gritou ela.
 Arrepanhou as saias e subiu correndo a alia saibrosa. Na escada, percebeu que ria. Tirou as vestes arrancando os colchetes e espetando-se nos alfinetes em seu 
enervamento. Revolvia-se entre os lenis, ardente, sem poder conciliar o sono. O rosto mascarado, o rosto marcado, o perfil de traos puros passavam e repassavam 
diante dela. Qual era o enigma daquele homem enganador? De sbito se revoltou, mas a lembrana do prazer que sentira entre seus braos a fez enlanguescer.
"Foi feita para o amor, senhora..."
 Finalmente adormeceu. Em seu sono, os olhos de Joffrey de Pey-rac apareciam-lhe "incendiados pelo fogo de suas frguas".

CAPTULO XVIII

A visita do Arcebispo de Toulouse

Anglica estava sentada na galeria de espelhos venezianos do palcio. Ainda no sabia o que ia fazer nem que atitude tomaria. Depois de seu regresso do pavilho 
do Garonne, naquele mesmo dia, no tinha visto Joffrey de Peyrac. Clemente a informou de que o senhor conde se havia encerrado com o mouro Kuassi-Ba nos aposentos 
da ala direita, onde costumava entregar-se a trabalhos de alquimia. Anglica mordia os lbios de despeito. Era possvel que Joffrey levasse horas para reaparecer. 
Alis, ela no desejava v-lo. Tudo viria a dar na mesma. Ainda estava zangada pela mistificao de que fora objeto na noite anterior..
 Resolveu dirigir-se s dependncias onde estavam engarrafando os primeiros licores da estao. A mesa da Gaia Cincia passava por ser a mais refinada da provncia. 
Joffrey de Peyrac cuidava em pessoa dos cardpios que oferecia a seus visitantes, e como Clemente tinha nesse domnio habilidades indiscutveis, havia assumido importante 
papel nos servios da casa.
 Acabava Anglica de entrar nas cozinhas, perfumadas com o cheiro de laranjas, anis e especiarias, quando um negrinho esbaforido veio avis-la de que o Baro Benedito 
de Fontenac, Arcebispo de Toulouse, desejava cumpriment-la, bem como ao seu marido.
 A manh no era o momento azado para visitas, s quais se reservavam as horas frescas do entardecer. Alm disso, j fazia v-nos meses que o arcebispo, por no 
se sabia que disputa acerca de precedncia, no tinha voltado a pr os ps no palcio do Conde de Peyrac, a quem acusava de combater sua influncia sobre o esprito 
dos tolosanos. 
 Intrigada e um tanto inquieta, Anglica tirou o avental que acabara de pr sobre o vestido, e acudiu pressurosa arranjando os cabelos. Usava-os de acordo com a 
moda, bastante longos e cados sobre os ombros e a pala de rendas.
 Quando chegou  galeria de entrada, viu no patamar da escadaria a alta silhueta do baro arcebispo. Nos jardins, a escolta de monsenhor, seus lacaios de espada 
 cinta, seus pajens e os grandes senhores a cavalo faziam excessivo barulho em torno da carruagem, puxada por seis cavalos baios.
 Anglica ajoelhou-se para beijar o anel pastoral; mas, fazendo-a levantar-se, foi o arcebispo quem lhe beijou a mo para dar-lhe a entender, com aquele gesto mundano, 
que sua visita no tinha nada de solene.
 - Por favor, minha senhora, no me faa perceber por suas reverncias quanto sou velho em face da sua juventude.
 - Monsenhor, eu no procurava seno demonstrar o meu respeito a um homem ilustre e investido numa dignidade sacerdotal que lhe vem de Sua Santidade, o papa, e do 
prprio Deus...
 Cada vez que Anglica pronunciava palavras desse gnero, lembrava-se de Madre Sant'Ana, sua professora de educao mundana no convento de Poitiers. Madre Sant'Ana 
haveria de sentir-se satisfeita com uma aluna que fora to indcil.
 O prelado tirara o chapu e as luvas e entregou-os a um jovem padre de seu squito, a quem, com um gesto, mandou que se afastasse.
 -        Meus acompanhantes esperaro l fora. Gostaria de lhe fa
lar, minha senhora, longe de ouvidos frvolos.
 Anglica lanou um olhar zombeteiro ao pequeno padre acusado de ter ouvidos frvolos e que enrubesceu.
 Passaram ao salo, e Anglica, aps ordenar que trouxessem re-frescos, desculpou a ausncia do marido. Iria cham-lo.
 - Lamento t-lo feito esperar. Estava fiscalizando a confeco de nossos licores. Mas abuso de seu tempo, monsenhor, falando-lhe de to mesquinhos detalhes.
 - Nada  mesquinho perante Deus Nosso Senhor. Lembre-se de Marta, a solcita.  raro em nossos dias ver uma grande dama ocupar-se dos servios domsticos. E, contudo, 
a dona de casa e que d o tom de dignidade e atividade a seus criados. E quando se renem, como na senhora, condessa, a graa de Maria e a prudncia de Marta...
Mas a voz do arcebispo soava sem calor: as palestras mundanas no eram arte em que se comprazesse. Apesar de sua postura digna e da firmeza de seus olhos azuis, 
havia nele algo de suspicaz que impressionava sempre os seus interlocutores. Joffrey havia dito uma vez que ele era um homem que sempre conseguia fazer as pessoas 
reconhecerem seus prprios erros.
 Depois de esfregar as mos pensativamente, repetiu que experimentava grande satisfao em tornar a ver uma jovem cujas visitas ao arcebispado tinham sido demasiado 
escassas desde o dia, j distante, em que a havia casado na Catedral de So Severino.
 - Vejo-a nas cerimnias litrgicas e no tenho seno elogios para a sua assiduidade ao culto quaresmal. Mas digo-lhe, minha filha, que estou decepcionado por no 
t-la ainda ouvido em confisso.
- Meu confessor  o capelo das visitandinas, monsenhor.
 -  um digno sacerdote, mas para a senhora, condessa, que tem uma posio de realce, parece-me...
 - Monsenhor, perdoe-me - exclamou Anglica, soltando uma gargalhada -, mas vou explicar-lhe meu ponto de vista. Cometo pecados muito pequenos para ir confess-los 
a um homem importante como vossa excelncia; ficaria acanhada.
 - Parece-me, minha filha, que se engana sobre a natureza mesma do sacramento da penitncia. No  o pecador quem deve medir a extenso de suas faltas. E quando 
o eco da cidade faz chegar a meus ouvidos os desregramentos de que este palcio  teatro, duvido muito que uma jovem to bonita e graciosa possa nele permanecer 
intata como no dia de seu batismo.
 - No tenho essa pretenso, monsenhor - murmurou Anglica baixando os olhos -, mas creio que o eco exagera.  verdade que as festas aqui so alegres. Rima-se, canta-se, 
bebe-se, fala-se de amor e ri-se muito. Mas nunca fui testemunha de abusos que pudessem intranqilizar minha conscincia.
 - Acredito que seja mais ingnua do que hipcrita, minha filha. Puseram-na demasiado jovem nas mos de um esposo cujas palavras mais de uma vez roaram pela heresia, 
e cuja habilidade e experincia com as mulheres permitiram-lhe modelar sem dificuldade seu esprito ainda malevel. Tremo quando evoco essas demasiado clebres cortes 
de amor que todos os anos promove em seu palcio e s quais comparecem no s os senhores da cidade, mas tambm mulheres burguesas e todos os jovens nobres da provncia, 
e quando verifico que mediante sua fortuna adquire cada dia maior influncia na cidade. J os principais capitouls, magistrados austeros e ntegros, inquietam-se 
ao ver suas esposas recebidas no Palcio da Gaia Cincia.
 - Que pessoas complicadas! - disse Anglica, fingindo um ar ofendido. - Sempre ouvi dizer que a ambio dos grandes burgueses era, precisamente, verem-se acolhidos 
pela alta nobreza, at o dia em que um favor do rei lhes permitiu nobilitarem-se por seu turno. Meu marido no leva em conta nem o braso nem a antigidade da famlia. 
Recebe os inteligentes e talentosos, homens ou mulheres. Surpreende-me que esses senhores magistrados se me-lindrem tanto.
 - A alma  o principal! - trovejou o arcebispo como se estivesse no plpito. - A alma primeiro, senhora; as honras depois!
 - Cr deveras, monsenhor, que minha alma e a de meu marido se encontram em grave perigo? - perguntou Anglica escan-celando os olhos lmpidos.
 Se se mostrava dcil s formas habituais de devoo que observavam todas as jovens e damas de sua linhagem - assistncia ao culto, jejuns, confisso, comunho -, 
sentia despertar seu instinto rebelde, quando o exagero vinha chocar-se contra seu natural bom senso. E, sem saber por qu, pressentia que o arcebispo no era sincero.
 Este, com os olhos baixos e a mo sobre a cruz de ametistas e diamantes, parecia recolher-se e buscar no mais profundo de seu corao o eco da resposta divina.
 -        Como posso saber? - suspirou por fim. - Nada sei. O que ocorre neste palcio tem sido por muito tempo um mistrio para mim e sinto crescer cada dia a minha 
inquietao.
Bruscamente interrogou:
 - Est ao corrente, minha senhora, dos trabalhos de alquimia de seu marido?
 - Sinceramente, no - respondeu Anglica sem se perturbar. - O Conde de Peyrac tem o gosto das cincias...
- Dizem mesmo que  que um grande sbio.
 - Creio que sim. Ele passa longas horas em seu laboratrio, mas nunca me introduziu ali. Certamente julga que essas coisas no interessam s mulheres.
Abriu o leque e dele se serviu para dissimular um sorriso e talvez certo constrangimento que comeava a sentir ante o olhar penetrante do arcebispo.
 __ Meu mister  sondar o corao humano - disse ele como se houvesse percebido o embarao de Anglica -, mas no se perturbe, minha filha. Vejo em seu olhar que 
 direita e que, malgrado sua juventude, possui uma personalidade excepcional. Quanto a0 seu marido, talvez ainda seja tempo de arrepender-se de suas faltas e abjurar 
sua heresia.
Anglica soltou um gritinho.
 - Mas juro-lhe que labora em erro, monsenhor! Talvez meu marido no proceda como um catlico exemplar, mas absolutamente no se ocupa com a Reforma e outras crenas 
huguenotes. Eu prpria j o ouvi zombar desses "tristes heresiarcas de Genebra", que, dizia ele, tinham recebido do cu a misso de tirar  humanidade inteira o 
gosto de rir.
 - Palavras enganosas - disse o prelado com ar severo. - Acaso no desfilam pela casa dele, que tambm  a sua, minha senhora, protestantes notrios?
- So sbios com os quais ele trata de cincia, e no de religio.
 - Cincia e religio esto intimamente ligadas. Recentemente fui informado de que o clebre italiano Bernalli veio visit-lo. Sabia que esse homem, depois de ter 
estado em conflito com Roma por causa de escritos mpios, refugiou-se na Sua, onde se converteu ao protestantismo? Mas no insistamos sobre esses indcios reveladores 
de um estado de esprito que eu deploro. Eis a questo que me intriga h longos anos. O Conde de Peyrac  riqussimo, e no cessam de acrescer os seus haveres. De 
onde lhe vem tanto ouro?
 - Mas, monsenhor, acaso no pertence ele a uma das mais antigas famlias do Languedoc, aparentada mesmo com os velhos condes de Toulouse, que tinham tanto poder 
sobre a Aquitnia como os reis de ento na lie de France?
O prelado teve um risinho desdenhoso.
 - E exato. Mas quartis de nobreza no significam opulncia. Os pais de seu esposo eram to pobres que o magnfico palcio em que hoje a senhora reina tombava em 
runas h uns quinze anos apenas. O Sr. de Peyrac nunca lhe falou de sua juventude?
 - N... no - murmurou Anglica, surpresa ela prpria de sua ignorncia.
-  Ele era o caula da famlia, e to pobre, repito-lhe, que aos dezesseis anos embarcou para terras distantes. No mais foi visto durante longos anos, e j o supunham 
morto quando ele reapareceu. Seus genitores e seu irmo mais velho tinham falecido, os credores partilhavam suas terras. Ele recomprou tudo e depois sua fortuna 
no parou de crescer. Ora, ele  um gentil-homem que nunca foi visto na corte, que procura mesmo viver longe dela e no frui nenhuma penso real.
 - Mas ele tem muitas terras - disse Anglica, que se sentia sufocada, talvez por causa do calor crescente -, cria carneiros nas montanhas, dos quais extrai a l, 
possui uma fbrica de tecidos, olivais, criaes de bichos-da-seda, minas de ouro e prata...
- Disse ouro e prata?
 - Sim, monsenhor, o Conde de Peyrac possui numerosas minas na Frana, de onde afirma que tira grandes quantidades de ouro e prata.
 - Como a sua palavra  justa, minha senhora! - disse o prelado com voz adocicada. - De onde ele afirma que tira ouro e prata!... era isso que eu queria ouvir. A 
espantosa suposio confirma-se.
-        Que quer dizer, monsenhor? Vossa excelncia me alarma.
O Arcebispo de Toulouse fixou novamente sobre ela aquele olhar demasiado lmpido que s vezes adquiria a dureza do ao. Pronunciou lentamente:
 -        No duvido de que seu marido seja um dos maiores sbios da poca e por isso creio, minha senhora, que ele verdadeiramente descobriu a pedra filosofal, 
isto , o segredo que Salomo possua da fabricao mgica de ouro. Mas que caminho ele tomou para o conseguir? Muito receio que tenha adquirido esse poder por meio 
de algum negcio com o Diabo!
 Uma vez mais Anglica imobilizou seu leque sobre os lbios para no mostrar o riso. Esperava uma aluso ao negcio propriamente dito a que se dedicava o conde, 
segundo soubera pelas confidencias de Molines e de seu prprio pai; tal comrcio no deixava de inspirar-lhe temor, sabendo ela que semelhantes atividades, por parte 
de um nobre, representavam uma ndoa que poderia lanar  o descrdito sobre sua casa. Mas a estranha acusao do arcebispo, que diziam homem de grande inteligncia, 
pareceu-lhe de inicio extremamente cmica. Estaria falando srio?
 Subitamente, numa reviravolta do pensamento, Anglica lembrou-se de que Toulouse era a cidade da Frana onde a Inquisio mantinha ainda o seu quartel-general. 
A terrvel instituio rlieval contra os hereges conservava em Toulouse prerrogativa que a autoridade do prprio rei nao ousava contestar.
 Toulouse, cidade risonha, era tambm a cidade vermelha que fazia um sculo tinha chacinado o maior nmero de huguenotes. Muito antes de Paris, ela havia tido sua 
cruenta So Bartolomeu.  As cerimnias religiosas eram ali mais numerosas do que noutros lugares. Ela era uma verdadeira "ilha sonora", com seus sinos perpetuamente 
convocando os fiis para os ofcios, uma cidade to afogada em crucifixos, imagens de santos e relquias como em flores. A chama espanhola havia ofuscado ali o puro 
claro de latinidade trazido por antigos vencedores chegados de Roma. Ao lado das confrarias do prazer, como os "Prncipes dos Amores" e os "Abades da Juventude", 
famosas por suas faccias, encontravam-se na ruas procisses de flagelantes, com os olhos abrasados de mstica paixo, mortificando-se com varas e espinhos at deixarem 
no solo trilhas sangrentas.
 Anglica, arrastada no turbilho de uma vida de prazeres, no chegara a familiarizar-se com aquele aspecto de Toulouse. Mas no ignorava que era o prprio arcebispo, 
o homem que se achava sentado diante dela, na alta poltrona estofada e levando aos lbios um copo de limonada, quem continuava gro-mestre da Inquisio.
Foi, pois, com sincera humildade que ela murmurou:
 -        Monsenhor, no  possvel que lance contra meu marido uma acusao de feitiaria! Produzir ouro no  coisa comum neste pas ao qual Deus concedeu suas 
ddivas em profuso, espalhando ou ro em estado nativo pela terra?
E ajuntou com finura:
 - Ouvi dizer que vossa excelncia mesmo tem um grupo de faiscadores lavando as areias do Garonne e recolhendo, amide, ouro em-p e em pepitas com o qual alivia 
muitas misrias.
 - Sua objeo no  destituda de bom senso, minha filha. Mas, Precisamente porque conheo o trabalho de pesquisa do ouro, posso "irmar-lhe isto: ainda que lavssemos 
todas as areias dos rios e nachos do Languedoc, no recolheramos nem metade do ouro que o Conde de Peyrac parece possuir. Creia-me, estou bem informado.
  No o duvido", pensou Anglica, "e  verdade que h muito empo ele pratica o trfico do ouro espanhol com os muares..."
 Os olhos azuis observavam sua hesitao. Ela fechou um tanto nervosamente o leque.
 - Um cientista no  forosamente um scio do Demnio. No dizem que na corte h sbios que instalaram uma luneta para olhar os astros e as montanhas da Lua, e 
que o Sr. Gasto d'Orlans, tio do rei, se entrega a tais observaes guiado pelo Padre Picard?
 - Com efeito, conheo de sobra o Padre Picard. Ele  no somente astrnomo, mas grande gemetra do rei.
- Bem v...
 - A Igreja, minha senhora, tem largueza de esprito. Ela autoriza toda espcie de pesquisas, mesmo as mais ousadas, como as do Padre Picard. E vou mais longe. Tenho 
sob minhas ordens, no arcebispado, um religioso muito sbio, da ordem dos recole-tos, o Monge Bcher. H vrios anos que faz experincias sobre a transmutao do 
ouro, mas com a minha autorizao e a de Roma. Confesso que at agora me saiu muito caro, sobretudo pelas despesas com substncias especiais, que eu tenho de fazer 
vir da Espanha e da Itlia. Esse homem, que conhece as mais antigas tradies de sua arte, afirma que, para conseguir o que desejamos,  preciso receber uma revelao 
superior, que no pode provir seno de Deus ou de Satans.
- E ele o conseguiu?
- Ainda no.
 - Pobre homem! Ento ele  malvisto por Deus e por Satans, apesar da sua alta proteo.
 Anglica mordeu os lbios, arrependendo-se de sua malcia. Tinha a impresso de que ia sufocar e que era preciso dizer bobagens para livrar-se da indisposio. 
A conversa parecia-lhe to tola quanto perigosa.
 Virou-se para a porta, na esperana de ouvir os passos de seu marido na galeria, e teve um pequeno sobressalto.
- Oh! Voc estava a?
 - Cheguei agora - disse o conde -, e no mereo perdo, senhor, por ter-lhe feito esperar tanto tempo. Confesso que me informaram de sua visita h cerca de uma 
hora, mas era-me impossvel abandonar a operao delicadssima de certa retorta.
 Ainda vestia sua blusa de alquimist, que lhe descia at os ps. Era uma espcie de bata em que os signos do zodaco, bordados, se misturavam com manchas coloridas 
de cidos. Anglica compreendeu que ele tinha conservado aquela vestimenta como uma espcie de provocao, como quando se comprazia em chamar "senhor" ao Arcebispo 
de Toulouse, tratando assim de igual para igual o Baro Benedito de Fontenac.
 O Conde de Peyrac acenou a um criado que estava na antec-mara, o qual o ajudou a despir a bata.
 Depois avanou e inclinou-se. Um raio de sol fez brilhar ainda mais sua negra cabeleira de grandes cachos reluzentes, da qual tratava com requintes e que podia 
competir em abundncia com as perucas parisienses cuja moda comeava a difundir-se.
"Tem os cabelos mais belos do mundo", pensou Anglica.
 Seu corao batia mais depressa do que ela desejava. Seus olhos reviram a cena da vspera.
 "No  verdade", repetia para si mesma, "foi um outro que cantou. Oh! Nunca lhe perdoarei!"
 Entrementes, o Conde de Peyrac fazia trazer um alto tamborete e sentava-se perto de Anglica, um pouco atrs.
 Assim ela no o via, mas era atingida por um hlito cujo perfume lhe recordava um instante embriagador. Alm disso, percebeu que, enquanto trocava palavras triviais 
com o arcebispo, Joffrey de Peyrac no deixava de acariciar com os olhos a nuca e as esp-duas de sua jovem mulher, mergulhando mesmo com audcia na suave penumbra 
do corpete onde repousavam os jovens seios cuja perfeio verificara na vspera.
 Exagerava aquele procedimento por malcia, diante do prelado, cuja virtude passava por intransigente.
 De fato, o Arcebispo de Toulouse, embora tivesse herdado o posto de um de seus tios, empenhara-se em receber as ordens sacras e assumir no s as responsabilidades 
de administrador de uma das mais importantes dioceses da Frana, mas tambm de pastor de almas. Sua vida exemplar, que no podia dar margem a nenhuma crtica, tornava-o 
ainda mais temvel.
 Anglica teve mpeto de se virar para o marido e suplicar-lhe que fosse mais prudente.
 Ao mesmo tempo, gozava aquela muda homenagem. Sua pele virginal, privada de carcias, pedia algo mais concreto, o contato de uns lbios experientes que a despertassem 
para a voluptuosida-de. Muito reta e um pouco rgida, sentia que uma chama lhe subia as faces. Dizia consigo mesma que era ridcula e que no havia flada em- tudo 
aquilo que pudesse irritar o arcebispo, pois afinal de contas era a esposa daquele homem. Invadia-a o desejo de ser sua, de se abandonar, de olhos fechados, ao seu 
amplexo. Com certeza sua perturbao estaria sendo notada por Joffrey de Pey-rac, e ele devia divertir-se muitssimo.
 "Brinca comigo como o gato com o rato. Vinga-se do meu desdm", pensou Anglica, desorientada.
 Para dissipar seu constrangimento, chamou um dos negrinhos que dormitava sobre um coxim num canto do salo, e ordenou-lhe que fosse buscar a confeiteira. Quando 
o menino trouxe a caixa de bano com incrustaes de ncar, que continha nozes e frutas confeitadas, granjias aromatizadas e acar rosado, Anglica j havia recobrado 
o seu sangue-frio e acompanhava atentamente a conversao dos dois homens.
 - No, senhor - dizia o Conde de Peyrac, roendo negligentemente algumas pastilhas de violeta -, no creia que me tenha entregue s cincias com o fim de conhecer 
os segredos do poder. Sempre tive natural inclinao para estas coisas. Por exemplo, se houvesse continuado pobre, teria procurado fazer-me nomear engenheiro das 
guas do rei. No pode ter idia do atraso em que nos achamos nestas questes de irrigao, bombeamento de gua e outras obras semelhantes. Os romanos sabiam disto 
dez vezes mais do que ns, e quando visitei o Egito e a China...
 - Sei, efetivamente, que viajou muito, conde. O senhor foi aos pases do Oriente, onde ainda se conhecem os segredos dos Reis Magos?
Joffrey ps-se a rir.
 - Estive l, mas no encontrei os<Reis Magos. A magia no me interessa. Deixo isso ao seu bom e ingnuo Bcher.
 - Bcher pergunta sempre quando ter o prazer de assistir a uma de suas experincias e tornar-se seu discpulo em qumica.
 - Senhor, eu no sou mestre-escola. E, se o fosse, deixaria de lado as pessoas pouco inteligentes.
- No entanto, esse religioso tem reputao de grande engenho. 
 - Sem dvida em escolstica, mas nas cincias de observao  nulo: no v as coisas como so, mas como cr que sejam. Considero isso falta de inteligncia e estreiteza 
de viso.
 - Seja. Esse  seu ponto de vista, e eu sou demasiado ignorante em cincias profanas para julgar se so bem ou mal fundamentas suas antipatias. Mas no se esquea 
de que o Padre Bcher,  a quem o senhor tacha de ignorante, publicou em 1639 um livro  notvel sobre alquimia, para o qual, alis, custou-me conseguir o impfimatur 
de Roma.
 - Uma obra cientfica no depende de aprovao ou desaprovao da Igreja - disse o conde um pouco secamente.
 - Permita-me que discorde. O esprito da Igreja no abrange o conjunto da natureza e dos fenmenos?
 - No vejo razo para ser assim. Lembre-se, monsenhor, do "Dai a Csar o que  de Csar" de Nosso Senhor. Csar  o poder exterior dos homens, mas  tambm o poder 
exterior das coisas. Ao falar assim, o Filho de Deus quis proclamar a independncia do domnio das almas, do domnio religioso, em relao ao domnio da matria, 
e no duvido de que a cincia abstrata esteja includa nisto.
 O prelado abanou vrias vezes a cabea enquanto um sorriso distendia seus lbios finos.
 - Admiro sua dialtica.  digna da grande tradio e demonstra que o senhor assimilou bem os ensinamentos teolgicos que recebeu em nossa universidade. Todavia, 
 a que intervm o juzo do alto clero para decidir os debates, porque nada se parece mais com a razo do que a sem-razo.
 - Monsenhor, eis uma frase que me encanta ouvir de seus lbios. Porque, de fato, a menos que se trate estritamente das coisas da Igreja, isto , do dogna e da moral, 
estou convencido de que, para a cincia, devo extrair meu nico argumento dos fatos observados e no de sofismas. Em outros termos, devo fiar-me dos mtodos de observao 
expostos por Bacon em seu Novnm Organum, publicado em 1620, bem como das indicaes dadas pelo matemtico Descartes, cujo Discurso sobre o Mtodo permanecer como 
um dos monumentos da filosofia e das matemticas...
 Angiica percebeu que aqueles dois sbios eram quase desconhecidos para o prelado, que passava, entretanto, por homem erudito. Receava que a discusso pudesse tornar-se 
mais spera e que Joffrey acabasse por destratar o arcebispo.
Que necessidade tm os homens de discutir os mritos respectivos de diferentes cabeas de alfinete?", pensava. Mas o que mais temia era que as hbeis digresses 
do arcebispo tivessem por fina-Wade atrair Joffrey de Peyrac a uma armadilha. Desta vez a suscetibilidade do prncipe da Igreja parecia ter sido erida. Suas faces 
plidas, cuidadosamente barbeadas, se coloriram, e ele fechou os olhos com uma expresso de astcia altaneira que assustou a jovem.
  - Sr. de Peyrac - disse ele -, o senhor fala de poder: poder sobre os homens, poder sobre as coisas. Nunca pensou que sua extraordinria prosperidade poderia parecer 
suspeita a muitos, e sobretudo despertar a ateno vigilante da Igreja? Sua riqueza, que aumenta dia a dia, seus trabalhos cientficos, que atraem a sua casa sbios 
encanecidos no estudo... No ano transato conversei com um deles, o matemtico alemo Leibniz. Espantava-se de haver o senhor conseguido resolver brincando problemas 
sobre os quais se debruaram em vo os maiores crebros destes tempos. Fala doze lnguas...
- Pico delia Mirandola, no sculo passado, falava dezoito.
  - Possui uma voz que fez empalidecer de inveja o grande cantor italiano Maroni, verseja maravilhosamente e leva ao ponto mais alto... perdoe-me, minha senhora... 
a arte de seduzir as mulheres...
- E que diz disto?
 Anglica percebeu, com um aperto no corao, que Joffrey levara a mo  face marcada de gilvazes.
 A confuso do arcebispo terminou por uma expresso de impacincia.
  - Ora essa! Arranjou-se no sei como para faz-lo esquecer. O senhor tem demasiados dotes, creia-me.
  - Seu requisitrio me surpreende e perturba - disse lentamente o conde. - Ainda no tinha percebido que despertava tanta inveja. Ao contrrio, sempre me pareceu 
que levava comigo uma cruel desvantagem.
 Inclinou a cabea e nesse momento seus olhos se iluminaram, como se lhe ocorresse fazer uma boa pilhria.
  - Sabe, monsenhor, que eu sou, de certo modo, um mrtir hu-guenote?
- O senhor, huguenote? - exclamou o arcebispo espantado.
- Eu disse "de certo modo". Vou contar-lhe a histria. Quando eu nasci, minha me me confiou a uma ama-de-leite, que ela escolheu no por causa de sua religio mas 
pelo tamanho de seus peitos. Acontece que a ama era huguenote. Levou-me para sua aldeia das Cevenas, domnio de um pequeno senhor partidrio da Reforma. No distante 
dali havia, como  natural, outro pequeno senhor e algumas aldeias catlicas. No sei como a coisa comeou. Eu tinha trs anos quando catlicos e huguenotes se bateram. 
Minha ama e as outras mulheres da aldeia refugiaram-se no castelo do gentil-homem protestante. Por volta da meia-noite os catlicos o tomaram de assalto. Todos foram 
degolados e o castelo, incendiado. Quanto a mim, depois de me haverem lanhado o rosto com trs golpes de sabre, jogaram-me por uma janela, e eu ca do segundo andar 
em um ptio coberto de neve. A neve me salvou das fagulhas que choviam em redor. Pela manh, um dos catlicos que voltava para saquear o castelo, e que me conhecia 
como filho de nobres tolosanos, apanhou-me e colocou-me em sua cesta, junto com minha irm colaa Margarida, que era a nica que havia escapado  carnificina. O 
homem enfrentou vrias nevascas antes de alcanar a plancie. Quando chegou a Toulouse, eu estava vivo. Minha me me levou para um terrao ensolarado, despiu-me 
e proibiu aos mdicos que se aproximassem, porque, segundo dizia, acabariam comigo. Assim passei vrios anos estendido ao sol. Somente aos doze pude comear a andar. 
Aos dezesseis embarquei para o exterior. J viu como tive tempo para estudar tanto. Primeiro, graas  enfermidade e  imobilidade; depois, s minhas viagens. No 
h nisso nada de suspeito.
 Depois de um instante de silncio, o arcebispo disse com ar meditativo:
 - Seu relato esclarece muitas coisas. J no estranho sua simpatia aos protestantes.
- No tenho simpatia aos protestantes.
- Digamos ento sua antipatia aos catlicos.
 - No tenho antipatia aos catlicos. Sou um homem do passado, senhor, e no sei viver nesta poca de intolerncia. Deveria ter nascido um ou dois sculos antes, 
nos tempos da Renascena, nome mais doce que Reforma, quando os bares franceses descobriram a Itlia e, depois dela, a herana luminosa da Antigidade: Roma, a 
Grcia, o Egito, as terras bblicas...
Monsenhor de Fontenac teve um leve estremecimento, que no escapou a Anglica. "Trouxe-o", pensou, "aonde queria traz-lo."
 -        Falemos das terras bblicas - disse suavemente o arcebispo.
-- No reza a Escritura que Salomo foi um dos primeiros magos, e que enviou navios a Ofir, onde, a salvo de olhares indiscretos, fez transformar pela transmutao 
metais vis em metais Preciosos? A histria diz que ele trouxe seus navios carregados de ouro.
 - A histria tambm diz que, depois de seu regresso, Salomo dobrou os impostos, o que prova que ele no trouxe muito ouro, e sobretudo que no sabia bem quando 
poderia renovar a proviso. Se realmente houvesse descoberto a fabricao do ouro, no teria majorado os tributos nem tido o trabalho de enviar seus navios a Ofir.
 - Talvez, em sua prudncia, no haja querido inteirar seus sditos de segredos de que poderiam abusar.
 - Digo mais: Salomo no podia conhecer a transmutao dos metais em ouro, porque a transmutao  um fenmeno impossvel. A alquimia  uma arte que no existe, 
uma sinistra farsa que vem de sculos perdidos em trevas e que, alis, cair no ridculo, pois ningum poder jamais operar a transmutao.
 - Pois eu lhe digo - exclamou o arcebispo empalidecendo - que vi com meus prprios olhos Bcher mergulhar uma colher de estanho em um lquido preparado por ele 
e retir-la transformada em ouro.
 - No estava transformada em ouro; estava recoberta de ouro. Se o bom homem houvesse tido o pequeno trabalho de arranhar com uma puno aquela pelcula dourada, 
encontraria imediatamente debaixo dela o estanho.
 - E exato, mas Bcher afirma que era um comeo de transmutao, o princpio do prprio fenmeno.
Houve uma pausa. A mo de Joffrey de Peyrac deslizou sobre o brao da poltrona de Anglica e roou o pulso da jovem. Disse o conde displicentemente:
 -        Se estava persuadido de que seu monge encontrou a frmula mgica, que veio pedir-me esta manh?
O arcebispo no pestanejou.
 -        Bcher acredita que o senhor conhece o supremo segredo que permite consumar a transmutao.
O Conde de Peyrac deu uma sonora gargalhada.
 -        Nunca ouvi uma afirmao to cmica. Eu, lanar-me a essas pesquisas pueris? Pobre Bcher! Deixo-lhe de bom grado todas as emoes e todas as esperanas 
da falsa cincia que pratica e...
Um estrondo terrvel, semelhante a um trovo ou a um canho-nao, o interrompeu. Joffrey se levantou e empalideceu.
 -        ...  no laboratrio. Meu Deus, contanto que Kuassi-Ba notenha morrido!
 E dirigiu-se apressadamente para a porta.
 O arcebispo tinha-se erguido como um juiz. Silencioso, encarava Anglica.
 - Eu me vou, minha senhora - disse finalmente. - Parece-me que nesta casa Satans j comea a manifestar o seu furor s pelo fato da minha presena. Permita que 
me retire.
 Distanciou-se a passos largos. Ouviu-se o estalo dos chicotes e os gritos do cocheiro, enquanto o coche episcopal atravessava o grande prtico.
 Ficando s, Anglica, atordoada, passou o pequeno leno pela fronte orvalhada de suor. Aquela conversa, que ela havia escutado atentamente, deixava-a desconcertada. 
Dizia consigo mesma que estava mais do que farta dessas histrias de Deus, de Salomo, de heresia e de magia. Depois, percebendo a irreverncia de seus pensamentos, 
fez um ato de contrio. Por fim deduziu que os homens eram insuportveis com suas sutilezas e que, no fundo, o prprio Deus devia estar cansado de atur-los.
 
 CAPTULO XIX
 
 Conversao cientfica entre Anglica e o conde
 
 Indecisa, Anglica no sabia o que fazer. Morria de desejo de ir  ala do palcio de onde viera aquele estampido. Joffrey parecera seriamente alarmado. Haveria 
feridos?... No obstante, ela no se mexia. O mistrio de que o conde cercava seus trabalhos tinha-lhe feito compreender que aquele era o nico domnio em que ele 
no admitia a curiosidade dos profanos. As explicaes que havia dado ao bispo no eram seno explicaes pela metade e por considerao  personalidade do visitante. 
Tinham sido insuficientes para acalmar as suspeitas do prelado.
 Anglica tremeu. "Bruxaria!" Olhou em redor de si. Naquele ambiente encantador, a palavra parecia um sinistro gracejo. Mas havia demasiadas coisas que Anglica 
ignorava.
"Vou ver o que houve", decidiu. "Se se aborrecer, pior para ele."
 Ouviu os passos de seu marido, que pouco depois entrou no salo. Tinha as mos negras de fuligem. No entanto, sorria.
 - Nada grave, graas a Deus. Kuassi-Ba s tem algumas escoriaes. Escondeu-se to bem debaixo de uma mesa que por um momento pensei que a exploso o tivesse volatilizado. 
Em compensao, os prejuzos materiais so grandes. Minhas mais preciosas retortas de vidro especial da Bomia esto em cacos; no sobrou nenhuma!
 A um aceno dele, dois pajens aproximaram-se com uma bacia e um gomil de ouro. Lavou as mos e desamassou com piparotes os punhos de renda.
Anglica recobrou a calma.
- necessrio, Joffrey, que dedique tantas horas a esses trabalhos perigosos?
 -   necessrio ter ouro para viver - disse o conde, mostrando com gesto circular o magnfico salo, cujo teto de madeira dourada havia feito repintar recentemente. 
- Mas a questo no  essa. Encontro nesses trabalhos um prazer que nenhuma outra coisa me pode dar. So o alvo da minha vida.
 Anglica sentiu uma pontada no corao, como se tais palavras a privassem de um bem precioso, mas, percebendo que seu marido a observava com ateno, esforou-se 
por assumir um ar indiferente. Ele sorriu.
 - So o nico alvo de minha vida, afora o de conquist-la - acrescentou com uma reverncia cortes.
 - No me situo como rival de seus frascos e retortas - disse Anglica prontamente. - No entanto, confesso-lhe que as palavras de monsenhor despertaram em mim certa 
inquietao.
- De verdade?
- No sentiu nelas uma ameaa disfarada?
 O conde no respondeu imediatamente. Encostado  janela, olhava pensativo os telhados planos da cidade, apertados uns contra os outros at formarem com suas telhas 
redondas um imenso tapete em que se misturavam as cores do trevo e da papoula.
 A direita, a alta torre de Asszat, com sua lanterna, dizia da glria dos negociantes de pastel, cujos campos se estendiam ainda pelos arredores. O pastel-dos-tintureiros, 
cultivado em abundncia, havia sido durante sculos a nica matria corante natural, e fizera a fortuna dos burgueses e dos comerciantes de Toulouse.
 Vendo que seu marido no falava, Anglica voltou a sentar-se na sua poltrona e um negrinho colocou perto dela a cesta em que se misturavam os lustrosos fios de 
seda de sua tapearia.
 O palcio estava agora calmo. Anglica esperava encontrar-se a ss com o Conde de Peyrac na refeio do meio-dia, a no ser que o inevitvel Bernardo d'Andijos 
se convidasse...
 -        Voc observou - disse de sbito o conde - a arte do grande inquisidor? Comea por falar da moral, sublinha, de passagem, as "orgias" da Gaia Cincia, faz 
aluso s minhas viagens e da nos conduz at Salomo. Em resumo, facilmente se percebe isto: que o Sr. Baro Benedito de Fontenac, Arcebispo de Toulouse, me pede 
que divida com ele meu segredo de fabricao de ouro, e, se me nego, me far queimar como feiticeiro na Place des Salins. 
 - Essa  precisamente a ameaa de que suspeitei - disse Anglica, espantada. - Acredita que ele imagina verdadeiramente que voc tem trato com o Diabo?
 - Ele? No. Isso ele deixa ao seu ingnuo Bcher. O arcebispo tem uma inteligncia bastante positiva e me conhece muito bem. Mas est convicto de que possuo o segredo 
de multiplicar cientificamente o ouro e a prata. Quer conhec-lo para poder utiliz-lo.
 -  um ser abjeto! - exclamou a jovem. - E no entanto parece to digno, to cheio de f, to generoso...
 - E realmente o . Emprega sua fortuna em boas obras. D comida aos oficiais pobres, mantm o servio do fogo, a casa dos expostos e no sei mais o qu. Dedica-se 
ao bem das almas e sente a grandeza de Deus. Mas tem o demnio da dominao. Sente saudade do tempo em que o nico dono de uma cidade e at de uma provncia era 
o bispo, de bculo na mo, que ministrava a justia, castigava, recompensava. E quando v crescer diante de sua catedral o prestgio da Gaia Cincia, ele se revolta. 
Se as coisas continuarem assim, dentro de alguns anos ser o Conde de Peyrac, seu esposo, minha querida Anglica, quem dominar Toulouse. O ouro e a prata do poder, 
e o poder est caindo agora nas mos de um sdito de Satans... Ento monsenhor no vacila. Ou dividimos o poder ou ento...
- Que suceder?
 - No se assuste, minha amiga. Embora as intrigas de um arcebispo de Toulouse nos possam ser nefastas, no vejo que seja preciso chegar a esse extremo. Ele descobriu 
seu jogo. Quer possuir o segredo da fabricao do ouro. Entregar-lho-ei com muito prazer.
 - Ento voc o possui? - murmurou Anglica, escancelando os olhos.
 - No confundamos as coisas. No possuo nenhuma frmula mgica para fazer ouro. Meu fim no  fabricar riquezas, mas fazer trabalhar as foras da natureza.
 - Mas isso no , por si s, uma idia um tanto hertica, como diria monsenhor?
Joffrey soltou uma gargalhada.
 -        Vejo que a catequizou muito bem. Voc comea a enredar-se na teia de suas argumentaes especiosas. Reconheo que nessas condies  difcil ver claro. 
A Igreja da Idade Mdia no excomungava os moleiros que utilizavam o vento ou a gua para fazer girar as aspas ou as rodas de seus moinhos. Mas a Igreja de hoje 
se levantaria contra mim se eu procurasse construir numa elevao dos arredores de Toulouse o mesmo modelo de bomba a vapor de gua condensada que fiz instalar em 
sua mina de Argentire! Ora, pelo simples fato de eu colocar sobre o fogo um recipiente de vidro ou de barro, no iria Satans introduzir-se nele...
 - A exploso foi impressionante. Monsenhor pareceu-me vivamente perturbado. Voc o fez de propsito, para p-lo fora de si?
 - No! Tive um descuido. Deixei secar demasiado uma preparao de ouro fulminante obtido por meio de ouro laminado e gua-rgia e precipitado em seguida pelo amonaco. 
No havia nessa operao nenhuma gerao espontnea.
- O que  essa coisa a que chama amonaco?
 - Um produto que os rabes j fabricavam h sculos e que denominavam "lcalis voltil". Um sbio monge espanhol, amigo meu, enviou-me no h muito um garrafo. 
Eu mesmo poderia fabric-lo aqui, mas o processo  demorado, e para adiantar minhas pesquisas prefiro comprar j preparados, quando possvel, os produtos de que 
necessito. A fabricao de ingredientes puros atrasa muito os progressos de uma cincia que os imbecis como o Frade Bcher designam pelo nome de qumica, por oposio 
 alquimia, que  para eles a cincia das cincias, isto , uma obscura mescla de fluido vital, de frmulas religiosas e no sei mais qu. Mas creio que a estou 
enfadando...
 - No, asseguro-lhe - disse Anglica com olhos brilhantes. - Passaria horas inteiras a escut-lo.
Ele teve um sorriso cuja ironia era acentuada pelas cicatrizes.
 -        Que curiosa cabecinha! Nunca pensei em falar destas coisas com uma mulher. A mim tambm me d prazer falar-lhe sobre estes assuntos. Tenho a impresso 
de que pode compreender tudo. Entretanto... voc no esteve a ponto de atribuir-me poderes ocultos quando chegou ao Languedoc? Continuo causando-lhe tanto medo?
Anglica ruborizou-se, mas retribuiu-lhe corajosamente o olhar.
 -        No! Voc continua sendo para mim um desconhecido, e isto, creio, porque no se parece com ningum, mas j no me causa medo.
 O conde dirigiu-se para o assento que havia ocupado atrs dela durante a visita do arcebispo. Em certos momentos, com insolente provocao, no temia erguer em 
plena luz seu rosto desfigurado, mas em outros buscava a sombra e a noite. Nesses instantes, sua voz adquiria entonaes novas, como se a alma de Joffrey de Peyrac, 
desembaraada de seu invlucro de carne, lograsse por fim exprimir-se livremente.
 Anglica sentia perto de si a invisvel presena do "homem vermelho" que tanto a tinha horrorizado. Certamente era o mesmo homem, mas a impresso da jovem havia 
mudado. Estava a ponto de lhe fazer a ansiosa interrogao feminina: "Voc me ama?"
 Mas seu orgulho falou mais alto, pois no se esquecera das palavras que ele havia dito: "Voc vir um dia... Todas vm..."
 Para dissipar sua perturbao, voltou a conduzir a palestra para o terreno cientfico, no qual, curiosamente, seus espritos se tinham encontrado e sua amizade 
se havia firmado.
 - J que voc no v inconveniente em ceder seu segredo, por que se nega a receber esse Frade Bcher que monsenhor tanto aprecia?
 - Ora essa! E verdade que eu podia comprazer-lhe nesse ponto. O que me preocupa, entretanto, no  revelar-lhe o meu segredo, mas chegar a faz-lo compreender. 
Em vo me empenharei em provar que se pode transformar a matria, mas no transmut-la. Os espritos que nos rodeiam ainda no esto maduros para tais revelaes. 
E o orgulho desses falsos sbios  to grande que ficariam escandalizados se eu lhes dissesse que meus dois auxiliares mais preciosos so um mouro de pele negra 
e um rstico mineiro saxo.
- Kuassi-Ba e Fritz Hauer, o velho corcunda de Argentire?
 - Exatamente. Kuassi-Ba contou-me que, quando era menino e livre, em alguma parte do interior de sua frica selvagem, aonde se chega pela Costa das Especiarias, 
tinha visto trabalhar o ouro segundo antigos processos aprendidos dos egpcios. Os faras e o Rei Salomo tinham l suas minas de ouro; mas .pergunto-lhe, querida: 
que dir monsenhor quando eu lhe confiar que quem guarda o segredo do Rei Salomo  meu negro Kuassi-Ba? Realmente foi ele quem me orientou em meus trabalhos de 
laboratrio e quem me deu a idia de tratar certas rochas que contm ouro invisvel. Quanto a Fritz Hauer,  o mineiro por excelncia, o homem das galerias, a toupeira 
que no respira seno no seio da terra. Estes mineiros saxes transmitem de pai a filho suas receitas, e graas a elas pude por fim orientar-me entre as caprichosas 
mistificaes da natureza e distinguir os mais diversos ingredientes: chumbo, ouro, prata, vitrolo, sublimado corrosivo e outros.
 - Voc chegou a fabricar sublimado corrosivo e vitrolo? - indagou Anglica, a quem estas palavras recordavam vagamente alguma coisa.
 - Precisamente, e isso me serviu para demonstrar a inanidade de toda a alquimia, pois do sublimado corrosivo posso extrair  vontade quer o azougue, quer o mercrio 
amarelo e vermelho, e estes ltimos corpos, por sua vez, eu posso voltar a transform-los em azougue. O peso do mercrio, tomado ao iniciar-se a operao, no aumentar, 
mas, ao contrrio, diminuir, porque existem perdas por evaporao. Mediante certos processos posso extrair prata do chumbo e ouro de algumas rochas aparentemente 
estreis. Mas, se  entrada de meu laboratrio eu inscrevesse as palavras: "Nada se perde, nada se cria", minha filosofia pareceria muito ousada e at em oposio 
ao esprito do Gnesis.
 - No  por um processo desse gnero que pode fazer chegar at Argentire os lingotes de ouro mexicano que adquire em Londres?
 - Voc  uma moa muito viva, e acho que Molines falou demais. No importa! Se falou,  porque a conhecia.  verdade, os lingotes espanhis so refundidos numa 
forja com pirita ou gale-na. Adquirem ento o aspecto de uma escria pedrosa e cinzento-escura, da qual o mais exigente dos guardas aduaneiros no pode absolutamente 
suspeitar. E esse minrio  que os bons muares de seu pai transportam da Inglaterra para o Poitou ou da Espanha para Toulouse, onde  de novo transformado por mim 
ou pelo meu saxo Hauer em belo ouro cintilante.
 - Isso  uma "fraude fiscal" - disse Anglica um tanto severamente.
 - Voc  adorvel quando fala assim. Esta fraude no prejudica o reino nem Sua Majestade, e a mim, enriquece-me. Alm disso, dentro em pouco farei vir Fritz Hauer 
a fim de aparelhar a mina de ouro que descobri num lugar chamado Salsigne, nos arredores de Narbonne. Ento, com o ouro dessa montanha e a prata do Poitou, no mais 
necessitaremos dos metais preciosos da Amrica, nem, por conseguinte, praticaremos esta fraude, como voc diz.
 - Por que voc no procura interessar o rei em suas descobertas? Talvez haja outros terrenos na Frana que possam ser explorados segundo seus processos, e o rei 
lhe ficaria agradecido.
 - O rei est longe, minha bela, e eu no tenho nada de corte-so. Somente as pessoas dessa espcie podem ter alguma influncia sobre os destinos do reino. O Sr. 
de Mazarino  dedicado  coroa, no o nego, mas , acima de tudo, um intrigante internacional. Quanto ao Sr. Fouquet, encarregado de arranjar dinheiro para o Cardeal 
Mazarino,  um gnio das finanas, mas creio que o enriquecimento do pas por uma explorao bem orientada de suas riquezas naturais lhe  indiferente.
 -        O Sr. Fouquet... - exclamou Anglica. -  isso! Agora me recordo onde ouvi falar de vitrolo romano e de sublimado corrosivo. Foi no Castelo do Plessis.
 Toda a cena revivia ante seus olhos: o italiano de burel, a mulher desnuda entre as rendas, o Prncipe de Conde e o cofrezinho de sndalo onde brilhava um frasquinho 
verde.
 "Meu padre", dizia o Prncipe de Conde, " o Sr. Fouquet quem o envia?"
 Anglica perguntava a si mesma se, ocultando aquele pequeno cofre, no haveria tolhido o brao do destino.
- Em que est pensando? - interrogou o Conde de Peyrac.
- Em uma aventura estranha que me sucedeu certa vez.
 E ela, que havia calado tanto tempo, contou-lhe a histria do cofrezinho, cujos detalhes estavam todos gravados em sua memria.
 -        A inteno do Sr. de Conde - acrescentou - era certamente envenenar o cardeal e talvez o prprio rei e seu jovem irmo.
Mas o que no cheguei a compreender bem foram aquelas cartas, espcie de compromissos assinados, que o prncipe e outros senhores deviam entregar ao Sr. Fouquet. 
Esqueci um pouco o texto... Era uma coisa assim: "Comprometo-me a obedecer ao Sr. Fouquet, e pr meus bens  sua disposio..."
Jofrey de Peyrac escutou-a em silncio. Depois sorriu.
 - Que boa gente! Quando se pensa que o Sr. Fouquet era ento apenas um obscuro parlamentar! Mas por sua aptido financeira podia j pr os prncipes a seu servio. 
Agora  a personagem mais rica do reino, com o Sr. Mazarino, entenda-se. O que prova que havia lugar para os dois ao bom sol de Sua Majestade. Ento, voc levou 
sua audcia a ponto de apoderar-se do cofrezinho? Voc o escondeu?
- Sim, es...
Uma prudncia instintiva, fechou-lhe de repente os lbios.
- No. Joguei-o no lago dos nenfares do grande parque.
 - E acredita que algum tenha suspeitado de voc por essa desapario?
 - No sei. No creio que tenham dado grande importncia  minha insignificante pessoa. Todavia, no deixei de fazer aluso ao cofre diante do Prncipe de Conde.
- Deveras? Mas foi uma loucura!
 - Precisava obter para meu pai a iseno dos direitos de passagem para os muares. Oh! At parece um romance - disse rindo -, e agora sei que indiretamente voc 
estava envolvido na histria. Mas voltaria de bom grado a praticar imprudncias semelhantes, s para ver de novo as caras assustadas daquela gente to cheia de empfia!
 Depois que Anglica lhe contou o incidente que tivera com o Prncipe de Conde, seu marido abanou a cabea.
 -        Quase me surpreendo de ainda v-la viva a meu lado. Voc deve ter parecido muito inofensiva, mas  sempre perigoso misturar-se como comparsa nessas intrigas 
de cortesos. Se fosse necessrio, no hesitariam em matar uma menina.
 Enquanto falava, levantou-se, e Anglica o viu acercar-se de um reposteiro, que ele abriu de inopino. Voltou com uma expresso de contrariedade.
- No sou bastante lesto para surpreender os curiosos.
- Algum nos escutava?
- Estou certo disso.
 - No  a primeira vez que tenho a impresso de que nos espreitam.
 O conde tornou a ocupar seu posto atrs dela. O calor se tornara mais intenso, mas subitamente a cidade comeou a vibrar ao som dos mil sinos que tocavam o ngelus. 
A jovem persignou-se devotamente e murmurou a orao  Virgem. Durante algum tempo Anglica e seu marido, sentados perto da janela aberta, no puderam trocar palavra. 
Permaneceram silenciosos, e aquela intimidade entre eles enterneceu profundamente Anglica.
 "No somente sua presena no me desgosta, como sou feliz", pensava admirada. "Se voltasse a beijar-me, ser que me desagradaria?"
 Como durante a visita do arcebispo, sentia o olhar de Joffrey sobre sua nuca branca.
 -        No, minha querida, eu no sou um mago - murmurou o conde. - Talvez haja recebido da natureza algum dom; mas, sobretudo, quis aprender. Compreende? - continuou 
num tom meigo que a encantou. - Tinha sede de conhecer todas as coisas difceis: as cincias, as letras e tambm o corao das mulheres. Curvei-me com deleite sobre 
esse mistrio sedutor. Por trs dos olhos de uma mulher supe-se que no existe nada, e descobre-se um mundo. Ou ento algum imagina um mundo e no descobre nada... 
a no ser um pequeno guizo. Que h por trs de seus olhos verdes, que evocam os prados ingnuos e o oceano tumultuoso?
 Anglica percebeu que ele se movia, e a esplndida cabeleira negra desceu sobre seus ombros nus como uma pelcia morna e se-dosa. Estremeceu ao contato dos lbios 
que sua nuca inclinada esperava inconscientemente. Com os olhos fechados, saboreando aquele beijo longo, ardente, Anglica sentia chegar a hora de sua derrota. Ento, 
tremente, ainda indcil, mas subjugada, ela viria, como as outras, oferecer-se ao amplexo daquele homem misterioso.
 
 CAPITULO XX
 
 Conan Bcher, sobrevivente da Idade Mdia
 
 Passado algum tempo, Anglica voltava de um passeio matinal pelas margens do Garonne. Gostava de montar a cavalo e a isso dedicava sempre algumas horas do amanhecer, 
quando ainda estava fresco. Joffrey de Peyrac raramente a acompanhava. Ao contrrio da maioria dos nobres, no se interessava pela equitao e pela caa. Poder-se-ia 
supor que ele temia os exerccios violentos, - se sua reputao de bom esgrimista no fosse quase to grande como a de cantor. Os golpes e paradas que executava, 
apesar de sua perna aleijada, eram, dizia-se, prodigiosos. Exercitava-se todos os dias na sala de armas do palcio, mas Anglica nunca o tinha visto esgrimir. Ignorava 
ainda muitas coisas a respeito dele, e, s vezes, com sbita melancolia, recordava as palavras que o arcebispo lhe havia murmurado no dia de seu casamento: "Aqui 
entre ns, a senhora escolheu um singular marido".
 Assim, depois de uma aparente aproximao, o conde parecia haver voltado, com relao a ela,  atitude respeitosa, mas distante dos primeiros tempos. Via-o muito 
pouco e sempre na presena de convidados, e perguntava a si mesma se a tumultuosa Carmen-cita de Mrecourt no seria a causa de tal afastamento. De fato, depois 
de uma viagem a Paris, a dama espanhola tinha voltado a Toulouse, onde sua exaltao punha todo mundo sobre brasas. Desta vez afirmava-se muito seriamente que o 
Sr. de Mrecourt ia encerr-la num convento. Se ainda no pusera em prtica sua ameaa, era por motivos diplomticos. Continuava a guerra com a Espanha, mas o Sr. 
de Mazarino, que havia muito procurava negociar a paz, recomendava que ningum fizesse qualquer coisa que pudesse ferir os melindres espanhis. A bela Carmencita 
pertencia a uma grande famlia madrilenha. As flutuaes de sua vida conjugai tinham, pois, maior importncia que as batalhas campais de Flandres, e em Madri sabia-se 
tudo, porque, apesar da rotura das relaes oficiais, mensageiros disfarados em monges, bufarinhei-ros ou mercadores no cessavam de atravessar os Pireneus.
 Carmencita de Mrecourt exibia, pois, em Toulouse, sua vida excntrica, e Anglica estava inquieta e magoada. Apesar do traquejo mundano adquirido no contato com 
aquela sociedade brilhante, no fundo continuava simples como uma flor do campo, rstica e suspicaz. No se sentia dotada para lutar contra uma Carmencita, e s vezes 
dizia a si mesma, com o corao ralado de cimes, que a espanhola se adaptava melhor do que ela ao carter original do Conde de Peyrac.
 S no domnio das cincias sabia que era a primeira mulher aos olhos do marido.
 Precisamente naquela manh, ao aproximar-se do palcio com sua escolta de pajens, senhores galantes e algumas jovens amigas de que gostava de cercar-se, avistou 
de novo, parada diante do prtico, uma carruagem com as armas do arcebispo. Viu descer uma alta e austera figura vestida de burel e depois um senhor enfitado, espada 
 cinta, e que parecia ter uma voz retumbante, pois de muito longe j se lhe ouviam as ordens e ofensas aos lacaios que o acompanhavam.
 -        A f de quem sou - disse Bernardo d'Andijos, que continuava sendo um dos fiis seguidores de Anglica -, parece-me que temos a o Cavaleiro de Germontaz, 
sobrinho de monsenhor. Livre-nos Deus!  um bruto e o pior nscio que conheo. Se quer meu conselho, minha senhora, passemos pelos jardins para evitar encontr-lo.
 Anglica e seus acompanhantes obliquaram  esquerda e, depois de haverem deixado os cavalos na estrebaria, dirigiram-se para o laranjal, que era um lugar muito 
aprazvel, rodeado de repuxos.
 Mal, porm, se sentaram para tomar uma colao de frutas e bebidas geladas, veio um pajem dizer a Anglica que o Conde de Peyrac a chamava.
 Na galeria de entrada encontrou seu marido em companhia do  gentil-homem e do frade que acabavam de chegar.
-        Eis aqui o monge Bcher, o ilustre sbio de quem monsenhor  nos falou - disse Joffrey. - Apresento-lhe igualmente o Cavaleiro de Germontaz, sobrinho de 
Sua Excelncia.
 O monge era alto e seco. Suas sobrancelhas proeminentes ocultavam uns olhos muito juntos, de olhar um tanto desigual, que ardiam com luz febril e mstica. Um comprido 
e magro pescoo, de tendes salientes, emergia da batina. Seu companheiro era o vivo contraste de sua figura. To alegre e apegado  boa vida como consumido estava 
o outro pela macerao, o Cavaleiro de Germontaz tinha as faces coradas e, para seus vinte e cinco anos, uma obesidade j muito respeitvel. Uma opulenta peruca 
loura caa sobre sua casaca de cetim azul ornada com fitas cor-de-rosa. Sua rhingrave era to ampla e suas rendas to abundantes que em meio quele excesso sua espada 
de gentil-homem parecia uma incongruncia. Com a pluma de avestruz do seu largo chapu de feltro, varreu o solo diante de Anglica e beijou-lhe a mo, mas, ao endireitar-se, 
lanou-lhe uma olhadela to atrevida que ela se indignou.
 -        Agora que minha mulher est aqui, podemos ir ao laboratrio - disse o Conde de Peyrac.
 O monge teve um sobressalto e deixou cair sobre Anglica um olhar de surpresa.
 -        Devo compreender que a senhora entrar no santurio e assistir s conversaes e experincias a que o senhor houve por bem associar-me?
 O conde fez uma visagem irnica e encarou seu convidado com insolncia. Sabia quanto impressionavam suas expresses a quem o via pela primeira vez, e divertia-se 
com isso.
 - Meu padre, na carta que enviei a monsenhor, e na qual consenti em receb-lo, segundo o desejo que ele me havia expressado vrias vezes, dizia-lhe que no se trataria, 
por assim dizer, seno de uma visita, e que a ela poderiam assistir pessoas de minha escolha. E ele ps ao seu lado o senhor cavaleiro, para o caso de seus olhos 
no conseguirem ver tudo aquilo que  preciso.
 - Mas, senhor conde, o senhor, um sbio, no ignora que a presena de uma mulher est em contradio absoluta com a tradio hermtica, a qual assegura que nenhum 
resultado pode ser conseguido entre fluidos contrrios...
 - Acredite, meu padre, que na minha cincia os resultados so sempre fiis e no dependem do humor nem da qualidade das pessoas presentes... 
 -         Isso me parece muito bom! - exclamou o cavaleiro com ar de regozijo. - No escondo que sinto mais atrao por uma bonita dama do que pelas garrafinhas 
e velhos potes. Mas meu tio empenhou-se em que eu acompanhasse Bcher para que me v enfronhando nos deveres de meu novo posto. Sim, meu tio vai comprar para mim 
o cargo de vigrio-geral de trs bispados. Mas  um homem terrvel. Faz-me esse favor sob uma condio: que eu me ordene sacerdote. Confesso que me contentaria com 
os benefcios.
 O pequeno grupo dirigiu-se para a biblioteca, que o conde queria mostrar-lhe preliminarmente. O monge Bcher, para quem esta visita era a realizao, durante longo 
tempo esperada, de um antigo desejo, fazia muitas perguntas a que Joffrey de Peyrac respondia com resignada pacincia.
 Anglica ia atrs, escoltada pelo Cavaleiro de Germontaz. Este no perdia ocasio de ro-la e dirigir-lhe olhares provocantes.
 "E mesmo um bruto", pensou. "Parece um gordo leito enfeitado de flores e rendas para a ceia do Natal."
 - O que no compreendo bem - disse Anglica em voz alta -  que relao pode ter uma visita ao laboratrio de meu marido com o seu novo posto eclesistico.
 - Eu tambm no, confesso-o, ms meu tio explicou-me isso longamente. Parece qe a Igreja  menos rica e poderosa do que se cr, e, sobretudo, do que deveria ser. 
Meu tio queixa-se tambm da centralizao do poder real em detrimento dos Estados, como o Languedoc. Pouco a pouco vo retirando atribuies s assemblias da Igreja 
e at ao Parlamento local, de que ele , como a senhora sabe, o presidente. Substituem-nas pela autoridade do intendente provincial e de seus esbirros da polcia, 
das Finanas e do exrcito. A essa invaso dos delegados irresponsveis do rei, meu tio quer opor a aliana dos altos personagens da provncia. E como v que seu 
marido vai acumulando uma fortuna colossal sem que disso se beneficiem nem a cidade nem a Igreja...
- Mas, senhor cavaleiro, sempre auxiliamos o arcebispado.
-        Isso no  suficiente. A aliana  o que ele deseja.
"Para um discpulo do grande inquisidor", pensou Anglica, "falta-lhe sutileza. A menos que esteja recitando uma lio bem decorada!"
 - Em resumo - disse ela -, monsenhor acha que todas as fortunas da provncia devem ser entregues s mos da Igreja?
- A Igreja deve ocupar o primeiro lugar.
 - Com monsenhor  frente! O senhor predica muito bem, fique certo disso. J no me admira que o destinem  eloqncia sagrada. Apresente meus parabns a seu tio.
 - Assim o farei, amabilssima senhora. Seu sorriso  encantador, mas creio que falta em seus olhos ternura para comigo. No esquea que a Igreja ainda  a primeira 
fora, mormente no Lan-guedoc.
 - Vejo que o senhor  um convicto aprendiz de vigrio, apesar de suas fitas e suas rendas.
 - A riqueza  um meio convincente. Meu tio tem sabido empreg-la em relao a mim. Servi-lo-ei o melhor que possa.
 Anglica fechou abruptamente o leque. J no se surpreendia de que o arcebispo confiasse em seu bem nutrido sobrinho. Apesar de seus caracteres opostos, sua ambio 
era a mesma.
 Na biblioteca, onde os contraventos mantinham a penumbra, algum se mexeu e dobrou-se em dois  aproximao do grupo.
 - Que faz aqui, maitre Clemente? - perguntou Joffrey, surpreso. - Ningum entra aqui sem minha permisso, e no creio ter-lhe dado a chave.
 - Desculpe-me, senhor conde. Estava fazendo eu mesmo a limpeza deste aposento, pois no queria confiar o arranjo destes livros preciosos a um criado menos cuidadoso.
 Juntou apressadamente esfrego, escova e banquinho e retirou-se esboando algumas mesuras.
 -        Decididamente - suspirou o monge -, vejo aqui coisas muito estranhas: uma mulher em um laboratrio, um criado na biblioteca tocando com suas mos impuras 
os livros que encerram todas as cincias... Enfim, verifico que tudo isso no diminui de maneira alguma sua reputao. Vejamos o que o senhor tem a!
 Reconheceu, ricamente encadernados, os clssicos da alquimia, tais como: Princpio da Conservao dos Corpos ou Mmias, de Pa-racelso, Alquimia, do grande Alberto, 
Hermtica, de Hermann Cou-ringus, Explicatione 1572, de Toms Erasto e, por fim, o que o encheu de contentamento, seu prprio livro: Da Transmutao.
 Tranqilo e confiante, acompanhou o anfitrio, que introduziu seus convidados na ala onde se encontrava o laboratrio.
  Ao se aproximarem, viram fumegar sobre o telhado uma grande chamin encimada por um cotovelo de cobre que aparentava um bico de ave apocalptica. Dai a pouco o 
aparelho se voltou para eles e, com um rudo caracterstico, deixou escapar de sua boca negra uma fumarada fuliginosa. O monge deu um salto para trs.
 -  apenas um cata-vento de chamin para ativar a tiragem dos fornos - explicou o conde.
- Em meu forno, quando venta muito, a tiragem funciona mal.
 - Aqui  ao contrrio, pois utilizo a depresso causada pelo vento.
- E o vento se pe a seu servio?
- Exatamente. Como quando faz funcionar um moinho.
- Em um moinho, senhor conde, o vento faz girar as ms.
- Em meu laboratrio os fornos no giram, mas aspira-se o ar.
- O senhor no pode aspirar o ar, que  feito de vcuo.
-        Vai ver, entretanto, que eu consigo uma tiragem infernal.
O frade benzeu-se trs vezes antes de atravessar a soleira atrs de Anglica e do conde, enquanto o negro Kuassi-Ba saudava solenemente com seu sabre curvo, que 
tornou a embainhar.
 No fundo da vasta pea ardiam dois fornos. Um terceiro, idntico, estava apagado. Diante dos fornos havia estranhos aparelhos feitos de couro e ferro, bem como 
tubos de barro e cobre.
 -        So os foles que emprego quando preciso de um fogo muito
forte; por exemplo, quando tenho de fundir cobre, ouro ou prata
- explicou Joffrey de Peyrac.
 Estantes de madeira corriam ao longo da sala principal. Estavam carregadas de potes e frascos que traziam etiquetas marcadas com sinais cabalsticos e algarismos.
 - Aqui tenho uma proviso de substncias diversas: enxofre, cobre, ferro, estanho, chumbo, brax, ouro-pigmento, sulfureto de arsnico, vermelho, mercrio, pedra-infernal, 
vitrolo azul e verde. Defronte, nestes garrafes, tenho cido sulfrico, gua-forte e cido clordrico. Na estante mais alta vem meus tubos e vasos de vidro, de 
ferro, de barro envernizado, e, mais alm, retortas e alambiques. Na salinha do fundo podem ver fragmentos de rocha aurfera, minrio arsenical e diversas pedras 
de onde se obtm por fuso a prata. Aqui tm prata crnea do Mxico, que consegui de um nobre espanhol que voltava de l.
 - O senhor conde quer zombar da pobre cincia de um monge, afirmando que esta matria cerosa  prata, pois nela no vejo nada que o denuncie.
- Ver isto agora mesmo - disse o conde.
 Apanhou um grande pedao de carvo vegetal num monte que se encontrava perto dos fornos e tirou uma vela de sebo de um vidro de b oca larga. Acendeu a vela na chama 
do forno cavou com uma ponta de ferro um pequeno buraco no carvo, colocou nele um gro de "prata crnea", que era de um cinza-amarelo sujo e semitranslcido, e 
juntou-lhe um pouco de brax, dizendo o que era. Depois, tomando um tubo de cobre recurvado, aproximou-o da chama da vela e soprou-o diretamente sobre o bu-raquinho 
cheio das duas substncias salinas. Elas se fundiram, bo-lharam e mudaram de cor, e em seguida apareceu uma srie de glbulos metlicos, que, soprando mais forte, 
o conde fundiu em um s disco brilhante.
 Afastou a chama e tirou com a ponta de uma faca o diminuto e cintilante lingote.
 - Eis a prata fundida que extra em sua presena desta rocha de estranho aspecto.
 - O senhor faz com a mesma simplicidade a transmutao do ouro?
 - No fao nenhuma transmutao; apenas extraio os metais preciosos dos minerais que j os contm, mas em estado no-metlico.
 O monge parecia pouco convencido. Tossiu fracamente e olhou em redor.
- Que so esses tubos e essas caixas pontudas?
 - Um sistema chins de aduo para fazer ensaios de lavagem e captar o ouro por meio do mercrio.
 Abanando a cabea, o religioso aproximou-se com circunspeco de um forno que roncava e no qual fervia lentamente o contedo de vrios crisis.
 -        E na verdade uma bela instalao - disse -, mas no se parece nem remotamente com o athanor ou a clebre "casa do frango do sbio".
Peyrac estourou de riso; depois, j sossegado, desculpou-se.
 -        Perdoe-me, meu padre, mas a ltima coleo dessas venerveis tolices foi destruda pela exploso do ouro tonante de que monsenhor foi testemunha h poucos 
dias.
Bcher teve uma expresso deferente.
- Monsenhor, com efeito, me falou disso. De modo que o senhor consegue fazer um ouro instvel e que explode?
- Chego at a fabricar um mercrio fulminante, para nada lhe ocultar.
- Mas e o ovo filosfico?
- Tenho-o na cabea!
- Est blasfemando! - disse o frade, agitado.
. - Que histria  essa de frango e de ovo? - exclamou Anglica. - Nunca me falaram sobre isso.
 Bcher lanou-lhe um olhar depreciativo. Mas, vendo que o Conde de Peyrac dissimulava um sorriso e que o Cavaleiro de Germontaz bocejava abertamente, contentou-se, 
 falta de melhor, com aquele modesto auditrio.
 -  no ovo filosfico que se consuma a Grande Obra - disse, fitando seu olhar penetrante nos olhos cndidos da jovem. - A produo da Grande Obra realiza-se sobre 
o ouro purificado, o Sol, e a prata fina, a Lua,  qual se deve misturar azougue, Mercrio. O hermetista submete-os, no ovo filosfico ou matraz selado, aos ardores 
crescentes e decrescentes de um fogo bem regulado, Vulcano. Isso tem por fim desenvolver no composto as potncias geradoras de Vnus, das quais a espcie visvel 
 a pedra filosofal, substncia regeneradora. Da por diante as reaes vo-se desenvolver no ovo segundo uma certa ordem: elas permitem observar a coco da matria. 
O importante, sobretudo,  atentar para as trs cores: negro, branco e vermelho, que indicam respectivamente a putrefao, a ablao e a rubefao da pedra filosofal. 
Em uma palavra, a alternncia de morte e ressurreio pela qual, segundo a antiga filosofia, deve passar, para reproduzir-se, toda substncia que vegeta. O esprito 
do mundo, mediador obrigatrio da alma e do corpo universal,  a causa eficiente das geraes de toda espcie, aquela que vitaliza os quatro elementos. Este esprito 
est contido no ouro, mas permanece nele inativo e prisioneiro. Cabe ao sbio libert-lo.
 - E como se procede, meu padre, para libertar esse esprito que est na base de tudo e que  prisioneiro do ouro? - perguntou mansamente o Conde de Peyrac.
 Mas o alquimista era insensvel  ironia, Com a cabea lanada para trs, seguia seu velho sonho.
 -        Para libert-lo precisa-se da pedra filosofal. E nem mesmo ela basta.  necessrio dar-lhe impulso com auxlio da plvora de projeo, comeo do fenmeno 
que transformar tudo em ouro puro.
  Ficou silencioso por um instante, mergulhado em seus pensamentos.
 - Depois de anos e anos de pesquisas, creio poder dizer que cheguei a certos resultados. Assim, juntando o mercrio de filsofos, princpio fmea, com o ouro, que 
 macho, mas um ouro escolhido, puro e em folhas, pus a mistura no athanor ou casa do frango do sbio, santurio ou tabernculo que todo laboratrio de alquimista 
deve possuir. Esse ovo, que era uma retorta em forma oval perfeita e hermeticamente fechada, para que nada da matria pudesse evolar-se, foi colocado por mim num 
tabuleiro cheio de cinzas e metido no forno. Desde ento, esse mercrio, graas ao calor e ao enxofre interior excitado pelo fogo que eu mantinha continuamente no 
grau e na proporo necessrios, esse mercrio chegou a dissolver o ouro sem violncia e o reduziu ao estado de tomos. Ao fim de seis meses obtive um p negro que 
denominei "trevas cimrias". Com esse p foi-me possvel transformar certas partes de objetos de metal vil em ouro puro, mas, ai de mim! O germe vital do meu purum 
aurum no era ainda suficientemente forte, pois nunca pude transform-las em profundidade e completamente!
 - Mas o senhor procurou, meu padre, fortalecer esse germe moribundo? - indagou Joffrey de Peyrac, enquanto um relmpago divertido lhe brilhava nos olhos.
 - Procurei, e em duas ocasies creio ter estado muito perto da meta. Da primeira vez procedi assim: fiz digerir, durante doze dias, sucos de mercurial, beldroega 
e celidnia em estreo. Depois destilei o produto e obtive um lquido vermelho, que voltei a derramar no estreo. Nasceram vermes que se devoraram uns aos outros, 
ficando um sozinho. Alimentei esse verme nico com as trs plantas precedentes, at que engordasse. Ento queimei-o e misturei suas cinzas com leo de vitrolo e 
com p das trevas cimrias. Mas tudo isso foi de pobre resultado.
-        Que nojo! - exclamou o Cavaleiro de Germontaz.
Anglica lanou um olhar espantado a seu marido, mas este permanecia impassvel.
- E da segunda vez?
- Da segunda vez tive uma grande esperana. Foi quando um viajante que havia naufragado em praias desconhecidas me entregou terra virgem que nenhum homem antes dele 
havia pisado, segundo me afirmou. Com efeito, a terra absolutamente virgem encerra a semente ou o germe dos metais, isto , a verdadeira pedra filosofal. Mas, sem 
dvida, aquela poro de terra no era completamente virgem - concluiu o sbio monge com ar lastimoso -, pois no obtive os resultados que esperava.
 Agora tambm Anglica sentia desejo de rir. Um tanto precipitadamente, para mascarar sua hilaridade, perguntou:
 -        Mas voc mesmo, Joffrey, no me contou que uma vez nau
fragara em uma ilha deserta coberta de brumas e de gelo?
 O monge Bcher estremeceu e com olhos iluminados segurou o Conde de Peyrac pelos ombros.
 - Naufragou numa terra desconhecida? Eu bem que o suspeitava. O senhor , pois, aquele de quem falam os nossos escritos hermticos, o que volta da "parte posterior 
do mundo, onde se ouve rugir o trovo, soprar o vento, cair o granizo e a chuva".  nesse lugar que se encontra a coisa.
 - Havia ali um pouco do que descreveu - disse com indiferena o gentil-homem. - Acrescentarei que tambm havia uma montanha de fogo no meio de gelos que me pareciam 
eternos. Nenhum habitante. So as paragens da Terra do Fogo. Fui salvo por um veleiro portugus.
 - Daria minha vida e at minha alma por um pouco dessa terra virgem! - exclamou Bcher.
-        E pena, meu padre! Confesso que no me ocorreu traz-la.
O monge lanou-lhe um olhar desconfiado, e Anglica viu muito bem que ele no acreditava.
 Os olhos claros da jovem iam de um para outro dos trs homens que se achavam diante dela naquele estranho ambiente. Encostado ao suporte de tijolos de um de seus 
fornos, Joffrey de Peyrac, o Grande Coxo do Languedoc, deixava cair sobre seus interlocutores um olhar altaneiro e irnico. No se esforava por ocultar o pouco 
apreo em que tinha o velho Dom Quixote da alquimia e o Sancho Pana enfitado. A vista daqueles dois grotescos, Anglica o achou to grande, to livre e to extraordinrio 
que um sentimento excessivo dilatou seu corao at faz-lo doer.
 "Amo-o", pensou subitamente. "Amo-o e tenho medo. Ai, meu Deus! Que no lhe faam mal! No antes... No antes..."
 Receosa, no se atrevia a completar seu desejo: "No antes de me haver estreitado em seus braos".
 
 CAPITULO XXI
 
 Corte de Amor no Palcio da Gaia Cincia
 
 -O amor - disse Joffrey de Peyrac -, a arte do amor  a preciosssima qualidade de nossa raa. Viajei por muitos pases, e em toda parte vi que nos concedem essa 
primazia. Rejubilemo-nos, senhores, e vocs, senhoras, entonem a cabea, mas tenhamos todos muito cuidado. Porque nada  mais frgil que esta reputao se no a 
sustiverem um corao sutil e um corpo sbio.
 Inclinou o rosto, mascarado de veludo muito negro na moldura de sua basta cabeleira, e viu-se brilhar seu sorriso.
 - E por isso que estamos reunidos neste Palcio da Gaia Cincia. Todavia, no lhes convidarei a voltar ao passado. Evocarei, certamente, nosso mestre de A Arte 
de Amar, que antigamente despertou os coraes dos homens para o sentimento amoroso, mas no desprezaremos o que os sculos seguintes ofereceram para o nosso aperfeioamento: 
a arte de conversar, de entreter, de fazer brilhar o prprio esprito e tambm, gozo mais simples mas que tem sua importncia, a arte da boa mesa, para se ter disposio 
amorosa.
 - Ah! Isso me agrada mais - berrou o Cavaleiro de Germon-taz. - O sentimento... Bolas! Eu como meio javali, trs perdizes e seis frangos, entorno uma garrafa de 
champanha, e vamos, minha bela, para a cama!
 - E quando a tal bela se chama Sra. de Montmaure, conta ela que o senhor sabe ressonar muito bem e muito ruidosamente, mas que isso  tudo quanto faz no leito.
 - Ela conta isso? Oh, traidora!  verdade que uma noite, por causa de uma indigesto...
Uma cachinada geral interrompeu o gordo cavaleiro, que, fazendo boa cara ao mau tempo, levantou a tampa de prata de uma das terrinas e pegou com dois dedos uma asa 
de ave.
 - Eu, quando como, como. No sou como vocs, que misturam tudo e procuram pr refinamento onde ele no faz falta alguma.
 - Porquinho grosseiro - disse calmamente o Conde de Pey-rac -, com que prazer o contemplo! Personifica muito bem tudo aquilo que desterramos de nossos costumes, 
tudo o que detestamos. Vejam, senhores, e vocs, senhoras: aqui est o descendente dos brbaros, daqueles cruzados que vieram  sombra de seus bispos acender milhares 
de fogueiras entre Albi, Toulouse e Pau. To ferozmente invejavam esta terra encantadora, onde se cantava o amor s damas, que a reduziram a cinzas e fizeram de 
Toulouse uma cidade intolerante, desconfiada, com olhos duros de fantica. No esqueamos....
"No deveria falar assim", pensou Anglica.
 Porque, se muitos convivas riam, havia em certos olhos negros um fulgor cruel. Era uma coisa que sempre a surpreendia, aquele ressentimento das pessoas do Midi 
por um passado de h quatro sculos. Mas o horror dos albigenses  cruzada devia ter sido tal que ainda se ouvia nos campos as mes ameaarem as crianas de chamar 
o terrvel Monfort.
 Joffrey de Peyrac atiava aquele dio, menos por fanatismo provincial do que por averso a toda estreiteza de esprito, a toda grosseria e estupidez.
 Sentada no outro extremo da imensa mesa, Anglica o via metido numa roupa vermelha constelada de diamantes. Seu rosto mascarado e seus cabelos negros realavam 
a brancura da alta gola de rendas de Flandres, dos punhos da camisa e tambm de suas mos longas e geis, com um anel em cada dedo.
Ela trajava de branco, e isso recordava-lhe singularmente o dia de seu casamento. Daquela vez, os mais importantes senhores do Languedoc e da Gasconha estavam presentes 
e ocupavam as duas grandes mesas do banquete, servido na galeria do palcio. Mas hoje no havia nem ancios nem eclesisticos naquela brilhante sociedade. Agora 
que Anglica podia ligar um nome a cada rosto, reconhecia que a maior parte dos casais que a rodeavam naquela noite eram ilegtimos. Andijos tinha levado sua amante, 
uma vistosa parisiense; a Sra. de Saujac, cujo marido era magistrado em Montpellier, reclinava ternamente a cabea morena no ombro de um capito de bigode louro. 
Alguns cavalheiros, que tinham vindo ss aproximavam-se de damas bastante audaciosas e independentes para se dirigirem sem acompanhante  clebre Corte de Amor.
 Aqueles homens e mulheres, luxuosamente vestidos, davam uma impresso de juventude e beleza. Os candelabros e as tocheiras faziam cintilar o ouro e as pedras preciosas. 
As janelas da sala estavam abertas de par em par sobre a morna noite primaveril. Para afastar os mosquitos queimavam-se em caoilas folhas de citrone-la e incenso, 
e o aroma se misturava, capitoso, ao dos vinhos.
 Anglica se sentia rstica e deslocada, como uma flor do campo em um canteiro de rosas.
 No entanto, estava belssima, e seu porte nada tinha que invejar ao das mais distintas damas.
 A mo do pequeno Duque de Forba des Ganges roou-lhe o brao nu.
 -        Que pena, minha senhora - cochichou -, que semelhante
dono a possua! Pois esta noite no tenho olhares seno para voc.
Anglica bateu-lhe nos dedos com a ponta do leque.
 - No se apresse a pr em prtica o que aqui lhe ensinam. Escute primeiro as sensatas palavras da experincia: "Ai daquele que se precipita e gira ao sabor dos 
ventos!" Ainda no observou que narizinho travesso e que faces rosadas tem sua vizinha da direita? Disseram-me que  uma viuvinha que se alegraria se a consolassem 
da morte de um marido muito velho e resmungo.
- Graas por seus conselhos, minha senhora.
- "Amor novo desterra o antigo", diz mestre Le Chapelain.
 - Devo seguir todo ensinamento de sua boca encantadora. Permita-me que lhe beije os dedos, e prometo-lhe ocupar-me da viuvinha.
 Na outra extremidade da mesa havia surgido uma discusso entre Cerbalaud e o Sr. de Castel-Jalon.
 - Sou pobre como um mendigo - dizia o ltimo -, e no oculto que vendi uma jeira de vinha para poder vestir-me decentemente e vir aqui. Mas acho que no  preciso 
ser rico para se fazer amar.
 - Nunca ser amado com ternura. No mximo, seu idlio ser o de um infeliz que acaricia com uma das mos sua garrafa e com a outra sua amiga, pensando com tristeza 
nas moedas penosamente ganhas com que ter de pagar uma e outra.
- Afirmo que o sentimento...
O sentimento no se cultiva na pobreza...
Joffrey de Peyrac estendeu as mos sorrindo.
- Paz, senhores! Escutem o antigo mestre cuja humana filosofia deve decidir todos os nossos debates. Eis aqui as palavras com que abre seu tratado A Arte de Amar: 
"O amor  aristocrtico. Para ocupar-se de amor,  preciso no ter preocupaes com a vida material, e no se deve estar premido por ela at o ponto de contar o 
tempo de cada dia". Portanto, sejam ricos, senhores, e cumulem de jias as suas belas. O brilho de uns olhos femininos ante um adorno est muito prximo de transformar-se 
em relmpago de amor. Pessoalmente, adoro o olhar que uma mulher lana ao seu espelho. Senhoras, no protestem e no sejam hipcritas.
Apreciam aquele que as desdenha a ponto de no procurar fazer mais deslumbrante a sua beleza?
As damas riram e murmuraram.    
 - Mas eu sou pobre! - exclamou Castel-Jalon em tom lamen-toso. - No seja to duro, Peyrac. Devolva-me a esperana!
- Torne-se rico.
- Isso  fcil de dizer!
 - Sempre  fcil de fazer para quem o quer. Pelo menos no seja avaro. "A avareza  o pior inimigo do amor." Se  mendigo, no conte seu tempo nem suas proezas; 
faa mil loucuras e, sobretudo, faa rir. "O tdio  o verme que ri o amor." No  certo, senhoras, que preferem um bufo a um sbio solene? Enfim, dou-lhe o ltimo 
consolo: "S o mrito faz algum ser digno de amor".
"Que bela voz e como fala bem!", pensava Anglica.
 O beijo do duquezinho deixara em seus dedos uma sensao de queimadura. Dcil, havia-se afastado dela imediatamente e agora se inclinava sobre a viuvinha de faces 
coradas. Anglica estava s e, atravs da longa mesa e do fumo azul das caoilas, seu olhar no se apartava do vulto vermelho do dono da casa. Ele a veria? Lanar-lhe-ia 
por ventura um olhar por trs daquela mscara com que velava seu rosto desfigurado? Ou quem sabe, desenvolto e indiferente, no faria seno saborear, como consumado 
epicurista, o amvel duelo de palavras?
 -        Saiba que estou muito decepcionado! - exclamou o jovem Duque de Forba des Ganges, erguendo-se um pouco. -  a primeira vez que assisto a uma Corte de Amor, 
e esperava, confesso, uma agradvel libertinagem, e no ouvir uma frase to austera: "S o mrito faz algum ser digno de amor". Teremos de converter-nos em santinhos 
para conquistar nossas damas?
- Deus o livre, senhor duque - respondeu a viuvinha rindo.
 - O desafio  srio - disse Andijos. - Voc me amaria coroado de uma aurola, minha querida?
- Claro que no.
 - Por que confinam o mrito aos altares? - exclamou Joffrey de Peyrac. - O mrito  ser louco, alegre fanfarro, cavalheiro, verse-jador e, sobretudo...  o que 
lhes desejo, senhores... amante hbil e sempre disposto. Nossos pais opunham o amor corts ao amor sensual. Mas eu lhes direi: aproveitemos o que  bom de um e do 
outro.  preciso amar verdadeira e completamente, isto , carnalmente.
Calou-se um instante e continuou em voz mais baixa:
 - Mas no desprezemos a exaltao sentimental que, sem ser alheia ao desejo, o purifica e sublima. Entendo que, quem quiser conhecer o amor deve submeter-se a esta 
disciplina do corao e dos sentidos, que recomenda Le Chapelain: "Um homem deve amar uma s mulher de cada vez. Uma mulher deve amar um s homem". Escolham-se, 
amem-se, separem-se quando chegar o cansao, mas no sejam desses amantes volveis que se entregam  embriaguez das paixes, bebem em todos os copos ao mesmo tempo 
e transformam as cortes dos reinos em lupanares.
 - Por So Severino! - exclamou Germontaz emergindo de seu prato. - Se meu tio o arcebispo o ouvisse, ficaria perplexo. O que diz no tem p nem cabea. Em toda 
a minha vida jamais me ensinaram tais coisas.
 - Ensinaram-lhe to poucas coisas, senhor cavaleiro!... Que h em minhas palavras que tanto o choca?
- Tudo. O senhor prega a fidelidade e a libertinagem, a decncia e o amor carnal. E logo, como se estivesse no plpito, censura a "embriaguez das paixes". Repetirei 
esta expresso a meu tio, 0        arcebispo. Sem dvida que a far ressoar no prximo domingo, em plena catedral.
 -        Minhas palavras so de prudncia humana. O amor  inimigo dos excessos. Nisto, como quando se trata de comer bem, prefiramos a qualidade  quantidade. 
O limite do prazer est onde comeam a fadiga e a nusea da desvergonha. Mas ser capaz de saborear um beijo sbio aquele que come feito um porco e bebe como um 
tanque?
 -        Devo reconhecer-me nessa descrio? - grunhiu o Cavaleiro de Germontaz com a boca cheia.
Anglica pensou que, pelo menos, ele no tinha mau carter.
Mas por que Joffrey se comprazia em provoc-lo? Ele prprio, entretanto, no ocultava o perigo daquela presena desagradvel.
 -        O arcebispo nos manda seu sobrinho como espio - dissera  sua mulher na vspera do festim.
E acrescentara:
- Sabia que a guerra est declarada entre ns?
- Que sucedeu, Joffrey?
 - Nada. Mas o arcebispo quer o segredo da minha fortuna ou talvez minha prpria fortuna. No mais me largar.
- Ir defender-se, Joffrey?
 - Como for possvel. Infelizmente ainda no nasceu quem possa eliminar a estupidez humana.
 Os serviais haviam retirado os pratos. Oito pequenos pajens entraram com cestas de rosas, outros com pirmides de frutas. Diante de cada conviva colocaram-se pratinhos 
com doces e confeitos.
 -        Muito me apraz ouvi-lo falar de maneira to simples do amor carnal - disse o jovem Cerbalaud. - Saiba que estou loucamente apaixonado e, no entanto, me 
encontro sozinho nesta reunio. No creio que faltasse ardor a minhas declaraes, e, sem jactncia, houve momentos em que tive a impresso de que a minha chama 
era compartilhada. Mas, ai de mim! Minha amada  muito esquiva. Quando me permitia um gesto atrevido, recebia em troca olhares cruis e uma frieza significativa. 
H meses que vivo neste diablico manejo: conquist-la provando-lhe a minha paixo e perd-la cada vez que procuro provar-lha!
 A desventura de Cerbalaud divertiu os circunstantes. Uma dama abraou-o amplamente e beijou-o na boca. Quando o alarido se acalmou um pouco, Joffrey de Peyrac disse 
amavelmente:
 - Tenha pacincia, Cerbalaud, e lembre-se de que as jovens aris-cas so as que podem chegar s maiores voluptosidades. Mas precisam de um amante hbil que nelas 
dissolva no sei que escrpulo que as faz confundir o amor com o pecado. Desconfie tambm das donzelas que muito amide confundem amor com casamento. Agora citar-lhe-ei 
alguns preceitos: "Ao se entregar aos prazeres do amor, no ultrapasse o desejo de sua amada; quer lhe de, quer dela receba os prazeres do amor, observe sempre certo 
pudor". E para terminar: "Fique sempre atento s ordens das damas.
- Acho que o senhor d demasiadas vantagens s mulheres - protestou um nobre, que recebeu como castigo uma sova de lequs. - Ao ouvi-lo, parece que estamos obrigados 
a morrer de amor a seus ps.
 - Mas est certo! - aprovou a amante de Bernardo d'Andijos. - Sabe como chamamos em Paris aos jovens que nos fazem a corte, a ns, as "preciosas"? "Moribundos."
 - Eu no quero morrer - disse Andijos. - Meus rivais que morram.
- Ser que devemos permitir s damas todos os seus caprichos?
- Evidentemente.
- Elas nos desprezaro...
- E nos enganaro...
- Deve algum admitir que o enganem?
 - Certamente que no - disse Joffrey de Peyrac. - Batam-se em duelo, senhores, e matem os vossos rivais. "Quem no tem cime no pode amar." "Uma suspeita sobre 
minha amante, e o fogo do amor aumenta!"
- Esse Chapelain do diabo pensou em tudo!
 Anglica levou o copo aos lbios. Circulava-lhe o sangue mais depressa, e ela se ps a rir. Divertia-se com aqueles finais de banquete entre pessoas do sul, quando 
de repente estrepitavam as vozes, trocavam-se motejos e desafios e um nobre puxava da espada, enquanto outro afinava a guitarra.
-        Canta, canta! - gritaram de sbito. - A Voz do Reino!
Num dos balces da galeria, os msicos comearam a tocar em surdina. Anglica viu que a viuvinha reclinava a cabea no ombro de Germontaz. Com dedos geis, tirava 
pastilhas e levava-as  boca. Sorriam um para o outro.
 No cu sereno apareceu a lua redonda e lmpida. Joffrey de Peyrac fez um sinal, e um criado foi de candelabro em candelabro apagando as velas. Tudo ficou escuro, 
mas pouco a pouco os olhos se acostumaram  suave claridade lunar. As vozes tinham baixado de tom, e na sbita tranqilidade ouviam-se os suspiros dos pares enlaados. 
J alguns se haviam erguido e passeavam pelos jardins ou pelas galerias abertas s brisas embalsamadas da noite.
 -        Senhoras - voltou a dizer a voz grave e harmoniosa de Joffrey de Peyrac -, e vocs, senhores, sejam, pois, bem-vindos ao Palcio da Gaia Cincia. Durante 
alguns dias palestraremos muito e comeremos  mesma mesa. Tm aposentos preparados nesta Gorada. A encontraro vinhos finos, pastis, sorvetes... e leitos confortveis. 
Durmam sozinhos, se estiverem indispostos. Acolham o amigo ou amiga de uma hora... ou de toda a sua vida, se assim o quiserem. Comam, bebam, amem, sejam, porm, 
discretos, porque "o amor, para conservar todo o seu sabor, no deve ser divulgado". Um conselho mais... e este  para vocs, senhoras. Saibam que a preguia  tambm 
um dos grandes inimigos do amor. Nos pases em que a mulher ainda  escrava do homem, no Oriente e na frica, a ela  que incumbe, como regra, esforar-se por levar 
seu dono ao prazer. Sob nossos cus civilizados  verdade que lhes outorgaram demasiadas vantagens. Muitas vezes abusam delas correspondendo aos nossos ardores com 
languidez... que no est muito longe do torpor. Aprendam, pois, a prodigalizar suas carcias, do que sero recompensadas pelo mais intenso gozo: "Homem apressado, 
mulher passiva, amantes sem prazer". Terminarei com uma confidencia de carter gastronmico. Senhores, lembrem-se de que o vinho da Champagne, algumas garrafas do 
qual encontraro  sua cabeceira, tem mais imaginao que constncia. Por outros termos: para preparar-se para o combate no convm que dele bebam demasiado. Mas 
nenhum vinho  mais glorioso para celebrar a vitria, reconfortar aps uma noite feliz e conservar ardor e fora. Senhoras, eu as sado.
 Fez recuar sua poltrona, cruzou os ps sobre a mesa, e, tomando a guitarra, ps-se a cantar. Seu rosto mascarado voltava-se para a lua.
 Anglica sentiu-se horrivelmente s. Naquela noite, um mundo antigo renascia das prprias cinzas  sombra da torre de Arszat. Toulouse, a clida, recuperava seu 
esprito. A volpia tinha ali direito de cidade, e aquela criatura, cheia de vigor e juventude, no podia permanecer insensvel. Quase todos os convidados tinham 
deixado a sala. Alguns, na reentrncia das janelas, com um copo de licor na mo, trocavam gracejos. A Sra. de Saujac beijava seu capito. A longa e tpida soire, 
tornada mais suave pelos vinhos finos, manjares delicados, msica e flores, terminava sua obra entregando o Palcio da Gaia Cincia  magia do amor.
 O homem vermelho continuava cantando, mas tambm ele estava s.
 "Que espera ele?", pensava Anglica. "Que eu v lanar-me a seus ps dizendo-lhe 'Sou sua!'?"
Presa de longo estremecimento, fechou os olhos.
 Tudo nela era perturbao e contradies. Enquanto na vspera tinha estado prestes a ceder, nesta noite rebelava-se contra a seduo: "Ele atrai as jovens com seus 
cantos". De longe, isso lhe havia parecido to terrvel, e de perto era to maravilhoso. Levantou-se e saiu, dizendo a si mesma que "fugia da tentao". Mas, em 
seguida, lembrando-se de que aquele homem era seu esposo perante Deus, sacudiu a cabea desesperadamente. Estava desorientada. Havendo recebido uma educao das 
mais severas, sentia-se temerosa ante uma vida demasiado livre. Era de uma poca em que toda fraqueza se pagava com remorsos.
 Algumas das mulheres que nessa noite se lanariam, suspirando, nos braos de seus amantes iriam no dia seguinte, em pranto, ajoelhar-se diante de um confessor, 
pedindo para serem internadas num convento, de vu na cabea, para expiar suas faltas. Anglica compreendia que Joffrey de Peyrac no queria escraviz-la ao matrimnio, 
mas ao amor.
 Tivesse ela casado com outro, ele procederia da mesma forma. Teria razo a ama Fantina quando afirmava que aquele homem estava a servio do Diabo?
 Ao descer a escadaria, passou por um casal que se abraava. A mulher murmurava queixosa uma pequena splica. Naquele palcio to cheio de suspiros, Anglica, de 
vestido branco, vagava pelos jardins. Viu Cerbalaud, tambm sozinho, caminhando atravs das alias, imaginando, sem dvida, as frases com que tentaria conquistar 
sua bem-amada. Anglica sorriu.
 "Pobre Cerbalaud! Continuar fiel ao seu amor ou o abandonar por outra jovem menos cruel?"
 Com passo inseguro, o Cavaleiro de Germontaz descia tambm a escada. Deteve-se junto de Anglica, bufando ruidosamente.
 - O diabo leve essas momices e melindres das pessoas do sul! Minha amiguinha, que at h pouco me havia demonstrado sua .boa vontade, acaba de plantar-me uma bofetada. 
Parece que no. sou bastante delicado para ela.
 - Certamente  porque, entre um comportamento libertino e um comportamento eclesistico, ter de escolher. Talvez o que o faz sofrer  no haver decidido ainda 
sobre a sua vocao.
 Muito vermelho, Germontaz aproximou-se tanto dela que seu hlito avinhado lhe alcanou o rosto.
 -        O que me faz sofrer  que me espetem bandarilhas, como a um touro, as delambidas de sua espcie. Mulheres! Veja como as trato.
E, sem que Anglica pudesse esboar um movimento de defesa, ele agarrou-a brutalmente e levou-lhe aos lbios sua boca mida e gorda. Ela se debateu repugnada.

CAPITULO XXII

Duelo do Conde de Peyrac com o sobrinho do arcebispo - Anglica, afinal, conhece o amor

- Sr. de Germontaz - disse de sbito uma voz.
 Morta de medo, Anglica viu no alto da escada o vulto vermelho do Conde de Peyrac. Este arrancou a mscara e jogou-a para trs. Ela viu, ento, como um rosto podia 
tornar-se terrvel a ponto de fazer tremer os mais impassveis. O conde foi descendo lentamente, acentuando a coxeadura, mas, ao chegar ao ltimo degrau, brilhou 
um relmpago em seus olhos, enquanto ele puxava da espada.
 Germontaz havia recuado, cambaleando um pouco. Atrs de Jof-frey de Peyrac desciam tambm Bernardo d'Andijos e o Sr. de Castel-Jalon. O sobrinho do arcebispo olhou 
para o lado dos jardins e viu Cerbalaud, que se aproximara. Soltou um bufido.
- ...  uma armadilha - balbuciou. - Querem assassinar-me!
 - A armadilha est em voc mesmo, porco! - respondeu An-dijos. - Quem o mandou desonrar a mulher de seu anfitrio?
 Tremendo, Anglica procurava cobrir o peito com o seu corpe-te rasgado. No era possvel! No deveriam bater-se! Era preciso intervir... Joffrey arriscava a vida 
com aquele homenzarro em pleno vigor!...
 Joffrey de Peyrac continuou avanando. De repente, parecia que toda a flexibilidade de um pelotiqueiro se havia apoderado de seu corpo disforme. Quando estava bem 
perto do Cavaleiro de Germontaz, encostou-lhe no ventre a ponta da arma e disse:
-        Defenda-se!
Obedecendo aos reflexos de uma educao militar, o outro de-sembainhou a espada e os ferros se cruzaram. Por alguns instan tes a luta foi to renhida que por duas 
vezes se chocaram as guardas e os rostos dos duelistas estiveram a trs ou quatro polegadas de distncia um do outro.
 Mas sempre o Conde de Peyrac arrancava com agilidade. Compensava, com aquela rapidez, a desvantagem da sua perna mais curta. Quando Germontaz conseguiu acu-lo 
ao p da escada at obrig-lo a subir alguns degraus, pulou subitamente por cima do corri-mo, e o cavaleiro mal teve tempo de se voltar para fazer-lhe frente de 
novo. J comeava Germontaz a fatigar-se. Conhecia a fundo todas as sutilezas da esgrima, mas aquele jogo extremamente rpido o perturbava. A espada do conde rasgou-lhe 
a manga direita e arranhou-lhe o brao. Era apenas uma ferida superficial mas sangrava abundantemente. O brao atingido, que sustentava a espada, no tardou a entorpecer. 
O cavaleiro batia-se com dificuldade cada vez maior. Em seus grandes olhos salientes via-se agora o pnico. Os de Peyr;rc brilhavam sinistramente; no haveria perdo. 
Anglica leu neles uma sentena de morte.
 Mordia os lbios at gritar de dor, mas no se atrevia a fazer um movimento. Subitamente, fechou os olhos. Ouviu-se uma espcie de grito surdo e profundo, como 
o do lenhador ao golpear um tronco.
Quando olhou de novo, viu que o Cavaleiro de Germontaz estava estirado sobre o lajedo de mosaico e que a guarda de uma espada lhe saa da ilharga. O Grande Coxo 
do Languedoc inclinava-se sobre ele com um sorriso.
- Momices e melindres - disse calmamente.
 Retomou o punho da arma e puxou-a com um gesto amplo. Algo esguichou com um fraco rudo e Anglica viu sobre seu traje branco alguns salpicos de sangue. Teve de 
apoiar-se  parede, meio desfalecida. O rosto de Joffrey inclinava-se para o seu. Estava coberto de suor e, sob a roupa de veludo vermelho, seu peito magro ia e 
vinha como um fole de fornalha. Mas seus olhos atentos conservavam o brilho penetrante e alegre... Um lento sorriso disten-deu os lbios do conde ao encontrar os 
olhos verdes turbados de emoo.
-        Venha comigo! - disse imperiosamente.
O cavalo seguia lentamente  margem do rio, revolvendo o saibro do estreito e sinuoso caminho. A certa distncia, trs lacaios armados formavam a guarda de seu senhor, 
mas Anglica no percebia a sua presena. Pensou que estivesse absolutamente sozinha sob o cu estrelado, sozinha nos braos de Joffrey de Peyrac. Ele a colocara 
atravessada na sela e agora a levava para o pavilho do Garonne, a fim de nele viverem sua primeira noite de amor.
 No pavilho do Garonne, os domsticos, adestrados por um senhor exigente, eram invisveis. A alcova estava pronta. No terrao uma colao de frutas tinha sido preparada 
junto ao diva, e num vaso de bronze viam-se garrafas ali postas a gelar, mas tudo parecia deserto.
 Anglica e seu marido nada diziam. Era a hora do silncio. No entanto, quando ele a atraiu para si com impacincia, mas ainda taciturno, ela murmurou:
 - Por que no sorri? Continua zangado? Asseguro-lhe que no desejei o incidente.
- Eu sei, querida.
Respirou profundamente e continuou com voz surda:
 -        No posso sorrir porque esperei demasiado este instante, e ele me constringe dolorosamente. Jamais amei tanto uma mulher como a voc, Anglica, e parece-me 
que eu a amava antes mesmo de conhec-la. E quando a vi... era quem eu esperava. Mas voc passava por mim, altaneira, como uma slfide dos pntanos, impossvel de 
alcanar. E eu lhe falava em tom de gracejo, por medo de um gesto de horror ou de uma zombaria. Nunca esperei tanto tempo uma mulher, nem mostrei tanta pacincia. 
E, no entanto, voc era minha. Vinte vezes estive prestes a usar de violncia, mas no desejava somente o seu corpo; queria o seu amor. Quando, pois, a vejo aqui, 
subitamente minha, enfim, no posso lhe perdoar os tormentos que me infligiu. No posso perdo-la - repetiu com ardente paixo.
 Anglica fitou valorosamente o rosto que j no a horrorizava e sorriu.
-        Vingue-se! - murmurou.
Ele estremeceu e sorriu.
 -        Voc  mais mulher do que eu pensava. Ah, no me provoque! Voc pedir clemncia, minha bela inimiga!
 Naquele instante Anglica deixou de se pertencer. Ao reencontrar os lbios que j uma vez a tinham embriagado, reencontrava tambm aquele turbilho de sensaes 
desconhecidas cuja lembrana havia deixado no fundo de sua carne uma nostalgia indefinida. Tudo despertava nela e, com a promessa de um pleno florescimento que nada 
viria entravar, seu prazer foi tomando pouco a pouco tal intensidade que ela chegou a sentir medo.
 Anelante, lanou-se para trs, procurando libertar-se daquelas mos que em cada um de seus movimentos lhe revelavam um novo manancial de gozo e ento, como emergindo 
de um poo de opressiva doura, viu remoinhar em torno de si o firmamento estrelado e a plancie brumosa em que o Garonne estendia sua fita de prata.
 De sade exuberante, Anglica tinha sido feita para o amor. Mas a revelao sbita que tivera de seu prprio corpo a transtornava, sacudida num violento assalto, 
mais interior que exterior. S mais tarde, com a experincia, foi que pde avaliar quanto Joffrey de Peyrac havia refreado a violncia de seu prprio desejo, a fim 
de rend-la inteiramente ao seu amor.
 Quase sem que ela o percebesse, ele a despiu e a estendeu sobre o diva. Com incansvel pacincia, Joffrey a atraa para si, cada vez mais submissa, ardente e queixosa, 
os olhos brilhando de febre. Ela se debatia e se aconchegava, alternadamente, mas, quando essa emoo, que j no podia controlar, alcanou o paroxismo, uma sbita 
calma se produziu nela. Sentiu que a invadia um bem-estar ao qual se misturava uma excitao deliciosa e lancinante; pondo de lado todo o recato, ofereceu-se ela 
prpria s carcias mais atrevidas; com os olhos fechados, deixava-se levar, sem resistncia, pela corrente da volpia. No reagia contra a dor, pois agora cada 
parcela de seu corpo reclamava furiosamente a dominao do macho. Quando ele a penetrou, ela no gritou, mas suas plpebras se abriram desmesuradamente e as estrelas 
do cu primaveril se refletiram em seus olhos verdes.
-        J? - murmurou Anglica.
 Estirada no diva, sentia-se reviver. Um macio xale da ndia, jogado sobre ela, protegia-lhe o corpo suado contra a brisa da noite. Ela olhava para Joffrey de Peyrac, 
que, de p, muito negro ao luar, despejava nos copos o vinho fresco. Ele se ps a rir.
 -        Devagar, querida! Voc  muito novata para que eu me permita levar mais longe a lio. Tempo vir de prolongadas delcias.
Entrementes, bebamos! Porque fizemos os dois, esta noite, uma obra que merece recompensa.
 Com o seu delicioso olhar fitado nele, dirigiu-lhe a jovem um sorriso cuja imensa seduo ela prpria ignorava, pois em alguns instantes nascera uma nova Anglica, 
desabrochada, libertada.
 Ele cerrou os olhos, como deslumbrado. Ao reabri-los, viu uma expresso de angstia no rosto encantador.
  -        O Cavaleiro de Germontaz - murmurou Anglica. - Oh, Joffrey! Eu tinha esquecido. Voc matou o sobrinho do arcebispo!
Ele a acalmou com uma carcia.
  -        No pense mais nisso. A provocao teve testemunhas. Se a tivesse deixado sem castigo, sim, haveriam de censurar-me. O prprio arcebispo, que  de sangue 
nobre, no poder seno
conformar-se. Oh, querida - cochichou ele -, suas formas so ainda mais perfeitas do que eu supunha!
 Com um dedo seguiu a curva branca e firme do ventre jovem. Ela sorriu e soltou um longo suspiro de satisfao. Sempre ouvira dizer que os homens, aps o amor, eram 
brutos indiferentes...
 Mas, decididamente, Joffrey no se parecia com os outros homens.
Ele viera deitar-se ao lado da mulher, e ela ouviu-o rir baixinho.
  - Quando penso que o arcebispo estar olhando do alto de sua torre do arcebispado para o Palcio da Gaia Cincia e condenando ao inferno a minha vida libertina! 
Se ele soubesse que neste momento eu fruo as "delcias culposas" com minha prpria esposa, cujo casamento ele mesmo celebrou!...
  - Voc  incorrigvel. Ele no pratica injustia em olh-lo com desconfiana, pois, quando h duas maneiras de fazer uma coisa, voc sempre inventa uma terceira. 
Voc poderia, com efeito, ou cometer um adultrio ou cumprir cordatamente o seu dever conjugai. No! E preciso que cerque sua noite de npcias de circunstncias 
tais que eu experimente em seus braos uma impresso de culpabilidade.
- Impresso agradabilssima, no acha?
  - Cale-se! Voc  o diabo em pessoa! Confesse, Joffrey, que, se voc se livra do pecado com uma pirueta, a maior parte de seus hspedes, esta noite, no est no 
mesmo caso. Com que habilidade os precipitou no que monsenhor denomina a desordem!... No estou muito certa de que voc no seja um ser... perigoso!...
- E voc, Anglica,  uma adorvel conegazinha toda nua! No duvido que entre suas mos minha alma encontrar o perdo. Mas no faamos cara feia s douras da vida. 
Muitos outros povos vivem costumes diferentes, e no so menos generosos nem menos felizes. Em face da grosseria do corao e dos sentidos que escondemos sob nossas 
belas vestes, sonhei ver homens e mulheres apurarem-se para dar mais graa ao nome da Frana. Eu me alegro com isso, pois amo as mulheres, como tudo o que  belo. 
No, Anglica, minha jia, nao sinto remorsos e no me confessarei!...
 Anglica s poderia ser completamente ela prpria depois de se haver tornado mulher. Antes, era apenas uma rosa em boto, prisioneira em seu corpo, que uma gota 
de sangue mouro temperara com uma tendncia para o ardor carnal.
 Nos dias seguintes, durante os quais se desenrolaram as festividades da Corte de Amor, sentiu-se como transplantada para um mundo novo em que tudo era plenitude 
e descobrimentos encantados. Parecia-lhe que o resto da existncia se havia apagado, que a vida estava suspensa.
 Tornava-se cada vez mais amorosa. Suas faces coloriam-se e o riso tinha um novo atrevimento. Cada noite Joffrey de Peyrac a encontrava mais vida, mais interessada, 
e suas bruscas recusas de jovem Diana, quando ele procurava submet-la a novas fantasias, logo cediam lugar a um alegre abandono.
 Seus hspedes pareciam viver no mesmo clima de liberdade e despreocupao. Deviam-no em parte a um milagre de organizao, pois o gnio do Conde de Peyrac no esquecia 
detalhe algum para o conforto e o prazer de seus convidados. Estava em todos os lugares, parecendo nao cogitar noutra coisa, e no entanto Anglica tinha a impresso 
de que ele s pensava nela, que no cantava seno para ela. s vezes sentia uma ponta de cime, quando o via submergir o olhar nos olhos atrevidos de alguma dama 
que lhe pedia conselho sobre uma sutileza da arte do amor. Ficava escutando, mas devia reconhecer que seu marido se saa lealmente da situao com um daqueles gracejos 
hbeis envoltos num cumprimento, e cujo segredo ele possua.
 Foi com uma mistura de alvio e decepo que, ao cabo de oito dias, ela viu os pesados coches armoriados darem volta no ptio do palcio e retomarem o caminho de 
castelos distantes, enquanto belas mos carregadas de rendas se agitavam nas portinholas. Os cavaleiros saudavam com seus chapus emplumados. Anglica, do balco, 
fazia amveis gestos de despedida.
 Estava satisfeita por encontrar um pouco de calma e ter dali em diante seu marido somente para si. Mas, secretamente, entristecia-a o trmino daquela semana deliciosa. 
No se podem viver duas vezes numa existncia tais momentos de felicidade. Jamais - e Anglica teve de repente o pressentimento -, jamais voltariam aqueles dias 
deslumbrantes...
 Logo na primeira noite, Joffrey de Peyrac trancou-se no laboratrio, onde no havia entrado desde o incio da Corte de Amor. Tal pressa enraiveceu Anglica, que 
se revolvia furiosa em seu grande leito, no qual o esperou em vo.
 "Assim so os homens", pensou com amargura. "Dignam-se conceder-nos, de passagem, um pouco de seu tempo, mas nada os retm quando esto em jogo suas manias pessoais. 
Para uns  o duelo; para outros, a guerra. Para Joffrey so as retortas. Antes interessava-me que ele me falasse delas, porque me parecia que assim me demonstrava 
amizade. Agora detesto esse laboratrio."
Embora contrariada, conseguiu adormecer.
 Acordou com a claridade sbita de uma vela e viu  sua cabeceira Joffrey, que acabava de se despir. Ela se sentou bruscamente e cruzou os braos em redor dos joelhos.
 -        E muito necessria sua visita? - perguntou. - J ouo despertarem os pssaros do jardim. No acha que faria melhor se ter minasse esta noite, to bem comeada 
em seu laboratrio, estreitando ao corao uma retorta de vidro bem bojuda?
Ele riu sem mostrar arrependimento.
 - Estou desolado, minha amiga, mas tinha-me entregue a uma experincia que no podia abandonar. Sabe que nosso terrvel arcebispo tem parte da culpa? No entanto, 
aceitou muito dignamente a morte de seu sobrinho. Mas preciso ter cuidado: o duelo  proibido.  mais um trunfo em seu jogo. Recebi um ultimato para revelar ao idiota 
do frade meu segredo da fabricao de ouro. E como no posso explicar-lhe decentemente o trfico espanhol, decidi lev-lo a Salsigne, onde o farei assistir  extrao 
e  transformao da rocha aurfera. Antes disso vou chamar o saxo Fritz Hauer e tambm enviarei um correio a Genebra. Bernalli sonhava ser testemunha de tais experimentos, 
e certamente vir.
 - Nada disso me interessa - interrompeu Anglica, de mau humor. - Tenho sono.
 Com os cabelos a velar-lhe metade do rosto e sua camisola cujos folhos de renda lhe caam sobre o brao nu, a jovem tinha conscincia de que sua atitude no era 
to rigorosa quanto as suas palavras.
Joffrey acariciou seu ombro suave e branco, mas com um movimento rpido ela lhe enterrou na mo os dentes agudos. Ele deu-lhe um tapa e, com fingida clera, derribou-a 
atravessada no leito. Lutaram um momento. Mas logo ela sucumbiu ante a fora de peyrac, a qual no cessava de surpreend-la. No obstante, continuava rebelde e se 
debatia nos braos do marido. Seu sangue comeou a circular mais depressa. Uma chispa de desejo acendeu-se no mais fundo de seu ser e se espraiou por ela toda. Continuava 
a se agitar, mas buscava, com anelante curiosidade, a surpreendente sensao que acabava de experimentar. Seu corpo se abrasava. As ondas do prazer a arrastavam 
de cume em cume, num delrio que jamais tivera at ento. Com a cabea meio tombada para fora da cama, os lbios entreabertos, Anglica evocou subitamente as sombras 
de uma alcova dourada pela tnue luz de uma lamparina. Tinha nos ouvidos um doce queixume, que ela percebia com extraordinria nitidez. Reconheceu de repente sua 
prpria voz. Por cima dela, na luz cinzenta da alvorada, via aquele rosto de fauno sorridente, que, com os olhos brilhantes, semicerrados, escutava o canto que havia 
feito nascer.
 - Oh, Joffrey! - suspirou -, parece-me que vou morrer! Por que  cada vez mais maravilhoso?
 - Porque o amor  uma arte em que se procura a perfeio, bela amiga, e porque voc  uma discpula maravilhosa...
 Saciada, buscava agora o sono, aconchegando-se a ele. Como parecia'trigueiro o torso de Joffrey entre as rendas da camisa!... E como era embriagador aquele cheiro 
de tabaco!
 
 CAPITULO XXIII
 
 A mina de ouro de Salsigne - Encontro com o Presidente Massenau
 
 Uns dois meses mais tarde, um pequeno grupo de cavaleiros que acompanhavam um coche com as armas do Conde de Peyrac subia um caminho ao longo de rochas escarpadas 
para o burgo de Salsigne, no Aude.
 Anglica, a quem a viagem tinha encantado a princpio, comeava a sentir-se fatigada. Fazia forte calor e havia muita poeira. O balano da marcha de seu cavalo 
a tinha levado  meditao. Havia observado sem complacncia o monge Conan Bcher, que, montado em uma mula, deixava pender suas longas pernas e seus ps calados 
com sandlias. Refletira, depois, as conseqncias da pertinaz animosidade do arcebispo. Por fim, pensava na carta de seu pai, que o saxo Fritz Hauer lhe havia 
entregue ao chegar a Toulouse em seu carro, com sua mulher e os trs filhos louros, os quais, apesar do tempo passado no Poitou, falavam ainda um spero dialeto 
germnico.
 Anglica havia chorado muito ao receber a missiva, porque seu pai lhe comunicava a morte do velho Guilherme Ltzen. Escondida num canto, soluara horas inteiras. 
Nem mesmo a Joffrey pudera explicar o que sentia e por que o corao se lhe fazia em pedaos quando recordava aquele rosto barbado, com seus olhos plidos e severos, 
mas que sabiam ser to doces para a menina Anglica. No entanto, de noite, com as carcias de seu marido, que no lhe fez perguntas, seu pesar se atenuou um pouco. 
O passado era o passado. Mas a carta do Baro Armando havia feito surgir pequenos fantasmas de ps descalos e cabelos cheios de palha nos gelados corredores do 
velho Castelo de Monteloup, onde no vero as galinhas procuravam a sombra.
 O baro lamentava-se tambm. A vida continuava difcil, embora todos tivessem o necessrio, graas ao comrcio dos muares e s generosidades do Conde de Peyrac. 
Mas a regio tinha sido assolada por uma fome horrvel, e isto, acrescentado s vexaes dos cobradores do imposto sobre o sal, havia causado a rebelio dos habitantes 
do pntano. Emergindo de seus caniais, haviam saqueado vrios burgos, recusado o imposto e matado os agentes fazendrios. Foi preciso enviar os soldados do rei 
para persegui-los "em fuga, como enguias nos canais". Havia muitos enforcados nas encruzilhadas.
 Anglica avaliou, de repente, o que significava "ser" uma das maiores fortunas da provncia. Tinha esquecido aquele mundo oprimido, obsedado pelo temor das taxas 
e das exaes. Ser que, no deslumbramento de sua felicidade e de seu luxo, no se teria tornado egosta? Porventura o arcebispo se teria mostrado menos incmodo 
se houvesse conseguido atra-la para suas boas obras?
Ouviu suspirar o pobre Bernalli.
 - Que caminho! E pior que os nossos Abruzos! E seu belo coche! Dele no restar seno lenha!  um verdadeiro crime!
 - Eu insisti com o senhor para que viajasse nele. Poderia ter servido para alguma coisa.
 Mas o galante italiano protestou, no sem levar a mo aos doloridos rins.
 - Por Deus, senhora, um homem digno de tal nome no saberia refestelar-se numa carruagem enquanto uma jovem dama viaja a cavalo.
 - Seus escrpulos so antiquados, meu pobre Bernalli. Agora j no se fazem tantas cerimnias. Afinal, creio que comeo a conhec-lo, e, se o senhor  como imagino, 
bastar que veja nossa maquinaria hidrulica movendo-se e projetando gua para que fique curado de suas dores.
O semblante do sbio iluminou-se.
 -        Verdadeiramente, senhora, lembra-se de minha loucura por essa cincia a que chamo hidrulica? Seu marido no deixou de me atrair, fazendo-me saber que 
havia construdo em Salsigne uma mquina para elevar a gua de uma torrente que corre por uma garganta profunda. No foi preciso mais para lanar-me de novo aos 
caminhos. Fico pensando se no ter descoberto o moto-contnuo.
  -        Engana-se, meu caro - disse atrs deles a voz de Joffrey de Peyrac. - Trata-se de um modelo que imita os aretes hidrulicos que eu vi na China e que 
podem elevar a gua a cento e cinqenta toesas, ou mais. Ah! Veja l embaixo. Estamos chegando.
 Bem depressa encontraram-se  margem de uma pequena torrente e puderam ver uma espcie de caixa oscilante que girava subitamente em torno de um eixo, para projetar 
de quando em quando, em bela parbola, um jorro de gua a grande altura. Esse jato caa numa espcie de tanque elevado, e a gua descia depois, muito mansamente, 
atravs de canalizaes de madeira.
 Um arco-ris artificial nimbava o curioso engenho. Anglica achou muito lindo o arete hidrulico, mas Bernalli pareceu decepcionado e disse:
  - A se perdem dezenove vigsimos do volume de sua torrente. Isso no tem nada que ver com o moto-contnuo!
  - No me importo de perder gua e fora - observou o conde. - O que me interessa  jogar gua l para cima, e esse pequeno rendimento me basta para concentrar 
minha rocha aurfera triturada.
 Deixaram para o dia seguinte a visita  mina. Na aldeia encontraram alojamentos modestos mas em nmero suficiente, preparados pelo capitoul local. Um carro de bagagens 
tinha trazido leitos e malas. Peyrac ps as casas  disposio de Bernalli, do monge Bcher e de Andijos, que, como era de esperar, fazia parte do grupo. O conde 
preferia o abrigo de uma grande tenda, com teto duplo, que havia trazido da Sria.
  -        Creio que herdamos dos cruzados o costume de acampar.
Com esse calor e nesta regio, que  a mais seca de toda a Frana, voc ver, Anglica, que estaremos muito melhor aqui do que numa construo de pedra e barro.
 Ao cair da tarde, o conde saboreou o ar fresco que descia das montanhas. Os panos da tenda, levantados, deixavam ver o cu avermelhado, e chegavam das margens do 
rio os cantos tristes e solenes dos mineiros saxes.
Joffrey de Peyrac, contra seu costume, parecia preocupado.
  -        No gosto desse monge! - exclamou com violncia. - No s no compreender absolutamente nada, como ainda interpretar tudo de acordo com a sua mentalidade 
tacanha. Preferiria explicar as coisas ao prprio arcebispo, mas ele quer uma "testemunha cientfica". Ah! ah! ah! Que brincadeira! Qualquer outro valeria joais 
que esse fabricante de camndulas.
 -        No entanto - protestou Anglica, meio escandalizada -, ouvi dizer que muitos sbios ilustres eram tambm religiosos.
Joffrey conteve com dificuldade um gesto de irritao.
 -        No o nego, e at vou mais longe. Direi que durante muitos sculos a Igreja conservou o patrimnio cultural do mundo. Mas atualmente esteriliza-se na escolstica. 
A cincia est entregue a visionrios dispostos a negar os fatos mais evidentes, desde o instante em que no possam encontrar uma base teolgica para um fenmeno 
que no tem seno uma explicao natural.
 Calou-se e, puxando de repente sua mulher contra o peito, disse-lhe uma frase que ela s iria compreender mais tarde:
-        A voc tambm escolhi para testemunha.
 Na manh seguinte, Fritz Hauer apresentou-se para conduzir os visitantes  mina de ouro.
 Esta consistia numa grande escavao em forma de pedreira no sop do contraforte das Corbires. Uma enorme poro de terreno com cinqenta toesas de comprimento 
e quinze de largura tinha sido removida, e sua massa cinzenta cortada, com o auxlio de cunhas de madeira e ferro, em blocos que eram, em seguida, levados em carroas 
para as ms.
 Outras mquinas hidrulicas feriram particularmente a ateno de Bernalli. Eram piles de madeira, revestidos de folhas de ferro, e oscilavam automaticamente quando 
um caixo se enchia de gua e perdia o equilbrio.
 - Que desperdcio de energia - suspirou Bernalli -, mas que simplicidade de instalao, do ponto de vista da economia de mo-de-obra!  outra de suas invenes, 
conde?
 - Apenas imitei os chineses, entre os quais estas instalaes existem, segundo me afirmaram, h trs ou quatro mil anos. Servem-se delas para descascar o arroz, 
seu alimento habitual.
 - Mas onde est o ouro em tudo isso? - observou judiciosa-mente o monge Bcher. - Vejo apenas um p cinzento e pesado, que seus trabalhadores tiram dessa rocha 
triturada.
- Ter a demonstrao daqui a pouco.
O pequeno grupo dirigiu-se a um telheiro onde estavam instalados alguns fornos catales cobertos. Foles acionados cada um por dois rapazes emitiam um sopro ardente 
e sufocante. Chamas lividas, exalando forte cheiro de alho 1 surgiam por instantes das bocas abertas dos fornos, liberando urna espcie de vapor fuliginoso e pesado 
que se depositava em redor  semelhana de neve.
 Anglica tomou um pouco daquela neve e quis lev-la a boca pois aquele odor de alho a intrigava.
 Como um gnomo sado dos infernos, um monstro humano com ! avental de couro deu-lhe uma pancada violenta na mo para deter-lhe o gesto. Antes que ela pudesse reagir, 
o gnomo exclamou em alemo:
-        Veneno, nobre senhora!
 Indecisa, Anglica limpou a mo, enquanto o olhar do monge Bcher se fixava na jovem.
 -        Em nossos laboratrios - disse calmamente - os alquimistas trabalham de mscara.
Joffrey ouviu e interveio:
 -        Entre ns no h nenhuma alquimia, embora esses ingredien
tes no sejam para comer, nem mesmo para tocar. Tem feito regularmente a distribuio de leite a toda a sua gente, Fritz? - indagou em alemo.
-- As seis vacas chegaram aqui antes de ns, Alteza!
 - Muito bem; e no se esquea de que no  para vender, e sim I para beber.
 - No estamos necessitados, Alteza, e, alm disso, queremos viver o mais possvel - disse o velho e giboso contramestre.
 - Posso saber, meu senhor, que matria pastosa em fuso  essa que vejo nesse forno infernal? - perguntou Bcher fazendo o sinal-da-cruz.
-  a mesma areia, lavada e depois seca, que viu extrair da mina.
 -  esse pesado p cinzento que, segundo o senhor, contm o ouro? No vi brilhar nele at agora a menor pepita.
-        No entanto,  na realidade rocha aurfera. Traga um pouco, Fritz.
O alemo enterrou a p em um grande monte de areia granulada, verde-cinza, de aspecto vagamente metlico.
 Bcher deitou pequena quantidade na palma da mo, cheirou, provou-o com a ponta d lngua e, cuspindo com fora, declarou:
 -        Vitrolo de arsnico, veneno violentssimo. Nada tem que vercom ouro. Alm disso, o ouro procede do saibro, e nunca da rocha. E a pedreira que vimos h 
pouco no contm sequer um tomo de saibro.
 -  exato, ilustre confrade - confirmou Joffrey de Peyrac, que acrescentou, dirigindo-se ao contramestre saxo: - Se j est na hora, junte o chumbo!
 No entanto, teve de esperar ainda muito tempo. A massa no forno tornava-se cada vez mais rubra, derretia-se, fervia. Os pesados vapores continuavam a depositar-se 
em todos os lugares, em camadas brancas e pulverulentas.
 Quando diminuram as chamas e decresceram os vapores, dois saxes com avental de couro trouxeram numa carroa vrios lingotes de chumbo e lanaram-nos na massa 
pastosa.
 O banho se liqefez de todo e parou de ferver. O saxo remexeu-o com uma comprida vara de madeira verde. Apareceram borbulhas e depois subiu uma escuma. Fritz Hauer 
tirou-a com enormes coadores e ganchos de ferro. Depois voltou a mexer o lquido.
 Finalmente inclinou-se ao nvel de uma abertura feita abaixo da cuba do forno. Retirou a rolha de barro que a obstrua, e um fio prateado comeou a escorrer para 
as lingoteiras de antemo preparadas.
Curioso, o monge se aproximou, depois disse:
- Mas tudo isso no passa de chumbo!
- Continuamos de acordo - assentiu Peyrac. Mas sbito o monge lanou um grito estridente:
- Estou vendo as trs cores!
 Ofegava e apontava as irisaes de resfriamento do lingote. Tremiam-lhe as mos e ele balbuciava:
-        A Grande Obra! Eu vi a Grande Obra!
 -        O bom frade est ficando louco - observou Andijos sem respeito para com o homem de confiana do arcebispo.
Com um sorriso indulgente, Joffrey de Peyrac explicou:
 -        Os alquimistas do muito valor  apario das "trs cores"
na obteno da pedra filosofal e da transmutao dos metais;  um fenmeno sem importncia, anlogo ao do arco-ris aps a chuva.
 De repente, o monge caiu de joelhos diante do marido de Anglica. Tartamudeando, dava-lhe graas por haver lhe permitido assistir  "obra de sua vida".
Irritado com aquela manifestao ridcula, Peyrac disse secamente:
 -        Levante-se, padre. Ainda no viu absolutamente nada, mas em um minuto poder julgar por si mesmo. Aqui no existe nenhuma pedra filosofal, sinto muito.
O saxo Fritz Hauer seguia a cena com ar reticente em sua curiosa face impregnada de rocha em p.
- Devo fazer a copelao diante desta gente? - perguntou em alemo.
- Faa como se apenas eu estivesse presente.
 Anglica viu o lingote ainda quente ser empurrado com um tra-po mido para uma carrocinha. Transportaram-no para um pequeno forno instalado sobre uma forja. Os 
tijolos da cavidade central do forno, constituindo uma espcie de crisol aberto, erani muito brancos, leves e porosos. Eram fabricados com os ossos de animais cujos 
cadveres, amontoados perto dali, exalavam um cheiro nauseabundo que, misturado aos odores de alho e enxofre, tornava a atmosfera quase irrespirvel.
 De afogueado que se achava por causa do calor e da excitao, Bcher ficou lvido ao ver o monto de ossos e comeou a benzer-se e a murmurar exorcismos.
Joffrey no pde conter o riso e disse a Bernalli:
 -        Veja o efeito que nossos trabalhos produzem neste moderno sbio. Quando penso que a copelao sobre as cinzas de ossos era uma brincadeira de crianas 
no tempo dos romanos e dos gregos!
 No entanto, Bcher no se esquivou do terrfico espetculo. Muito plido e correndo as contas do tero, permaneceu com os olhos fixos nos preparativos do velho 
saxo e de seus ajudantes.
 Um deles punha mais brasas na forja e outro movia o fole de pedal. O chumbo comeou a derreter-se no estranho cadinho. Completada a fuso, atiaram ainda mais o 
fogo e o chumbo se ps a fumegar.
 A um sinal do velho Fritz, apareceu um rapazinho trazendo um fole cuja ponta estava introduzida em um tubo de argila retrataria. Colocou esse bico na beira da cuba 
e comeou a fazer vento frio  superfcie vermelho-escura da pesada massa lquida.
 De repente, com um rudo sibilante, o ar soprado pelo fole se inflamou. A chama foi aumentando de intensidade, passou ao branco refulgente e estendeu-se ao conjunto 
do metal.
 Os jovens ajudantes retiraram apressadamente todas as brasas de sob o forno e os grandes foles deixaram de funcionar.
 A copelao prosseguiu sozinha: o metal fervia e deslumbrava. De quando em quando recobria-se de um vu escuro, que se rasgava logo em placas que danavam na superfcie 
do lquido iluminado, e quando uma dessas ilhas flutuantes chegava  orla do banho, como por magia, era atrada pelos tijolos e a superfcie aparecia mais limpa 
e mais brilhante.
Simultaneamente, o menisco de metal diminua a olhos vistos.
- Depois reduziu-se ao tamanho de uma bolacha grande, ficou mais escuro e subitamente relampagueou. Nesse instante Anglica viu nitidamente que o metal estremecia 
com violncia e por fim se solidificava e escurecia mais ainda.
 - E o fenmeno do relmpago descrito por Berzelius, que trabalhou muito em copelao - disse Bernalli. - Sinto-me feliz por ' ter assistido a uma operao metalrgica 
que s conhecia pelos livros.
O alquimista nada dizia. Seu olhar estava ausente e vago.
 - Entrementes, Fritz pegava o disco de metal com uma pina, mergulhava-o na gua e apresentava-o a seu patro, amarelo e cintilante.
- Ouro puro - murmurou respeitosamente o monge alquimista.
  - No  absolutamente puro - disse Peyrac. - Do contrrio, lo teramos visto o fenmeno do relmpago, que denuncia a presena de prata.
  - Gostaria de saber se este ouro resiste ao esprito de nitro e tambm ao esprito de sal.
 -         Evidentemente - respondeu Peyrac -, pois  ouro verdadeiro.
Refeito da emoo, o religioso perguntou se podia ter uma pequena amostra para entreg-la a seu benfeitor, o arcebispo.
  - -        Leve para le esse disco de ouro bruto, extrado das entralhas de nossas Corbires - disse o Conde de Peyrac. - Faa-o
compreender que este ouro procede de uma rocha que j o contm, e que ele no precisa seno descobrir em suas terras alguma jazida que o torne rico.
 Conan Bcher envolveu cuidadosamente em um leno a preciosa bolacha, que pesava pelo menos duas libras, e nada respondeu.
 Durante a viagem de retorno, ocorreu um incidente insignificante em aparncia, mas que depois haveria de ter certa importncia na vida de Anglica e de seu marido.
 A meio caminho de Toulouse, no segundo dia de viagem, o cavalo baio que Anglica montava comeou a mancar, ferido por um calhau da pedregosa estrada. No havia 
cavalo de reserva, a menos que se tirasse um dos quatro que puxavam o coche. Mas Anglica no quis rebaixar-se a montar um grosseiro animal de tiro. Subiu, pois, 
para o coche, onde Bernalli, mau cavaleiro, se havia instalado. Vendo-o assim derreado por pequena excurso, Anglica o admirava ainda mais ao lembrar-se das longas 
viagens que ele empreendia para vir contemplar um arete hidrulico ou discutir a gravidade dos corpos. Alm disso, desterrado de vrios pases, o italiano era pobre 
e viajava sem criados, em cavalgaduras de aluguel. Apesar dos solavancos da viatura, estava encantado com o que chamava "notvel conforto", e quando Anglica lhe 
pediu, sorrindo, um pequeno espao, retirou confuso as pernas que estendera sobre o assento.
 O conde e Bernardo d'Andijos caracolearam durante algum tempo ao lado da carruagem, mas, levantando esta muita poeira e sendo o caminho estreito, tiveram de acompanh-la 
a distncia. Dois lacaios a cavalo precediam o coche.
 O caminho tornava-se cada vez mais angusto e ziguezagueante. Ao sair de uma curva, a carruagem parou com um chiado, e os seus ocupantes viram um grupo de cavaleiros 
que parecia barrar-lhes a passagem.
 - No se inquiete, signora - disse Bernalli, que havia olhado pela portinhola. - So lacaios de outro coche que vm em sentido contrrio.
 - Mas neste caminho estreito no poderemos cruzar-nos! - exclamou Anglica.
  Os criados de ambas as partes insultavam-se a valer. Os do outro lado, com muita insolncia, pretendiam fazer recuar o coche do Sr. de Peyrac, e, para bem mostrar 
que acreditavam ter direito a passar primeiro, um deles comeou a distribuir chicotadas que atingiram tanto os criados de Joffrey como as bestas do carro. Estas 
se empinaram, a viatura oscilou e a jovem teve a impresso de que iam precipitar-se no barranco. Apavorada, soltou um grito.
 Joffrey de Peyrac chegava naquele momento. Fez uma cara terrvel e, aproximando-se do lacaio que empunhava o rebenque, fustigou-o com o seu em pleno rosto. Nesse 
instante chegou a segunda carruagem. Dela saltou um homem gordo e apopltico, afogado num papo de rendas e em fitas, e to coberto de p-de-arroz como de poeira. 
Agitou uma bengala com casto de marfim, adornada com uma roseta de cetim, e gritou:
 -        Ousa agredir os meus criados! Ignora acaso, estpido cavaleiro, que est diante do presidente do Parlamento de Toulouse, Baro de Massenau, senhor de Pouillac 
e outros lugares?... Peo-lhe que se afaste e nos deixe passar.
O conde voltou-se e disse em tom enftico:
 - Que imenso prazer!  parente dum Sieur Massenau, escrevente de notrio, do qual ouvi falar?
- Sr. de Peyrac! - exclamou o outro, um tanto desconcertado.
Mas sua clera, exacerbada pelo ardor do sol a pino, no se acalmou ao reconhecer Joffrey, e seu rosto tornou-se violeta.
 - Embora muito recente, conde, fique sabendo que minha nobreza  to legtima como a sua! Poderia mostrar-lhe os recibos da cmara do rei, que certificam a minha 
nobilitao.
 - Creio no que diz, Messire Massenau. A sociedade ainda chora por t-lo elevado tanto.
- Quero que explique essa aluso. Que me reprova?
 - No acha que o lugar  imprprio para esta discusso? - perguntou Joffrey de Peyrac, que tinha dificuldade em dominar seu cavalo, irritado pelo calor e por aquele 
homem gordo e vermelho gesticulando de bengala na mo. Mas o Baro de Massenau no se dava por vencido.
 - Fica-lhe muito bem falar da coisa pblica, senhor conde! O senhor que nem sequer se digna comparecer s sesses do Parlamento!
 - Deixei de me interessar por um Parlamento sem autoridade. Nele s encontraria arrivistas e homens que enriqueceram de uma hora para outra no se sabe como, ansiosos 
por comprar seus ttulos de nobreza ao Sr. Fouquet ou ao Cardeal de Mazarino. E isso, destruindo as ltimas liberdades locais do Languedoc.
 - Senhor, eu represento um dos mais altos funcionrios da justia do rei. O Languedoc  h muito tempo territrio do Estado, unido  coroa. No  decente falar 
perante mim das liberdades locais.
 - No  decente, pelo prprio termo liberdade, pronunci-lo perante o senhor.  incapaz de compreender-lhe o sentido. S presta para viver dos subsdios do rei. 
Isso  o que chama servi-lo.
-  um modo como outro qualquer, enquanto o senhor...
 - Eu nada lhe peo, mas envio-lhe sem nenhum atraso os impostos de minha gente, e os pago em bom ouro puro, sado de minhas terras ou ganho no comrcio. Sabia, 
Sr. Massenau, que do milho de libras que o Languedoc manda eu contribuo com a quarta parte? Aviso aos quatro mil e quinhentos nobres e onze mil burgueses da provncia.,
O presidente do Parlamento s tinha retido uma coisa.
 - Ganho no comrcio! - exclamou escandalizado. - Ento  verdade que comercia?
 - Comercio e produzo. E muito me orgulho disso, pois no sinto prazer em estender a mo ao rei.
 - Ah, Sr. de Peyrac, o senhor  muito desdenhoso! Mas lembre-se disto: a burguesia e os novos nobres  que representam o futuro e a pujana do reino.
 - O que muito me encantar - ironizou o conde, recuperando seu tom escarninho. - Que a nova nobreza aprenda, pois, as boas maneiras da antiga e tenha a cortesia 
de arredar-se para deixar passar este coche, onde a Sra. de Peyrac se impacienta.
 Mas o novo baro, obstinado, batia com os ps na poeira e no estreo.
 - Nenhuma razo existe para que eu me aparte. Repito-lhe que minha nobreza vale tanto quanto a sua.
 - Mas eu sou mais rico que o senhor, grande fantoche - disse Peyrac aos gritos -, e, se para os burgueses o que importa  o dinheiro, afaste-se, Sr. Massenau, deixe 
passar a fortuna.
 Lanou-se para a frente, dispersando os lacaios do magistrado. Este apenas teve tempo de se desviar para o lado, evitando a carruagem armoriada de Joffrey. O cocheiro, 
que s esperava um sinal de seu amo, sentia-se feliz ao triunfar sobre a lacaiada do baro.
 Ao passar, Anglica entreviu a figura vermelha do Sieur Massenau, que, brandindo sua bengala enfitada, rugia:
 -        Farei um relatrio... Farei dois relatrios... Monsenhor d'Orlans, governador do Languedoc, ser avisado... e o Conselho do rei.
 Certa manha, ao entrar com seu marido na biblioteca do palcio, Anglica viu Clemente Tonnel ocupado em inscrever em ta-buinhas enceradas ttulos de livros. Como 
da primeira vez que se deixara surpreender, ficou embaraado e procurou ocultar suas ta-buinhas e seu estilo.
 - Parece que muito lhe interessa o latim! - exclamou o conde, que estava mais surpreso do que contrariado.
 - Sempre me atraram os estudos, senhor conde. Minha aspirao era ser escrevente de notrio, e  para mim uma grande alegria pertencer  casa no s de um grande 
senhor, mas de um sbio ilustre.
 - Meus livros sobre alquimia no podero instru-lo em matria de direito - disse Joffrey de Peyrac franzindo o sobrolho, pois as maneiras dissimuladas do mordomo 
nunca lhe haviam agradado. Tonnel era o nico de seus criados que o conde no tratava com intimidade.
Quando ele saiu, Anglica disse com enfado:
 -        No tenho queixa do servio desse Clemente, mas no sei por que sua presena me  cada vez mais incmoda. Quando olho para ele tenho vaga lembrana de 
qualquer coisa desagradvel. No entanto, trouxe-o comigo do Poitou.
 - Ora essa! - disse Joffrey, encolhendo os ombros - Falta-lhe um pouco de discrio, mas, enquanto sua paixo pelo saber no o levar a ir mexer no laboratrio...
 Anglica ficou inexplicavelmente inquieta e, por vrias vezes, durante o dia, o rosto bexigoso do mordomo veio turbar-lhe os pensamentos.
 Algum tempo depois, Clemente Tonnel pediu umas frias para voltar a Niort a fim de resolver algumas questes de herana.
"Ele est sempre herdando", pensou Anglica.
 Recordava que ele j se vira obrigado a deixar um emprego pelo mesmo motivo. Clemente prometeu que estaria de volta no ms seguinte, mas, ao v-lo preparar com 
muito cuidado os arreios de seu cavalo, Anglica teve o pressentimento de que no tornaria a v-lo to cedo. Desistiu por isso de lhe entregar uma carta destinada 
a sua famlia.
 Quando Tonnel partiu, foi presa de um irracional desejo de rever Monteloup e seus campos. No entanto, seu pSi no lhe fazia falta. Embora ela chegasse a ser muito 
feliz, guardava-lhe certa mgoa por seu matrimnio. Seus irmos e irms andavam dispersos. O velho Guilherme tinha morrido e, a julgar pelas cartas que recebia, 
suas tias mostravam-se caducas e rabugentas, e a ama cada vez mais autoritria. Seu pensamento deteve-se um instante em Nicolau, mas Nicolau havia desaparecido da 
regio aps o matrimnio de Anglica.
 De tanto meditar, Anglica percebeu que era estimulada pela idia de tornar ao Castelo do Plessis e verificar se o famoso cofre-zinho com veneno continuava encerrado 
no esconderijo da toninha. No havia nenhuma razo para que l no estivesse. No o podiam descobrir a no ser demolindo o castelo. Por que motivo aquela velha trama 
voltava subitamente a inquiet-la? Os antagonismos daquela poca j estavam muito distantes. O Sr. de Maza-rino, o rei e seu jovem irmo continuavam vivos. O Sr. 
Fouquet tinha conseguido o poder sem crime. E j no se falava da volta do Prncipe de Conde ao favor real?
Sacudiu suas quimeras e logo recuperou a tranqilidade.

CAPITULO XXIV

Nascimento de Florimond - Lus XIV em Toulouse

A alegria estava presente, tanto na casa de Anglica como no reino. E o Arcebispo de Toulouse, ocupado com assuntos mais importantes, punha uma trgua  suspicaz 
vigilncia de que cercava seu rival, o Conde de Peyrac.
 Com efeito, Monsenhor de Fontenac tinha sido designado, bem como o Arcebispo de Bayonne, para escoltar o Cardeal de Maza-rino em sua viagem aos Pireneus.
 Pela Frana inteira repercutia a nova: com um aparato capaz de fazer tremer o mundo, o senhor cardeal dirigia-se a uma ilha do Bi-dassoa, no Pas Basco, para negociar 
a paz com os espanhis. Terminaria, pois, a eterna guerra que todos os anos renascia com as flores da estao primaveril. Mais ainda que aquela notcia to esperada, 
enchia de contentamento at o mais humilde arteso do reino um projeto incrvel: em penhor de paz, a altaneira Espanha oferecia sua infanta para esposa do jovem 
rei da Frana. A despeito das reticncias e dos olhares invejosos, todos se sentiam orgulhosos de um e do outro lado do Pireneus, pois na Europa da poca, entre 
a Inglaterra con-vulsionada, a multido de pequenos principados alemes e italianos ou os povos sem brases a que chamavam "embarcadios", flamengos e holandeses, 
s aqueles dois prncipes eram dignos um do outro.
 A que outro rei podia destinar-se a infanta, filha nica de Filipe IV, casta jovem com pele de ncar, idolatrada de seu povo e educada na sombra austera de escuros 
palcios? E para ser esposa daquele prncipe de vinte anos, esperana de uma das maiores naes, que outra princesa oferecia tantas garantias de nobreza e tantas 
vantagens de aliana?
 As cortes provinciais comentavam apaixonadamente o acontecimento, e as damas de Toulouse diziam que o jovem soberano chorava muito s escondidas, pois estava loucamente 
enamorado de sua amiguinha de infncia, a morena Maria Mancini, sobrinha do cardeal. Mas as razes de Estado eram imperativas. O cardeal demonstrava de modo eloqente 
que para ele a glria de seu rgio pupilo e o bem do reino estavam acima de tudo.
 Queria a paz como resultado supremo das intrigas que suas mos italianas teciam havia anos. Afastou implacavelmente sua famlia. Lus XIV desposaria a infanta.
 Assim, com oito coches para sua pessoa, dez carros para sua bagagem, vinte e quatro muares, cento e cinqenta criados de libre, cem cavaleiros e duzentos pees, 
o cardeal descia para as verdes margens de Saint-Jean-de-Luz.
 Durante a viagem, reclamou a presena dos arcebispos de Ba-yonne e Toulouse com os respectivos squitos, para aumentar o brilho da delegao. Entrementes, do outro 
lado da cordilheira, Dom Lus de Haro, representante de Sua Majestade Muito Catlica, opondo a tanto luxo uma altiva simplicidade, atravessava as planuras de Castela, 
levando nas malas apenas rolos de tapetes cujas cenas recordariam, a quem interessasse, a glria do antigo reino de Carlos V.
 Ningum tinha pressa; nenhum dos dois queria chegar primeiro e submeter-se  humilhao de esperar o outro. Acabaram por medir o terreno vara por vara, e, merc 
de um milagre da etiqueta, o italiano e o espanhol chegaram no mesmo dia e  mesma hora s margens do Bidassoa. Passou-se um longo tempo em indeciso. Quem seria 
o primeiro que lanaria o barco  gua para atingir a ilhota dos Faises, no meio do rio, onde devia realizar-se o encontro? Cada um sups ter achado a soluo que 
havia de salvaguardar seu orgulho. O cardeal e Dom Lus de Haro mandaram dizer simultaneamente um ao outro que estavam doentes. O estratagema falhou por excesso 
de concordncia. Era preciso esperar que as "enfermidades" terminassem, mas- nenhum dos dois queria restabelecer-se.
 O mundo batia com os ps no cho. Far-se-ia a paz? Realizar-se-ia o matrimnio? O menor gesto era motivo de comentrio.
 Em Toulouse, Anglica seguia de longe os acontecimentos. Estava alegremente absorvida por um assunto pessoal que lhe parecia muito mais importante que o casamento 
do rei.
 
 Como cada dia aumentava seu bom entendimento com Joffrey, tinha comeado a desejar ardentemente ter um filho. S ento, pensava, seria verdadeiramente sua esposa. 
Por muito que ele lhe assegurasse nunca ter amado uma mulher a ponto de mostrar-lhe seu laboratrio e conversar com ela sobre matemticas, continuava incrdula e 
tinha ataques de cime retrospectivos que o faziam rir e, por outro lado, o encantavam secretamente.
 Anglica havia aprendido a conhecer aquele carter forte, a medir a coragem que ele havia desenvolvido para dominar sua feira e sua deformidade. Ela o admirava 
por haver ganho a difcil batalha. Parecia-lhe que, se fosse formoso e invulnervel, no teria podido am-lo to apaixonadamente. Queria dar-lhe um filho para faz-lo 
completamente feliz. Como os dias passavam, chegou a ter medo de ser estril.
 Quando, finalmente, no princpio do inverno de 1658, se viu grvida, chorou de alegria.
 Joffrey no ocultou seu entusiasmo e seu orgulho. Naquele inverno, enquanto tudo era agitao com os preparativos das np-cias reais, ainda no decididas, mas a 
que todos os nobres da provncia esperavam assistir, a vida foi muito tranqila no Palcio da Gaia Cincia. Entre seus trabalhos e sua jovem mulher, o Conde de Peyrac 
interrompera a vida mundana que at ento havia levado em sua morada. Finalmente, e sem nada dizer a Anglica, aproveitava a ausncia do arcebispo para voltar a 
manejar os negcios pblicos de Toulouse, com grande contentamento de uma parte dos magistrados municipais e da populao.
 Para o parto, Anglica dirigiu-se a um pequeno castelo que o conde possua em Barn, nos contrafortes dos Pireneus, onde fazia menos calor que na cidade.
 Naturalmente, os futuros pais discutiram muito, por antecipao, o nome que haviam de dar ao filho, herdeiro dos condes de Toulouse. Joffrey queria que se chamasse 
Cantor, homenagem ao clebre trovador do Languedoc, Cantor de Marmont, mas, como ele nasceu em plena festa, quando os Jogos Florais se estavam celebrando em Toulouse, 
ps-lhe o nome de Florimond.
 Era um menino moreno, com abundante cabelo negro. Durante alguns dias, Anglica lhe teve uma vaga antipatia pela angstia e as dores que sentira. A parteira lhe 
afirmava, contudo, que, "para o primeiro", at que as coisas haviam corrido bem. Mas Anglica muito poucas vezes havia estado doente e desconhecia a dor fsica. 
Ao curso das longas horas de espera, sentia-se pouco a pouco submergida naquele sofrimento elementar, e seu orgulho se rebelou. Estava s em um caminho onde nem 
o amor nem a amizade podiam ajud-la, governada pelo filho desconhecido que j a reivindicava inteiramente.
 Aquela hora prefigurou para ela a solido atroz que um dia teria de afrontar. No o soube, mas seu ser teve a premonio disso, e durante vinte e quatro horas Joffrey 
esteve inquieto por sua palidez, seu mutismo e seu sorriso forado.
 Na noite do terceiro dia, ao inclinar-se por curiosidade sobre o bero em que dormia o filho, Anglica reconheceu um semblante de traos cinzelados que s vezes 
lhe havia revelado o perfil intato de Joffrey. Imaginou um sabre cruel caindo sobre aquela carinha de anjo, o corpo gracioso atirado por uma janela, quebrado na 
neve sobre a qual choviam chamas. A viso foi to ntida que ela deu um grito de horror. Agarrando o recm-nascido, apertava-o convulsivamente contra o peito. Seus 
seios estavam doloridos, pois o leite subia e a parteira os tinha enfaixado fortemente. As damas de qualidade no amamentavam seus filhos. Uma jovem nutriz, robusta 
e s, devia levar Florimond para as suas montanhas, onde ele passaria os primeiros anos de sua existncia.
 Mas, quando a obstetriz voltou de noite ao quarto da parturien-te, ergueu os braos para o cu, pois Florimond estava mamando gulosamente em sua me.
 - Est louca, senhora! Como vamos agora secar-lhe o leite? Vai ter febre e ficar com os seios endurecidos.
 - Eu mesma o aleitarei - disse Anglica ferozmente. - No quero que o joguem por uma janela!
 Falou-se com escndalo daquela nobre dama que se comportava como uma camponesa. Finalmente, encontrou-se uma soluo: a ama faria parte da casa da Sra. de Peyrac. 
Complementaria a lacta-o de Florimond, que tinha um apetite voraz.
 Quando essa questo agitava at o magistrado da pequena aldeia bearnesa que dependia do castelo, chegou Bernardo d'Andijos. O Conde de Peyrac havia-o nomeado o 
primeiro gentil-homem de sua casa, e acabava de envi-lo a Paris para que preparasse ali sua residncia, em vista de uma viagem que tencionava fazer  capital.
 De volta, Andijos havia ido diretamente a Toulouse para representar o conde nas festividades dos Jogos Florais.
Ningum o esperava em Barn, e ele parecia muito agitado. Jogando para um lacaio as rdeas de seu cavalo, subiu de quatro em quatro os degraus e irrompeu na cmara 
de Anglica. Estava ela estendida no leito, enquanto Joffrey de Peyrac, sentado na borda do peitoril, dedilhava a guitarra e cantarolava. Andijos no reparou naquele 
quadro familial.
- O rei est para chegar! - exclamou, ofegante.
- Aonde?
- Ao seu palcio, a Gaia Cincia, em Toulouse! Depois deixou-se cair numa poltrona e enxugou o rosto.

 - Vamos com calma - disse Joffrey, depois de haver tocado um pouco para dar tempo a que Andijos recobrasse o flego -, no nos perturbemos. Disseram-me que o rei, 
sua me e a corte haviam partido para se reunirem ao cardeal em Saint-Jean-de-Luz. Por que passariam por Toulouse?
 -  uma histria comprida! Parece que Dom Lus de Haro e o Sr. de Mazarino consumiram tanto tempo em cortesias que no chegaram a tratar do casamento. Por outro 
lado, diz-se que as relaes entre eles esto ficando tensas. H dificuldades concernentes ao Sr. de Conde. A Espanha quer que ele seja acolhido de braos abertos 
e tambm que esqueam no s suas traies durante a guerra civil, mas ainda o fato de que esse prncipe de sangue francs tenha sido durante vrios anos um general 
espanhol. A plula  amarga e difcil de engolir. A chegada do rei nessas condies seria grotesca. Mazarino aconselhou que viajasse. Ele viaja. A corte vai a Aix, 
onde a presena do rei aplacar sem dvida a revolta que acaba de estalar. Mas toda essa gente importante passa por Toulouse. E voc no est ali! E o arcebispo 
tambm no! Os magistrados municipais esto tontos!
 - No entanto, no  a primeira vez que recebem uma grande personagem.
 -  preciso que voc esteja l - suplicou Andijos. - Fiz questo, eu mesmo, de vir busc-lo. Parece que, ao saber que ia passar por Toulouse, o rei teria dito: 
"Enfim, vou conhecer esse Grande Coxo do Languedoc de quem tanto me falam!"
 - Oh! Quero partir para Toulouse! - exclamou Anglica, saltando no leito.
 Mas voltou a deitar-se, com cara de dor. Estava na verdade demasiado ancilosada e enfraquecida para que pudesse empreender uma viagem pelos pssimos caminhos das 
montanhas e suportar as fadigas de uma recepo principesca. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas de decepo.
 - Oh! O rei em Toulouse, o rei na Gaia Cincia, e eu no posso v-lo!
 - No chore, querida - disse Joffrey. - Prometo-lhe ser to solcito e amvel que no podero deixar de convidar-nos para as bodas. Ver o rei em Saint-Jean-de-Luz, 
e no como viajante em-poeirado, mas em toda a sua glria.
 Enquanto o conde saa para dar ordens relacionadas com a sua partida na madrugada seguinte, o bom Andijos procurou consol-la.
 - Seu esposo tem razo, cara amiga. A corte! O rei! Que representa isso? Um simples banquete na Gaia Cincia vale muito mais que uma festa no Louvre. Creia-me, 
eu estive ali e senti tanto frio na antecmara do Conselho que o pingo do meu nariz se congelava. Dir-se-ia que o rei da Frana no tem bosques onde cortar lenha. 
Quanto aos oficiais da casa real, vi que usam calas com tantos furos que as damas da rainha, que nada tm de tmidas, so obrigadas a baixar os olhos.
 - Dizem que o cardeal-preceptor no quis acostumar seu rgio pupilo a um luxo que est fora de proporo com os recursos do pas.
 - No sei quais tero sido as intenes do cardeal, que nunca se privou, por seu turno, de comprar diamantes brutos ou lapidados, quadros, livros, tapetes, estampas. 
Mas creio que o rei, sob sua aparncia tmida, est impaciente por livrar-se da tutela. Est farto de sopa de favas e dos sermes de sua me, e cansado de arcar 
com as desditas de uma Frana saqueada, o que  compreensvel em se tratando de um belo moo, e rei, alm do mais. No est longe o dia em que sacudir sua juba 
de leo.
- Como  ele? Descreva-mo! - solicitou Anglica, impaciente.
 - No est mal! No est mal! Tem garbo e majestade. Mas, de tanto correr de cidade em cidade no tempo da Fronda, ficou mais ignorante que um lacaio e, se no fosse 
rei, eu lhe diria que me parece um tanto sonso. Alm disso, teve bexigas e seu rosto  todo marcado.
 - Oh! Voc quer descoroar-me! - exclamou Anglica -, e fala como esses diabos gasces, bearneses ou albigenses que ainda se perguntam por que motivo a Aquitnia 
no permaneceu um reino independente da coroa da Frana. Para voc no h seno Toulouse e o seu sol. Mas eu morro por conhecer Paris e ver o rei.
 - V-lo- em suas npcias. Talvez a cerimnia assinale a verdadeira maioridade de nosso soberano. Mas, se for a Paris, detenha-se em Vaux para saudar o Sr. Fouquet. 
 o verdadeiro rei no momento. Que luxo, meus amigos! Que esplendor!
 - Quer dizer que voc tambm foi cortejar esse financista velhaco e sem educao? - indagou o Conde de Peyrac, que vinha chegando.
 - Era indispensvel, meu amigo. No s era necessrio, para que todos recebam voc em Paris, pois os prncipes lhe so devotados, como ainda, confesso, me devorava 
a curiosidade de ver em sua moldura o grande superintendente das finanas, que  certamente agora a primeira figura do pas depois de Mazarino.
 - Atreva-se de todo e no tema dizer: acima de Mazarino... Todos sabemos que o cardeal no tem nenhum crdito entre os pres-tamistas, mesmo quando se trata das 
necessidades do pas, enquanto o tal Fouquet goza da confiana geral.
 - Mas o flexvel italiano no tem cimes. Fouquet faz entrar o dinheiro no Tesouro Real para sustentar as guerras;  tudo que se lhe pede... por enquanto. Ele no 
se preocupa em saber se esse dinheiro se consegue dos usurrios a vinte e cinco e at cinqenta por cento de juros. A corte, o rei, o cardeal vivem dessas malversaes. 
No o detero to cedo! E continuar a ostentar seu emblema, o esquilo, a sua divisa: Quo non ascendam? - At onde no subirei?
 Joffrey de Peyrac e Bernardo d'Andijos discutiram ainda um momento sobre o fausto inslito de Fouquet, que havia comeado como relator de peties e fora membro 
do Parlamento de Paris, mas no se tornara menos filho de um simples corsrio breto. Anglica conservava-se pensativa, pois, quando falavam de Fouquet, lembrava-se 
do cofrezinho com veneno, e aquela recordao sempre lhe era desagradvel.
 Interrompeu-se a conversao com a entrada de um pequeno criado que trazia numa bandeja uma colao para o marqus.
 -        Uf! - exclamou este, queimando os dedos com os brioches quentes que encerravam milagrosamente uma noz defoie gr as gelado. - S aqui se come dessas maravilhas. 
Aqui e em Vaux, precisamente. Fouquet tem um cozinheiro excepcional, um tal Vatel.
Subitamente exclamou:
 - Ah! Isto me recorda um estranho encontro. Adivinhem quem vi ali em conversa com Sieur Fouquet, senhor de Belle-Isle e de outros lugares, e quase vice-rei da Bretanha... 
Adivinhem!
-  difcil. Ele conhece_ tanta gente...
-        Procurem adivinhar.  algum de sua casa... se se pode dizer.
Depois de muito pensar, Anglica disse que talvez se tratasse de seu cunhado, o marido de Hortnsia, que era togado em Paris, como o havia sido outrora o clebre 
superintendente.
 Mas Andijos sacudiu a cabea negativamente. 
 - Ah! Se no tivesse tanto medo de seu marido, s trocaria a Informao por um beijo, pois no o adivinhar jamais. 
 - Pois bem, tome o beijo, que  de bom-tom quando se v pela irimeira vez uma jovem me, e diga-me quem foi, pois morro de impacincia.
 - J vai saber. Surpreendi seu antigo mordomo, esse Clemente Tonnel que esteve tanto tempo a seu servio em Toulouse, em grande concilibulo com o superintendente. 
 - Certamente voc se equivocou. Ele apenas tirou frias para ir ao Poitou - disse Anglica com sbita precipitao. - E no tem qualquer motivo para freqentar 
importantes personagens. A menos que esteja procurando servir em Vaux. 
 - Foi o que acreditei deduzir da sua conversao. Falavam de Natel, o cozinheiro do superintendente.
 - J se v - disse Anglica com uma sensao de alvio que no conseguiu explicar a si mesma - que o que ele desejava era trabalhar sob as ordens desse Vatel, que 
dizem ser genial. Apenas jme parece que ele deveria avisar-nos de que no voltaria ao Languedoc. Mas quem espera deferncia dessas pessoas da arraia, quando acham 
que j no lhes fazemos falta?
 - Sim! Sim! - fez Andijos, que parecia estar pensando noutra teoisa. - Mas h um detalhe que me pareceu curioso. Aconteceu-me entrar de supeto na sala onde o superintendente 
estava conversando com esse famoso Clemente. Eu fazia parte de um grupo de senhores mais ou menos tocados pelo vinho. Pedimos desculpas ao superintendente, mas notei 
que o nosso homem falava com o Sr. Fouquet de modo bastante familiar e que, quando entramos, assumiu prontamente uma atitude muito mais servil. Ele me reconheceu. 
Quando saamos, vi que ele dizia precipitadamente algumas palavras a Fouquet. Este fixou em mim um olhar frio de serpente e depois disse: "No creio que isso tenha 
importncia".
 - Ento era a voc que ele julgava sem importncia, meu amigo? - interrogou Peyrac, que dedilhava a guitarra displicentemente.
- Parece-me que sim...
-  uma judiciosa opinio!
 Andijos fez meno de puxar a espada, e a conversao recomeou entre risos.
 
 CAPITULO XXV
 
 Um espio no Palcio da Gaia Cincia - Partida para o casamento do rei
 
 "Preciso lembrar-me", disse consigo Anglica. "Est na minha cabea, completamente enterrado no fundo da memria. Mas sei que  muito importante.  preciso que 
o recorde!"
 Apertava o rosto com as mos, fechava os olhos, concentrava o pensamento. A coisa estava muito distante. Havia ocorrido no Castelo do Plessis. Disso estava certa, 
mas depois tudo se confundia.
 A chama da lareira esquentava-lhe a cabea. Tomou um pra-fogo manual de seda pintada e protegeu-se abanando-se maquinalmente. L fora, nas trevas, desabara a tempestade. 
Tormenta de primavera e de montanha, sem relmpagos, despedia granizos que saraivavam, por instantes, os vidros das janelas. Incapaz de dormir, Anglica foi sentar-se 
em frente  chamin. Doam-lhe um pouco as costas e zangava-se consigo mesma por no recuperar mais depressa as foras. A parteira no se cansava de dizer-lhe que 
aquela fraqueza era devida  sua teimosia de amamentar o filho, mas Anglica fazia ouvidos de mercador. Quando levava o beb ao peito e o via sugar o leite, seu 
jbilo era cada vez maior. A cena a extasiava. Por outro lado sentia-se mais circunspecta. J se via matrona solene e indulgente, cercada de menores vacilantes. 
Por que pensava to amide em sua infncia, quando a pequena Anglica estava prestes a desaparecer?... E no era um mal-estar vago, inexplicvel. Pouco a pouco a 
questo se precisava: "Existe algo que eu preciso recordar".
 Naquela noite, esperava o retorno de seu marido. Ele tinha enviado um correio para anunci-lo, mas sem dvida, por causa do temporal, s chegaria no dia seguinte. 
Estava to decepcionada que chegou a chorar. Esperava com tanta impacincia o relato da recepo do rei! Isso a teria distrado. Diziam que o banquete e a festa 
haviam sido esplndidos. Que lstima no haver podido assistir a eles, em lugar de ficar ali quebrando a cabea para trazer  superfcie um retalho de lembrana, 
um pormenor que, sem dvida, no tinha a menor importncia!
 "Foi no Plessis. Na alcova do Prncipe de Conde... enquanto eu espiava pela janela.  preciso que eu volte a recordar tudo, ponto por ponto, a partir desse momento..."
 Ouviu o bater de uma porta e o rudo de vozes na entrada do pequeno castelo. Ps-se de p de um salto e precipitou-se para fora do quarto. Reconheceu a voz de Joffrey.
-        Oh, querido,  voc, enfim! Como estou feliz!
Desceu correndo a escada, e ele a recebeu nos braos.
Sentada a seus ps em um coxim, aconchegava-se a ele. Quando saram os criados, ela pediu impaciente:
-        Agora conte!
 - Correu tudo muito bem - disse Joffrey mordendo umas uvas. - A cidade portou-se  altura. Mas, sem jactancia, creio que a recepo da Gaia Cincia foi superior 
ao resto. Consegui trazer a tempo de Lyon um tcnico de maquinaria que nos organizou uma festa belssima.
- E o rei? E o rei?
 - O rei  um belo rapaz que parece apreciar as homenagens que lhe prestam. Tem o rosto cheio, olhos pardos e ternos e muita majestade. Creio que tem o corao ferido. 
A pequena Mancini abriu nele uma chaga que no quer cicatrizar, mas, como faz uma idia elevada do seu ofcio de rei, inclina-se perante a razo de Estado. Vi a 
rainha-me, bonita, triste e com uma discrio um tanto afetada. Vi tambm a Grande Mademoiselle e o Petit Monsieur disputarem por questes de etiqueta. Que mais 
posso dizer-lhe? Muitos belos nomes e muitas caras feias! Em verdade, nada me regozijou mais do que voltar a encontrar o pequeno Pguilin, j sabeis, o Cavaleiro 
de Lauzun, sobrinho do Duque de Gramont, governador do Barn. Tive-o como pequeno pajem em Toulouse antes que ele fosse para Paris. Ainda o vejo com sua cara de 
gato, no tempo em que encarreguei a Sra. de Vrant de fazer dele um homem.
- Joffrey!
 - Mas ele cumpriu suas promessas e ps em prtica os ensinamentos de nossas cortes de amor. Porque pude comprovar que ele era a coqueluche de todas aquelas damas. 
E seu esprito gran-jeou a amizade do rei, que no pode dispensar suas bufonarias.
 - E o rei? Fale-me do rei! Manifestou-lhe sua satisfao pelo modo como o recebeu?
 - Com muita graa. E vrias vezes lamentou sua ausncia. O rei ficou satisfeito... muitssimo satisfeito.
- Por que diz "muitssimo" satisfeito com seu sorriso mordaz?
 - Porque vieram contar-me o seguinte: quando o rei voltava para o seu coche, um corteso observou-lhe que nossa festa competia em esplendor com as de Fouquet. Sua 
Majestade respondeu-lhe: "Sim, com efeito, e estou pensando se j no ser tempo de fazer essa gente vomitar". A boa rainha lanou uma exclamao:'' Que idia, meu 
filho, aps uma festa promovida para agradar-lhe!" "Estou cansado", respondeu o rei, "de ver os meus sditos esmagarem-me com a sua ostentao."
 - Essa agora! Que rapaz invejoso! - exclamou Anglica, irritada. - Custa-me acreditar. Tem certeza de que pronunciou tais palavras?
 - Quem me contou foi meu fiel Afonso, que estava segurando a portinhola.
 - O rei no pode ter por si mesmo sentimentos to mesquinhos. Foram seus cortesaos que lhe envenenaram o esprito e o puseram contra ns. Est bem certo de no 
ter sido insolente para com algum deles?
 - Fui todo acar e mel, asseguro-lhe. Dispensei-lhes as maiores consideraes possveis. At deixei uma bolsa cheia de ouro no quarto de cada um dos senhores que 
se alojaram no castelo. E juro-lhe que nenhum deles se esqueceu de lev-la.
 - Voc os lisonjeia, mas tambm os despreza, e eles sentem isso - disse Anglica, sacudindo a cabea, pensativa.
 Ergueu-se e sentou-se nos joelhos de seu marido. L fora continuava a tempestade.
 - Cada vei que ouo o nome de Fouquet, eu estremeo - murmurou Anglica. - Vejo aquele cofrezinho de veneno que me sara do pensamento h tantos anos e  agora 
para mim uma obsesso.
 - Est muito nervosa, meu bem! Ser que daqui em diante vou ter uma esposa que se sobressalta com a mais leve brisa?
 - Preciso lembrar-me de uma coisa - gemeu a jovem, cerrando os olhos.
 Esfregou a face na densa cabeleira do marido, perfumada de violeta e ainda encrespada pela chuva.
 - Se voc pudesse ajudar-me a record-la... Mas  impossvel. Bastaria que eu pudesse lembrar-me para saber de onde vem o perigo...
- No h perigo, minha bela. O nascimento de Florimond a abalou.
 - Vejo o quarto... - continuou Anglica com os olhos fechados. - O Prncipe de Conde pulou do leito porque bateram  porta... Mas eu no tinha ouvido bater. O prncipe 
vestiu seu chambre e gritou: "Estou com a Duquesa de Beaufort..." Mas no fundo da alcova o criado abriu a porta e introduziu o monge encapuzado... Esse monge se 
chamava Exili...
 Interrompeu-se e de sbito olhou para a frente com uma fixi-dez que assustou o conde.
- Anglica! - exclamou.
 - Agora me lembro - disse com voz surda. - Joffrey, eu me lembro... O criado do Prncipe de Conde era... Clemente Tonnel.
 - Est louca, querida - disse Joffrey, rindo. - Durante tanto tempo esse homem esteve a nosso servio e s agora voc percebe essa semelhana?
 - Apenas o entrevi rapidamente na penumbra. Mas aquele rosto bexiguento, aquelas maneiras astutas... Sim, Joffrey, agora tenho certeza, era ele.  por isso que, 
durante o tempo que esteve em Toulouse, nunca pude olh-lo sem desagrado. Recorda-se de que um dia voc disse: "O espio mais perigoso  aquele de quem no se suspeita"? 
Voc j havia comeado a sentir que ele rondava a nossa casa. O espio desconhecido era ele.
 -  muito romantismo para uma mulher a quem interessam as cincias.
Acariciou-lhe a fronte.
-        No estar um pouco febril?
Anglica sacudiu a cabea.
 - No zombe. Atormenta-me a idia de que esse homem me espreita h anos. Por conta de quem? Do Sr. de Conde? De Fouquet?
- Voc nunca falou a ningum desse assunto?
- A voc... uma vez, e ele nos ouviu.
 - Tudo isso  to velho... Tranqilize-sej meu tesouro. Creio que voc anda imaginando coisas...
 No entanto, alguns meses mais tarde, quando acabava de desma-mar Florimond, seu marido lhe disse certa manh com ar descuidado:
 -        No gostaria de obrig-la, mas ser-me-ia agradvel saber que todas as manhs voc toma isto ao desjejum.
Abriu a mo, e Anglica viu brilhar nela uma pastilhazinha branca.
- Que  isso?
- Veneno... Em dose nfima.
Anglica o encarou.
- Que voc teme, Joffrey?
 - Nada. Mas  um hbito que sempre tive. O corpo se acostuma pouco a pouco ao veneno.
- Pensa que algum pode procurar envenenar-me?
 - No penso nada, querida... Simplesmente, no creio no poder do chifre de licorne.
 No seguinte ms de maio, o conde de Peyrac e sua mulher foram convidados para as bodas reais. Deviam celebrar-se em Saint-Jean-de-Luz, s margens do Bidassoa. O 
Rei Filipe IV da Espanha traria ele prprio sua filha, a infanta Maria Teresa, ao jovem Rei Lus XIV. A paz se havia firmado... ou quase. A nobreza francesa, enchendo 
os caminhos, dirigia-se  pequenina cidade basca.
 Joffrey e Anglica deixaram Toulouse de manh bem cedo, antes das horas de calor. Naturalmente, Florimond fazia parte da comitiva, com sua ama-de-leite, sua embaladeira 
e o pretinho que estava encarregado de faz-lo rir. Era um beb cheio de sade, embora no muito robusto, com um lindo semblante de Menino Jesus espanhol: pupilas 
e cachos negros.
 A indispensvel Margarida vigiava em um dos carros o guarda-roupa de sua senhora. Kuassi-Ba, para quem se haviam feito trs libres, cada qual mais deslumbrante, 
assumia ares de gro-vizir, sobre um cavalo to negro como a sua pele. Havia ainda Afonso, o espio do arcebispo, sempre fiel, quatro msicos, entre eles um menino 
violinista, Giovanni, a quem Anglica tinha afeio, e um tal Francisco Binet, barbeiro e cabeleireiro, sem o qual Joffrey de Peyrac nunca viajava. Criados, servilhetas 
e lacaios completavam a equipagem, a qual precediam as de Andijos e Cerbalaud.
 Absorvida na preocupao da viagem, muito excitada, Anglica quase no notou que havia deixado para trs os arrabaldes de Toulouse.
 Quando o coche atravessava uma ponte sobre o Garonne, soltou um pequeno grito e encostou o nariz na vidraa.
-        Que lhe est havendo, querida? - perguntou Joffrey de Peyrac.
-        Quero ver Toulouse uma vez mais - respondeu Anglica.
Contemplava a cidade rosa estendida s margens do rio, com as altas agulhas de suas igrejas e a rigidez de suas torres. Uma sbita angstia apertou-lhe o corao.
-        C Toulouse! - murmurou. - O Palcio da Gaia Cincia!
Tinha o pressentimento de que nunca mais os tornaria a ver.

 FIM
  As mulheres so dotadas de uma intuio que s vezes lhes d um extraordinrio poder de prever os acontecimentos futuros. Anglica, ao deixar Toulouse e o Palcio 
da Gaia Cincia, acompanhando o marido, o Conde Joffrey de Peyrac, para assistir s bodas de Lus XIV, no sem razo teve o sbito pressentimento de que algo terrvel 
estava para acontecer.
  No era para menos que a doce e sagaz Marquesa dos Anjos intua sobressaltos em seu destino. Depois de uma infncia cercada depressgios assustadores na provncia, 
fora arrancada de uma vida pacfica para assumir um casamento marcado pelo medo e o preconceito. Mesmo o impressionante marido, a quem aprendera a amar, atraa o 
cime do soberano por sua riqueza e inspirava o dio e a suspeita da Santa Inquisio.
  Suas aventuras prosseguem em ritmo mirabolante. No prximo volume, O Suplcio de Anglica, veremos que ela no se enganava ao supor uma completa reviravolta em 
sua vida sempre cheia de surpresas.
ANNE E SERGE GOLON
 
OS AUTORES:
ANNE E SERGE GOLON
 Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS] em 1903 e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (Fiana), em 1928. onheceiam-se e casaram-se na frica, para onde Arme, 
com o dinheiro de um prmio literrio, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na poca: formado em geologia, mineralogia e qumica, cruzara o misterioso 
continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atrada por sua fama, Anne resolveu entrevist-lo.
 De volta  Frana, em 1952, j casados, tiveram a idia de escrever uma novela histrica ambientada no sculo XVII: Serge colhendo as informaes no Arquivo de 
Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado j na infncia.
  O sucesso de Anglica, Marquesa dos Anjos, lanado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vrios idiomas 
e transpostos para o cinema, fizeram da herona uma das personagens mais famosas do mundo.
 



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